PFAS, ‘produtos químicos eternos’, circulam através do solo, ar e água, segundo estudo da Universidade de Estocolmo

O estudo da Universidade de Estocolmo destaca a mobilidade dos produtos químicos, que foram encontrados em ovos de pinguins e ursos polarespfas foamEspuma PFAS se acumula na represa Van Etten Creek em Oscoda Township, Michigan. Fotografia: Jake May / AP

Por Tom Perkins para o “The Guardian”

“Produtos químicos para sempre” tóxicos de PFAS no oceano são transportados da água do mar para o ar quando as ondas atingem a praia. Esse fenômeno representa uma fonte significativa de poluição do ar, concluiu um novo estudo da Universidade de Estocolmo.

As descobertas, publicadas na Environmental Science & Technology, também explicam em parte como o PFAS chega à atmosfera e, eventualmente, precipita . O estudo, que recolheu amostras de dois sítios noruegueses, também conclui que a poluição “pode impactar grandes áreas do interior da Europa e outros continentes, além de zonas costeiras”.

“Os resultados são fascinantes, mas ao mesmo tempo preocupantes”, disse Bo Sha, pesquisador da Universidade de Estocolmo e coautor do estudo.

PFAS são uma classe de produtos químicos usados ​​em dezenas de indústrias para fazer produtos resistentes à água, manchas e calor. Embora os compostos sejam altamente eficazes, eles também estão relacionados ao câncer, doenças renais, defeitos de nascença, diminuição da imunidade, problemas de fígado e uma série de outras doenças graves.

O estudo destaca a mobilidade dos produtos químicos, uma vez que são liberados no meio ambiente: PFAS não se decompõe naturalmente, então eles se movem continuamente pelo solo, água e ar e sua longevidade no meio ambiente os levou a serem apelidados de “produtos químicos para sempre ”. Eles foram detectados em todos os cantos do globo, desde ovos de pinguim na Antártica até ursos polares no Ártico.

A equipe de pesquisa de Estocolmo coletou amostras de aerossol entre 2018 e 2020 de Andøya, uma ilha do Ártico, e Birkenes, uma cidade no sul da Noruega. Ele encontrou níveis correlacionados de PFAS e íons de sódio, que são marcadores de borrifo do mar. A transferência dos produtos químicos ocorre quando as bolhas de ar explodem conforme as ondas quebram, e o estudo descobriu que o PFAS pode viajar milhares de quilômetros por meio de borrifos do mar na atmosfera antes que os produtos químicos retornem à terra.

Alguns reguladores e a indústria química há muito afirmam que despejar PFAS no oceano é um método de descarte apropriado porque dilui os resíduos a um nível seguro. O estudo concluiu que a abordagem não é segura porque os produtos químicos são devolvidos à terra, o que pode poluir fontes de água potável, entre outros problemas.

“A crença comum era que o PFAS acabaria sendo levado para os oceanos, onde ficaria para ser diluído ao longo de décadas”, disse Matthew Salter, co-autor do estudo e pesquisador da Universidade de Estocolmo. “Mas acontece que há um efeito bumerangue e alguns dos PFAS tóxicos são reemitidos para o ar, transportados por longas distâncias e depois depositados de volta na terra.”

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Açu, o porto das eternas promessas e dos direitos pisoteados

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Acompanho desde 2009 as idas e vindas do Porto do Açu, tendo já publicado diversos artigos científicos e orientado dissertações e uma tese que têm ou tiveram a obra iniciada pelo ex-bilionário Eike Batista, com muito, aliás muito mesmo, dinheiro público. Para os desavisados eu costumo dizer que o Porto do Açu, apesar do seu impressionante “merchandising” continua sendo muito mais espuma do que chopp.

Mas é sobre o merchandising que cerca o Porto do Açu que eu quero abordar nesta postagem. É que no dia de ontem (18/12), o jornal “O DIA” publicou mais uma daqueles artigos que, na prática, são um press release empresarial. Assinado pela jornalista Aline Macedo, o artigo traz como título “Conexão com Porto do Açu nos trilhos” e como subtítulo “Um dos maiores complexos portuários do país, o porto de São João da Barra ainda é subaproveitado” (ver imagem abaixo).

porto das promessas

Vou me ater aquilo ao título, pois o artigo/press release é uma espécie de anúncio de que mais um daqueles encontros público/privados teve como saldo a promessa de que serão investidos R$ 2,3 bilhões na construção de um ramal ferroviário entre o Porto do Açu e o município de Anchieta (ES), montante que deverá ser dividido entre a iniciativa privada (i.e., a Prumo Logísitica Global) e os governos do Rio e federal. Aí começa o problema, pois desconfio que a maior parte desse dinheiro será público, e deverá beneficiar os interesses dos proprietários privados do porto.

As promessas costumeiras, e nunca cumprida em mais de uma década, é que a construção desse ramal possibilitará a movimentação de de 13,5 milhões de toneladas até 2035, e deverá gerar R$ 460 milhões em impostos, 68 mil empregos diretos e indiretos e cerca de R$ 1 bilhão em salários para o Rio.  Como sempre são números fabulosos, mas que servem para explicitar o fato de que o Porto do Açu é uma espécie de sumidouro de dinheiro público, em que pese ser hoje controlado por um fundo multinacional de investimentos (o EIG Global Partners, sediado em Washington DC). Aliás, se fosse feita uma análise de tudo o que já foi investido pelo estado brasileiro no empreendimento, iríamos certamente verificar um forte desequilíbrio na relação custo/benefício para o Brasil.

Enquanto isso, as centenas de famílias que tiveram suas terras expropriadas para a suposto implantação de um natimorto distrito industrial em São João continuam sem receber qualquer tipo de ressarcimento por parte do governo do Rio de Janeiro. Aliás, também não se fala mais na salinização das águas continentais causadas pelo extravasamento de água salgada proveniente dos aterros construídos no Porto do Açu. Tampouco se fala mais na destruição da Praia do Açu, e do fechamento das áreas preferenciais de pesca aos habitantes do V Distrito de São João da Barra.

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Mas uma coisa que eu possa garantir é que se a mídia corporativa opta por ceder espaços para o merchandising do Porto do Açu, eu e meu grupo de pesquisa continuaremos a estudar os impactos do empreendimento. E posso garantir que ainda temos muita flecha para soltar, pois o Porto do Açu não passa de um imenso bambuzal.

Agronegócio banca palestras que espalham mito de que aquecimento global pelo homem é fraude

  • molionPor Juliana Gragnani, Da BBC News Brasil em Londres

Uma sala repleta de estudantes de agronomia assiste a uma palestra sobre mudanças climáticas no Brasil. Estão em uma faculdade no Estado do Mato Grosso, maior produtor de soja do país, ouvindo falar um professor da Universidade de São Paulo. Mas o que escutam é o contrário do que acredita a esmagadora maioria da comunidade científica do mundo. Ali, a mensagem transmitida é de que não existe aquecimento global causado pelo homem.

“Os objetivos [de quem fala em mudanças climáticas] são congelar os países em desenvolvimento. O Brasil é o principal foco dessas operações que envolvem meio ambiente e clima. A ideia da mudança climática e dessas questões ambientais são para segurar o nosso desenvolvimento”, afirmou o palestrante, o meteorologista Ricardo Felicio, sem respaldo científico, em uma entrevista concedida após o evento que aconteceu em 2019.

Na realidade, segundo o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de agosto deste ano, o papel da influência humana no aquecimento do planeta é “inequívoco”. É para limitar as mudanças climáticas por meio da redução na emissão de gases de efeito estufa que líderes se reuniram nas últimas duas semanas na COP26 em Glasgow, no Reino Unido.

No Brasil, a maior causa de emissões de dióxido de carbono é o desmatamento feito para expansão da agricultura e da pecuária.

Mas, na contramão do que diz a ciência, associações do agronegócio — de fazendeiros de soja, passando por cafeicultores, sindicatos rurais, faculdades ligadas a agronomia e até uma empresa de fertilizantes — estão bancando palestras dos chamados “negacionistas climáticos”, pessoas que não acreditam que existam mudanças climáticas causadas pelo homem e que apresentam esse fato como uma fraude. As apresentações são direcionadas a outros fazendeiros, produtores rurais ou estudantes de agronomia.

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A reportagem contou ao menos 20 palestras do tipo nesses ambientes nos últimos três anos feitas por Felicio e por outro professor. A citada no início desta reportagem aconteceu em 2019, e fez parte de um circuito universitário de um total de 11 palestras com o nome “Aquecimento global, mito ou realidade?” em nove faculdades e dois sindicatos no Mato Grosso. Todas elas foram bancadas pela Aprosoja Mato Grosso, a associação de produtores de soja e milho do Estado, maior produtor de soja do Brasil.

Ao mesmo tempo em que negam o aquecimento global antropogênico, as palestras pagas e vistas por ruralistas os absolvem de reconhecer seu papel nas mudanças climáticas. Elas seriam, de acordo com o conteúdo contrário ao consenso científico apresentado pelos professores, somente fruto de variações naturais, sem interferência alguma do homem.

Ao contrário desse setor “negacionista” do agronegócio, o presidente do conselho diretor da Associação Brasileira do Agronegócio, Marcello Brito, diz que a associação se pauta “pela melhor ciência” e que “jogar fora a ciência porque ela não nos traz só vantagens, mas também deveres, é no mínimo contraproducente, jogando contra a melhoria contínua”.

Palestras

Felicio, o professor do departamento de Geografia da USP contratado pela Aprosoja Mato Grosso em 2019, é conhecido por suas posições controversas — ultimamente, em relação à pandemia de covid-19. Em um vídeo publicado em agosto deste ano em seu canal do YouTube, chamou a pandemia de “fraudemia” e disse, sem base científica, que vacinas causam danos maiores que a covid-19. Em outro, afirmou que máscaras não são efetivas contra a covid-19. É também um notório negacionista das mudanças climáticas causadas pelo homem. Ficou conhecido em 2012, quando foi convidado ao Programa do Jô, da Globo, e, sem provas, negou o efeito estufa.

