Com Pacote do Veneno aprovado na Câmara, entidades do agronegócio começam suas tentativas de dourar a pílula envenenada

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O portal especializado “Agrolink” publicou nesta segunda-feira um artigo onde traz, de forma esperada, o apoio entusiasmado de entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador à aprovação do fatídico “Pacote do Veneno” pela Câmara de Deputados. Que os representantes do agronegócio iriam apoiar a aprovação do Pacote do Veneno não é nenhuma surpresa, mas é preciso prestar atenção nos chamados “selling points” (argumentos pró-aceitação) que as notas da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja/MT) , da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (FAEMG)  e da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato)  trazem sobre a aprovação da ampla desregulamentação imposta pelo Pacote do Veneno à produção e comercialização de agrotóxicos no Brasil.

De sua parte, a Aprosoja/MT afirma que “com esta aprovação, o brasileiro terá alimentos mais baratos, seguros e saudáveis em sua mesa”, diz um trecho. Também destaca que “outro ganho muito expressivo para os produtores rurais, e que está em linha com a missão da entidade de promover a agricultura sustentável, é a emenda do deputado federal Neri Geller, que define de forma segura a produção de bioinsumos dentro das propriedades rurais, motivo pelo qual agradecemos pelo seu empenho“. 

A verdade é que a aprovação do Pacote do Veneno não causará barateamento e, tampouco, trará alimentos mais seguros e saudáveis à mesa do brasileiro.  A primeira questão é que algo em torno de 70% dos agrotóxicos usados no Brasil são aplicados nas monoculturas de exportação, as quais vêm reduzindo a área destinada à produção de alimentos consumidos pelos brasileiros. De tal forma que o aumento exponencial da área plantada com a monocultura da soja vem sendo acompanhado pela diminuição daquela destinada à produção de feijão, por exemplo. Além disso, a autorização de agrotóxicos altamente perigosos, inclusive aqueles que podem causar câncer, vai aumentar exponencialmente a chance de contaminação direta ou indireta via o contato ou ingestão de agrotóxicos.

Há ainda que se dizer que a monocultura da soja vem impondo uma ampla devastação dos biomas amazônicas e do Cerrado, com a intrusão em áreas de florestas públicas e terras indígenas. Daí que qualquer menção a uma agricultura sustentável por parte dos barões da soja não passa de propaganda enganosa que visa causar desinformação acerca do caráter amplamente insustentável das práticas executadas pelo latifúndio agro-exportador.

Já a FAEMG afirma que o aprovação do Pacote representaria “o avanço da tecnologia e da ciência em prol dos produtores de alimentos. Não queremos aumentar a gama de defensivos, mas precisamos usar os mais modernos, com moléculas mais avançadas, menos tóxicas e que representam menos danos para plantas, para o meio ambiente e para os seres humanos. Os medicamentos usados na década de 1970 não são os mais recomendados nos dias de hoje. No agro, também é assim e estes novos defensivos representam melhorias para o sistema produtivo brasileiro, que já é um dos mais eficientes. Essas tecnologias mais avançadas e mais acessíveis são necessárias, para também seguirmos obtendo os melhores resultados

Aqui há que se notar que a tsunami de venenos executada pelo governo Bolsonaro não trouxe qualquer modernização em termos dos agrotóxicos disponíveis no mercado brasileiro de venenos agrícolas.  Aliás, muito pelo contrário, já que foram emitidos novas autorizações para produtos já vendidos no Brasil, mas que estão banidos há quase duas décadas na União Europeia, como é o caso da atrazina. Há ainda que se lembrar que latifúndio agro-exportador tenta por todos meios remover a proibição imposta ao herbicida Paraquat, banido até pela China, a despeito de todo o conhecimento científico estabelecido acerca da alta periculosidade deste produto.  O fato é que não há qualquer compromisso por parte do latifúndio com tecnologias mais avançadas e acessíveis, mas apenas a ânsia de usar mais agrotóxicos para viabilizar sistemas de produção que estão alicerçados em uma lógica homogeneizadora e destrutiva dos sistemas naturais.

Já a Famato afirmou que “precisamos acompanhar os avanços científicos e a evolução dos marcos regulatórios de países como os Estados Unidos, Canadá, Austrália e União Europeia que já possuem leis adequadas às necessidades da agricultura moderna e expectativas do consumidor”. A inclusão da União Europeia no grupo de países que realizaram avanços científicos e evoluíram seus marcos regulatórios beira a piada de mau gosto. É que se olharmos os caminhos adotados no Brasil via a aprovação do Pacote do Veneno e compará-los com o que está fazendo a União Europeia, muito sob pressão de partidos de esquerda e ecológicos, veremos que a reação no Parlamento Europeu foi a pior possível. Aliás, se havia algo que faltava para dificultar a chancela final do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, esta lacuna foi preenchida com a aprovação do Pacote do Veneno, tamanha foi a repercussão negativa que isso causou.

Dourar a pílula é o que motiva as entidades do latifúndio agro-exportador

Mas se o seu posicionamento da Aprosoja/MT, da FAEMG e da Famato é assim tão frágil, por que se dão ao trabalho de emitir suas notas?  O alvo óbvio é o público interno que será aquele que sofrerá as consequências danosas do aumento indiscriminado no uso de venenos potentes que a aprovação do Pacote do Veneno irá causar. 

O que temos diante de nós é apenas o início de mais uma campanha para ocultar que o agro não é tech, mas é tóxico. Isso ainda fica ainda mais claro com a mudança de denominação que foi aprovado, saindo de agrotóxico para “pesticida” ou ainda “produtos de controle ambiental”.  Os ideólogos do latifúndio com isso tenta ocultar a natureza desses venenos agrícolas que já são responsáveis por uma taxa ainda subestimada de doenças crônicas e episódios agudos de envenenamento no Brasil.

O interessante é que a real natureza do Pacote do Veneno fica óbvia no próprio texto do “Agrolink” quando é mencionado que “acaba ainda, em relação à lei vigente, a limitação de se registrar apenas produto novo, com ação tóxica sobre o ser humano e o meio ambiente, que seja comprovadamente igual ou menor do que a daqueles já registrados para o mesmo fim.

Por essas e outras é que não se pode considerar encerrada a disputa contra o Pacote do Veneno que agora irá para análise do Senado Federal. É que a herança tóxica do que foi aprovado pela Câmara de Deputados é grave demais para ser deixada para lá. Afinal, não nada que possa dourar essa pílula cheia de veneno.

A lógica perversa do microcrédito: faça de todos um capitalista

Microcrédito pode ajudar pessoas físicas, mas segue a lógica do mercado liberal

seedsOs empréstimos para sementes são o principal exemplo de microcrédito. Foto: Pixabay

Por Philip Bles para o Neues Deutschland

Histórias de sucesso como as do livro-texto do liberalismo de mercado: As pessoas pobres que foram deixadas para trás no Sul Global nem sequer têm meios para obter as sementes para a próxima temporada. Mas um banco é misericordioso. Ela ajuda com um pequeno empréstimo. A família toda trabalha muito e depois da colheita ela pode pagar o empréstimo – e ainda ter um pouco a mais. O trabalho duro compensa.

