Métodos agrícolas modernos podem acabar nos matando mais do que o câncer

O uso indiscriminado de fungicidas na agricultura e na produção de alimentos talvez seja o motivo de um aumento súbito de infecções resistentes a medicamentos.

agrotóxicos aplicação

Aplicação de agrotóxicos/Commons

Por Mark Buchnan para o the print

Na superfície, nosso sistema moderno de produção de alimentos parece eficiente: produz bastante comida e parece altamente inovador. Mas também incentiva as pessoas a consumirem açúcares e gorduras insalubres, enquanto um terço de todos os alimentos produzidos é perdido ou vai para o lixo. A agricultura industrial está contaminando lagos e rios com escoamento químico e esgotando o solo fértil insubstituível.

As indústrias de alimentos e agricultura são muito boas em manter esses e outros custos escondidos da vista do público. Mas isso pode ficar mais difícil se as pessoas começarem a morrer em grande número, o que não é exagero, de acordo com as Nações Unidas. Autoridades de saúde em todo o mundo estão lutando com o aumento explosivo de cepas resistentes a drogas do fungo Candida auris, que atacam pessoas com sistema imunológico debilitado. Preocupante, seu surgimento pode estar ligado ao uso indiscriminado de fungicidas na agricultura e na produção de alimentos.

Detectada pela primeira vez no Japão em 2009, a C. auris – um patógeno que está mais associado a ambientes de assistência à saúde e pode se espalhar pelo contato com pacientes infectados – desde então se espalhou pelo mundo, alarmando as autoridades de saúde pública. É extremamente difícil de detectar e erradicar, e mata mais de 50% daqueles que infecta. Nos EUA, centenas de novas infecções foram relatadas nos últimos anos, principalmente em Nova York, Illinois e Nova Jersey. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças estão tentando educar os médicos sobre as melhores práticas.

Tão importante quanto a educação é determinar a origem dessas cepas, algumas das quais são resistentes a todas as três classes principais de medicamentos antifúngicos. As cepas resistentes, indicam estudos genéticos, surgiram independentemente em várias ocasiões e foram encontradas em pacientes que não tiveram nenhum tratamento prévio com fungicidas medicinais. Então, de onde eles vieram?

Uma possibilidade é grande: que as novas linhagens surgiram devido ao uso de fungicidas não na medicina, mas na agricultura. Fungicidas conhecidos como azóis são amplamente utilizados para impedir o crescimento de fungos em plantas e frutas. Eles respondem por cerca de um terço de todas as vendas globais de fungicidas e, notavelmente, são quimicamente quase idênticos aos agentes antifúngicos aos quais os médicos contam para tratar humanos.

A pesquisa já implicou fungicidas agrícolas no surgimento de outro fungo resistente a drogas, o Aspergillus fumigatus. Enquanto o fungo não ataca as culturas, ele pode ser encontrado em solos em todo o mundo; é uma das infecções mais comuns no mundo, e é potencialmente letal para aqueles com sistema imunológico debilitado. Cepas resistentes a drogas encontradas em campos ou canteiros tratados com fungicida mostram mutações genéticas específicas, assim como aquelas em Aspergillus, detectadas em pacientes infectados.

Serão necessárias novas pesquisas para determinar se as novas variedades de C. auris têm origem na agricultura, mas Aspergillus já ilustrou os perigos da agricultura moderna. Os antibióticos são aplicados em grande escala na produção de alimentos, empurrando a ascensão da resistência bacteriana aos medicamentos. Um estudo do governo britânico publicado em 2016 estimou que, dentro de 30 anos, as infecções resistentes a medicamentos serão mais letais do que o câncer, com cerca de 10 milhões de pessoas morrendo de infecções todos os anos.

Nós não temos que acabar lá. O uso de agrotóxicos na maioria das fazendas pode ser bastante reduzido, ou mesmo eliminado, sem reduzir o rendimento ou lucratividade das culturas. Os métodos de agricultura orgânica, mesmo que simples como a rotação de culturas, tendem a promover o crescimento de fungos mutualistas que eliminam cepas patogênicas como C. auris. Infelizmente, como a agricultura convencional é fortemente subsidiada e os preços de mercado não refletem os custos para o meio ambiente ou para a saúde humana, os alimentos orgânicos são mais caros e enfrentam uma batalha difícil por um consumo maior.