Professor da USP Ricardo Felicio, então presidente da Comissão de Relações Exteriores, senador Nelsinho Trad (PSD-MS), diretor do Departamento de Meio Ambiente do Itamaraty, ministro Leonardo Cleaver de Athayde e professor aposentado da Ufal Luiz Carlos Molion

Ricardo Felicio (no canto esquerdo) e Luiz Carlos Molion (no canto direito) dão palestras pelo Brasil; na foto, eles participam de audiência pública no Senado

Durante três semanas, a reportagem tentou falar com Felicio por telefonemas, mensagens de texto e e-mails, mas não obteve resposta. O vice-presidente da Aprosoja Mato Grosso, Lucas Beber, justificou o convite em entrevista à BBC News Brasil.

“A gente trouxe o Ricardo Felicio para fazer um contraponto com aquilo que é replicado na mídia hoje, que parece uma verdade absoluta. A gente não queria impor aquilo como uma verdade, mas sim trazer a um debate”, afirma. Para ele, as mudanças climáticas causadas pelo homem ainda são uma “incerteza” — embora já haja consenso científico em torno delas. Beber também disse não se lembrar quanto custou o ciclo de 11 palestras feitas por Felicio naquele ano.

Silos de soja e plantaçãoVice-presidente da Aprosoja Mato Grosso diz que convite a professor considerado negacionista se deu para promover ‘contraponto com o que é replicado na mídia’

No ano passado, o meteorologista também foi convidado para falar no Tecno Safra Nortão 2020, uma feira para produtores rurais, lideranças, técnicos, pesquisadores e estudantes organizada pelo sindicato rural de Matupá, município no norte de Mato Grosso.

Segundo o vice-presidente do sindicato, Fernando Bertolin, ao menos cem pessoas, entre pequenos e grandes agricultores, pecuaristas e outras pessoas da cidade assistiram à palestra. Ele defende o convite, dizendo que, à época, Felicio estava “bem forte na mídia” e que sua palestra “foi um pedido dos produtores”. “A gente ouve todo mundo. Ele tem o embasamento teórico dele e a gente queria saber por que ele dizia aquilo.”

Bertolin diz não se recordar do valor da palestra de Felicio de cabeça, mas afirma que nenhuma das contratadas pela feira custou mais de R$ 15 mil.

Em 2018, Felicio concorreu, sem sucesso, ao cargo de deputado federal pelo PSL, antigo partido do presidente Jair Bolsonaro.

Um ano antes, o presidente tuitou um vídeo de uma entrevista em que Felicio nega a existência de mudanças climáticas causadas pelo homem. Bolsonaro escreveu: “Vale a pena conferir”. Consultada pela BBC News Brasil sobre esta recomendação feita por Bolsonaro, a assessoria da Presidência não respondeu.

O professor não foi aclamado apenas pelo presidente. Em 2019, Felicio foi convidado para dar uma palestra no Senado ao lado de outro acadêmico que não acredita no aquecimento global causado pelo homem, o professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), meteorologista Luiz Carlos Molion.

O convite para que os professores falassem em uma audiência pública conjunta das comissões de Relações Exteriores e de Meio Ambiente do Senado sobre as mudanças climáticas partiu do senador do Acre Marcio Bittar (hoje PSL, mas, na época, do MDB), um ex-pecuarista que faz parte da bancada ruralista.

Ao lado de Felicio, Molion é considerado um dos principais representantes do negacionismo climático no Brasil e autor das outras palestras contabilizadas pela reportagem.

Nos últimos três anos, Molion fez diversas palestras promovidas por entidades como a Cooperativa Agrícola de Unaí, em Minas Gerais, a Associação Avícola de Pernambuco, a Associação de Engenheiros e Arquitetos de Itanhaém, com o patrocínio oficial do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo, a Central Campo, uma empresa especializada na venda de insumos agrícolas, a Feira Agrotecnológica do Tocantins, do governo do Tocantins, a feira de Agronegócios da Cooabriel, uma cooperativa de café com atuação no Espírito Santo e na Bahia, e o sindicato rural de Canarana, no Mato Grosso.

Molion também foi convidado para falar em universidades: o Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB). A BBC News Brasil procurou todas essas instituições para comentar sobre os convites que fizeram a Molion — leia as respostas abaixo e no fim desta reportagem.

A maior parte dessas palestras tem como tema as perspectivas climáticas para o ano seguinte e as “tendências para os próximos 10 anos”. Nas palestras — a maioria disponível no YouTube e vistas pela BBC News Brasil —, Molion de fato faz previsões para o ano seguinte, útil para que os produtores rurais se planejem para as próximas safras, mas reserva a última parte da palestra para falar sobre como o “aquecimento global é uma fraude” — novamente, uma afirmação sem embasamento científico.

Ele mostra um slide na parte final em sua apresentação de Powerpoint, com suas palavras finais. O texto da apresentação diz que o clima “varia por causas naturais”, e que “eventos extremos sempre ocorreram”. Afirma, também: “Aquecimento global é mito. CO2 não controla o clima, não é vilão (…) Redução de emissões: inútil!”

A patch of deforested land in the Amazon rainforest

Segundo o último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de agosto deste ano, o papel da influência humana no aquecimento do planeta é “inequívoco”; no Brasil, a maior causa de emissões de gases do efeito estufa é o desmatamento

Na palestra promovida pela Secretaria de Agricultura, Pecuária e Aquicultura do governo do Tocantins em maio de 2020, por exemplo, Molion afirmou, contrariando a ciência, que o “aquecimento global é uma farsa, é um mito”. “Reduzir emissões como quer esse Acordo de Paris de 2015 é inútil, o Brasil tinha que pular fora porque reduzir emissões não vai causar nenhum benefício para o planeta, para o clima, porque o CO2 não controla o clima”, disse, indo contra a esmagadora maioria da produção científica dos últimos anos e aos esforço global de selar acordos para diminuir as emissões dos gases de efeito estufa.

A secretaria disse que o convidou, ao lado de outros palestrantes, para “alinhar o setor agropecuário quanto às diversas correntes existentes e auxiliá-los no seu planejamento e tomadas de decisão mais assertivas para seu empreendimento rural”.

Depois, em outubro de 2020, em um seminário virtual promovido pela Central Campo, uma empresa mineira especializada na venda de insumos agrícolas, Molion fez as mesmas afirmações sobre o CO2 e o Acordo de Paris.

O diretor da empresa, Artur Barros, disse por e-mail à BBC News Brasil que a empresa “sempre soube do posicionamento do professor Molion, que é muito pragmático quanto às questões climáticas” e “o profissional que tem maior assertividade nas previsões”. “A Central Campo, assim como grande parte dos produtores atendidos pela empresa, está muito alinhada ao posicionamento do professor Molion”.

À BBC News Brasil, Molion afirmou: “Procuro usar minhas palestras para o agronegócio, que não são poucas, para no terceiro bloco falar sobre as mudanças climáticas e a farsa do CO2 como controlador do clima global. Faço um diagnóstico local, previsão para safra e depois falo sobre a tendência do clima dos próximos dez, 15 anos, que é de resfriamento.”

Segundo Molion, ele dá 50 palestras por ano, “a grande maioria, 80%, 85% para o agronegócio”, cobrando R$ 4 mil por cada uma. Barros, da Central Campo, afirmou que foi este o valor que pagou pela palestra do professor.

O meteorologista diz que não se incomoda de ser chamado de “negacionista”, embora, ressalte, nunca tenha negado que houve aquecimento no planeta em um período específico no passado. “Eu levo o que acho que está correto, pode ser que daqui a alguns anos me provem que estou errado e vou reconhecer isto. Não sou paraquedista. Eu tenho visão muito crítica do clima local e global graças ao meu treinamento.”

Um dos seminários mais recentes de que participou teve também a presença de membros do governo Bolsonaro: o vice-presidente Hamilton Mourão e o ministro de Infraestrutura, Tarcisio Freitas. Foi um seminário virtual sobre a Amazônia em agosto deste ano organizado pelo Instituto General Villas Bôas, ONG do ex-comandante do Exército.

Contrariando o consenso da comunidade científica sobre as mudanças climáticas, Molion defendeu que o clima global varia naturalmente, sem influência da ação humana, e apresentou um slide em que dizia que o efeito-estufa, “como descrito pelo IPCC, é questionável”. Antes de passar a palavra para o ministro Freitas, afirmou: “CO2 não é vilão, quanto mais CO2 tiver na atmosfera, melhor”.

Mourão fala, com bandeira do Brasil ao fundoVice-presidente Hamilton Mourão participou de seminário sobre a Amazônia que teve a participação do professor Luiz Carlos Molion; sua assessoria disse que ele se baseia em ‘dados científicos para emissão de suas ideias e opiniões’

A BBC News Brasil procurou a vice-presidência questionando por que Mourão aceitou participar de um seminário ao lado de um professor que nega que a ação do homem esteja contribuindo para o aquecimento global. Sua assessoria disse apenas que Mourão participou do evento a convite do Instituto General Villas Bôas e que “baseia-se em dados científicos para emissão de suas ideias e opiniões”.

A assessoria do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, afirmou que ele participou do seminário após convite feito pelo próprio general Villas Boas. A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, foi inicialmente anunciada como um dos nomes de ministros que participariam do seminário, mas sua assessoria informou que ela não participaria do evento, sem responder por que desistiu.

Negacionismo Climático no Brasil

A genealogia do negacionismo climático no Brasil começa nos anos 2000, quando a imprensa “dava pesos iguais para argumentos com pesos totalmente diferentes”, avalia o sociólogo Jean Miguel, pesquisador associado da Unifesp que estuda o tema. O debate sobre o assunto no Brasil se deu principalmente a partir do documentário americano Uma Verdade Inconveniente (2006), sobre a campanha do ex-vice-presidente americano Al Gore a respeito do aquecimento global.

Enquanto isso, um grupo pequeno de negacionistas na academia brasileira, incluindo Felicio e Molion, se pronunciavam publicamente sobre o tema. Para Miguel, eles são “verdadeiros mercadores da dúvida, trabalhando para destacar lacunas que toda ciência possui e amplificar incertezas”.

“[E quem os ouviu no Brasil] foi parte do agronegócio interessado na desregulamentação florestal”, responde Miguel.