Na verdade, é isso, toda a ideia por trás dos chamados microcréditos, que são vendidos em todo o mundo como ajuda privada ao desenvolvimento há quase 50 anos. Em 2006 eles – mais precisamente: o banco que os popularizou e seus diretores-gerentes – receberam até o Prêmio Nobel da Paz. Agricultores de pequena escala que desejam investir em sementes e equipamentos, mercearias em geral que desejam comprar novos produtos ou um pequeno armazém, todos podem emprestar pequenas quantias de dinheiro a bancos ou ONGs para fazer esses investimentos.

Alguns provedores especificam mais, outros menos requisitos. O Grameen Bank, que recebeu um prêmio do parlamento norueguês, depende da pressão dos pares. Várias pessoas têm que unir forças para conseguir um empréstimo. Isso aumenta o controle social e a vigilância mútua. O banco está em contato próximo com os devedores durante o empréstimo e os aconselha. Ao longo do tempo, também houve uma atribuição preferencial às mulheres. Em 2007, por exemplo, elas representavam cerca de 97% dos mutuários.   É que as mulheres devolvem o dinheiro de forma mais confiável e, portanto, são promovidos adicionalmente.

Acima de tudo, os atores desonestos do mercado de microcrédito têm sido criticados. Muhammad Yunus, economista e fundador do Grameen Bank, criticou outros bancos por altas taxas de juros e mau serviço. Essas ovelhas negras do microcrédito são atraídas pelo retorno e não pela ideia desenvolvimentista da opção de financiamento. Inúmeros documentários em emissoras públicas ou na Internet mostram exemplos e tristes vítimas que agora estão presas na armadilha da dívida.

Bom banco, mau banco – essa distinção pode ser mantida? Para isso, é preciso considerar qual é a finalidade econômica do crédito em geral. Eles superam as restrições orçamentárias, permitindo um investimento que provavelmente trará dinheiro que ainda não está disponível. Em um sistema financeiro bem desenvolvido, mesmo sem capital próprio, você pode obter os meios para comprar meios de produção – tudo que você precisa é de uma boa ideia que você possa vender com segurança.

Modelos de negócios simples de contabilidade de investimentos pressupõem um mercado perfeito. Uma empresa pode emprestar ao infinito e, assim, gerar mais fluxo de caixa. Uma vez que as pessoas físicas e jurídicas agem racionalmente no entendimento liberal de mercado, elas sabem quais transações e empréstimos fazem sentido, ou seja, são rentáveis. Ou o contrário: se uma empresa fizer um empréstimo absurdamente alto, ela terá lucro – caso contrário, os capitalistas não o fariam. O mercado regula o que está acontecendo através do preço.

Na realidade, o crédito permite que as restrições sejam estendidas, mas os limites não são totalmente abolidos. As preferências temporais são muito grandes, os atores – incluindo os bancos – não são neutros ao risco. E, teoricamente, também, a suposição de mercados perfeitos é principalmente rejeitada: informações incompletas levam à desconfiança e tornam necessários mecanismos de controle. Há muitos exemplos de impostores que montam uma empresa, mentem para investidores e ainda ganham dinheiro.

No entanto, o crédito permite que os players do mercado façam maiores investimentos e, portanto, maior crescimento e lucros. Eles espalham o risco por várias pessoas e, assim, ajudam a minimizá-lo. Até a gigante dos smartphones Apple prefere emprestar fundos para construir uma nova sede corporativa do que financiá-la com suas vastas reservas de caixa. Se o projeto de construção se tornar o próximo aeroporto de Berlim, o grupo não ficará sozinho com os custos. Ao mesmo tempo, como um player global confiável, a Apple pode emprestar dinheiro a taxas de juros muito baixas. O risco para os bancos de perdê-lo é pequeno.

É diferente para os pequenos agricultores indianos. Sua credibilidade é questionável. O banco assume um risco significativo ao emprestar dinheiro. As falhas de colheita são mais comuns no Sul Global, que é atormentado pelas mudanças climáticas, tecnologias complexas para aumentar as colheitas não são difundidas e os campos são bastante pequenos. O mercado supostamente neutro, que só olha para as oportunidades de lucro, talvez não seja tão cego quanto à cor da pele, origem e classe afinal.

É aí que entram os institutos de microcrédito. Seu primeiro passo, confiar em pequenos empresários autônomos e abrir opções de financiamento para eles, é definitivamente uma medida que promove a igualdade – em um cenário liberal de mercado: finalmente, os pobres podem jogar um pouco de capitalismo. Mas essa ironia provavelmente não é exata: para alguns, o microcrédito certamente era o caminho para uma vida melhor. Com bons conselhos e condições adequadas, alguns investimentos acabaram por ser um sucesso para ambas as partes. Há muito que os bancos cooperativos operam com sucesso esta ajuda para auto-ajuda como o núcleo do seu negócio.

Por outro lado, há massas de pequenos empresários e autônomos cujo microcrédito acaba na armadilha da dívida. Até o FAZ declarou em 2011 que os empréstimos não eram mais uma “bala de prata”. Os mutuários se queimam até a morte repetidas vezes porque não veem saída para a dívida. Enquanto isso, os agiotas cobram até 120% de juros.

Aí está novamente: a distinção entre boas e más instituições de crédito. Nas gradações é preciso concordar com ela. Taxas de juros exorbitantes e outras dependências não resultam em nenhum sucesso de desenvolvimento. Mas o ajuste orientado para o mercado, que também é promovido pelo “bom” microcrédito, impulsiona ainda mais a apropriação de terras capitalista. O pequeno agricultor que encomenda mais fertilizantes lixivia o solo, a outra fábrica a crédito destrói florestas e aldeias. O crescimento é essencial na luta contra a pobreza, mas os erros que já começaram no Ocidente capitalista não devem se repetir sob novos auspícios no Sul Global.

Isso aponta para um problema mais fundamental: Marx descreve no terceiro volume do “Capital” que o sistema de crédito, juntamente com sua relação entre credores e devedores, surge da simples circulação de mercadorias. Os empréstimos mútuos e as obrigações resultantes elevam a produção de commodities a um novo nível. O crédito encurta a fase de circulação do dinheiro até que ele se torne novamente uma mercadoria. Os microcréditos aceleram ainda mais esse processo. As relações de capital continuam a penetrar em todas as áreas da sociedade. A produção infinita de bens não é o que os mais pobres do Sul Global precisam. Você só quer fazer face às despesas.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Chuva de veneno se intensifica nos territórios do Cerrado

Recorde na liberação de agrotóxicos nos últimos anos acompanha incidência de flexibilizações ambientais, escalada de conflitos no campo e afeta comunidades inteiras no Cerrado

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Por Amanda Costa, Andressa Zumpano e Bruno Santiago para o Le Monde Diplomatique

A 890 quilômetros de Teresina, adentrando o interior piauiense, Jovecino e Almerinda labutam para manter uma pequena produção de alimentos para o seu sustento. A dificuldade é percebida no preto das folhas do pé de laranja. Incomum. Oleoso. Grudento. O mesmo preto se estende por todo o teto da casa de adobe em que vivem na comunidade Chupé, município de Santa Filomena, Alto Parnaíba. Ali, o veneno, despejado nas imensidões de monocultivos no alto das serras, descem para os baixões e colocam em risco as plantações, os solos, as águas e, sobretudo, a vida das pessoas.