É claro que a tecnologia aprimorada poderia ajudar, com drogas de novos tipos ou na criação e engenharia de linhagens resistentes de plantas. Há também muitas oportunidades para robôs agrícolas leves, que podem danificar mecanicamente ou pulverizar agrotóxicos com mais precisão, reduzindo a quantidade de produtos químicos usados. Mas a tecnologia não deve ser o único foco apenas porque é a rota mais lucrativa para grandes indústrias.

Em seu recente livro “The Grand Food Bargain”, o especialista em agricultura Kevin Walker, da Michigan State University, traça a história da agricultura nos últimos 100 anos, à medida que a grande agricultura sistematicamente leva as pequenas fazendas às margens. Nos EUA, apenas quatro empresas respondem por algo entre 50% a 95% das vendas de sementes, produtos químicos agrícolas, criação de animais e maquinário agrícola. À medida que essas empresas passaram a controlar os mercados, a qualidade e a nutrição dos alimentos diminuíram, e as dietas mudaram cada vez mais para alimentos processados ricos em açúcares e gorduras, que geram lucros maiores.

“A comida não é mais valorizada por sua capacidade de sustentar a vida”, conclui Walker, “mas apenas pela sua capacidade de gerar lucros.” Como sugere a ascensão da C. auris, esse foco estreito arrisca-se a sacrificar a eficácia de alguns de nossos medicamentos mais valiosos.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo the print [Aqui!]

Governo Bolsonaro aprova mais de 150 agrotóxicos novos em seus primeiros cem dias

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Por Sue Branford e Thais Borges para o Mongabay

  • Com a administração do presidente Jair Bolsonaro no poder por apenas 100 dias, ela já aprovou 152 novos agrotóxicos para uso, um recorde em um período tão curto de tempo, enquanto outros 1.300 pedidos de agrotóxicos para autorização de empresas transnacionais aguardam ação. A maioria das solicitações é de empresas americanas, alemãs e chinesas.
  • O Brasil já é o maior usuário de agrotóxicos do mundo e tem um reconhecido problema de envenenamento por agrotóxicos, com 100.000 casos relatados anualmente, provavelmente com muitos mais não relatados. A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, nega que o rastreamento rápido de agrotóxicos cause sérios problemas ambientais ou de saúde.
  • Recentes autorizadas este ano são o fungicida mancozeb (principalmente proibido no Canadá), o pesticida sulfoxaflor (associado ao distúrbio do colapso de colônias de abelhas) e o inseticida clorpirifós (banido nos EUA em 2018 e associado a deficiências de desenvolvimento em crianças).
  • O controle dos poderes executivo e legislativo do governo federal brasileiro pelo lobby da agroindústria bancada ruRalista significa que é muito provável que a lei PL 6299/2002 – chamada de “pacote envenenado” pela crítica – seja votada este ano. A legislação desregulamentaria muito o processo de aprovação de agrotóxicos.

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A pulverização aérea comumente usada no Brasil é especialmente perigosa, pois os ventos podem transportar sprays tóxicos longe dos campos para as comunidades e áreas naturais que levam ao envenenamento por pesticidas. Imagem cortesia da EMBRAPA

Com o lobby ruralista agora no controle de setores-chave do governo federal, o Brasil está rapidamente aprovando novos agrotóxicos para uso, alguns dos quais os críticos dizem que são desnecessários ou excessivamente tóxicos. Durante os primeiros 100 dias do governo de Jair Bolsonaro, o Ministério da Agricultura autorizou o registro de 152 agrotóxicos, colocando o Brasil no caminho para autorizar mais agrotóxicos em 2019 do que em qualquer ano anterior. O Brasil já é o maior usuário mundial de agrotóxicos.

