Natal sem desmatamento: consumidores cobram marcas de moda sobre relação com desmatamento

Recentemente, centenas de empresas de moda foram ligadas à destruição da Amazônia por meio das cadeias de abastecimento de couro. Mesmo signatárias de acordos ambientais e climáticos, muitas delas não têm políticas para desmatamento zero em suas redes produtivas

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O Projeto de Lei nº 2.159/2021, conhecido como #PLdaBoiada, que visa regularizar o desmatamento no Brasil a partir do libera geral, é a mais recente tentativa de Jair Bolsonaro de destruir a Amazônia, os povos que ali residem bem como qualquer chance de alcançar as metas dos acordos climáticos. 

Centenas de marcas de moda conectadas ao desmatamento da Amazônia assumiram compromissos no combate às mudanças climáticas na COP 26 ao se tornarem signatárias, ou reforçarem seu compromisso com o Fashion Industry Charter for Climate Action (UNFCCC). No entanto, a ZERO marcas disponibiliza compromissos mensuráveis com o desmatamento zero conforme revelou o Índice de Transparência da Moda Brasil (ITMB), lançado pelo Instituto Fashion Revolution em novembro. Dados do Observatório do Clima mostram que o desmatamento é o principal vetor de emissões de gases de efeito estufa no Brasil (70%). 

Recentemente, uma pesquisa realizada pela Stand Earth, organização especializada em análise de cadeias de custódia, revelou que todas as marcas que se abastecem direta ou indiretamente da JBS para couro estão ligadas ao desmatamento da floresta tropical amazônica. As marcas com múltiplas conexões com fornecedores-compradores da JBS são as que possuem mais risco de terem produtos associados ao desmatamento. 

“As conclusões da pesquisa mostram que marcas de moda multinacionais, do fast fashion ao luxo, estão financiando, por meio de sua cadeia produtiva, o desmatamento da Amazônia. Ao mesmo tempo, mais de 200 pesquisadores revelaram durante a COP como a floresta está próxima de atingir um ponto de não retorno. O setor da moda é responsável por isso, mas não está comprometido em limpar sua rede produtiva”, afirma Marina Colerato, do Instituto Modefica, organização que atua por justiça socioambiental e climática, e que vem articulando no Brasil a campanha internacional #SupplyChange, com objetivo de exigir rastreabilidade das redes produtivas e metas mensuráveis para desmatamento zero por parte das corporações de moda. 

Quase 200 marcas pertencentes a 74 empresas foram mapeadas. 22 dessas 74 empresas (30%) estão potencialmente violando suas próprias políticas contra a utilização de couro proveniente de desmatamento. Os outros dois terços não possuem qualquer política a esse respeito. Estamos falando de marcas como Nike, Asics, Puma, H&M, Louis Vuitton, Tiffany & Co, Vans, Prada e muitas outras. 

Nome aos Bois 

Criada pela organização The Slow Factory, a campanha #SupplyChange tem como objetivo exigir comprometimento das marcas de moda multinacionais com o desmatamento zero em suas redes produtivas. O momento é crucial pois acontece em meio a tentativa de aprovação do PL 2.159/2021, cujo principal objetivo é facilitar e legalizar o desmatamento da floresta pelo agronegócio.  

Nas redes sociais, a campanha internacional chamou atenção para o papel de Rodrigo Pacheco nessa decisão, o que levou o político a desativar suas redes sociais. A pressão por meio das redes se estendeu para o Brasil, com objetivo de cobrar comprometimento com desmatamento zero hoje das marcas de moda que estão relacionadas ao desmatamento da floresta e são signatárias do Fashion Industry Charter for Climate Action. No Brasil, a ação retoma a #NomeAosBois, importante por relacionar as corporações com o desmatamento da floresta. Além de pressionar as marcas, a campanha sinaliza para a importância da articulação setorial para a não aprovação do PL, dado os interesses de preservação de imagem de marca.

“A aprovação do PL inundará as redes produtivas de matérias-primas oriundas do desmatamento. Isso compromete o ativo mais importante que as corporações têm hoje, a percepção pública da marca. Quando a CEO de uma corporação de moda senta para almoçar com o presidente do país, sua influência política deixa de ser segredo. A indústria da moda tem influência e, portanto, pode se articular para evitar o que será um completo desastre para nós e para a floresta”, finaliza Marina. 

Fonte: Relatório Stand Earth

Fonte: Modefica

Mais imagens com comentários dos consumidores no link: https://www.dropbox.com/sh/vngewa1fw9slatq/AAAZ7jNt8vVtcAHja__JGJ5za?dl=0

Para ver os materiais da campanha, acesse: https://modefi.co/insta-couro-desmatamento.

Para ver os materiais da pesquisa, acesse: https://www.stand.earth/publication/forest-conservation/amazon-forest-protection/amazon-leather-supply-chain 

Para mais informações da campanha, entre em contato com: contato@modefica.com.br.

Para informações da pesquisa, entre em contato com: SRG@stand.earth.  

Contato para imprensa:redacao@modefica.com.br

Sobre o Modefica

O Modefica é uma mídia independente criada em 2016, fundada por Marina Colerato, com objetivo de fomentar o debate e o entendimento sobre sustentabilidade de forma ampla e radical, usando o jornalismo como ferramenta de transformação. Produz reportagens, matérias, opinativos e pesquisas sobre questões ambientais, climáticas e sociais, além de podcasts e conteúdo multimídia.