Naquele território, ao olhar para o céu, a volumosa e rica paisagem do Cerrado deu lugar a vazios angustiantes. Vazios esses preenchidos apenas pelo rastro de aviões pulverizadores de agrotóxicos em épocas de plantio. T-o-d-o-s os dias. “Até colher eles passam veneno todo dia. Quando planta soja é veneno todo dia”. A água que jorra da garrafa e garante vida à horta da família já não é segura. A lagoa de águas claras e esverdeadas corre o risco de se tornar imprópria. Os corpos, já desgastados, sentem na pele as marcas de doenças que antes, pra eles, não existiam.

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Dona Almerinda regando a horta da família (Crédito: Andressa Zumpano – CPT)

O contexto da contaminação de comunidades inteiras por agrotóxicos no Cerrado se acentua a cada ano, e nos últimos anos tem se evidenciado pela liberação indiscriminada de mais rótulos de pesticidas. Só em 2021, 562 novos produtos foram liberados pelo presidente Jair Bolsonaro, o maior número registrado em 21 anos, segundo a série histórica feita pelo Ministério da Agricultura. A publicação no Diário Oficial da União foi realizada no findar de dezembro e os números já somam 1.552 produtos venenosos liberados só nos três anos de mandato do presidente, quase metade (43%) do total de 3.550 produtos comercializados no país, segundo o levantamento da Agência Pública e da Repórter Brasil.

Neste ano recorde, dos produtos que entraram em comercialização no país, 33 são inéditos e 8 possuem princípios ativos químicos novos, exclusivos de uso industrial para a fabricação de pesticidas. Alguns destes produtos não possuem liberação na Europa ou Estados Unidos, como o fungicida Fenpropimorfe, considerado muito perigoso para o meio ambiente e altamente tóxico para organismos aquáticos. Seu uso é recomendado para lavouras de soja e algodão e sua toxicidade em humanos ainda é desconhecida.

Ao mesmo tempo em que a utilização de agrotóxicos é ampliada e incentivada no país, cresce a devastação ambiental do Cerrado. Foi também nas últimas horas de 2021, em uma tentativa de não causar alarde, que os dados sobre o desmatamento do bioma foram publicados pelo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e revelaram um cenário alarmante. Entre o período de agosto de 2020 e julho de 2021, o Cerrado brasileiro, considerando suas áreas de transição, perdeu 8.531 km² de vegetação nativa. O número representa um aumento de 7,9% em relação aos dados de 2020 e é a maior taxa desde 2015.

De acordo com a nota do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), as taxas mais expressivas de desmatamento se concentraram em três dos quatro estados que compõem a maior região de especulação imobiliária agrícola e expansão do agronegócio do Brasil, o Matopiba, sendo eles Maranhão, Tocantins e Bahia. A partir de análise realizada pelo  Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), a região bateu o recorde de desmatamento desde 2017, respondendo por mais da metade (61,3%) do total da vegetação do Cerrado suprimida no período, ou seja, 5.227,32 km² dos 8.531 km² registrados.

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Avião pulverizando agrotóxico em monocultura (Crédito: Thomas Bauer – CPT) H3000.

Ainda segundo análise do órgão, a cidade de Balsas, localizada no Sul do Maranhão, ocupa o primeiro lugar da lista dos dez municípios onde houve a maior derrubada de vegetação. Quatro desses municípios estão situados apenas na Bahia e compõem a lista logo após a cidade maranhense – são eles: São Desidério (BA), Formosa do Rio Preto (BA), Jaborandi (BA) e Correntina (BA) -, respectivamente. O único município da relação fora do Matopiba é Santa Maria das Barreiras, no Pará.

A ocorrência acelerada do desmatamento, ligado a diversos processos consolidados pelo agronegócio no país, como a financeirização de terras – que transforma o Cerrado em uma região de interesse para grileiros -, se relaciona diretamente com normativas mais permissivas em relação ao uso de agrotóxicos. Neste contexto, as chapadas Cerradeiras são transformadas em lavouras de soja e milho, verdadeiros desertos entre plantios, e simultaneamente abrem espaço para a incidência de diversas violências contra populações camponesas, tradicionais e indígenas. E os agrotóxicos se consolidam como uma das principais armas nesse processo.

Desde 2008 a Comissão Pastoral da Terra (CPT) registra situações de conflitos envolvendo agrotóxicos nos territórios. Dados sistematizados de 2008 a 2020 revelam a ocorrência de 186 situações de conflitos no campo relacionados à contaminação pelas substâncias químicas.

Segundo análise elaborada pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado para compor uma denúncia preparada ao Tribunal Permanente em Defesa dos Povos do Cerrado [1], deste número, 47,31% ocorreram no Cerrado e em suas áreas de transição, estas consideradas a partir das definições do Laboratório de Estudos de Movimento Sociais e Territorialidades (Lemto) da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Ainda de acordo com os dados da CPT ao longo deste período, a denúncia da Campanha ao TPP aponta que, entre 2008 e 2018 os conflitos no campo envolvendo agrotóxicos triplicaram, com um pico em 2013 (20 casos). Os anos de 2019 e 2020 – os dois primeiros do mandato de Jair Bolsonaro – somam juntos 55 ocorrências, e representam recordes históricos de conflitos com agrotóxicos, sendo quatro vezes maior do que em 2008 (6 casos).

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O Tribunal Permanente em Defesa dos Povos do Cerrado (TPP), uma tribuna de visibilidade e de afirmação dos direitos dos povos expostos a violações graves e sistemáticas no campo brasileiro, conduzida desde o ano passado pela Campanha Nacional Em Defesa do Cerrado, evidencia que “o desmatamento e a grilagem de terras, a expulsão dos povos, a seca dos rios e a contaminação das águas” configuram um crime de ecocídio e genocídio contra as populações do campo.

A peça de acusação apresentada pelo Tribunal expõe que “a expansão devastadora e violenta da fronteira agrícola sobre o Cerrado tem contado com algumas ‘armas’ concretas: o correntão, os incêndios criminosos, as cercas sobre terras de uso comum, os agrotóxicos, as sementes transgênicas, os pivôs centrais e grupos de segurança pública e privada”. Retoma, ainda, a problemática da política de controle e monitoramento do uso de agrotóxicos, que está sendo sistematicamente desestruturada.

Pacote de veneno avança

Os recordes de liberação de defensivos e o alarmante número em comercialização no país são características do atual projeto político. As políticas agrícolas estabelecidas por parte do Estado possuem apoio significativo no financiamento da expansão do agronegócio e consequentemente exercem papel fundamental no aumento do consumo de agrotóxicos. Nesse sentido, uma publicação da campanha Agro É Fogo destaca que as recentes iniciativas por parte do Estado brasileiro, as quais visam a ampliação do financiamento via títulos financeiros, a expansão do crédito público e a redução dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, também procuram reduzir a regulação de agrotóxicos.