O número de agrotóxicos autorizados a cada ano aumentou rapidamente, de 139 em 2015 sob o governo Dilma Rousseff, para 450 em 2018 sob o governo Michel Temer (ver gráfico). Espera-se que um número ainda maior entre no mercado brasileiro neste ano, já que o Ministério da Agricultura considera o registro de aproximadamente outros 1.300 agrotóxicos. A maioria desses pedidos vem de multinacionais estrangeiras, principalmente baseadas nos Estados Unidos, na Alemanha e na China, que está se tornando cada vez mais um importante fornecedor.

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Um funcionário do IBAMA, órgão ambiental do Brasil, analisa um monte de recipientes de agrotóxicos vazios em uma fazenda. Os agrotóxicos usados descuidadamente em grandes quantidades e em combinação podem facilmente poluir aquíferos e cursos de água e envenenar pessoas e animais selvagens. Imagem cortesia do IBAMA

Governo pró-agrotóxicos versus ambientalistas

Apesar do rápido aumento nas autorizações, a ministra da Agricultura do governo Bolsonaro, Tereza Cristina, diz que “não há liberação geral” de novos registros de agrotóxicos. De acordo com o seu ministério, os produtos apenas darão aos agricultores uma maior escolha de agrotóxicos existentes e acesso a novos produtos químicos e não há motivos para preocupação: “O uso de agrotóxicos é completamente seguro, desde que aplicados conforme as instruções, dentro de um contexto de boas práticas agrícolas e com o uso de equipamentos de proteção individual ”, diz o governo.

Fatos ocorrendo no Brasil parecem negar a verdade das alegações de Tereza Cristina. O Brasil tem um maior consumo per capita de agrotóxicos do que qualquer outro país do mundo – 7,3 litros por ano por pessoa – e já está enfrentando um sério problema com o envenenamento por agrotóxicos.

De acordo com Guilherme Franco Netto, Especialista em Meio Ambiente, Saúde e Sustentabilidade da Fundação Oswaldo Cruz, uma das maiores instituições de pesquisa em saúde pública do mundo, cerca de 100 mil casos de envenenamento por agrotóxicos são registrados no Brasil a cada ano. De acordo com Alan Tygel, da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, esse número subestima seriamente a situação real, já que muitos trabalhadores rurais não relatam intoxicações por agrotóxicos.

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Em julho de 2018, a organização de direitos humanos Human Rights Watch publicou um relatório documentando intoxicações agudas em sete locais no Brasil, incluindo comunidades indígenas, escolas e quilombolas (comunidades de descendentes de escravos fugidos).

“Agrotóxicos pulverizados em grandes plantações intoxicam crianças em salas de aula em muitas partes do Brasil”, explicou Richard Pearshouse, diretor assistente da divisão ambiental e de direitos humanos da Human Rights Watch. Mas o relatório também descobriu que muitos moradores locais estavam com muito medo de falar: em cinco das sete comunidades afetadas, as pessoas disseram que tinham medo de sofrer represálias se elas reclamassem. Em 2010, um agricultor rural foi morto a tiros após pressionar o governo local para proibir a pulverização aérea de agrotóxicos – uma prática comum de aplicação no Brasil, embora permita que os aerossóis tóxicos transportados pelo vento se estabeleçam longe das culturas nas comunidades e áreas naturais.

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Trator e equipamento de pulverização. Foto por Maasaak licenciada sob a licença Creative Commons Atribuição-Compartilha Igual 4.0

Formulações recém-aprovadas geram alarmes

Muitos dos pedidos para 2019 são para novas formulações de agrotóxicos já autorizados. Murilo Souza, da Universidade Estadual de Goiás, explica: “Uma vez que o fabricante inicial perde sua patente, outras empresas começam a solicitar registro para que possam usar os mesmos ingredientes ativos para produzir novos produtos agrícolas”.

Leonardo Melgarejo, vice-presidente da Associação Brasileira de Agroecologia, acredita que essa prática é prejudicial, já que inevitavelmente levará a um grande aumento do consumo em todo o país: “Estamos aprovando diversas variações do mesmo agrotóxico… Estamos caminhando para um situação em que os agricultores poderão se “automedicar”, com duas lojas de agrotóxicos em cada quarteirão. “Poucas pesquisas foram feitas para ver como centenas de vários agrotóxicos poderiam interagir para se tornarem mais prejudiciais.