Hoje, “as palestras fazem massagem no ego do produtor rural e criam a mentalidade de que esses grupos de agronegócio estão sendo injustiçados enquanto estão contribuindo para o PIB nacional”, diz o pesquisador.

Não significa que todos os produtores rurais sejam negacionistas. “A briga hoje é entre dois lados: o setor de agroexportação, que está mais em contato com compradores internacionais, portanto mais pressionado pela questão reputacional, e que faz investimentos a longo prazo, pensando na questão produtiva na próxima década, não na próxima safra”, diz Raoni Rajão, professor de gestão ambiental na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“Outro lado do setor são os produtores, mais politizados e fortes apoiadores de Bolsonaro e toda sua agenda. Eles de certa forma compram esse discurso que toda a narrativa de mudança climática é algo para poder impedir o desenvolvimento do Brasil.”

Apesar de não começar no governo Bolsonaro, o negacionismo “encontra terreno fértil para proliferar” em sua gestão, avalia Miguel, citando algumas ações do governo atual, como o fechamento da secretaria responsável por elaborar políticas públicas sobre as mudanças climáticas, no início da gestão Bolsonaro (ela foi reaberta em meio a críticas no ano seguinte) e a desistência em sediara COP-25 que ocorreria no Brasil em novembro de 2019. Em sua campanha, em 2018, Bolsonaro também prometeu acabar com o que chamava de “indústria das multas” ambientais.

O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, que ficou no cargo do começo do governo Bolsonaro até março de 2021, chegou a colocar em dúvida que as mudanças climáticas seriam causadas pela ação humana, na contramão do consenso científico.

Jair BolsonaroPara sociólogo, negacionismo climático no Brasil não começou no governo Bolsonaro, mas encontrou ‘terreno fértil para proliferar’ em sua gestão

“Eles estão altamente informados pelo negacionismo climático. Mesmo que não digam que é uma fraude, de uma maneira interna vão criando as possibilidade de sabotar a ciência e as políticas climáticas nacionais, com formas práticas de negacionismo climático”, afirma Miguel.

Reportagem recente da BBC News Brasil mostrou que o governo Bolsonaro cortou em 93% os gastos para estudos e projetos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas nos três primeiros anos da sua gestão quando comparado com os três anos anteriores.

Desmatamento

Mas ações práticas terão de ser adotadas para que o Brasil cumpra as metas anunciadas pelo governo durante a COP-26: zerar o desmatamento ilegal no país até 2028, reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 50% até 2030 e atingir a neutralidade de carbono até 2050.

O desmatamento, causado pela expansão da agricultura e da pecuária, é responsável pela maior emissão de CO2 no Brasil.

Só entre agosto de 2019 e julho de 2020, uma área de 10.851 km2 — mais ou menos metade da área do Estado de Sergipe — foi desmatada na Amazônia Legal, segundo dados do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O valor representou um aumento de 7,13% em relação ao ano anterior.

Esse crescimento teve um claro reflexo nas emissões de gases poluentes pelo Brasil em 2020. Houve um aumento de 9,5%, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima, principalmente por mudanças no uso da terra e floresta, que inclui o desmatamento, e a agropecuária. O aumento aconteceu na contramão do mundo que, parado por conta da pandemia de covid-19, diminuiu as emissões em 7%.

MadeirasSó entre agosto de 2019 e julho de 2020, uma área de 10.851 km2 – mais ou menos metade da área do Estado de Sergipe – foi desmatada na Amazônia Legal

Para Tasso Azevedo, coordenador do SEEG, a boa notícia é que, se o Brasil conseguir controlar o desmatamento, “as emissões cairão muito rapidamente”. “Se controlarmos o desmatamento, não há país no mundo que vai ter emissões menores proporcionalmente do que temos no Brasil, então acho que é uma oportunidade. Teremos um resultado incrível para o Brasil e para o planeta.”

Apesar de pertencer ao setor responsável pela maior parte de emissões de gases do efeito estufa no Brasil, parte dos ruralistas diz acreditar ser injustamente acusada por ambientalistas.

As palestras do meteorologista Felicio no Mato Grosso, em 2019, “foram bem numa época em que era moda dizer que o agricultor era quem estava acabando com o mundo”, diz o produtor rural Artemio Antonini, presidente do sindicato rural de Nova Xavantina, no Mato Grosso. Também cético em relação às mudanças climáticas, Antonini ajudou a organizar a palestra de Felicio na região.

Na opinião de Rajão, da UFMG, “o agro como um todo toma as dores e se sente ofendido quando se fala de desmatamento”. “A reação é negar o desmatamento e a existência das mudanças climáticas.”

“Tomar as dores” porque, de fato, quem desmata primariamente não é produtor rural. Uma área desmatada começa com uma onda de especuladores – quem demarca a terra e serra dali a vegetação depois quem tenta regularizar a área -, em seguida vem o pecuarista e depois vem o agricultor, explica Rajão. “Por isso que quando dizem que não estão envolvidos com o desmatamento, é verdade, boa parte deles não está. Mas se beneficiam de um fornecimento de terra barata, que vem de todo o processo de desmatamento ilegal que às vezes aconteceu 10 anos antes.”

A ilegalidade é bastante concentrada. O estudo “As maçãs podres do agronegócio brasileiro”, de Rajão e outros pesquisadores, mostrou que mais de 90% dos produtores na Amazônia e no Cerrado não praticaram desmatamento ilegal após 2008. Além disso, apenas 2% das propriedades nessas regiões eram responsáveis por 62% de todo desmatamento potencialmente ilegal. O trabalho foi publicado na revista Science no ano passado.

“Agrosuicídio”

O agricultor de soja Ilson Redivo também esteve na plateia em uma das palestras que o professor Ricardo Felicio deu em 2019, no município de Sinop, norte do Mato Grosso.

Redivo migrou do Paraná para Sinop em 1988, inicialmente trabalhando, como a maioria dos migrantes, no setor madeireiro. “Era um grande polo madeireiro, e era o que dava retorno na época”, diz. Hoje, ele possui uma fazenda de 4200 hectares de milho e soja na região, e é presidente do Sindicato Rural da cidade.

Ele diz ter gostado da palestra de Felicio. Como ele, o produtor rural também rejeita a ciência estabelecida sobre o aquecimento global. Ele diz que é uma “narrativa econômica”, não ambiental, criada para conter o desenvolvimento do Brasil.

“Eu estou há trinta anos aqui, foi desmatado um monte e o clima continua da mesma forma, tá certo? Não houve alteração climática”, diz Redivo à BBC News Brasil.

Ecoando argumentos já usados por Bolsonaro, o agricultor diz que o Brasil é “um exemplo para o mundo em preservação ambiental”. “O produtor brasileiro é o cara que mais preserva.”

O argumento é repetido por outros produtores rurais. “Ninguém fala que o agricultor está deixando 80% e só usando 20% da área para produzir”, reclama o produtor rural Antonini.

Gado em area desmatada

Legenda da foto,Durante a COP-26, em Glasgow, Brasil prometeu zerar o desmatamento ilegal no país até 2028

Eles se referem à Reserva Legal, um dispositivo criado no Código Florestal Brasileiro que obriga os proprietários de terras na Amazônia a preservar 80% da floresta nativa (no Cerrado, o valor é de 35%; em outros biomas, 20%), algo que beneficia o próprio agronegócio, por meio dos serviços ambientais prestados pela floresta. Muitos agricultores acham isso injusto. Mas, na prática, nem todos respeitam essa exigência.

A pesquisadora do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) Ritaumaria Pereira conduziu entrevistas com 131 criadores de gado no Pará em 2013 e 2014 e descobriu que mais de 95% deles declararam preservar menos do que a quantidade exigida. Segundo ela, argumentam que, quando chegaram, a terra já estava nua, ou que no passado tinham o estímulo para desmatar, ou que não tinham recursos para regenerar 80%.

Para Pereira, da Imazon, para que o Brasil consiga cumprir as metas anunciadas durante a COP-26, será preciso investir em fiscalização na Amazônia, fortalecendo órgãos como o Ibama e o ICMBio.

Também será preciso combater o discurso do negacionismo climático. A mensagem transmitida a produtores rurais, diz ela, legitima o desmatamento, e “traz mais pessoas para esse pensamento, para que, num futuro próximo, validem assim tudo o que já desmataram”.

Para Rajão, da UFMG, é uma narrativa “que no curto prazo é confortante, mas no longo prazo contribui para o chamado ‘agrosuicídio’”.

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POSICIONAMENTOS DE EMPRESAS QUE CONVIDARAM PROFESSORES PARA PALESTRAS

Cooperativa Agrícola de Unaí (Coagril)

A Cooperativa Agrícola de Unaí Ltda (Coagril) diz “ter contratado o professor Molion no intuito de obter informações acerca do regime de chuvas para a região de sua atuação, visando ao planejamento estratégico dos seus negócios e de seus cooperado”.

Associação Avícola de Pernambuco

“A AVIPE reforça seu caráter plural onde preza pela diversidade de ideias onde o debate de todos os pontos de vista precisa ser exaurido constantemente com o intuito da busca eterna de uma conclusão contingente sobre quaisquer assuntos. (…) Como associação, não nos cabe acreditar ou não se os fatos humanos causam mudanças climáticas, pois nosso papel não é de credo, mas sim de apoiar o debate científico por aqueles que se dedicam toda uma vida em pesquisa. Não condiz com nossos princípios, condutas e valores, selecionar uma parcela de opiniões do mundo científico para apoiar determinada conclusão com fins casuísticos ou individuais. Aspectos financeiros são reservados apenas aos nossos associados.”

Associação de Engenheiros e Arquitetos de Itanhaém, com o patrocínio oficial do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo

A Associação de Engenheiros e Arquitetos de Itanhaém recebeu o pedido da BBC News Brasil por e-mail e WhatsApp, mas não respondeu.

O Crea-SP respondeu que “tem como missão legal o aperfeiçoamento técnico e cultural dos profissionais da área tecnológica, conforme a Lei 5.194”.

“Os eventos com essa finalidade, realizados pelas associações, são de responsabilidade de seus idealizadores e não necessariamente representam a posição do Crea-SP.

O Conselho reforça ainda que acredita em mudanças climáticas causadas pelas ações humanas e, como forma de apoiar medidas para combatê-las, é signatário dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.”