Nesta cadeia, é o Estado o ator responsável pelas flexibilizações de políticas ambientais vigentes e pelo desmonte das instituições de fiscalização como Ibama e Anvisa. No dia 8 de outubro de 2021, o presidente Jair Bolsonaro alterou a Lei dos Agrotóxicos, em vigor desde 1989. O Decreto Nº 10.833 publicado no Diário Oficial da União traz, entre as séries de mudanças, a inserção do Ministério da Agricultura em mais processos referentes a fiscalização, regulamentação e uso de pesticidas.

Com essa alteração, cria-se uma categoria chamada “tramitação prioritária”, na qual o Ministério da Agricultura definirá a ordem de registro de novos produtos. O texto também destaca atuação em protocolo antes destinado apenas ao Ministério da Saúde, por meio da Anvisa, o parecer sobre o monitoramento de resíduos de agrotóxicos em produtos de origem animal e vegetal.

Segundo a engenheira agrônoma Fran Paula, educadora da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) no Mato Grosso e pesquisadora sobre impactos dos agrotóxicos, a flexibilização do registro de agrotóxicos e as aprovações dessas substâncias no Brasil tem sido a marca do governo Bolsonaro, que tem batido recorde de liberações. O decreto nada mais é do que uma estratégia dos setores ruralistas e da indústria química para legitimar o ‘Pacote do Veneno’ que está ancorado no PL 6299/2002 “. A pesquisadora reforça que a alteração da Lei de Agrotóxicos viola os direitos fundamentais, pois possibilita o registro de mais substâncias cancerígenas, mutagênicas, teratogênicas, que causam distúrbios hormonais e que tem um alto potencial de adoecimento na população”.

As mudanças têm como objetivo apressar a regulamentação de novos produtos, atendendo aos interesses econômicos do agronegócio no país. Por exemplo, a insistente tentativa na aprovação do PL 6299/02, conhecido como “Pacote do Veneno”, que entrou em votação na Câmara dos Deputados durante o último dia legislativo de 2021, sendo retirado de pauta após pressão dos movimentos sociais e organizações socioambientais. A promessa do presidente da Câmara e aliado de Bolsonaro, Arthur Lira (PP-AL), foi a de votar o projeto já no início deste ano, a qualquer momento. “Os ruralistas estão pressionando para a votação do “PL do Veneno”, de cara, já no início do ano legislativo de 2022. O projeto que já está sendo pautado na Câmara dos Deputados, representa um retrocesso e maior exposição e riscos à saúde humana”, alerta Fran.

Entre as principais armadilhas do projeto de lei estão a flexibilização do marco regulatório de agrotóxicos e a redução da proteção ao meio ambiente e à saúde, permitindo, agora, a liberação de pesticidas que causam doenças como o câncer, mutação genética e má formação fetal.

Caso Chupé

O território ribeirinho de Chupé, constituído pelas comunidades Barra da Lagoa e Chupé, finca raízes às margens do Riozinho, afluente do Rio Parnaíba, no município de Santa Filomena (PI). São cerca de 20 famílias ribeirinhas que ocupam tradicionalmente as terras, vivendo da subsistência do Cerrado, da pesca e da agricultura familiar. Em fevereiro de 2020, os moradores do território identificaram resíduos de cor avermelhada e espumoso em uma das fontes de água das comunidades. Segundo os moradores, seria contaminação pelo agrotóxico 2,4-D, amplamente utilizado nas lavouras da região.

chuva 4Seu Jovecino se banha no Rio Uruçuí Preto (Crédito: Andresa Zumpano – CPT)

O 2,4-D, um dos agrotóxicos mais utilizados no país, ficando atrás apenas do glifosato, teve sua aplicação banida em diversos países como Austrália e Canadá e está desde 2006 em processo de reavaliação pela Anvisa. A contaminação pelo fungicida tem graves efeitos ao corpo humano, sendo classificado como possivelmente cancerígeno, além de estar relacionado a patologias hormonais e reprodutivas.

Organizações socioambientais cobram a proibição do uso desta substância no país. Em nota, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos considera a decisão de manter o registro do pesticida irresponsável e que a mesma “foi influenciada pelo agronegócio, em especial pelas transnacionais agroquímicas que são as maiores interessadas em seguir obtendo lucros com a venda deste veneno.

O agrotóxico também possui riscos durante sua utilização devido a ocorrência de deriva, quando a aplicação não atinge corretamente o alvo e se espalha pelo solo e águas, contaminando a vegetação e os rios, como ocorre no Território de Chupé. Jovecino Silva é um dos mais antigos moradores da comunidade Chupé, vive da agricultura de subsistência e criação de animais e tem sua vida e produções diretamente impactadas pelo uso excessivo de venenos nas lavouras próximas à sua residência, principalmente, via pulverização aérea.

“Minhas plantas estão com sinal de veneno, as laranjas estão ficando com as folhas pretas, tipo um ‘grude’. Tô vendo até nas telhas da casa, estão com um sujo tipo uma poeira com óleo, até dentro de casa. Isso nunca tinha acontecido antes…Eles passam jogando de avião por cima de casa, tanto vindo dos municípios de Santa Filomena, como de Baixa Grande”, relata Jovecino, que destaca os riscos de pulverização diária durante o período da safra de soja, que coincide com as chuvas.

Moradores do território também relatam que o principal fazendeiro da região, João Augusto Philippsen, proprietário da fazenda J.A.P,  utiliza a aplicação de veneno também como uma tentativa de expulsão das comunidades do Território Chupé. Em nota publicada pela Comissão Pastoral da Terra – Regional Piauí, expondo o caso de contaminação das águas do Rio Riozinho, destaca-se a denúncia de intimidação por parte de João Philippsen. “O fazendeiro, disse às famílias que usou o agrotóxico para matar uma moita de mato existente dentro de sua propriedade e que elas deveriam sair dali e irem morar na cidade. Afirmou ainda que irá cercar toda a área de uso coletivo do território, área essa utilizada pelas famílias para criação de animais e plantio de legumes. É importante destacar que o brejo contaminado deságua no Rio Riozinho, que, além de ser utilizado pelas famílias do território, é um dos afluentes do Rio Parnaíba, importante fonte hídrica do Piauí e do Maranhão. Acompanhava o fazendeiro o senhor Vanderlei Pompeu de Matos, que se apresentava como advogado da fazenda, inclusive declarou para famílias que deveriam sair da ‘porta’ de João Augusto“.

A contaminação por agrotóxicos atravessa diversas comunidades da região sudoeste do Piauí, que desde 2017 denunciam coletivamente o envenenamento do Cerrado, baixões e rios. A estratégia para o enfrentamento dessas violências foi a criação de um coletivo de comunidades no ano de 2018, que reúne povos ribeirinhos e indígenas situados entre os municípios de Santa Filomena e Gilbués. “O coletivo vem fortalecer a lutas das comunidades, e mostrar ao Estado que nós existimos muito antes da soja chegar aqui, contou Jovecino, durante plenária de criação do coletivo.