 

Governo Bolsonaro reforçou agricultura dependente de agrotóxicos com novo recorde de aprovações em 2021

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Como já mostrado ao longo deste ano através das publicações do “Observatório dos Agrotóxicos”, o governo Bolsonaro quebrou um novo recorde de aprovações de agrotóxicos em 2021, tendo ultrapassado o total de 500 novas liberações.  E o pior é que dos agrotóxicos liberados até o início de dezembro, 94% (ou seja 470) eram de produtos genéricos, com uma quantidade significativa de substâncias banidas em outras partes do mundo por causa de sua alta periculosidade para seres humanos e o meio ambiente. Na prática, esses dados desmentem as alegações do governo Bolsonaro de que a tsunami de agrotóxicos se destinava a modernizar o portfólio existente e a baratear o custo desses produtos. É que nem uma das duas coisas aconteceu.

Mas se engana quem acha que os setores mais interessados nessa verdadeira tsunami de agrotóxicos altamente perigosos estão satisfeitos com a “agilidade” demonstrada pelo governo Bolsonaro. É que a aliança formada por produtores de venenos agrícolas e grandes latifundiários envolvidos na exportação de commodities agrícolas querem fazer aprovar em 2022 o chamado “Pacote do Veneno (o PL 6.299/2002) cujo objetivo é praticamente abolir a regulação existente para a produção e utilização de venenos agrícolas. Se aprovado, o Pacote do Veneno causará uma aceleração ainda maior no consumo de agrotóxicos, o que deverá contribuir para um aumento da contaminação de alimentos, águas e solos, além de expor os trabalhadores rurais que manuseiam esses produtos a taxas ainda maiores de adoecimento.

Há que se dizer que o uso massivo de agrotóxicos no Brasil decorre da implantação de grandes áreas de monoculturas de poucas commodities, que incluem a soja, o algodão, a cana de açúcar e o milho. Todas essas monoculturas contribuem para mais de 80% do consumo de agrotóxicos no Brasil. Desta forma, qualquer alegação de que esse abusivo de agrotóxicos se destina a garantir a produção de alimentos para a mesa dos brasileiros não passa de uma mentira grosseira. 

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Aliás, falando sobre a relação existente o uso de agrotóxicos e o consumo de alimentos pelos brasileiros, é importante lembrar que a recente a publicação dos resultados do Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes em alimentos (PNCRC) mostrou um grave processo de contaminação não apenas por agrotóxicos, mas também por metais pesados. Isto objetivamente coloca em risco a saúde dos brasileiros que estão hoje submetidos a um modelo agrícola totalmente dependente de substâncias altamente perigosas para produzir.

Assim, dentre as muitas questões importantes a serem tratadas em 2022 está a aprovação do “Pacote do Veneno”, pois se esta questão for deixada apenas no âmbito do congresso nacional, a aprovação será inevitável

À mercê do tempo

Seca, tempestades, calor e frio extremos – as mudanças climáticas estão afetando a economia global

tempestadesTempestades como os tornados devastadores recentemente nos Estados Unidos também estão paralisando partes da vida econômica. Foto: dpa / Lexington Herald-Leader / AP / Ryan C. Hermens

Por Anke Herold para o Neues Deutschland

Nem todos os presentes de Natal estarão debaixo da árvore de Natal a tempo este ano. Problemas de entrega massiva afetam muitos produtos, como laptops, consoles de jogos, dispositivos elétricos, móveis e brinquedos. A pandemia de corona e bloqueios regionais fecharam fábricas, portos ou aeronaves, bloquearam fronteiras e interromperam as cadeias de abastecimento . No entanto, raramente é discutido que a mudança climática também é um grande contribuinte para os gargalos de entrega que todos estamos sentindo agora.

Um exemplo são os chips eletrônicos que estão faltando nos carros ou dispositivos eletrônicos. Em fevereiro de 2021, houve fortes tempestades de neve no Texas e as temperaturas caíram para níveis mais baixos do que nos 40 anos anteriores. O motivo é a corrente de jato, que forma padrões cada vez mais instáveis porque o vórtice polar está se enfraquecendo com mais frequência devido às mudanças climáticas. A grande entrada de ar frio pode então penetrar mais profundamente no sul dos EUA. O fornecimento de energia no Texas caiu por semanas e fabricantes de chips como Samsung e Infineon tiveram que interromper a produção. As fábricas de semicondutores não podiam mais ser fechadas de maneira controlada. Isso não só danificou as instalações de produção, mas também componentes da infraestrutura da obra. A produção de chips em Taiwan também falhou este ano devido às consequências das mudanças climáticas: aqui, no entanto, foi uma seca que fez com que os fabricantes de semicondutores TSMC e UMC ficassem sem água potável para a produção.

Os cenários da consultoria de negócios McKinsey presumem que os furacões em 2040 impedirão a produção de semicondutores na Ásia por meses duas a quatro vezes mais do que hoje. A probabilidade de que chuvas extremas e deslizamentos de terra atrapalhem a produção de terras raras deve dobrar ou triplicar até 2030. A produção de terras raras está concentrada no sudeste da China, onde chuvas extremas estão se tornando mais comuns. Então, outros componentes de produtos eletrônicos – por exemplo, telefones celulares, computadores e baterias – podem ser afetados por gargalos de entrega.