Cooperativa de café Cooabriel

Recebeu o pedido da BBC News Brasil por e-mail, mas não respondeu.

Sindicato rural de Canarana

O presidente do sindicato, Alex Wisch, respondeu, por mensagem via WhatsApp: “Propomos que vocês indiquem um cientista de mesmo nível acadêmico do Prof. Molion para que todos possam ter conhecimento da verdade científica sobre esse tema. Podemos colaborar financeiramente com esse evento e inclusive sediar o evento.”

Instituto de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Por telefone, o vice-diretor do Instituto de Ciências Agrárias da UFMG, Helder Augusto, afirmou: “Na universidade, há diversidade de ideias e contrapontos. Não é um posicionamento da UFMG. É um ponto de vista dele, é uma fala relativa. A pessoa veio, fez palestra e pode falar o que bem entender porque é um ambiente público. A universidade não paga palestra para ninguém.”

Universidade Federal da Paraíba

“O evento foi realizado no auditório do Centro de Tecnologia da UFPB, organizado no âmbito do Departamento de Engenharia Mecânica, que aproveitou que o palestrante já estava em João Pessoa (PB) e o convidou para ministrar palestra na UFPB, portanto, neste caso em particular, sem ônus para a UFPB.

A iniciativa de convidar o pesquisador para ministrar palestra sobre seus estudos não se confunde com a visão, missão e valores da UFPB, entre os quais destaca-se o caráter público e autônomo da Universidade.

A UFPB defende o papel da academia e apoia a ciência e a pesquisa, o conhecimento gerado a partir de métodos científicos, no intuito de encontrar soluções para desafios em todas as áreas e geração de benefícios para a sociedade. Por meio da ciência, as teorias são constantemente testadas, visando sua comprovação ou substituição por outra teoria que resista à checagem. Não compete à Universidade aplicar censura prévia à ciência.”

blue compass

Este texto foi inicialmente publicado pela BBC News [Aqui].

Em leilão do pré-sal, manifestantes exigem o fim dos novos projetos de petróleo e gás

Um mês após vender imagem de defensor do meio ambiente, na COP26, governo Bolsonaro ignora impactos às comunidades e estimula a piora da crise climática

unnamed (42)Pescadores da Baía de Guanabara erguem faixas contra a exploração de petróleo e gás, durante protesto em frente ao hotel Windsor Barra, no Rio de Janeiro, onde a ANP realizou, nesta sexta-feira, leilão de excedentes do pré-sal. Crédito: Lucas Landau/350 .org

Na manhã desta sexta-feira (17/12), ambientalistas da 350. org e pescadores artesanais de oito associações da Região Metropolitana do Rio de Janeiro fizeram um protesto em frente ao Windsor Barra Hotel, na capital fluminense, para pedir o fim dos novos projetos de petróleo e gás na costa brasileira.

A ação ocorreu ao mesmo tempo em que a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) realizou, dentro do hotel, a licitação dos volumes excedentes da cessão onerosa das áreas de Sépia e Atapu, no pré-sal da Bacia de Santos.

Os pescadores levaram para a porta do hotel um barco e redes de pesca, para lembrar aos executivos das empresas participantes do certame que as comunidades pesqueiras do Grande Rio de Janeiro sofrem diariamente com os impactos da extração, do transporte e do refino de petróleo e gás.

“Os lances das empresas no leilão de hoje serão, amanhã, os impactos que nos atingem, como os vazamentos de óleo e a contaminação dos recursos pesqueiros”, diz Alexandre Anderson, liderança nacional dos pescadores artesanais e presidente da Associação dos Homens e Mulheres da Baía de Guanabara (Ahomar), organização sediada em Magé.

O desastre é a regra

Um dos danos provocados pelo setor de petróleo e gás na região é a contaminação frequente de trechos da Baía de Guanabara por óleo e produtos químicos utilizados pelas companhias. Pequenos e grandes vazamentos, bem como descargas intencionais dessas substâncias, são constatados quase semanalmente pelos pescadores.

“As falhas, as más condutas e a falta de manutenção são a regra, e não a exceção, nas operações dos terminais e das refinarias no Rio de Janeiro”, afirma Alexandre Anderson.

Na percepção dos pescadores, a quantidade e a qualidade dos peixes vem diminuindo progressivamente na região, como resultado da poluição, com impactos para a renda de milhares de famílias e para a alimentação dos moradores de toda a região metropolitana.

Também prejudicam a atividade dos pescadores artesanais as restrições impostas pelas companhias de petróleo e gás à circulação de pequenos barcos em algumas áreas da baía. Muitas vezes ilegal, a limitação das áreas de deslocamento ocorre justamente em áreas tradicionais da pesca artesanal.

Quando denunciam as irregularidades que testemunham, os pescadores acabam sendo alvos de ameaças anônimas e nem sempre veem as autoridades tomarem providências. Segundo associações da categoria, o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro tem se destacado pelo seu trabalho de apoio às comunidades, mas os processos legais de reparação ou correção de uma ilegalidade muitas vezes são lentos e insuficientes.

Até hoje, por exemplo, as comunidades pesqueiras percebem os danos do pior vazamento da história na Baía de Guanabara, em janeiro de 2000. À época, um rompimento no duto que conectava a Refinaria Duque de Caxias, ligada à Petrobras, ao terminal da Ilha D’Água provocou o despejo de 1,3 milhão de metros cúbicos de óleo e graxa no mar.

Impedidos de trabalhar durante meses, os pescadores receberam indenizações inferiores à perda de renda que tiveram, e os pagamentos só começaram a ser feitos mais de 13 anos depois do desastre. Muitos pescadores ainda esperam pela compensação. Além disso, os moradores das áreas afetadas contam que a fauna marinha da região sente os impactos até hoje.

“Quando ocorre um vazamento, grande ou pequeno, o dano para o meio ambiente e para quem depende do mar dificilmente é compensado. Até porque não há compensação financeira que pague a impossibilidade de trabalhar e de exercer suas atividades culturais, duas grandes honras do pescador”, afirma Alexandre Anderson.

 

Crédito: Lucas Landau/350. org

Impactos climáticos

Outro dano provocado pelos setores de petróleo e gás às comunidades vulneráveis, incluindo os pescadores artesanais, é o agravamento da crise climática, que afeta mais intensamente as famílias de baixa renda e aquelas que dependem diretamente do equilíbrio ambiental para realizar seu trabalho.

Relatório divulgado em agosto pelo painel de cientistas do IPCC apontou que a intensidade e a frequência dos extremos climáticos já aumentou e deve continuar se elevando, nos próximos anos, em consequência do aquecimento global, que tem na queima de petróleo, gás e carvão sua principal causa.

Contrariando a imagem que tentou vender na mais recente conferência do clima da ONU (COP26), de defensor da sustentabilidade, o governo brasileiro agrava a emergência climática, ao colocar à disposição das empresas de petróleo e gás novas áreas de extração.

“Um mês depois da COP26, o Brasil contradiz todo o seu discurso ambiental e convida empresas que estão sob pressão global para reduzir suas operações a seguir extraindo combustíveis fósseis com o seu apoio. É como se o país estivesse pedindo ao mundo para não ser levado a sério”, afirma Ilan Zugman, diretor da 350 .org na América Latina.

Zugman lembra também que os dois campos vendidos nesta sexta-feira ficaram sem ofertas no primeiro leilão da cessão onerosa, em 2019, e voltaram ao mercado, desta vez, com preços 70% inferiores aos originais.

“O governo entregou Atapu e Sépia quase de graça às empresas porque sabe que o mundo já está caminhando em direção ao fim do petróleo e do gás. Ao invés de correr para tentar obter as migalhas da velha economia, o Brasil poderia se tornar referência em energias renováveis e atrair investimentos em setores que geram emprego e distribuem renda”, diz Zugman.

No protesto desta sexta-feira, estiveram presentes as seguintes organizações: Associação dos Homens e Mulheres da Baía de Guanabara (AHOMAR), Associação de Caranguejeiros e Amigos do Mangue de Magé (ACAMM), Associação dos Pescadores da Vila dos Pinheiros e região da Baía de Guanabara, Associação dos Trabalhadores na Pesca de Magé e Guapimirim (ATPMG), Associação dos Pescadores Livres dos Bancários (APELONEAS), Sindicato dos Pescadores Profissionais e Pescadores Artesanais do Estado do Rio de Janeiro (SINDPESCA-RJ), Grupo de Pescadores Unidos por uma Pesca Justa de São Gonçalo, Liga dos Pescadores do Rio de Janeiro (LIPESCA) e 350 .org.
 

Crédito: Lucas Landau/350. org

Carta de Xapuri em defesa dos territórios e do Bem Viver nas Amazônias

chico mendes

Nós indígenas, comunidades tradicionais, trabalhadores e trabalhadoras rurais, campesinos e campesinas, reunidos no Encontro Amazônico: Terra, Território e Mudança Climática, em Xapuri, no Acre, nos dias 16, 17 e 18 de dezembro de 2021, com a participação de 200 líderes de organizações sociais e populares do Brasil e da Bolívia, reafirmamos o Legado de Chico Mendes de defesa da Amazônia e a Aliança dos Povos das Florestas.

Manifestamos nossos posicionamentos frente ao contexto de ameaças aos territórios de uso coletivo, que para nós povos da Amazônia é sagrado, são espaços de construção e manutenção das nossas identidades, saberes, fazeres, das raizes de nossa ancestralidade, territórios de luta, por isso, afirmamos:

• Estamos vivenciando ações de retrocessos governamentais no Brasil e em outros países Amazônicos, de pressão à terra, ao território, a biodiversidade e aos modos de vida de povos indígenas e comunidades tradicionais que vivem nas e das florestas. Os retrocessos atuam para a flexibilização das legislações socioambientais, o desmonte das políticas que garantem o direito e à posse da terra e do território a povos e comunidades indígenas, tradicionais, camponesas e quilombolas, obrigando-as, em muitos casos, a vender ou fugir para as periferias das áreas urbanas. Também estabelecem medidas públicas favoráveis à mineração e ao desmatamento na região amazônica, para o agronegócio e a extração ilegal da madeira, com impactos sociais, ambientais, culturais e a vida de todos, e principalmente de quem vive nas florestas.