Caso Guyraroka

A realidade do povo Guarani e Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, também é alarmante quando se trata das consequências do uso excessivo de agrotóxicos nas fazendas de monocultura que rodeiam os territórios tradicionais no estado. O território Guyraroka, situado no município de Caarapó (MS), possui 11 mil e 400 hectares de extensão de terras indígenas declaradas, porém, apenas 50 hectares são de fato ocupados pelos Guarani e Kaiowá. De acordo Matias Rempel, missionário do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) no Mato Grosso do Sul, todo o território é cercado por lavouras do agronegócio que fazem uso excessivo de agrotóxicos por meio de dispersão com o uso de tratores e pulverização aérea.

Em 2021, em razão de uma ação solidária do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), realizada por conta do impacto da pandemia do coronavírus na vida dos povos indígenas e camponeses, o povo Guarani e Kaiowá recebeu a doação de quatro toneladas de sementes crioulas – fundamentais para a manutenção da soberania alimentar e de seus modos de vida, sobretudo em tempos pandêmicos de fome e miséria.

Entretanto, o plantio destas sementes não vingou no território Guyraroka e acredita-se que o motivo esteja diretamente relacionado ao uso de agrotóxicos na região. “Nós tentamos plantar as sementes no Guyraroka, fazer um processo de cultivo agroecológico, mas nenhum dos plantios vingou. Acreditamos que esse problema com a terra esteja diretamente ligado com o uso de agrotóxicos nas lavouras em áreas do entorno e, também, por conta da presença de cupins e outros insetos que fogem das áreas de monocultivo contaminadas pelo veneno e se refugiam dentro da comunidade indígena, migrando para as plantações do povo Guarani e Kaiowá”, explica Matias.

Segundo lideranças do povo Guarani e Kaiowá, algumas famílias que vivem no território Guyraroka foram forçadas a se mudar por conta da dispersão de agrotóxicos. “Em alguns casos, o veneno era despejado a metros de distância das casas indígenas, localizadas próximas à cerca que divide o território tradicional das fazendas do agronegócio. Com isso o agrotóxico era também dispersado nos moradores do Guyraroka, sendo trazido pelo vento”, comenta o missionário do Cimi.

As famílias que vivem na terra indígena também denunciam que escolas e postos de saúde da área são impactados pela dispersão dos agrotóxicos, com relatos de crianças que foram atingidas durante o período de aula. Em setembro de 2019, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) emitiu ao estado brasileiro uma medida cautelar para a proteção da comunidade Guarani e Kaiowá, visando garantir o direito à vida e à integridade pessoal” dos e das indígenas, apontando que as famílias que vivem no território “se encontram em uma situação de gravidade e urgência.”

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Avião pulverizando agrotóxico na comunidade Guyraroka (Crédito Comunidade Guyraroka)

O Cimi e lideranças locais também denunciam a contaminação das águas do território, que acontece por conta do despejo de tambores com compostos químicos em um rio localizado próximo ao território – fonte que abastecia as famílias da terra indígena com água potável. Tito Guarani Kaiowá conta que em uma noite achou que estava chovendo em sua comunidade mas, quando olhou “para cima e estava o avião jogando agrotóxicos em nós, com o vento espalhando o veneno pelo ar”, denuncia o ancião.

Seu Tito, como é conhecido na região, conta que sente falta do canto dos pássaros em sua terra. Segundo a liderança indígena, houve uma diminuição drástica da presença de animais no território, fato que pode ser relacionado com o desmatamento associado ao monocultivo do agronegócio, mas também com a dispersão abusiva de agrotóxicos.

De acordo com o Cimi, o uso dos agrotóxicos como arma química é um elemento central do contexto sistemático de violências que o povo indígena Guarani Kaiowá sofre há décadas. “Ataques, queimas de Casa de Reza e ameaças à integridade física são frequentes na rotina dos e das indígenas. O uso excessivo de agrotóxicos na região sem dúvidas faz parte deste pacote de violações de direitos”, enfatiza Rempel. Neste momento, de acordo com informações do Cimi e de famílias do território, os indígenas estão desassistidos no campo da saúde, pois atualmente não há médicos para prestar atendimento na região. “O atendimento é muito precário e os problemas de saúde causados pelo veneno são recorrentes. Alguns dos sintomas mais comuns são as brotoejas, erupções e inflamações no corpo, além das dores de cabeça que são relatadas pelos moradores do Guyraroka”, finaliza.

Saúde coletiva

Os danos à saúde provocados por agrotóxicos não estão restritos aos povos indígenas e comunidades tradicionais do Cerrado. De acordo com informações da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), moradores de regiões rurais são os mais afetados pela intoxicação de pesticidas, mas nenhum grupo está isento. “Mesmo nos grandes centros urbanos, os consumidores também são afetados ao ingerirem água, frutas, verduras e até mesmo produtos industrializados”, enfatiza Ada Cristina Pontes Aguiar, professora na Faculdade de Medicina na Universidade Federal de Cariri, no Ceará, e pesquisadora da Abrasco.

Segundo relatório do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), da Anvisa, 232 tipos de pesticidas foram monitorados em 25 alimentos diferentes que são consumidos pelos brasileiros. Do total de 12 mil amostras analisadas, aproximadamente 20% possuíam resíduos “que excederam os níveis permitidos por lei ou apresentavam agrotóxicos não autorizados para a cultura em que foram identificados”.

Ainda de acordo com dados da Abrasco, problemas de saúde causados pela exposição ou ingestão de alimentos contaminados podem aparecer de 24 a 72 horas após o ocorrido, sendo os sintomas mais comuns a diarreia, febre, vômito, dores na cabeça e abdômen.

A pesquisadora também aponta para o risco que todos corremos por conta da ingestão cotidiana de pequenas doses destes compostos químicos por um longo período de tempo. “Depois de cinco a 20 anos, o paciente pode apresentar problemas neurológicos, câncer, doenças no fígado, desregulações endócrinas, malformações congênitas, puberdade precoce. Inclusive, estudos têm mostrado relações dos agrotóxicos com Parkinson, Alzheimer e síndrome metabólica, explica.

[1] A denúncia será apresentada na Audiência Temática de Sociobiodiversidade e Soberania Alimentar, nos dias 15 e 16 de março de 2022. Durante a sessão, seis casos representativos desses conflitos no Cerrado serão apresentados ao juri.

Leia também:  Agrotóxicos – Guerra química contra as comunidades

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Amanda Costa e Andressa Zumpano são jornalistas da Secretaria Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Bruno Santiago é assessor de comunicação da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo “Le Monde Diplomatique Brasil” [Aqui!].

Congresso brasileiro aprova polêmico “Pacote do Veneno”

Número recorde de agrotóxicos liberados ​​durante o mandato de Jair Bolsonaro. Substâncias cancerígenas permitidas. Autoridades sanitárias e ambientais desativadas

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Por Ulrike Bickel para o Amerika21

Brasília. A Câmara dos Deputados flexibilizou as condições para o uso de agrotóxicos no Brasil. Com 301 votos sim a 150 votos não, o parlamento brasileiro aprovou o pacote legislativo conhecido como “pacote do veneno”, apesar da rejeição popular aos venenos agrícolas . As novas regulamentações levam a um aumento na quantidade de agrotóxicos no país sul-americano e permitem a liberação de substâncias cancerígenas que são proibidas em outros países, reclama o Greenpeace .