A avalanche de novas aprovações também está facilitando o acesso dos agricultores brasileiros a agrotóxicos tóxicos com os quais a comunidade global tem sérias preocupações. Um desses casos é o do 2,4D, um ingrediente ativo do polêmico Agente Laranja, usado pelo Exército dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã e cujo uso é cada vez mais controlado em outros países, depois que a Agência Internacional de Pesquisa da Organização Mundial de Saúde. Cancer (IARC) classificou em 2015 como “possivelmente carcinogênico para humanos“.

A última onda de autorizações do Ministério da Agricultura vista em 10 de abril deu permissão a 31 produtos por meio de um decreto federal oficial (Ato 24), incluindo três novas formulações de 2,4-D solicitadas por fabricantes e distribuidores multinacionais de agrotóxicos. Um pedido veio da empresa chinesa Rainbow Defensivos Agrícolas, enquanto os outros dois foram iniciados pela Dow AgroSciences para formulações a serem fabricadas na África do Sul e exportadas para o Brasil.

Essas novas autorizações brasileiras ocorreram em um momento em que o Ministério Público do Rio Grande do Sul, um grupo de litigantes públicos independentes, estava investigando uma alegação feita pelo Instituto Brasileiro do Vinho (IBRAVIN) de que no ano passado o estado perdeu quase terceiro de sua colheita de uva como resultado da pulverização aérea de agrotóxicos contendo 2,4-D. Os agricultores borrifam esse pesticida antes de semearem soja – também uma época em que a uva, a maçã e as oliveiras estão florescendo e quando o spray pode facilmente passar por fazendas vizinhas.

“Os dados da nossa pesquisa [que mostrou uma perda de quase um terço da colheita da uva] são conservadores, pois se baseiam apenas em informações espontaneamente oferecidas pelos agricultores”, disse Helio Marchioro, do IBRAVIN. De fato, os próprios produtores de uva estão pedindo uma proibição de 2,4-D, mesmo quando o governo Bolsonaro aprova novas formulações de 2,4-D.

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Lasso, um herbicida fabricado pela Monsanto deve ser pulverizado em plantações de alimentos com o agricultor usando equipamento de proteção adequado. Foto cedida pelo USDA

Agrotóxicos controversos aprovados para uso brasileiro pela primeira vez

Vários dos agrotóxicos autorizados em 2019 são totalmente novos no Brasil. Porém, aAlguns já foram classificados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Brasil (ANVISA) como “extremamente tóxicos”. Estes incluem: mancozebe, um fungicida de amplo espectro usado na agricultura e horticultura; o fungicida fluazinam; e o inseticida clorpirifos. Em 2018, a Agência Reguladora de Pragas (PMRA) proibiu o uso de mancozeb no Canadá, exceto para o uso foliar em batatas, devido a “riscos inaceitáveis para a saúde humana”. A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) proibiu o uso de clorpirifos em 2018 após o seu uso ter sido associado  à deficiências de desenvolvimento de crianças.

Um produto químico recentemente aprovado e particularmente controverso é o sulfoxaflor. Este agrotóxico foi um dos vários que se acredita ter causado um surto no Brasil de desordem do colapso das colmeias – o catastrófico desaparecimento repentino de abelhas operárias de uma colônia de abelhas, levando à morte das colmeias. Segundo um levantamento da Agência Pública e da Repórter Brasil, meio milhão de abelhas foram encontradas mortas em quatro estados brasileiros no primeiro trimestre de 2019 – um dado incrivelmente grande ameaçando a polinização de frutas e hortaliças e a vegetação nativa .

Mas em uma coletiva de imprensa em 9 de abril, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, não sabia que o Brasil já havia autorizado o sulfoxaflor. Ela disse então: “O problema com as abelhas é que um produto chamado sulfoxaflor foi usado. Essa [toxina] não está registrada no Brasil … provavelmente entrou no Brasil ilegalmente e está sendo usada incorretamente e, assim, causou a morte das abelhas. ”De fato, o sulfoxaflor foi autorizado no final do ano passado pela administração de Temer, embora decreto oficial só foi emitido em janeiro deste ano sob o governo Bolsonaro.