• Os efeitos dessas ações governamentais contribuem para a crise climática, afetando diretamente mulheres, juventude, crianças e toda humanidade. Exigimos dos governos políticas e ações mais eficazes, adequadas para combater os efeitos das mudanças climáticas, com medidas de adaptação, mitigação e respeito à ancestralidade de povos indígenas, comunidades quilombolas, comunidades tradicionais e camponesas.

• Por isso, defendemos à terra, o território, o fortalecimento de políticas públicas para a agricultura familiar e a produção da sociobiodiversidade na Amazônia, para que povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e camponesas possam ter uma vida digna para usufruir o bem-viver na Panamazônia.

• Reafirmamos o Legado de Chico Mendes e nos comprometemos em continuar a cuidar da nossa vida e da vida das florestas e da biodiversidade.

• O protagonismo das mulheres amazonidas, mulheres negras, mulheres indígenas, mulheres quilombolas, mulheres ribeirinhas, mulheres extrativistas, historicamente silenciadas e invisibilizadas, temos um marco no processo de luta e resistência na garantia ao direito a terra e ao território. Nosso proposito é garantir vida justa para todas. Exigimos espaço e o fim da violência e de toda opressão. Lutamos por nossa terra livre para semear, queremos o bem viver.

• A juventude em diálogo com as lideranças do passado que lutaram e garantiram os territórios, segue articuladas na luta pois os direitos conquistados não são garantidos, é necessário seguir alerta. Os jovens não são jovens do futuro, somos jovens do presente e queremos espaço para atuar em defesa das nossa casa maior, nossa mãe Terra.

• Reafirmamos que nossa ALIANÇA DOS POVOS DAS FLORESTAS segue unificada, além da nossa articulação com organizações indígenas, camponesas, ribeirinhas, quilombolas, extrativistas, bem como com as instituições, academia e atores sociais de todos os países amazônicos, para fortalecer a nossa luta em defensas das florestas e das vidas.

“No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade” (Chico Mendes).

VIVA A AMAZÔNIA E A ALIANÇA DOS POVOS DAS FLORESTAS!!!

Desmatamento tornou o trabalho ao ar livre inseguro para milhões nos trópicos, diz estudo

O aumento da temperatura e da umidade associado à perda da floresta reduziu as horas de segurança para o trabalho nos trópicos

ourdoor workTrabalhadores em um canteiro de obras em Jacarta, Indonésia. Fotografia: Mast Irham / EPA

Por Sofia Quaglia para o “The Guardian”

O desmatamento tornou o trabalho ao ar livre inseguro para milhões de pessoas nos trópicos nos últimos 15 anos, concluiu um estudo.

O aumento da temperatura e da umidade causados ​​pela perda de árvores tem reduzido o número de horas seguras do dia para as pessoas trabalharem, principalmente para quem realiza trabalhos pesados.

“Por causa da mudança climática, estas áreas nos trópicos já estão no limite do que é considerado seguro ou confortável para trabalhar no final da manhã para tarde”, disse Luke Parsons , um pesquisador climático da Universidade Duke, na Carolina do Norte e principal autor do artigo publicado na revista One Earth . “E então você pega o desmatamento em cima disso e empurra essas regiões para condições de trabalho ainda mais inseguras.”

Um crescente número de pesquisas tem mostrado que o desmatamento está relacionado a um aumento nas temperaturas locais, pois diminui os benefícios do resfriamento que as árvores trazem para uma área. Por exemplo, nas áreas da Amazônia no Brasil que foram fortemente desmatadas, nas últimas duas décadas as temperaturas foram até 10 ° C mais altas do que as regiões florestadas.

Para este estudo, os pesquisadores analisaram dados de satélite e meteorológicos entre 2003 e 2018 em 94 países com florestas tropicais, observando temperatura e umidade.

Eles descobriram que quase 100.000 pessoas, 90% das quais vivem na Ásia, perderam mais de duas horas de trabalho por dia. Quase 5 milhões de pessoas perderam pelo menos meia hora de trabalho seguro por dia, a maioria delas trabalhadores ao ar livre realizando trabalho físico pesado.

Os efeitos são desproporcionalmente sentidos em locais desmatados; nas Américas, 5% das áreas florestadas perderam pelo menos meia hora de trabalho seguro por dia, enquanto 35% das áreas desmatadas sofreram a mesma perda.

“Não podíamos ir a todos os locais onde as pessoas estão trabalhando e medir quando pararam de trabalhar”, disse Parsons. “Podemos fazer essa avaliação do tempo de trabalho seguro perdido, mas muitas vezes as pessoas podem optar por continuar a trabalhar quando está muito quente e úmido, em detrimento da saúde.”

Espera-se que o aquecimento global contínuo e a perda de florestas ampliem esses impactos , reduzindo ainda mais as horas de trabalho para grupos vulneráveis ​​nas próximas décadas.

A exposição ao calor pode afetar o humor e as doenças mentais, além de reduzir o desempenho físico e psicológico, incluindo lapsos de concentração, fadiga, irritabilidade, aumentando o risco de acidentes, disse Beatriz Oliveira , pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca do Brasil , que não participou neste estudo.

Os pesquisadores dizem que suas descobertas fornecem um incentivo econômico para que as populações locais mantenham as florestas locais intactas além dos benefícios ambientais.

blue compass

Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Serviço Geológico lança sistema de alerta hidrológico no rio São Francisco nesta sexta-feira (17)

Ao todo, 17 sistemas de alerta hidrológico são operados pelo SGB-CPRM em todo o território nacional

Conhecido por Velho Chico, o novo SAH vai acompanhar o comportamento de um dos mais importantes cursos de água do Brasil

O Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM), por meio do Departamento de Hidrologia (DEHID), da Diretoria de Hidrologia e Gestão Territorial (DHT), deu início, nesta sexta-feira (17), à operação do Sistema de Alerta Hidrológico (SAH) da bacia do Rio São Francisco, importante rio brasileiro que se situa nos estados de Minas Gerais, Bahia e Pernambuco.

O sistema visa monitorar e gerar informações hidrológicas de qualidade, para subsidiar a tomada de decisões por parte dos órgãos relacionadas à mitigação dos impactos de eventos hidrológicos extremos. O projeto está sendo desenvolvido em parceria com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), por meio da operação da Rede Hidrometeorológica Nacional.

Estiveram presentes no evento, realizado de forma remota, a diretora de Hidrologia e Gestão Territorial do SGB-CPRM, Alice Castilho, o superintendente de Belo Horizonte (SUREG/BH), Marlon Coutinho, o chefe do Departamento de Hidrologia (DEHID) do SGB-CPRM, Frederico Peixinho, o gerente de hidrologia e gestão territorial de Belo Horizonte (GEHITE/BH) e o coordenador dos SAH do SGB-CPRM, engenheiro Artur Matos.

A diretora Alice Castilho fez uma breve retrospectiva sobre os momentos marcantes da bacia e relembrou que em janeiro de 2020, houve uma cheia histórica nas cabeceiras do rio São Francisco. Além disso, a pesquisadora comemorou o lançamento de um novo SAH no país.

“Agora, já somamos, com esse novo sistema de alerta da calha do rio São Francisco, 17 sistemas de alerta hidrológico, em um período de 30 anos de experiência nessa atividade”, destaca a diretora.

Na imagem, todos os sistemas de alerta operados pelo SGB-CPRM no Brasil

O superintendente Marlon Coutinho celebrou, também, o mais novo projeto do SGB-CPRM. “Esse é o terceiro sistema operado no estado de Minas Gerais e muito nos orgulha por sua relevância e impactos positivos gerados na sociedade. Com ele, podemos mitigar perdas materiais e humanas”, afirma.

“A implantação desse sistema ainda é o primeiro passo. As etapas seguintes são desafiadoras, pois buscamos mitigar eventos extremos e o mais importante: salvar vidas” acrescentou o especialista Frederico Peixinho sobre a magnitude do projeto.

O coordenador dos SAH do SGB-CPRM, Artur Matos, salientou que o lançamento do novo sistema de alerta corrobora com a missão do SGB-CPRM: gerar e disseminar conhecimento geocientífico com excelência, contribuindo com a melhoria da qualidade de vida e desenvolvimento sustentável do Brasil.

“Além disso, os sistemas de alerta respondem a três questões principais: o nível que o rio atingirá; em quanto tempo; e qual população será atingida. Assim, as comunidades ribeirinhas e a Defesa Civil podem se preparar antecipadamente. É um trabalho conjunto que busca mitigar impactos de eventos extremos em um determinado local”, frisa Matos.

O SGB-CPRM já possui o SAH do rio das Velhas, que está na cabeceira do rio São Francisco. Agora, está ampliando o monitoramento com a operação na calha principal do rio São Francisco. “Os principais beneficiados serão as pessoas que moram nas margens dos rios, que costumam ser uma população mais vulnerável e com baixo poder aquisitivo”, destaca o engenheiro do SGB-CPRM, Artur Matos. O sistema vai inicialmente gerar previsões para quatro municípios de Minas Gerais: Pirapora, Buritizeiro, São Romão e São Francisco, localizadas às margens do rio São Francisco.

Na transmissão, especialistas do SGB-CPRM debatem e comemoram a grandiosidade do projeto

Para saber mais sobre o SAH, clique aqui.

O lançamento teve transmissão ao vivo no Youtube e pode ser vista a qualquer momento na TV CPRM .

Ecocídio no Pantanal: Incêndios florestais no Brasil mataram cerca de 17 milhões de animais

fogo pantanalCientistas visitaram uma área do Pantanal 48 horas após um incêndio

Por Victoria Gill,  correspondente de Ciências, BBC News

Em meio à desolação de 2020, os cientistas no Brasil concluíram um estudo de conservação particularmente sombrio – tentando contar os animais mortos por enormes incêndios florestais no Pantanal.

Eles estimam que até 17 milhões de vertebrados – incluindo répteis, pássaros e primatas – morreram.

Os incêndios florestais ocorreram entre janeiro e novembro, destruindo 30% da maior área úmida tropical do mundo.

Esta estimativa de perda está publicada na revista Scientific Reports .