Também a falta de madeira e o aumento drástico dos preços da madeira não estão apenas relacionadas entre si, mas também à crise climática. O besouro do pinheiro da montanha destruiu mais de 180.000 quilômetros quadrados nas florestas do Canadá e da América do Norte. O aumento das temperaturas e, acima de tudo, os invernos amenos proporcionam ao besouro excelentes condições de reprodução. Por causa da praga do besouro, a extração de madeira no Canadá caiu drasticamente; O Canadá normalmente cobre um quarto da demanda de madeira dos Estados Unidos. Também nos EUA, menos madeira foi cortada do que o normal devido ao inverno rigoroso. Ao mesmo tempo, os incêndios nos últimos anos destruíram grandes áreas de floresta nos EUA e Canadá. Como resultado, a madeira está sendo cada vez mais fornecida aos EUA pela Alemanha, os preços estão subindo e de repente a madeira para construção, madeira para móveis e até mesmo papel estão se tornando escassos e caros na Alemanha. E as empresas de construção têm que enviar seus funcionários para trabalhos de curta duração devido à falta de materiais, apesar dos livros de pedidos cheios.

Os exemplos de produção de cavacos e madeira deste ano mostram como a crise climática pode se transformar em uma crise de produção global. A maior frequência e a intensidade cada vez maior de condições climáticas extremas, como tempestades, secas, calor, inundações e chuvas fortes, levam a paradas de produção, interrupções mais frequentes nas cadeias de abastecimento globais e, portanto, ao aumento dos preços. Por um lado, isso afetará mais os alimentos e as matérias-primas naturais, uma vez que sua produção é diretamente influenciada pelas condições climáticas extremas. Por outro lado, também existem cadeias de abastecimento para produtos que são principalmente fabricados em uma determinada região ou em alguns locais e têm rotas de entrega longas. A adaptação às mudanças climáticas será, portanto, uma tarefa fundamental para as empresas, seja na forma de instalações de produção à prova de desastres, seguro ou ações maiores. No futuro, a provisão de longo prazo será mais decisiva para o desenvolvimento das empresas do que conceitos ultrapassados como a produção just-in-time.

Anke Herold é geoecologista Anke Herold e diretora administrativa do Öko-Institut Freiburg.

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Este texto foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

Kanindé e WWF-Brasil treinam e equipam povos originários de Rondônia para monitoramento de invasões e outros crimes ambientais

Iniciativa faz parte de estratégia de formação de redes de proteção permanentes

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Uma parceria entre o WWF e a Associação de Defesa Etno-Ambiental Kanindé resultou em um curso de pilotagem de drones para um grupo de indígenas e não indígenas que protegem a floresta amazônica. O drone será usado como uma ferramenta para ajudar a monitorar áreas protegidas contra invasões, desmatamento e grilagem de terras. Nesta foto: Juwi Uru Eu Wau Wau (R) e seu marido Awapy Uru Eu Wau Wau Foto Marizilda Cruppe / WWF

A partir do uso de tecnologia de última geração aplicada à conservação da natureza, e contando com parcerias estratégicas de longo prazo com organizações locais da Amazônia, o WWF-Brasil colocou em ação um projeto de proteção territorial, em parceria com a Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, que está fortalecendo a capacidade de povos indígenas de Rondônia monitorarem seus próprios territórios.

A iniciativa prevê a formação e expansão de uma verdadeira rede amazônica de proteção, reforçando o protagonismo dos povos indígenas, e vai utilizar diversos recursos tecnológicos para um monitoramento profissionalizado e contínuo de Terras Indígenas e outros territórios tradicionais.

As Terras Indígenas e territórios de populações tradicionais – como as Reservas Extrativistas – têm papel central na conservação da natureza. As comunidades indígenas sempre atuaram na vigilância e proteção de seus próprios territórios e, por isso, são tão bem preservadas: apenas 1,6% da perda de florestas e vegetação nativa no Brasil entre 1985 e 2020 ocorreu em terras indígenas. Ao mesmo tempo, esses territórios possuem um imenso patrimônio natural. Terras Indígenas e reservas extrativistas correspondem a cerca de 30% de toda a área da Amazônia.

Porém, a defesa desses territórios por seus próprios habitantes tem se tornado cada vez mais difícil, por conta da crescente pressão por parte de madeireiros, garimpeiros, grileiros e outros grupos criminosos. A omissão dos órgãos competentes em proteger os territórios indígenas tem impulsionado o desmatamento e as invasões, tornando o trabalho de monitoramento não apenas necessário, mas também mais arriscado.

Por isso, um dos objetivos da iniciativa é justamente empregar a tecnologia para que seja possível identificar e registrar invasões sem que, necessariamente, as pessoas envolvidas nas ações de monitoramento tenham que se aproximar das áreas de risco onde os criminosos estão atuando.

Em Rondônia, onde os trabalhos estão em curso, a organização parceira do WWF-Brasil é a Kanindé, que atua há quase 30 anos em ações de proteção territorial na Amazônia. De acordo com Israel Vale, coordenador técnico da Kanindé, o contexto geral do projeto se baseia na formação dos indígenas para o uso de tecnologias de monitoramento. Ele conta que dois treinamentos para uso de tecnologias na proteção territorial já foram realizados no estado, em setembro e no início de dezembro deste ano.