O sulfoxaflor é classificado pela ANVISA do Brasil como “medianamente tóxico”, mas essa avaliação é contestada no exterior. A Dow Chemical desenvolveu inicialmente o sulfoxaflor como uma alternativa mais segura aos neonicotinóides, conhecidos por serem prejudiciais às abelhas. Ele foi inicialmente aprovado pela EPA dos EUA em 2013, uma decisão revertida em 2015, quando estudos descobriram que o sulfoxaflor também era perigoso para as abelhas. Hoje o sulfoxaflor ainda pode ser usado nos EUA, mas apenas em circunstâncias restritas.

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Aplicação de agrotóxicos em área rural. O Brasil é o maior usuário de agrotóxicos do mundo.  O uso de agrotóxicos quase certamente aumentará à medida que o país se apresse em aprovar novos produtos químicos. Foto de prodbdf no flickr

Desregulamentação de agrotóxicos em funcionamento

O ativista ambiental Alan Tygel acredita que o rápido aumento no número de autorizações de agrotóxicos está diretamente ligado ao crescente poder do lobby da agroindústria e da bancada ruralista no Congresso brasileiro. Esse lobby, diz ele,  apoiou o impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016,  por ser dependente do apoio do governo para medidas pró-agronegócio. “A partir de então, o contrapeso proveniente de setores progressistas, da agricultura familiar e da agroecologia se perdeu, e hoje a agenda ruralista enfrenta menos entraves para ter mais agrotóxicos aprovados e aprovar leis mais permissivas”, diz Tygel. . A campanha presidencial de Bolsonaro beneficiou-se muito do apoio ruralista e ajudou muito a levar o ex-capitão e legislador do Exército à vitória em outubro passado.

O próximo objetivo da agenda ruralista – leis mais permissivas – pode ter um grande impulso este ano com a aprovação do PL 6299/2002 do Congresso, apelidado de “pacote do veneno” pelos seus críticos. A legislação, que desregulamentaria muito os agrotóxicos, foi endossada por uma comissão da Câmara dos Deputados em junho de 2018 e agora aguarda debate em plenário. O governo Temer justificou o projeto, apresentado ao Congresso pelo então ministro da Agricultura e dedicado ruralista, Blairo Maggi, alegando que o país precisava desesperadamente simplificar o complicado processo de obter novos agrotóxicos autorizados para ajudar os agricultores.

Mas Ildeu Castro Moreira, presidente da prestigiosa Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), representando mais de 100 sociedades científicas, discordou fortemente. Ele disse na época que o projeto de lei “poderia ter consequências muito sérias para a saúde da população brasileira e do meio ambiente… Sua aprovação seria um retrocesso, pois segue a lógica da agricultura mecanizada, com altos investimentos em fertilizantes e fertilizantes. agrotóxicos, que é um modo de pensar antiquado, que data do final da Segunda Guerra Mundial ”.

A atual ministra da Agricultura, Tereza Cristina, é uma forte proponente do PL 6299/2002, mas é provável que haja oposição à aprovação do projeto, embora seja difícil para os críticos bloquear a medida. Os ruralistas nunca tiveram um controle mais forte sobre os poderes legislativo e executivo, e parecem determinados a pressionar sua agenda do agronegócio.

O presidente Bolsonaro terminou seus primeiros 100 dias no cargo, e sua popularidade já está caindo rapidamente, com 30 % da população já avaliando sua administração como “muito ruim” e os mercados acreditando que o governo está se tornando instável. No entanto, essa mesma percepção de crescente incerteza parece ter apenas levado aos ruralistas a avançarem com maior  velocidade. Enquanto isso, conservacionistas e especialistas em alimentos continuam a alertar sobre as repercussões nacionais e globais sobre o meio ambiente e a saúde do uso desregulado de agrotóxicos no Brasil – a permissividade provavelmente superará em pouco tempo a observada entre outras grandes nações agrícolas.