O Pantanal é a maior área úmida do planeta localizada no Brasil, Bolívia e Paraguai

O Pantanal é a maior área úmida do planeta localizada no Brasil, Bolívia e Paraguai.FONTE DA IMAGEM,AFP

A Dra. Mariana Napolitano Ferreira, chefe de ciência do WWF-Brasil, explicou que houve 22 mil incêndios separados registrados naquele ano.

Esta nova pesquisa destaca, dizem os pesquisadores, a importância de prevenir tais desastres no futuro.

Contagem de corpos

O Pantanal queima naturalmente, mas os incêndios florestais de 2020 foram “apocalípticos”, de acordo com o Dr. Alex Lees, um ecologista da Universidade Metropolitana de Manchester que trabalhou extensivamente no Brasil Central, incluindo no Pantanal. 

Eles eram “muito diferentes” daqueles que a região normalmente experimenta e do ciclo típico de queima e recuperação, explicou o Dr. Lees.

“Esses incêndios eram incomuns por causa de sua escala e estavam claramente ligados à megasseca que [a área] estava passando naquela época.

“O Pantanal não pode continuar queimando tanto ano após ano – a biodiversidade não pode se recuperar disso.”

Cervos do brejo que sobreviveram aos incêndios florestaisCervos do brejo que sobreviveram aos incêndios florestais. FONTE DA IMAGEM,CENAP-ICMBIO

O próprio estudo foi baseado em um exercício de contagem de corpos.

Os cientistas conseguiram alcançar áreas do pântano em 48 horas após um incêndio. Eles caminharam por trechos em intervalos definidos e examinaram todos os animais mortos que encontraram.

A equipe conseguiu identificar as espécies de 300 animais que encontraram. Eles então extrapolaram a partir da área que examinaram para dar uma estimativa de quantos animais foram mortos no total. 

Pesquisador coletando um animal morto.  CréditoFONTE DA IMAGEM,CENAP-ICMBIO

O Dr. Walfrido Moraes Tomas, ecologista do instituto de pesquisas Embrapa Pantanal, em Brasília, conduziu o estudo. Ele disse à BBC que ele e sua equipe “não ficaram surpresos com os números”, dada a vasta escala geográfica do desastre.

O que o surpreendeu, disse ele, foi como certos grupos de espécies foram mais impactados do que outros.

“O número extremamente alto de cobras mortas nos faz pensar sobre os efeitos em cascata”, explicou ele. “As cobras são geralmente predadores em pequenos mamíferos, rãs. Esse impacto pode resultar em um desequilíbrio inimaginável no ecossistema.”

O maior roedor do mundo, a capivara, é nativa do PantanalO maior roedor do mundo, a capivara, é nativa do PantanalFONTE DA IMAGEM,CHESTER ZOO

O Dr. Ferreira, do WWF Brasil, explicou que a pesquisa de campo ainda está em andamento. “O impacto imediato foi muito chocante”, disse ela à BBC News. “Mas também precisamos entender como o ecossistema se recupera semanas, meses e anos após os incêndios.”

Uma consequência da mudança climática

Os pesquisadores apontaram que incêndios florestais mais frequentes estão “entre as consequências mais visíveis das mudanças climáticas induzidas pelo homem”.

Visão geral do Pantanal após o incêndio.  Observe a fumaça cobrindo a região de entrada

Vista aérea mostra um trecho do Pantanal após o incêndio. FONTE DA IMAGEM,CENAP-ICMBI

Porém, por mais sombria que seja a conclusão deste estudo, colocar um número robusto na escala deste desastre, de acordo com o Dr. Tomas, poderia impulsionar os esforços para desenvolver “estratégias e políticas adequadas de gestão de incêndios” na região.

Outros cientistas levantaram preocupações sobre a precisão da estimativa neste estudo. Há uma grande margem de erro na extrapolação das poucas centenas de corpos que a equipe contou para o número total de animais perdidos. 

“Eles estão extrapolando em uma área enorme da maior área úmida do mundo, então [o cálculo] é um pouco grosseiro”, explicou o Dr. Lees. 

“Mas não me surpreenderia se essa estimativa for de um estádio – poderia ser mais. Haverá centenas de milhões de criaturas vivendo lá.” 

O Dr. Ferreira descreveu o desastre no Pantanal como “uma mensagem” para a humanidade.

“Isso nos mostra que a natureza está sofrendo, mas também estamos sofrendo – de falta de água potável e de comida”, disse ela. “Precisamos mudar a maneira como interagimos com a natureza se quisermos que as gerações futuras vivam neste mundo.”

O tamanduá-bandeira é uma das milhares de espécies do Pantanal
O tamanduá-bandeira é uma das milhares de espécies do Pantanal. FONTE DA IMAGEM,PA MEDIA 

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela BBC News [Aqui! ].

A Suzano, do Brasil, se orgulha de que suas plantações de madeira para celulose são verdes; críticos discordam

eucaliptal
Por Sue Branford para a Mongabay News

A Suzano, maior exportadora mundial de celulose de eucalipto, vem se distanciando energicamente nos últimos meses do presidente Jair Bolsonaro, notório por sua resistência ao combate ao desmatamento na Amazônia, que aumentou 22% no ano passado.

Membro destacado da Coalizão Brasileira sobre Clima, Florestas e Agricultura , a Suzano participou da cúpula do clima COP26 de novembro em Glasgow, na Escócia. Seu presidente-executivo, Walter Schalka, disse : “Nosso objetivo mais importante é trabalhar para ter metas ambientais mais ambiciosas no curto prazo e encontrar financiamento para esse [esforço].”

A Suzano – que fornece produtos de madeira para celulose para o mundo – afirma enfaticamente que, longe de agravar a crise climática, suas plantações de eucalipto estão ajudando no combate. Schalka disse ao Financial Times que “a floresta plantada vai ser parte da solução de longo prazo para as metas que temos no Acordo [Clima] de Paris ”.

Cristiano Oliveira, gerente executivo de sustentabilidade da empresa, detalhou essa afirmação. Suzano, disse ele, depende de uma vasta base florestal de cerca de 2,3 milhões de hectares (4,9 milhões de acres) – com suas plantações de eucalipto abrangendo uma das “maiores áreas de conservação de propriedade privada no Brasil”, cobrindo cerca de 960.000 hectares (2,4 milhões de acres) .

Essas monoculturas de árvores contribuem para “a preservação das espécies locais, a regulação dos ciclos hidrológicos e a remoção e armazenamento de dióxido de carbono”, disse Oliveira. As novas plantações da empresa, acrescentou, entrelaçam corredores ecológicos, vinculando-os a reservas florestais nativas, para apoiar a biodiversidade, atendendo aos requisitos de proteção do Código Florestal Brasileiro .

A Suzano afirma que só planta eucalipto “em áreas antropizadas e degradadas, então não é verdade que nosso negócio destrói matas nativas”. Também rastreia a origem de seus produtos florestais para garantir que não venham de áreas desmatadas após 1994, conforme exigido pela legislação ambiental brasileira. “Cada pedaço de madeira que cruza nossos portões em nossas fábricas têm um controle sobre ele. Sabemos de onde vem e quem está por trás ”, diz Suzano .

Eucaliptos empilhados, prontos para transporte e beneficiamento. Uma plantação de eucalipto pode ser vista à direita. Imagem de Steve Strauss / Oregon State University via Flickr ( CC BY-SA 2.0 ).

Ambientalistas brasileiros em conflito

Alguns ambientalistas argumentam veementemente contra a visão de mundo otimista da Suzano, dizendo que as plantações da empresa – compostas apenas por árvores de eucalipto não nativas do Brasil – não deveriam ser consideradas como restauração florestal legítima , que deixam de sequestrar carbono a longo prazo e que eucaliptos as monoculturas são, em sua maioria, biologicamente estéreis; enquanto comunidades tradicionais vizinhas reclamam das desigualdades sociais e da grilagem de terras pela empresa.

Mas o novo foco da Suzano em sustentabilidade ambiental e responsabilidade social persuadiu algumas organizações ambientais. Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF Brasil , que está trabalhando com a Suzano, declarou recentemente : “A Suzano é uma boa referência para outras empresas”.

A SOS Mata Atlântica , ONG dedicada à proteção dos remanescentes da Mata Atlântica – o bioma mais ameaçado do Brasil – também colabora com a Suzano. Malu Ribeiro, diretora de políticas públicas da ONG, disse que essa decisão foi difícil, porque a escolha seria polêmica para outros ambientalistas. Mas, acrescentou, referindo-se ao governo Bolsonaro: “O Brasil vive um dos piores momentos anti-ambientais da história do nosso país” e, “se a expansão das plantações de eucalipto ocorrer sem medidas de proteção às matas nativas, nós o faremos enfrentam uma perda irreversível de biodiversidade. ”

Ribeiro acredita que trabalhar com a maior fabricante de celulose e papel da América Latina oferece novas oportunidades de conservação e é um exemplo de cooperação bem-sucedida entre a ONG, prefeituras e a Suzano que obedece às leis ambientais brasileiras. “Sem a pressão internacional do mercado, a Suzano não mudaria seu comportamento”, disse ela. “Estamos aproveitando o momento para criar ‘um bom agronegócio’. que se distancia da própria elite rural reacionária aliada de Bolsonaro. ”

Ribeiro reconhece, no entanto, que as plantações de eucalipto têm desvantagens ambientais, incluindo a redução do nível do lençol freático (potencialmente impactando florestas nativas e fazendas próximas) e despejando grandes quantidades de substâncias tóxicas nos rios. Mas ela acredita que a cooperação da ONG com a Suzano levará a tempo a acordos que eliminem as piores práticas.

A subsidiária da Suzano, FuturaGene, divulgou um pôster expressando suas opiniões e listando as vantagens do eucalipto GM sobre o eucalipto convencional. Embora a Suzano ainda não esteja cultivando o eucalipto GM em escala comercial, espera-se que o faça em breve. Imagem cortesia da FuturaGene.

Uma solução climática para celulose?