“Combinamos a formação para o uso de aplicativos online de monitoramento de queimadas e desmatamento com o uso de tecnologias em campo, incluindo protocolos de monitoramento, segurança e pilotagem de drones para uso específico na atividade de monitoramento”, afirma Israel.
 De acordo com ele, outra vertente do projeto fortalece a comunicação entre os indígenas e o apoio para advocacy e assistência jurídica. “Temos um corpo jurídico que dá respaldo às denúncias feitas com base na coleta de dados. O grupo jurídico formaliza as denúncias, dando celeridade aos processos”, explica.

“Para isso, o WWF-Brasil nos apoia com sua estrutura jurídica e de comunicação e nos ajuda na captação de recursos. Além disso, temos uma parceria técnica que já ofereceu três treinamentos que contaram com a participação de três técnicos do WWF-Brasil”, completa Israel.

Centro de monitoramento

O projeto inclui também a instalação de um centro de monitoramento remoto em Porto Velho, para ampliar as ações feitas diretamente nos territórios. “Já estamos na fase final de instalação desse centro. Com isso, o trabalho de monitoramento em campo será complementado com o acompanhamento constante via satélite”, salienta Israel.

Ele conta que a parceria com o WWF-Brasil já é antiga, mas o novo projeto dá outra dimensão à colaboração. Avalia que, depois da participação de membros da Kanindé em um treinamento para pilotagem de drones, realizado pelo WWF-Brasil em Porto Velho no fim de 2019, ficou evidente a importância de agregar novas tecnologias e protocolos à atividade de proteção territorial que os indígenas já realizavam havia anos com apoio da Kanindé.

“Duas semanas depois do fim daquele curso, já tivemos resultados: o povo Uru-eu-wau-wau utilizou o drone para localizar uma imensa área desmatada que, pela dificuldade de acesso, nunca seria encontrada com o monitoramento por terra. Isso resultou em um processo de denúncia, e, a partir daí, os indígenas começaram a inserir a tecnologia nas suas expedições e a criar seus próprios protocolos de monitoramento. Por isso surgiu a ideia de realizar esse novo projeto e ampliar essa experiência”, diz.

Troca de experiências

Em julho de 2020, a parceria já havia realizado a primeira captação de recursos para o projeto e, em seguida, começou expandir o uso de equipamentos tecnológicos para outras TIs da região, envolvendo os povos Paiter(Suruí), Ikolen(Gavião), Karo(Arara) e Jupaú (Uru-eu-wau-wau). Representantes desses povos participaram dos treinamentos realizados em setembro e dezembro de 2021.

“Cada um desses povos tem uma forma de fazer o monitoramento. Nesses cursos, além do aprendizado com drones – que vai aumentar a capacidade deles para o monitoramento e das orientações para aprimoramento de seus protocolos -, tivemos um resultado inesperado: eles trocaram experiências uns com os outros e estão formando uma rede de monitoramento, que permite a colaboração mútua em todos os territórios”, revela Israel.

Os recursos obtidos pela parceria foram utilizados sobretudo em treinamentos, mas também na aquisição de equipamentos como computadores para o processamento de imagens. “O ponto mais importante desse projeto é o protagonismo dos indígenas. Eles estão ficando independentes no uso dessas tecnologias e não precisam de nós para monitorar, coletar informações e fazer denúncias. Já começam a utilizar as ferramentas também para outros fins, além de monitoramento. O povo Gavião, por exemplo, está usando o drone para definir o local de implantação de um sistema agroflorestal”, afirma.

Redução de riscos

Coordenadora de projetos da Kanindé, a indigenista Ivaneide Bandeira Cardozo, conhecida como Neidinha Suruí, também destaca a importância da tecnologia para evitar confrontos.

“O uso do drone contribui para reduzir os riscos de ataques aos guardiões da floresta, porque eles não precisam chegar tão perto dos grileiros, madeireiros e outros invasores. Hoje, uma das maiores ameaças às Terras Indígenas é a ameaça à vida dos ativistas”, afirma Neidinha.

Ao combinar o uso de drones, câmeras fotográficas, geoprocessamento e aplicativos para denúncias de crimes ambientais, o projeto permite a elaboração de denúncias tão bem fundamentadas que dificilmente poderão ser ignoradas pelas autoridades, acredita Neidinha. “Isso facilita a tomada de decisão, porque nos relatórios o pessoal do Ministério Público e Funai podem visualizar claramente a localização exata e a magnitude do dano ambiental”, diz.

O modelo adotado pelo projeto, segundo Neidinha, fortalece a luta dos indígenas em defesa de seu território, ao dar a eles autonomia nas ações de proteção. Quando o poder público não se mobiliza, os próprios indígenas encaminham suas denúncias diretamente ao Ministério Público, à Polícia Federal e à imprensa.

“Eles estão se sentindo empoderados na defesa de seus territórios. Há um efeito multiplicador importante, tanto que vemos jovens, crianças, idosos, mulheres e homens formando uma verdadeira rede de informações. Com o acesso à internet, igualmente obtido por meio dessa e de outras parcerias, eles mesmos colocam todo esse material também em suas redes sociais, para que suas vozes sejam ouvidas. Isso é empoderamento, isso é autonomia”, declara Neidinha.