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Recipientes vazios de agrotóxicos abandonados em uma área de cultivo. Imagem pela Human Rights Watch

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela plataforma de notícias Mongabay [Aqui!]

Pedidos de registro de agrotóxicos aumentam 82% no governo Bolsonaro

De janeiro a abril foi pedido registro para 266 novos produtos. Em igual período de 2018, para 146. Aguardam na fila da Anvisa 2.906 solicitações

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Em meio à retração na economia brasileira, a indústria de agrotóxicos vai de vento em popa: novos produtos autorizados e empresários falando em expansão.

Por Cida de Oliveira para a RBA

São Paulo – Se há um setor industrial animado com o governo de Jair Bolsonaro (PSL) é o dos agrotóxicos. Até a conclusão desta reportagem, havia 2.906 petições aguardando análise para registro na fila da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Desse total, 266 foram protocoladas do início de janeiro ao final de abril. O número é 80% maior que os 146 apresentadas do mesmo período de 2018.

O aumento no número de solicitações tem sido acompanhado pela velocidade de liberações de registro. Antes de completar 100 dias, o governo Bolsonaro já havia concedido 152 novos registros. Se seguir nesse ritmo, até o final do ano serão algo em torno de 555. No ano passado foram 450 registros.

A ministra ruralista do Meio Ambiente, Tereza Cristina (DEM-MS) – a “musa do veneno” –, nega que haja sob seu comando a aceleração de registros desses  produtos. No entanto, desde que tomou posse e praticamente assumiu o controle do setor de agrotóxicos, os registros dispararam.

Quando deputada, Tereza Cristina presidiu a comissão especial que deixou pronto para votação no plenário da Câmara o substitutivo para um conjunto de projetos que alteram a atual legislação desses produtos no Brasil, o Pacote do Veneno. O objetivo é facilitar ainda mais a importação, produção, comercialização e utilização.

A aprovação do pacote na comissão, em maio, estimulou os fabricantes. Até aquele mês, havia 130 pedidos de registro. Dali até o final do ano foram protocolados outros 508.

Um dos argumentos mais usados pelos defensores do Pacote é que o tempo de espera pela liberação é de mais de dez anos. No entanto, dos 2.906 pedidos na fila, há apenas um de 2008, sete de 2009, 34 de 2010 e 65 de 2011.

Mais registros significa mais produtos no catálogo das empresas, mais vendas e mas lucros. Desde 2018, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Em 2017, o setor movimentou aproximadamente US$ 8,8 bilhões, conforme o sindicato da indústria (Sindiveg).

Com base em dados oficiais e da própria indústria de agrotóxicos, analistas do setor estimam que o país deixou de arrecadar R$ 2,07 bilhões com isenções fiscais concedidas à comercialização desses produtos. Em 2018, as desonerações aos insumos agrícolas cresceram 32% na comparação com o ano anterior, quando a renúncia fiscal foi de R$ 1,57 bilhão. Entre 2015 e 2018, as isenções acumularam R$ 7,1 bilhões.

Expansão

Com 33 itens em seu portfólio, a Nortox é o maior fabricante nacional do setor de agrotóxicos. E pretende crescer mais. Em abril, anunciou sua nova estratégia de expansão dos negócios para a América Latina: o lançamento de novos produtos. Quando iniciou suas atividades, há 65 anos, estava mais focada na produção de agroquímicos para lavouras de café. Com o passar do tempo, passou a produzir também para o algodão e, mais recentemente, tornou-se fornecedora de herbicidas, inseticidas e fungicidas para o plantio de soja.

Em entrevista ao Agrolink, um executivo de marketing da empresa disse que em 2018 foram colocados no mercado quatro novos “defensivos” e no primeiro trimestre de 2019, mais quatro, com formulações e registros diferenciados, a atuação esteja centrada no segmento de venenos genéricos.