Não surpreendentemente, a Suzano usa suas parcerias com organizações ambientais para promover e aprimorar suas credenciais verdes, e provavelmente espera que suas plantações sejam aceitas pela comunidade internacional como parte da chamada amplamente apoiada por reflorestamento em escala mundial para combater as mudanças climáticas. De acordo com as regras atuais da ONU , “tanto uma plantação industrial de monocultura de árvores de eucalipto quanto uma floresta tropical com suas centenas de espécies de árvores diferentes são classificadas como floresta”.

No entanto, os críticos dessa política da ONU dizem que não há comparação entre a imensa capacidade de armazenamento de carbono e a extensa biodiversidade de uma floresta nativa brasileira e de uma plantação de árvores. Ativistas e alguns pesquisadores apelidaram as monoculturas de eucalipto de desertos biológicos ”, embora outros pesquisadores digam que isso exagera.

A estreita associação da empresa com o reflorestamento global não é boa apenas para a imagem da Suzano junto aos consumidores ecologicamente corretos, como os da União Européia. Também poderia ajudar a empresa a obter financiamento do governo no curto prazo, possivelmente arrecadando alguns dos US $ 19,2 bilhões prometidos pela Declaração Florestal de Glasgow, anunciada na COP26 em novembro, “para deter e reverter a perda florestal e degradação da terra” até 2030.

No longo prazo, a Suzano espera ter suas plantações reconhecidas pelas autoridades governamentais como contribuintes das Contribuições Determinadas Internacionalmente (NDCs) do Brasil – as promessas de redução de emissão de carbono do país feitas como parte do Acordo de Paris de 2015. Essa designação pode abrir novas possibilidades de financiamento no futuro, possivelmente na forma de apoio financeiro internacional, subsídios e incentivos fiscais.

Mongabay perguntou à Suzano se suas novas plantações seriam incluídas nos NDCs do Brasil e a empresa respondeu: “O Brasil anunciou ajustes em seus NDCs muito recentemente durante a COP26, mas toda a gama de ações relacionadas a ele ainda não foi totalmente divulgada.”

Com base no ano de referência de 2005, o compromisso do Brasil de 2020 da NDC aprovado na COP26 compromete a nação a reduzir as emissões líquidas totais de gases de efeito estufa em 37% em 2025, em 43% em 2030, e alcançar a neutralidade climática (emissões líquidas zero ) em 2060. O WWF foi altamente crítico em relação ao compromisso do Brasil de 2020 com o NDC, observando em parte que, “A omissão de medidas para reduzir o desmatamento, as emissões de combustíveis fósseis e subsídios, e para encorajar ações de restauração florestal e a adoção de sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta, entre outros áreas (que foram incluídas no [Brasil original de 2015] NDC) tornam o novo [2021] NDC uma proposta vaga e desfocada em comparação com a anterior. ”

As plantações de eucaliptos têm sido descritas como “desertos verdes”, preservando pouca biodiversidade nativa. E embora as Nações Unidas considerem as fazendas de árvores como sumidouros de carbono, pesquisadores e ativistas dizem que a vegetação nativa fornece melhor sequestro do que o eucalipto. Imagem de Cássio Abreu via Flickr.
Um campo após a colheita do eucalipto.  Foto de Ignacio Amigo para Mongabay
Uma paisagem quase estéril após a colheita do eucalipto. Imagem de Ignacio Amigo para Mongabay

Controvérsia em andamento sobre as plantações de eucalipto

Alguns ambientalistas acreditam que é um erro cooperar com a Suzano na promoção de sua imagem de aliada da conservação da floresta porque, dizem, a designação verde obscurece os impactos danosos das plantações de eucalipto.

Não há dúvida de que o eucalipto ( Eucalyptus spp.), Nativo do oeste da Austrália, é uma espécie de árvore útil. Altamente tolerante a solo infértil, sua polpa é transformada em papel higiênico, lenços de papel e outros produtos de papel; enquanto a árvore é utilizada globalmente para projetos de reflorestamento em grande escala. Em 2015, as plantações de eucalipto do mundo cobriram 20 milhões de hectares (49,4 milhões de acres), com o Brasil detendo a maior parcela de 4,12 milhões de hectares (10,4 milhões de acres).

A expansão das plantações de eucalipto está aumentando atualmente tanto na China quanto no Brasil. De acordo com o Instituto de Geografia e Estatística do governo brasileiro (IBGE), a área coberta no Brasil por essas plantações em 2019 aumentou para 7,6 milhões de hectares (18,8 milhões de acres).

O eucalipto cresce rapidamente, por isso é elogiado por sua capacidade de captura de carbono. Um estudo de 2018 descobriu que “O dióxido de carbono removido por [todas] as plantações florestais brasileiras ao longo dos 26 anos [1990-2016] representam quase a totalidade das emissões de [carbono] do país na agricultura, silvicultura e outros setores de uso da terra em 2016. ” Os pesquisadores concluíram que “as plantações florestais desempenham um papel importante na mitigação das emissões de GEE (gases de efeito estufa) no Brasil”. Em 2016, aponta o estudo, as plantações de eucalipto, que então se expandiam rapidamente, representavam 71% de todas as plantações no país. A pesquisa também sugeriu que as plantações poderiam desempenhar um papel na realização dos PADs do Brasil.

Outros pesquisadores argumentam que não é suficiente contar apenas a quantidade de carbono que o eucalipto captura à medida que cresce. Markus Kröger, professor associado de desenvolvimento global na Universidade de Helsinque, apontou os resultados de um estudo de 2004  que mostra que as mudanças no uso da terra associadas à produção de eucalipto, incluindo “acidificação do solo e diminuição do carbono orgânico do solo”, levaram a um declínio acentuado no carbono armazenado , cancelando cerca de 80% do carbono capturado pelo eucalipto.

Colheita em andamento em uma plantação de eucalipto no Brasil. Imagem de Steve Strauss / Oregon State University via Flickr ( CC BY-SA 2.0 ).

Além disso, como o eucalipto cresce muito rapidamente e é derrubado em rápida rotação, o carbono que ele captura não é armazenado por um longo prazo como na floresta nativa, mas logo é liberado de volta à atmosfera. Um relatório da Environmental Paper Network (EPN), um coletivo global de pesquisadores de clima e proteção florestal, concluiu: “Dentro de dois a três anos após a colheita [do eucalipto], quase todo o CO 2 ‘armazenado’ é liberado novamente na atmosfera. ”

Existem outras preocupações importantes. “As fábricas de celulose poluem fortemente, com a produção de um milhão de toneladas de celulose levando a pelo menos dois milhões de toneladas de emissões de carbono”, disse Kröger. “Essas informações são ocultadas pelas empresas de celulose e não são consideradas nos cálculos.”

Geraldo Wilson Fernandes, professor de ecologia na Universidade Federal de Minas Gerais, no Brasil, concorda: “Precisamos considerar a pegada que essas plantações têm em geral. Existem problemas decorrentes da queima de resíduos, do beneficiamento da madeira, do plantio de árvores onde elas não ocorrem naturalmente ”.

Fernandes destaca outra diferença fundamental entre fazendas de árvores e floresta natural: “Essas plantações homogêneas, ou monoculturas, têm uma diversidade de espécies muito menor quando comparada ao ambiente que foi destruído para abrir caminho para elas. Eles têm menos pássaros, menos mamíferos, menos insetos e menos polinizadores … Junto com isso, as empresas sempre usam agrotóxicos [químicos tóxicos] que tornam a situação muito mais grave. A floresta parece um deserto em comparação com o ecossistema nativo. ”

Kröger conclui: “As plantações de eucalipto não são sustentáveis ​​para o Brasil ou qualquer outro país. A expansão das monoculturas de árvores é característica do fenômeno mais amplo da grilagem de terras, que é impulsionado pela lógica financeira dominante do capitalismo atual ”. Os críticos argumentam que a regra do Acordo de Paris que iguala as plantações de árvores às florestas nativas não é totalmente baseada na ciência, mas foi alavancada pela indústria florestal e por nações com grandes áreas florestais como os EUA, Rússia e Brasil.

Um toco toco em uma floresta brasileira. Os especialistas destacam o fato de que as plantações homogêneas, ou monoculturas, têm uma diversidade de espécies muito menor quando comparada ao ambiente que foi destruído para dar lugar a elas. Imagem de Rhett A. Butler / Mongabay.

Suzano: uma empresa com uma história variada

Em 1920, Leon Feffer chegou ao Brasil vindo da Ucrânia, fugindo de pogroms contra os judeus. Então, em 1939, ele comprou duas fábricas de papel que usavam celulose de fibra longa importada; uma dessas fábricas ficava na cidade de Suzano, no interior de São Paulo, que Feffer adotou como nome da empresa.

Após a segunda Guerra Mundial, a demanda por papel disparou, e o filho de Leon desenvolveu um novo processo de fabricação, usando celulose de fibra curta de árvores de eucalipto cultivadas no Brasil. Desde então, a Suzano tem se expandido fortemente, aumentando tanto as plantações de eucalipto quanto a capacidade de fabricação de celulose.

Antes de se tornar uma das gigantes mundiais da celulose, a Suzano atuou em outros setores, inclusive na petroquímica. E, como muitas grandes empresas brasileiras, seu crescimento foi marcado por denúncias de corrupção. Investigadores federais durante o escândalo Lava Jato descobriram que em 2007 a Petrobras, a estatal brasileira de petróleo, pagou três vezes o preço de mercado pela compra da petroquímica Suzano, Suzano Petroquímica, enquanto também assumia as dívidas da empresa. A Petrobras pagou R $ 4,1 bilhões (US $ 2,1 bilhões) por uma empresa avaliada em apenas R $ 1,4 bilhão (US $ 706 milhões).

Mais recentemente, a Suzano consolidou sua posição de liderança no mercado de celulose. Em 2018, comprou a Fibria, que até então era a maior produtora de celulose do país. Facilitando esse negócio estava o BNDESPar, o braço acionário do gigante estatal Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o acionista majoritário de ambas as empresas de celulose. A imprensa brasileira criticou severamente a aquisição porque o BNDES usou dinheiro público para facilitar a criação de um enorme monopólio privado. “Existem cerca de US $ 2,5-US $ 3 bilhões de sinergias nesta transação”, disse o CEO da Suzano Schalka, que defendeu o negócio , explicando que as duas empresas combinadas aumentaram a competitividade futura.