Efeito multiplicador

Com o apoio e os treinamentos, o projeto tem um efeito multiplicador entre os indígenas. Bitaté Uru-eu-wau-wau, que antes era aluno, foi monitor do uso de drones no novo treinamento realizado em setembro.

“Eu ajudei a capacitar mais indígenas. Isso me deixa muito feliz, porque foram parentes de outro povo e eu pude passar o conhecimento para eles. Alguns dos parentes que já tinham participado do curso anterior estão pilotando muito bem e já estão multiplicando esse conhecimento. Com isso, estamos formando uma rede de indígenas capaz de monitorar os territórios com muito mais frequência e eficiência”, conta Bitaté.

Uma das principais contribuições do projeto da Kanindé e do WWF-Brasil, na avaliação de Bitaté, é que ele também permitiu que os indígenas se organizassem melhor no planejamento das expedições, no processamento de imagens e no encaminhamento das denúncias de crimes ambientais. “Conseguimos fazer estimativas do que podemos encontrar em uma determinada expedição”, diz Bitaté.

Organização e segurança

 Bitaté conta que o fluxo de trabalho já está organizado. “Primeiro é feita a captação e processamento de imagens, depois o cruzamento com os dados de satélites e produção de relatórios bem fundamentados. Esse apoio também aumentou a interação dos indígenas com a Funai, o Ministério Público e a Polícia Federal”, declara Bitaté.

Segundo ele, além das atividades de monitoramento, os drones também têm outros usos importantes do ponto de vista dos indígenas. Os Uru-eu-wau-wau fizeram imagens de drone, por exemplo, de sua festa cultural, o que, segundo Bitaté, tem uma grande importância para o fortalecimento da sua cultura.

“Mas o mais importante mesmo é que, com esses equipamentos, é possível fazer o monitoramento do território a partir de um local seguro, com o distanciamento adequado para estudarmos uma determinada área e localizarmos ações envolvendo desmatamento e roubo de madeira”, afirma.

“Com equipe Uru-eu-wau-wau, eu subi o drone em uma área a cerca de 1.500 metros de onde estávamos e localizei mais de 15 pontos de desmatamento. Se não fosse o drone, teríamos que caminhar grandes distâncias em áreas de difícil acesso e expostos a muitos riscos”, completa.

Plataforma SMART

 De acordo com Felipe Spina Avino, líder do trabalho em Tecnologias para Conservação do WWF-Brasil, o curso oferecido em setembro teve foco na pilotagem de drones, enquanto o último treinamento, finalizado no início de dezembro, teve um caráter mais amplo, capacitando os indígenas no uso do SMART, um aplicativo de código aberto que otimiza a coleta e o uso de dados sobre áreas protegidas.

“Em setembro, organizamos um treinamento de drones com 25 indígenas. E, em novembro e dezembro, organizamos um treinamento com o mesmo número de participantes para uso da plataforma SMART. A ideia é que os indígenas que já fazem as ações de proteção territorial, ou que estão organizando grupos de monitores, possam usar essas tecnologias para qualificar os dados que eles coletam”, explica Felipe.

Processo participativo

 O especialista em conservação e líder do núcleo de respostas emergenciais do WWF-Brasil, Osvaldo Barassi Gajardo, diz que o enfoque metodológico faz parte de uma construção participativa junto aos grupos indígenas. Eles discutem com os monitores os temas a serem abordados e a própria dinâmica dos treinamentos. Um exemplo disso foi a construção do modelo de dados adotado para uso da plataforma.

“A plataforma SMART necessita de um modelo de dados que identifica os tipos de pressões e ameaças e que medidas precisam ser adotadas em uma determinada área. A construção desse modelo de dados foi feita de forma participativa, por meio de reuniões virtuais com grupos indígenas. Com essas informações, conseguimos elaborar o modelo e organizamos os treinamentos”, salienta Osvaldo.

O passo seguinte será acompanhar os grupos indígenas em campo, para consolidar o uso da ferramenta no monitoramento territorial. Esse domínio da plataforma será fundamental para integrar os dados obtidos em campo com os dados do centro de inteligência de monitoramento por satélite.

“Equipes preparadas e treinadas de indígenas que atuam no monitoramento em campo estarão em estreito contato com o centro de inteligência, para validar informações sobre ilícitos ambientais em Terras Indígenas, como invasões, desmatamento, garimpo, grilagem e outros. Essas equipes trabalharão em integração com um grupo de incidência política composto por advogados e uma equipe de comunicação”, diz.

Contexto político

O diretor de Justiça Socioambiental do WWF-Brasil, Raul Silva Telles do Valle, conta que o uso de tecnologias como drones, armadilhas fotográficas e outras ferramentas para monitoramento de áreas protegidas já era um trabalho relevante da organização. Mas no novo projeto de proteção territorial a estratégia traçada é muito mais ampla.