Enquanto o Brasil se encontra no meio de uma crise de saúde sem precedentes, o Congresso Nacional dominado por latifundiários ruralistas está mostrando um profundo descaso com as pessoas e sua saúde, diz Marina Lacôrte, especialista em agricultura e alimentos do Greenpeace. A insistência no lucro e nos interesses do agronegócio continua devastando o país, levando a “doenças, desmatamento, violência e morte”.

O Greenpeace destaca quatro pontos críticos do “pacote do veneno”. Em primeiro lugar, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), pró-agronegócios, terá poderes para aprovar novos venenos agrícolas. Por outro lado, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e a Inspetoria Nacional de Saúde (Anvisa), responsáveis ​​pela proteção da saúde da população e da integridade do meio ambiente, estão perdendo seus poderes decisórios. Até agora, as duas autoridades fizeram parte do processo de avaliação e aprovação de pesticidas. Agora eles têm apenas um papel consultivo.

Em segundo lugar, o pacote legislativo permite a aprovação de ingredientes ativos comprovadamente cancerígenos. Atualmente, as substâncias químicas que causam sérios danos à saúde ou têm efeitos teratogênicos, cancerígenos ou mutagênicos ainda são completamente proibidas. O antigo regulamento proibia tais ingredientes ativos. A comprovação científica da nocividade foi suficiente.

Em terceiro lugar, a proposta de lei prevê uma autorização temporária sem avaliação ecológica e sanitária para os pesticidas que não sejam analisados ​​no prazo previsto na nova lei.

Quarto, o Greenpeace critica a lei por substituir o termo “agrotóxico” (veneno agrícola) por “pesticida” (veneno contra pestes). Segundo o Greenpeace, isso mascara sua toxicidade e nocividade e pode ter um papel no baixo nível de educação que prevalece no país.

Enquanto o interesse mais premente do Congresso é facilitar ainda mais o uso de agrotóxicos no campo, muitos brasileiros vivem um cenário de pandemia de COVID-19 e a volta da fome. Segundo as organizações da sociedade civil, esta deve ser a prioridade dos deputados. Mas de acordo com o Greenpeace, os representantes do povo estão demonstrando total irresponsabilidade para com a sociedade e a natureza.

Desde que o presidente Jair Bolsonaro assumiu, o governo lançou um recorde de 1.589 agrotóxicos A maioria deles são altamente ou extremamente tóxicos e não são permitidos na União Europeia. Só em 2021, foram aprovados 550 agrotóxicos, e atualmente existem 3.655 no Brasil.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo “Amerika21” [Aqui!].

Matéria do “Terceira Via” inicia bom debate para os esforços futuros para adequar a cidade às pressões criadas pelas mudanças climáticas

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Em uma matéria assinada por Ocinei Trindade o jornal “Terceira Via” traz uma importante contribuição para a reflexão para os futuros esforços para preparar a cidade de Campos dos Goytacazes para realizar os ajustes necessários para dotar sua infraestrutura urbana para responder aos eventos meteorológicos extremos que ficarão cada vez mais comum nestes tempos de mudanças climáticas (ver imagem abaixo).

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Como um dos “experts” citado na matéria, penso que os alertas que constam da matéria deveriam ser levadas mais a sério pelo prefeito Wladimir Garotinho que continua fazendo o que outros prefeitos já fizeram no passado quando grandes alagamentos, com medidas que se assemelham a enxugar gelo em com os pés dentro da água em alguma praia da região nordeste.

Em tempo: um primeiro caminho para sair da posição obsoleta que tem guiado as ações do governo municipal neste início de 2022 seria a recriação da secretaria municipal de Meio Ambiente que foi inexplicavelmente (se a análise for feita com bases nos interesses da sociedade como um todo e não de um pequeno segmento de negacionistas científicos e inimigos do ambiente) extinta por Wladimir Garotinho.

Estudo mostra que descumprimento da proteção da reserva legal no Cerrado está concentrado nos latifúndios

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A devastação do Cerrado pela expansão da monocultura da soja é um dos principais agravadoras da crise hídrica no Brasil

Uma das chamadas “mentiras favoritas” que figuras ligadas ao governo Bolsonaro (por exemplo o agrônomo Evaristo Miranda e a ministra da Agricultura Tereza Cristina (DEM/MS)) gostam de propalar é que há um grande compromisso por parte dos grandes proprietários rurais com o desenvolvimento sustentável da agricultura de exportação do Brasil. 

Pois bem, um estudo realizado por pesquisadores do Serviço Florestal Brasileiro e da Universidade de Brasília e que acaba de ser publicado pela revista “Caminhos da Geografia” sob o título “Regularidade Ambiental das Áreas de Reserva Legal do Cerrado Brasileiro” mostra que a banda não toca como propalam os aliados do latifúndio agro-exportador. 

É que a partir de um exaustivo levantamento de dados dados do Cadastro Ambiental Rural, obtidos diretamente no banco de dados do Sistema de Cadastro Ambiental Rural (SICAR),  que compreendiam as informações públicas dos cadastros de imóveis rurais registrados no sistema em 31 de dezembro de 2019 acerca da situação dos imóveis rurais sobre situação do cadastro, perímetro do imóvel rural, área do imóvel rural e área de Reserva Legal em quaisquer de suas modalidades (“proposta”, “averbada” e “aprovada e não averbada”). 

Os resultados encontrados pelo estudo apontam que o “balanço entre o déficit e o superávit de Reserva Legal dentre os imóveis que delimitaram Reserva Legal no CAR resulta em um déficit de 2.562.332,44ha, demonstrando que o mecanismo de compensação de Reserva Legal é insuficiente para solucionar todo o déficit identificado”. E mais explicitamente que o principais causadores deste déficit são as grandes propriedades rurais que, apesar de serem em menor percentual, controlam mais de metade da terra (ver figura abaixo).

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Bioma Cerrado(Brasil): Distribuição do número de imóveis (a) que cumpriram o percentual mínimo de RL, bem como a área da RL correspondente (b), entre as pequenas, médias e grandes propriedades e posses rurais, 2020

Um dado que elucida os limites da falácia governamental de que a legislação existente já garante o funcionamento de uma agricultura “sustentável” é o que aponta para a existência de  déficit de 2.562.332,44ha nas áreas delimitadas com reserva legal, fato esse que demonstra que esse mecanismo de compensação é insuficiente para solucionar todo o déficit identificado. Em outras palavras, de sustentável essa agricultura baseada na devastação do bioma do Cerrado que estamos vendo não tem nada.

A peste: pacote do veneno conduz o Brasil a importar até drogas que ninguém mais usa

Não há nenhuma boa vontade na liderança do país em considerar a ideia da contenção da destruição do planeta

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Por Ariovaldo Ramos | para a RBA

A Câmera dos Deputados aprovou o chamado “Pacote do Veneno”. Assim, conduz o Brasil a se tornar o maior importador de agrotóxicos do mundo. Importando, inclusive, drogas que ninguém mais usa, e cujas consequências são extremamente danosas. Tanto para o território onde o agrotóxico é utilizado e a vida ao seu redor como para o consumidor de tais produtos.