Apesar da crise econômica, a companhia vem crescendo. Em 2015, ocupava a 617ª posição entre s maiores empresa segundo o ranking As 1.000 Maiores do jornal Valor Econômico. No ano seguinte, subiu para 544ª, e em 2017, para 521ª. Naquele ano, seu lucro líquido foi de R$ 103,2 bilhões.

Com o início do governo Bolsonaro, obteve o registro para dez produtos. São cinco herbicidas, três fungicidas e dois inseticidas, sendo que cinco deles são considerados produtos técnicos. Ou seja, matérias-primas para a fabricação de outros produtos. Do total liberado, cinco são extremamente tóxicos, um é altamente tóxicos e quatro são medianamente tóxicos.

Bolsonaro ruralista

Fazenda em Goiatuba, Goiás: A expressão da aliança entre os ruralistas e o então candidato

A indústria sediada em Arapongas (PR), que recentemente abriu filial em Rondonópolis (MT), tem participação na Nutrinova Holdings, que por sua vez participa do quadro societário da Cropchem, empresa que registrou seis produtos desde que Bolsonaro assumiu

A Nortox é dirigida pela família Amaral. Em junho de 2015, o conselheiro de administração, Humberto Amaral, foi denunciado pelo Ministério Público do Paraná por envolvimento em uma organização criminosa, que atuava na Receita Estadual em Londrina.

De acordo com o MP-PR, Amaral e outros empresários pagavam propina em troca de benefícios fiscais. Conforme a denúncia, auditores fiscais faziam vistas grossas para aliviar multas e irregularidades.

Falácia

Professor e pesquisador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e colaborador do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa, Marcos Pedlowski publicou recentemente estudo que aponta a contaminação por agrotóxicos da água consumida por assentados da reforma agrária em Campos dos Goytacazes (RJ).

Estudioso do tema, Pedlowski chama atenção para a gravidade da escalada dos agrotóxicos de janeiro para cá, que desmonta uma falácia da indústria, do comércio, dos ruralistas e dos defensores dos agroquímicos. “Esses produtos não são menos tóxicos do que os anteriores. E apesar de ainda não tê-los analisado em profundidade, posso constatar a presença de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo justamente por causa da ligação com doenças graves e danos ambientais”, afirma. É o caso do Imazetapir, da Abamectina, Atrazina, Sulfentrazone e Clorpirifós, proibidos em diversos países.

Pedlowski chama atenção ainda para o fato de a China ter papel central no que se poderia chamar de economia política dos agrotóxicos, fazendo a ponte com alguns fabricantes brasileiros. E o mais preocupante: a possibilidade de muitos desses agrotóxicos que estão na fila virem a ser liberados ainda este ano.

“Boa parte do que está sendo liberado é para soja, algodão, milho e cana. Essas são justamente as culturas que aparecem como causadoras do desmatamento na Amazônia. Um aspecto curioso entre as liberações é que a maioria dos produtos nacionais são para controle biológico de pragas, com menor nível de toxicidade para humanos e o meio ambiente”.

Segundo ele, tamanha pressa nada mais é do que a submissão aos interesses da indústria. “A pressão na Europa está aumentando para que não se aprovem nem vendam os agrotóxicos que estão proibidos lá. A indústria quer vender tudo o que for possível antes que lá acabem com a mamata aqui”, afirma.

Pacote do Veneno

Essa velocidade no trabalho dos órgãos responsáveis pelo registro desses produtos, no entanto, não pode ser entendida como a antecipação do Pacote do Veneno. Para o agrônomo Ruy Muricy, que integra os fóruns baiano e nacional de combate aos impactos dos agrotóxicos e transgênicos, a aprovação do Pacote pioraria muito mais a situação.

“O chamado Pacote desmonta, de forma estrutural, o arcabouço legal construído ao longo de 30 anos. A começar pela perda das prerrogativas do Ministério da Saúde e do Meio Ambiente no poder de veto do registro de agrotóxicos. Traz ainda mudança nos critérios para o banimento de produtos e permite o registro mesmo de produtos com características de causar câncer, mutações genéticas, malformações e desregulação no sistema endocrinológico. E ainda impede que estados, Distrito Federal e municípios editem leis mais rigorosas que a União”, afirma.