“A contribuição que o projeto está dando em proteção territorial se alimenta da nossa experiência anterior, mas amplia o uso das tecnologias de monitoramento para uma estratégia mais robusta, em função da conjuntura política do país. As Terras Indígenas e territórios tradicionais têm uma importância central na conservação do patrimônio natural e, há algum tempo, são objeto de invasão e pressão por parte de madeireiros, garimpeiros e grileiros. Um problema crônico no Brasil, mas que se acentuou com a chegada do governo Bolsonaro ao poder”, declara Raul.

Ele lembra que o governo federal se elegeu com uma clara promessa de liberação de qualquer tipo de atividade econômica dentro desses territórios – até mesmo atividades ilegais.

“Esse estímulo a crimes ambientais é acompanhado de uma paralisação dos órgãos federais responsáveis por coibi-los. Com isso, o número de invasões disparou. Uma das novidades na região é o aumento da grilagem em Terras Indígenas a partir de 2018. Antes, os grileiros não se interessavam pelas Terras Indígenas porque não acreditavam que seria possível legalizar a grilagem nessas áreas”, explica Raul.

Estratégia de longo prazo

Nesse contexto, segundo Raul, era preciso construir uma estratégia capaz de usar a tecnologia – já implementada pelo WWF-Brasil em outras partes do país – para fortalecer de forma sistemática o trabalho de monitoramento que os povos indígenas já fazem historicamente, permitindo que suas demandas ganhassem visibilidade e que suas denúncias de delitos ambientais fossem mais qualificadas. “Toda a estratégia está calcada em fazer com que, a partir de denúncias bem qualificadas, os órgãos de controle, atualmente enfraquecidos, sejam pressionados a atuar”, destaca Raul.

O trabalho de monitoramento e proteção territorial que está sendo realizado junto a parceiros locais, envolvendo as comunidades, seguirá tendo muita relevância no futuro, afirma Raul: “Não só em Rondônia, mas também em outras partes do país estamos entrando na fase de implementação dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental – PGTAs elaborados nos últimos anos pelos povos indígenas. Esses planos falam de como usar de forma inteligente e sustentável seus territórios, gerando riqueza e bem-estar às comunidades. A proteção contra invasores é um elemento muito importante, e a expertise e autonomia em monitoramento que as organizações indígenas envolvidas nessa parceria estão ganhando serão fundamentais para implementar esses PGTAs”.

Sobre o WWF-Brasil

O WWF-Brasil é uma ONG brasileira que há 25 anos atua coletivamente com parceiros da sociedade civil, academia, governos e empresas em todo país para combater a degradação socioambiental e defender a vida das pessoas e da natureza. Estamos conectados numa rede interdependente que busca soluções urgentes para a emergência climática.

Laboratório de Etologia Canina da Unifesp (LECA) lança e-book gratuito com dicas e informações para melhorar a relação tutores e cães

Brasil é um dos países com maior número de bichos de estimação; cartilha auxilia no entendimento de questões ligadas ao comportamento canino

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O Brasil está entre os países com maior número de animais domésticos. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Produtos Para Animais de Estimação (Abinpet), são 144,3 milhões de bichos de estimação nos lares brasileiros, sendo cães a maior parte (55,9 milhões). A pandemia e a necessidade de distanciamento social contribuíram para que muitos lares abrissem as portas para um cão.

Contudo, se engana quem acha que basta oferecer um canto, comida e água para garantir o bem-estar animal. É preciso compreender alguns aspectos do comportamento dos cães, como aspectos emocionais e de aprendizado importantes para preservar uma relação saudável entre tutor e cão. Foi justamente com esse objetivo que o Laboratório de Etologia Canina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) acaba de lançar o e-book “Conhecendo Melhor o Seu Melhor Amigo”. A cartilha foi produzida no âmbito do projeto “Relação afetiva entre humanos e pets”, que fez parte do Centro de Pesquisa Aplicada em Bem-estar e Comportamento Humano, financiado pela Fapesp/Natura, do qual a Unifesp fez parte.

Gratuito e de livre acesso, o e-book traz as principais descobertas da ciência canina e aborda sobre vários aspectos que vão ajudar os tutores a entender melhor seus cães de estimação, tornando a relação ainda mais positiva.

“A nossa proposta foi de criar uma cartilha bem didática e lúdica, trazendo informações com base científica para garantir interações adequadas e o bem-estar para ambos. Para isso, abordamos pontos como as formas de comunicação e de interpretação das emoções animal, como os cães aprendem e dicas sobre como evitar problemas comportamentais, itens indispensáveis para a boa convivência entre humanos e cães”, explica Carine Savalli Redigolo, docente e coordenadora do Laboratório de Etologia Canina (LECA) da Unifesp (https://lableca﹒unifesp﹒br/)﹒

O objetivo do laboratório é desenvolver pesquisas com abordagem etológica para compreender fenômenos comportamentais e interacionais entre cães e pessoas. A linha de pesquisa “Etologia Canina” se dedica a estudar aspectos relacionados à domesticação, habilidades cognitivas e comportamento dos cães e a relação afetiva entre cães e pessoas.

“Essa é uma área de pesquisa multidisciplinar que vêm recebendo muita atenção da comunidade científica, com publicações em periódicos de grande impacto. Agora ainda mais, com a presença cada vez maior dos bichos de estimação em nossos lares, o que demanda a busca do aprofundamento desse tipo de conhecimento”, conclui Carine.