Ao mesmo tempo, saiu um documento do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês). Trata-se de uma organização internacional de cientistas, dedicada avaliar a situação climática e a questão da sustentabilidade no planeta. E esse documento sustenta que a atividade agrícola terá de envolver-se com a preservação do meio ambiente, caso queira continuar sua atividade.

Acontece, porém, que no Brasil a crença generalizada é a de que tudo se resolve com remédios alopatas. Só tivemos um problema na hora da vacinação contra a covid-19, por causa do negacionismo incutido pelo presidente da república. Mas, de resto, o brasileiro é bastante aberto à alopatia.

Por isso, qualquer problema com a produtividade agrícola será tratado como ausência de remédio, que agora não é mais chamado de agrotóxico, mas de pesticida. Ou, mais incorreto ainda, “defensivos agrícolas”.

É verdade que muita coisa se resolve com remédio. Mas, o IPCC está deixando claro que o remédio para alimentar o mundo é diminuir drasticamente a devastação do planeta.

Porém, como parece estar claro, o produtor brasileiro não trabalha com tais categorias. Haja vista que no mês de janeiro viu um novo recorde de devastação da Amazônia.

O triste é que há os defensores do meio ambiente, mas o meio ambiente propriamente dito não tem como se defender. 

Por isso, insisto tanto em transformar o meio ambiente, pelo menos os que correm risco real de solução de continuidade, em sujeitos de direito. Desse modo, teria como, através de seus defensores legais, entrar na Justiça contra os agressores. 

Quem sabe um dia possamos ter um Superior Tribunal da Sustentabilidade.

Enfim, o quadro mundial é extremamente preocupante. Contudo, a postura brasileira não só aumentou a possibilidade de importação de agrotóxicos, como tirou poderes de órgãos de contenção, como a Anvisa e o Ibama. Portanto, fica demonstrado que não há nenhuma boa vontade na liderança do país em considerar a ideia da contenção da destruição do planeta.


Ariovaldo Ramos é coordenador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito e apresentador do programa Daqui pra Frente, toda quarta, às 20h, na TVT.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Para que afinal serve o IMTT?

Moro há quase 12 anos em uma rua que já foi até bucólica em que pessoas idosas podiam cruzá-la com alguma segurança. Agora não,  a rua agora é palco de um fluxo alto de veículos que coloca em risco as vidas de todos que têm de cruzá-la.  Mas o cenário que já era ruim se tornou ainda mais perigoso com o uso dessa via por mega caminhões vindos  do Porto do Açu (ver imagem abaixo tirada na manhã deste sábado).

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Quem quiser avaliar os efeitos da passagem diária desses mega caminhões, sugiro que visite o trecho entre Rua dos Goytacazes (a rua do Gás) e Marechal Floriano (a antiga Ouvidor) para ver de perto um cenário parecido com as crateras lunares, tal é o nível destruição que já foi causado.

Diante desse cenário lunar é que eu pergunto aos leitores campistas deste blog: afinal, para que serve o Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT) que deveria estar cuidando do trânsito dentro das vias urbanas municipais? Apenas correr atrás de trabalhadores precários que tentam viver dignamente a partir do fornecimento de serviços extra-oficiais de transporte? Vão esperar até que alguma desgraça grave aconteça para agir para organizar o trânsito desses caminhões vindos do Porto do Açu?

Ah, sim, para uma cidade que está cobrando um IPTU bem salgado e usando até drones para checar quem construiu e não declarou, como explicar a situação de muitas ruas cujo pavimento está literalmente derretendo na atual temporada de chuvas? Há que se lembrar que o contribuinte quer algo mais do que apenas ser alvo de derrama fiscal.

Fome através da conservação?

Uma expansão maciça de áreas protegidas não apenas limita a produção de alimentos, mas também pode expulsar os povos indígenas

modern agricultureAo contrário da agricultura moderna, os povos indígenas também usam ecossistemas ricos em espécies sem transformá-los em monoculturas em grande escala. Isso é muitas vezes esquecido na criação de áreas protegidas. Foto: http://www.kit.edu

Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

Na Conferência de Biodiversidade da ONU em Kunming, em abril próximo, novas metas de biodiversidade devem ser decididas. Uma das medidas propostas é a duplicação das áreas de proteção da natureza existentes em todo o mundo em pelo menos 30 por cento das áreas terrestres e marítimas até 2030. 50 países já aderiram a esta meta de proteção de espécies exigida pela Aliança Internacional para a Biodiversidade (High Ambition Coalition para a Natureza e as Pessoas), incluindo a França e a Alemanha. Mas se essa medida for realmente implementada, pode colocar em risco a segurança alimentar em grandes partes do mundo, alertam pesquisadores da Escócia, Alemanha, Áustria e EUA. Os problemas existentes seriam exacerbados, especialmente nas regiões pobres do Sul Global.

O estudo publicado recentemente na revista “Nature” examina dois cenários: no primeiro cenário, 30% da área terrestre global será protegida até 2040, no segundo cenário 50%. Os pesquisadores assumem que nenhuma atividade humana, como agricultura ou turismo, é permitida nas áreas protegidas. Portanto, a agricultura não seria mais possível em muitas áreas de cultivo – com consequências negativas para a produção global de alimentos, à medida que a população continua a crescer.

De acordo com o estudo, a expansão das áreas de proteção da natureza leva a uma intensificação da produção agrícola nas áreas remanescentes, o que resultaria no aumento dos preços dos alimentos. O consumo de frutas e vegetais diminuiria e, em geral, o número de pessoas com baixo peso aumentaria em diferentes regiões do mundo.

Os pesquisadores calcularam que isso levaria à escassez de alimentos e a mais 200.000 mortes por desnutrição em regiões de baixa renda, como o sul da Ásia e a África subsaariana. A implementação rigorosa de medidas de proteção prejudica a segurança alimentar e a saúde humana, especialmente nas “regiões mais vulneráveis ​​do mundo”, escreve a equipe de cientistas.

Por outro lado, países mais ricos, como os EUA ou os estados da União Europeia, seriam amplamente poupados dos efeitos negativos. Pelo contrário, nesses países, reduzir o consumo de calorias por meio de preços mais altos dos alimentos reduziria os efeitos negativos do sobrepeso e da obesidade.

De acordo com Matin Qaim, Diretor do Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento (ZEF) da Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn, a contribuição mais importante do estudo é »a identificação de potenciais objetivos conflitantes entre a segurança alimentar global e a proteção da biodiversidade, porque a expansão das áreas de terra para a produção de alimentos é o maior assassino da biodiversidade natural.”

No entanto, o estudo não se opõe de forma alguma ao plano de colocar a maior área possível sob proteção da natureza. “A designação de áreas protegidas é um dos instrumentos mais importantes para atingir as metas de biodiversidade. No entanto, deve ser implementado com cuidado para garantir que não coloque em risco a segurança alimentar e a saúde da população, especialmente nas regiões mais pobres do mundo”, explica a principal autora do estudo, Roslyn Henry, da Universidade de Aberdeen.