Hoje a Suzano é uma empresa gigantesca. As plantações de propriedade da empresa cobrem 2,3 milhões de hectares (4,9 milhões de acres). A empresa é, de longe, a maior produtora de celulose do Brasil e, atualmente, suas 10 fábricas têm capacidade para produzir 10,9 milhões de toneladas de celulose por ano. Em 2017, o Brasil produziu 10,2 milhões de toneladas de celulose, muito menos do que a produção da China (99,3 milhões de toneladas) e dos Estados Unidos (75,1 milhões de toneladas). Mas seu consumo interno muito menor significava que o Brasil era o maior exportador global de celulose, com 17% do mercado mundial.

A produção de celulose da Suzano deve aumentar rapidamente. A empresa afirma estar plantando mais de 500 milhões de mudas de eucalipto por dia, o que em breve adicionará nove milhões de hectares (22 milhões de acres) às suas plantações de eucalipto. A empresa também está construindo uma nova fábrica de celulose de eucalipto em Minas Gerais. Oliveira, da Suzano, disse à Mongabay que será a planta mais eficiente da empresa, com capacidade de produção de celulose de 2,55 milhões de toneladas anuais.

A Suzano continua adotando novas tecnologias. O eucalipto geneticamente modificado (GM) desenvolvido pela FuturaGene, subsidiária da Suzano, produz 20% a mais de madeira e foi aprovado para uso comercial pelo governo em 2015, mas ainda não foi implantado comercialmente. Em novembro de 2021, Brasil aprovou outra eucalipto GM, este modificado para ser resistente ao controverso ligada ao câncer de herbicida glifosato, mais conhecido como Roundup.

Terra desmatada para dar lugar a plantação de eucalipto. Imagem cortesia de Flávia Bernardes, FASE
Um fazendeiro mantém abóboras cultivadas perto de uma plantação de eucalipto no Brasil. Os ativistas contra as plantações de eucalipto dizem que as árvores de crescimento rápido absorvem água e nutrientes, arruinando as terras agrícolas ao redor – sem falar no problema com os pesticidas que às vezes acabam no abastecimento de água. Imagem de Hanna Nikkanen via Flickr ( CC BY-NC-SA 2.0 ).

Conflitos sociais contínuos

A expansão agressiva da Suzano gerou conflitos com as comunidades tradicionais do Brasil, algumas das quais perderam suas terras. Isso deixou um legado de má vontade e ressentimento em algumas localidades próximas às plantações e fábricas de celulose.

“Por incorporar várias outras empresas, a Suzano acumulou imensos passivos socioambientais, além de uma longa trajetória de violações e ilegalidades, por ter promovido um nefasto modelo de monoculturas de eucalipto em escala industrial ao longo de várias décadas , ”Disse Winnie Overbeek, coordenador internacional do Movimento Mundial pela Floresta Tropical .

Alguns conflitos ainda estão ocorrendo. Flávia dos Santos, líder do Território Tradicional Quilombola do Sapê do Norte, entre São Mateus e Conceição da Barra, no norte do Espírito Santo, foi contundente em sua denúncia do impacto das plantações de Suzano: “Vivemos de vinhas, peixes, … e a mandioca … a gente depende da terra, do rio e da floresta para sobreviver ”, mas, disse ela, a Suzano planta eucalipto nas cabeceiras desses cursos d’água. “Os rios secam ou as nascentes ficam poluídas. Acabamos sem as condições mínimas de sobrevivência. ”

“Temos uma luta diária com a Suzano”, acrescentou. “A monocultura do eucalipto chegou atropelando tudo e, com o racismo, tomou nossas terras. Terra que pertenceu aos nossos ancestrais. Terra que era nosso meio de sobrevivência. Os quilombolas [comunidades habitadas por descendentes de escravos fugitivos] aqui tinham de tudo em abundância – peixes, campos, matas. Mas hoje estamos construindo nossas casas umas em cima das outras porque não temos espaço ”.



Sapezeiro, um residente do Sapê do Norte Quilombola, estado do Espírito Santo, Brasil. O solo foi degradado por décadas de uso de pesticidas, mas os residentes usam métodos agrícolas tradicionais para restaurá-lo a algo semelhante à sua vitalidade anterior. Imagem cortesia de Flávia Bernardes, FASE.

De acordo com a legislação brasileira, esse quilombola deveria estar seguro em sua proteção à terra. Isso porque a Fundação Cultural Palmares, instituição pública de defesa da cultura afro-brasileira, há uma década certificou a validade da afirmação de quilombola da comunidade e agora aguarda o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) para demarcar seu território. Apesar disso, o processo de titulação de terras para suas 32 comunidades não foi concluído pelo governo, e muitos temem que os residentes tradicionais sejam forçados a deixar suas terras com a expansão das plantações de eucalipto.

Cristiano Oliveira, empresa de celulose, admite o conflito: “A Suzano tem trabalhado para recuperar, por via judicial, algumas áreas de sua propriedade no norte do Espírito Santo que estavam ocupadas ilegalmente. Ressaltamos, entretanto, que desde o início da pandemia não foram realizadas ações de retomada da posse para as áreas alegadamente ocupadas por comunidades quilombolas, que permanecem no local. ”

A Suzano afirma que, desde que respeitados os seus direitos de propriedade, faz questão de colaborar: “Reconhecemos a importância das comunidades locais, por isso a Suzano se relaciona com todas as comunidades da região. Temos várias linhas de investimento social que beneficiam diretamente algumas organizações sociais no norte do Espírito Santo, incluindo mais de 20 associações quilombolas ”.

Mãe e filhos plantam mudas no reflorestamento do Quilombola Sapê do Norte. Imagem cortesia de Século Diário

O caminho a seguir

As opiniões divergem sobre se a recente dedicação da Suzano ao ambientalismo significa que pode ser encontrada uma maneira de tornar suas plantações de eucalipto sustentáveis ​​e socialmente e conservadoras.

“O aumento das plantações de eucalipto está causando graves impactos negativos na biodiversidade e está causando mais pobreza, injustiça social e danos ao planeta”, diz Fernandes, mas continua confiante de que soluções podem ser encontradas. “Empresas como a Suzano têm funcionários muito capacitados e bem treinados. Eles poderiam facilmente aplicar a ciência para tornar seus negócios verdadeiramente sustentáveis. Não estou falando de sustentabilidade econômica, mas de sustentabilidade ambiental, ecológica e social permanente. ”

Kröger tem menos certeza. “Acho que o atual modelo de plantação de eucalipto está tão arraigado no modelo básico de negócios da Suzano, que quer até ser pioneira na expansão de eucalipto GM resistente ao glifosato, que [a sustentabilidade ambiental] não é possível. Empresas como a Suzano precisam ser tratadas mais como empresas de combustíveis fósseis, como resquícios de um modelo de negócio obsoleto, do qual é preciso desinvestir rapidamente. As empresas devem transformar radicalmente seus modelos de negócios e práticas florestais, se quiserem se tornar parte da solução. ”

Kröger diz que os verdadeiros aliados dos ambientalistas na luta para conter as mudanças climáticas não são grandes corporações. “Comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas e outras comunidades rurais podem dar uma grande contribuição [ao meio ambiente], ao substituir o eucalipto e outras monoculturas e áreas de pastagem por sistemas agroflorestais, que forneceriam alimentos além de trazer solo, clima, hidrológicos e socioambientais -benefícios econômicos.”

Imagem do banner: Uma plantação de eucalipto no Brasil. Imagem de Victor Camilo via Flickr ( CC BY-ND 2.0 ).

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela MongaBay News [Aqui!]

Mercado Europeu não quer mais consumir carne do desmatamento

O boicote é resultado da ligação direta de frigoríficos do Brasil com violações ambientais e registro de propriedade irregular

unnamed (41)Sobrevoo do Greenpeace Brasil em 2020 em fazenda na Amazônia © Christian Braga / Greenpeace

Manaus, 16 de dezembro de 2021 – Varejistas da União Europeia anunciaram nesta quarta-feira (15) que deixarão de comprar carne bovina do Brasil pela relação direta com o desmatamento na Amazônia. O boicote aponta que o mercado internacional não quer mais consumir produtos ligados com a destruição das florestas. Segundo um levantamento feito pelo Greenpeace Brasil, grandes frigoríficos do país, como JBS e Frigol, compraram gado de forma direta ou indireta, de fazendas com desmatamento ilegal localizadas em áreas públicas federais e suspeitas de grilagem.

“O sinal está mais do que claro, não há mais espaço para desmatamento na Amazônia. A COP-26 evidenciou que a crise climática é uma realidade e que para contê-la será necessária a união de diversos esforços em diferentes países. Se por um lado os frigoríficos se omitem em tomar as decisões necessárias para frear práticas ilegais na sua cadeia de custódia, por outro, parlamentares europeus, varejistas e consumidores mostram a importância de seu papel e iniciam um movimento de basta. Basta de desmatamento na Amazônia. Esperamos que em um futuro muito próximo esse tipo de atitude seja seguido pelo mercado interno brasileiro”, afirma André Freitas, gerente da campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil.

O levantamento ainda aponta que a apropriação ilegal de terra pode aumentar na Amazônia e elevar o desmatamento em curso caso sejam aprovados pelo Senado alguns dos projetos de Lei conhecidos como PL da Grilagem (PL 2633/2020 e PL 510/2021) e PL do Licenciamento Ambiental (PL 2159/2021), conhecido como o PL da Boiada. Esta é a terceira manifestação europeia – em menos de duas semanas -, contra o desmatamento na Amazônia.

No início de novembro, a eurodeputada Anna Cavazzini, vice-Presidente da Delegação do Parlamento Europeu para as Relações com o Brasil, enviou uma carta endereçada ao presidente do senado Rodrigo Pacheco, e também para os senadores Jaques Wagner e Acir Gurgacz, manifestando a sua preocupação com a possibilidade de aprovação dos PLs. Além disso, no início desta semana, foi a vez de 31 membros do parlamento dinamarquês de, cinco diferentes, partidos enviarem uma carta novamente ao presidente do Senado brasileiro manifestando preocupação com a disparada do desmatamento e das emissões de gases na atmosfera.