O e-book “Conhecendo Melhor o Seu Melhor Amigo” está disponível [Aqui!]

Albaugh compra Rotam e sinaliza mais concentração na venda de agrotóxicos

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O site especializado “Agrolink” informou que a a empresa estadunidense Albaugh anunciou nesta terça-feira (21/12) a “compra da Rotam Global AgroSciences Limited, que tem sua sede em Hong Kong.  Segundo a Agrolink, pelo acordo firmado, a Albaugh adquiriu todas as ações em circulação da Rotam em uma transação total de aproximadamente US$ 197,5 milhões líquidos“.

O interessante é que verificando a base de dados construída para o “Observatório dos Agrotóxicos” contendo a lista de 1.507 aprovados até o final de novembro pelo governo Bolsonaro, pode-se verificar que as subsidiárias brasileiras da Albaugh e da Rotam foram beneficiadas por 66 liberações, sendo a maioria produzidas por empresas chinesas.

O que isto mostra é que esta “fusão” não apenas a reforça o processo de concentração que está em curso na indústria química de produção de venenos agrícolas, mas também a posição da China no fornecimento de agrotóxicos no Brasil, muitos deles proibidos em outras partes do mundo por serem extremamente tóxicos e causadores de graves problemas ambientais e à saúde humana.

Revista Ambientes lança dossiê sobre neoextrativismo e seus impactos sociais e ambientais

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Em seu último número de 2021, a revista “Ambientes: revista de Geografia e Ecologia Política” lança um dossiê de extrema importância para o entendimento das transformação de espaços territoriais anteriormente ocupados e mantidos protegidos do avanço da exploração econômica predatória, especialmente do tipo causado pela mineração.

A gama de artigos envolve uma análise multifacetada acerca dos efeitos estratégicos da dominância do neoextrativismo no modelo econômico, envolvendo a análise de casos específicos, processos de resistência, e dos diferentes mecanismos de controle social e das resistências que ocorrem a eles.

Quem desejar acessar, todos os artigos que compõe o dossiê sobre neoextrativismo, basta clicar [Aqui!].

Árvores nativas protegem pastos da Amazônia contra a seca e aumentam nutrientes do solo

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Foto: Cecília Bastos/Imagens USP

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Em busca de alternativas para o controle do desmatamento sem prejuízos à produção agropecuária, pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e do Instituto Ouro Verde (IOV) demonstraram que o uso de espécies de árvores nativas em áreas de pastagem na Amazônia não só preserva a vegetação local como beneficia a atividade, protegendo contra a seca, aprimorando assim a renovação de nutrientes e aumentando a proteção do solo. Os resultados foram publicados na última sexta-feira (17) na revista “Acta Amazonica”.

Os pesquisadores coletaram amostras de solo e forragem – plantas utilizadas para proteção e fornecimento de palha para o plantio direto e alimento para o consumo animal – sob a copa e arredores de 25 árvores pertencentes a cinco espécies. O trabalho foi feito durante uma estação seca e outra chuvosa, em áreas de assentamentos rurais nos municípios de Nova Canaã do Norte e Nova Guarita, no nordeste do estado de Mato Grosso, parte da Bacia Amazônica.

“Essas paisagens são caracterizadas por grandes extensões de pasto intercaladas com soja e vegetação nativa, o que nos levou a compreender melhor as interações entre as espécies e a atividade agropecuária”, conta Alexandre de Azevedo Olival, professor e pesquisador da UNEMAT e coautor do estudo. De acordo com Olival, ter espécies de árvores nativas como aliadas nos pastos traz múltiplos benefícios, diante da importância do controle do desmatamento, uma das fontes de emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera.

“Além do efeito positivo frente às mudanças climáticas, é preciso considerar que a demanda mundial por alimentos vem crescendo e ampliando o domínio da agricultura sobre as paisagens vegetais tropicais, que já possuem 50% de seu território tomados pela atividade”, alerta. As pastagens são a causa final do desmatamento de dois terços das terras nos neotrópicos, região que abrange a América Central, o sul da Flórida, nos Estados Unidos, todas as ilhas do Caribe e a América do Sul. “Nosso estudo demonstra que não precisa ser assim”, avalia. Ainda de acordo com o pesquisador, o trabalho será expandido a novas espécies, em diferentes territórios.

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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Recorde tóxico: venda de agrotóxicos alcançou R$ 75,81 bilhões em 2021 no Brasil

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Por Leonardo Gottems, repórter da AgroPages, para a Agnews

 A receita líquida do mercado de defensivos agrícolas (i.e., venenos agrícolas, grifo meu) no Brasil deve chegar a US $ 13,3 bilhões (R$ 75,81 bilhões) em 2021, segundo o Sindiveg (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos de Defesa Vegetal).

A projeção foi apresentada em relatório da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), ao qual a AgroPages teve acesso em primeira mão.

Se confirmada, essa receita líquida das empresas de agrotóxicos aumentaria 7,3% em relação a 2020. No total, US $ 6,2 bilhões (R$ 35,34 bilhões) em produtos foram importados neste ano, uma queda de 10,1% em relação às compras do ano anterior.

Segundo o Sindiveg, que reúne as principais empresas agroquímicas formuladas com patentes no Brasil, estima-se o consumo de 536 mil toneladas de agrotóxicos “efetivamente aplicados” nas lavouras (conceito PAT = “produto por área tratada”). Se a projeção se confirmasse, também haveria uma queda de 10,1% em relação a 2020.