De acordo com Martin Jung do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA) em Laxenburg perto de Viena, que também trabalhou no estudo, deve-se notar que medidas muito radicais também podem levar a efeitos indesejáveis. É necessária uma ampla cooperação para implementar a conservação da natureza de forma significativa em cada região.

No entanto, a pesquisa feita usando modelos socioecológicos acoplados está em terreno instável. Baseia-se em apenas dois pressupostos básicos. Em primeiro lugar, que a proteção de paisagens ricas em espécies leva automaticamente a uma redução das terras agrícolas. E em segundo lugar, que o consequente aumento dos preços dos alimentos levará a uma mudança nos hábitos alimentares das pessoas nos países “mais ricos” do norte e nos países “mais pobres” do sul.

Mas se, por exemplo – como exigem muitos ambientalistas e climáticos – todas as florestas tropicais ricas em espécies remanescentes na Amazônia e as áreas ainda não destruídas do Cerrado no Brasil fossem declaradas como reservas naturais, isso não levaria a uma redução nas terras agrícolas. Protegê-los apenas evitaria que esses hotspots de biodiversidade fossem derrubados para a expansão da pecuária ou cultivo de soja, ou fossem desenterrados para extração de minério e matéria-prima. O mesmo se aplica às florestas tropicais ainda não desmatadas da África Central, Sul da Ásia, Nova Guiné e região do Pacífico.

O estudo também não leva em consideração a preocupação de que a expansão dos parques naturais e nacionais possa levar ao deslocamento, empobrecimento e até mesmo genocídio de povos indígenas ou outros grupos populacionais que tradicionalmente vivem nessas áreas. Uma preocupação que encontra alimento na prática dos conceitos de parques nacionais existentes. Lisa Biber-Freudenberger, da ZEF, reclama que os autores do estudo assumem que as áreas protegidas não são mais usadas por humanos. Mas “a abordagem de criar áreas protegidas sem envolver a população local certamente teve seu dia”.

De acordo com a High Ambition Coalition for Nature and People, as novas reservas naturais devem ser criadas “enquanto reconhecem os direitos dos povos indígenas”, mas as organizações de direitos humanos consideram isso um palavrão que, em última análise, não é implementado ou implementado de forma insuficiente. Por esse motivo, organizações como Survival International e Minority Rights Group vêm alertando contra a implementação da meta de 30% exigida pelos conservacionistas conservadores desde 2020.

A expansão e a criação de novos santuários de vida selvagem podem resultar em graves abusos dos direitos humanos e causar danos irreversíveis a alguns dos mais pobres do mundo, disse a Survival International. “Até 300 milhões de pessoas podem ser afetadas se os direitos dos povos indígenas e dos proprietários tradicionais não forem significativamente mais bem protegidos.” poderia até acelerar a destruição ambiental. O “plano 30 × 30” é uma abordagem fundamentalmente errada para a conservação da natureza porque se baseia em um conceito de deserto que exclui os seres humanos com base no qual numerosos povos indígenas já foram vítimas no passado.

“A exigência de declarar 30% das ‘reservas naturais’ do mundo é de fato uma gigantesca apropriação de terras, comparável à colonização européia. Também trará muito sofrimento e morte”, teme Stephen Corry, diretor da Survival International. “Não devemos ser enganados pelo hype sobre as ONGs de conservação da natureza e seus financiadores governamentais.” É tudo sobre dinheiro, controle de terras e recursos e um ataque à diversidade cultural.

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Este texto foi escrito em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

A internet, os idiotas da aldeia e o debate sobre as condições mínimas necessárias para a volta das aulas presenciais na Uenf

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Ao receber o título de doutor honoris causa em Comunicação e Cultura, na Universidade de Turim, o escritor e filólogo italiano Umberto Eco vaticinou que o “drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade. Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. Antes, os idiotas da aldeia tinham direito à palavra em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade“.  Morto em 2016, Eco nem chegou a ver a ascensão ao poder de figuras como Donald Trump e Jair Bolsonaro que bem representam o resultado político da internet sobre o sistema político e, pior, sobre a vida política cotidiana em um sistema capitalista cada vez mais anti-democrático e injusto.

A lembrança a Umberto Eco me veio à cabeça assim que li alguns comentários postados em redes sociais sobre um assunto que virou matéria jornalística na cidade de Campos dos Goytacazes a partir das ações da Associação dos Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Aduenf) para denunciar a falta de condições para um retorno seguro às atividades presenciais (incluindo aulas) naquela que Darcy Ribeiro gostava de chamar de “Universidade do Terceiro Milênio”.

O aparecimento do assunto na forma de matéria jornalística foi o que bastou para uma pequena legião de “idiotas da aldeia” se pusesse em movimento para atacar os professores da Uenf com adjetivos pouco lisonjeiros, a começar por “vagabundos”.   E o pior que alguns desses que se deram ao trabalho de dirigir esses ataques foram ou ainda são estudantes da instituição, o que evidencia que não estamos fazendo o nosso trabalho de criar os profissionais com consciência cidadã que Darcy Ribeiro tanto desejou que a universidade do Terceiro Milênio formasse.

A questão é que se esses “idiotas da aldeia” se dessem ao trabalho de minimamente se informar sobre o que aconteceu dentro da Uenf desde o início da pandemia da COVID-19, eles saberiam que ao contrário do que eles andaram escrevendo, os professores da Uenf ralaram muito para manter a instituição funcionando remotamente.  A quantidade de aulas dadas, o número de reuniões de realizadas, as bancas de mestrado e doutorado realizadas? Nada disso interessa aos “idiotas da aldeia”, pois nada disso lhes interessa, pois o que vale mesmo é descarregar sua ira para os que são percebidos como “vagabundos”.

Entretanto, não culpa os “idiotas da aldeia” por serem tão assim, digamos, idiotas. Na verdade, a culpa é dos professores da Uenf que bancaram com seus salários corroídos pela inflação os custos de energia elétrica e serviços de internet que, ressalte-se, são inexistentes dentro da Uenf. É que dentro do campus Leonel Brizola, o que continua existindo é uma rede interna que não passa de uma “lesma lerda” quando comparada com aquelas que os professores contrataram a custo pessoal para seguirem pesquisando, orientando e dando aulas desde as suas casas. Tivessem eles se recusando a bancar os custos de trabalhar em suas casas, o mais provável é que os idiotas da aldeia os rotulassem da mesma forma que estão agora. 

Finalmente, não me preocupam os ataques dos idiotas da aldeia, pois estes refletem o ambiente de hostilidade política criada pelos que comandam o Brasil neste momento, e que se revezam em ataques cotidianos a tudo que lhes parece diferente. O que me preocupa é que passados dois anos de pandemia, e com muito trabalho duro realizado, os professores da Uenf não tenham conseguido expor tudo o que foi feito para que a instituição possa voltar a ter aulas presenciais como se nada tivesse feito para evitar a descontinuidade de nossas atividades essenciais.