Segundo Ciro Marino, presidente-executivo da Abiquim, “o faturamento cresceu, mas os custos também. Com um bom equilíbrio, a única preocupação com a falta de competitividade é claramente expressa pela crescente participação das importações na carteira de atendimento às necessidades brasileiras. As estimativas já apontam para um déficit recorde do setor – em torno de US $ 45 bilhões ”, alertou.

Terceiro Trimestre

A área tratada com agrotóxicos cresceu 8,7% no terceiro trimestre de 2021 em relação ao mesmo período do ano anterior, afirmou o Sindiveg. No total, foram tratados 209,3 milhões de hectares, um acréscimo de 16,8 milhões de hectares. A soja foi o produto com maior área tratada (32% do total), seguida por pastagem (20%), trigo (12%), milho (10%), cana-de-açúcar (7%) e outras culturas.

“Esse resultado se deve a uma série de fatores, com destaque para o início do plantio de verão e a expectativa de alta na safra 2021-2022, além da expectativa de preços firmes para as principais commodities”, explicou Julio Borges, presidente do Sindiveg. Em volume, os defensivos agrícolas aplicados no 3º trimestre alcançaram 154,6 mil toneladas, aumento de 6,6% em relação ao mesmo período de 2020.

Entre os principais segmentos de produtos, houve crescimento de 14% no uso de fungicidas (de 12.800 t para 14.500 t), e de 12% no uso de inseticidas (de 14.800 t para 16.500 t). 7% no uso de tratamento de sementes (1.700 t a 1.800 t) e 4% no uso de herbicidas (de 104.800 t a 109.300 t). O Sindiveg encomendou esses dados à Spark Consultoria Estratégica.

O valor de mercado dos defensivos agrícolas (i.e., venenos agrícolas, grifo meu) aplicados atingiu US $ 1,7 bilhão no terceiro trimestre, aumentando 21,7% em comparação com julho-setembro de 2020 (US $ 1,4 bilhão). “A expectativa de crescimento da próxima safra é uma ótima notícia para todos os elos da cadeia produtiva. Porém, é importante destacar que o crescimento da área exige mais atenção dos produtores aos desafios fitossanitários, que não são poucos e estão sempre se renovando”, afirmou. Borges acrescentou.

O presidente do Sindiveg avaliou o crescimento da área tratada no terceiro trimestre, mas expressou preocupação com o cenário global, “que é instável e preocupa muito, devido à escassez de matérias-primas importadas, aumento de custos e, principalmente, falta de garantia de entrega de insumos pela China, nosso principal fornecedor. ”

“O Sindiveg está atento aos crescentes custos das matérias-primas importadas e aos problemas logísticos. Principalmente nas últimas semanas, temos enfrentado dificuldades no recebimento de insumos importantes. A organização e todas as indústrias associadas estão trabalhando incansavelmente para resolver a situação o mais rápido possível, para evitar uma possível falta de insumos (i.e., agrotóxicos e fertilizantes sintéticos, grifo meu), mas o cenário é extremamente preocupante ”, concluiu Borges.

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Este texto foi inicialmente escrito em inglês e publicado pelo AgNews [Aqui!].

Povo chileno derrota extrema-direita. Sinais de alerta já estão acesos em Brasília

kast-bolsonaroJosé Antonio Kast, candidato de extrema-direita derrotado neste domingo no Chile, em momento de congraçamento com o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro

Com a apuração das urnas do segundo turno nas eleições presidenciais no Chile tendo chegado a 98,7%, o resultado ainda parcial mostra uma tendência irreversível para uma vitória maiúscula do candidato Gabriel Boric que concorria contra José Antonio Kast, um saudosista da ditadura de Augusto Pinhochet. O embate que se encerra no Chile colocava dois campos claramente opostos em termos dos rumos que deverão ser seguidos no país andino nos próximos anos. Para quem não acompanhou o pleito, Kast era visto como uma variante ainda mais direitista do presidente Jair Bolsonaro.

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É importante notar que a coligação que deu sustentação à Gabriel Boric, um líder estudantil que esteve envolvido nas fortes mobilizações que ocorreram no Chile ao longo das últimadas décadas contra a herança da ditadura de Augusto Pinochet, tem em sua coligação a presença do Partido Comunista do Chile, o que dá uma clara conotação da esquerda à sua candidatura.

Por outro lado, a vitória de um candidato de esquerda e da derrota de um candidato de extrema direita, em um país tão polarizado como o Chile, representa uma forte guinada na América do Sul.  E os efeitos dessa vitória já devem estar assombrando governos de extrema-direita que terão que passar pelo teste das urnas em 2022, a começar pelo Brasil que é governado por uma espécie de clone do candidato que foi derrotado hoje no Chile.

Uma questão a mais nessa vitória se refere ao programa e a política de alianças que foi traçada pela frente de esquerda chilena que promete redesenhar o Estado chileno e retorná-lo para uma versão mais comprometida com o modelo do bem estar social e bem distante do Neoliberalismo imposto pela ditadura de Augusto Pinochet. Paulo Guedes deve estar inconsolável em Brasília….