Muricy pondera que, ainda que nesses primeiros 100 dias de governo Bolsonaro alguns ritos legais tenham sido atropelados, há o caminho da Justiça. “Pode-se arguir pelos atos contrários à lei. Com o Pacote do Veneno, isso se tornará extremamente difícil”.

Na avaliação do coordenador da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, Alan Tygel, os registros que estão sendo concedidos resultam de um maior empenho do Ministério da Agricultura em liberar os agrotóxicos que estava na fila, já aprovados pela Anvisa e Ibama.

“Nós sempre denunciamos inclusive que os três órgãos possuíam muito poucos servidores para dar conta do trabalho com qualidade. No entanto, parece que agora a Ministra Teresa Cristina alocou funcionários de outras áreas para agilizar a liberação destes agrotóxicos. Mas tudo ainda dentro do marco legal vigente”, afirma.

Em caso de aprovação do Pacote, conforme acredita, a sociedade civil ficará de mãos atadas. “As definições vagas sobre ‘risco inaceitável’, por exemplo, dificultariam inclusive um pedido de reavaliação. Além disso, ao tirar a Anvisa e o Ibama do processo de análise para registro, o volume de liberações de agrotóxicos mais perigosos do que os já existentes deve aumentar.”

É sempre bom lembrar que, quanto mais produtos liberados, maior o assédio da indústria sobre os produtores e agricultores, maior a utilização e, por consequência, maior a contaminação das águas, do solo, dos alimentos, trazendo mais adoecimento e morte.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

O veneno nosso

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Por Ângelo Cavalcante*

Um quinto de todo o agrotóxico consumido no planeta é despejado em cachoeiras nas lavouras do Brasil.

Desnecessário dizer dos efeitos e impactos dessa lógica sobre a saúde e a vida das pessoas, dos bichos e mesmo sobre as sobras de meio ambiente.

Na relação forma/função tem-se preciso diagnóstico do que é o latifúndio brasileiro e sua indissociável relação com a guerra química e que acontece diariamente nas lavras brasileiras.

Aqui em Itumbiara, no extremo sul goiano, a cidade subsome em meio a um dos maiores canaviais de todo centro-oeste.

Este “maior” refere-se bem mais às formas produtivas e relacionais engendradas pelo grande agronegócio canavieiro do que às dimensões das suas lavouras.

É um titã!

A cana extinguiu a agricultura familiar local; em dez anos essa agroindústria expulsou mais de trinta mil moradores do rural local para uma nucleação urbana/suburbana desestruturada, precária e abertamente carente de equipamentos urbanos essenciais como, observem bem, serviços de água e energia.

E toda essa tragédia demográfico-ambiental com o aval cínico e subalterno da prefeitura e da câmara de vereadores ao fim, iria “gerar empregos”.

Tudo mentira!

Conta mal-feita e pessimamente concebida de fio a pavio

Se o discurso do assalariamento é uma fortaleza irremovível no juízo rasteiro da política local, sob o viés das ocupações esse debate cai por terra.

Não é tão complicado!

Quem conhece um pouquinho da agricultura familiar, do cotidiano sócio-produtivo de uma unidade familiar de produção vai identificar que toda a família e mesmo a vizinhança se envolve para realizar as lidas da terra, da criação e da manutenção do trabalho.

A cooperação, a mutualidade e a solidariedade são termos-chave para a compreensão do que  efetivamente, é a agricultura familiar.<

Todos se ocupam, interagem, intercambiam bens, serviços e saberes. É uma vasta e complexa rede cooperativa e colaborativa da hora primeira do dia ao fechamento das labutas

O agronegócio canavieiro de Itumbiara não eliminou apenas a produção física das agro-famílias. Deu fim a teias e processos ancestrais de integração, unidade e vivência em torno do ato de trabalhar o campo.

O prejuízo é bem maior do que se possa imaginar.

Atualmente, parte dessas famílias arrendaram suas terras ao ‘pool canavieiro’ local, por sinal, o maior evento de especulação imobiliária já visto na história econômica rural de Goiás onde o preço do “arrendo” é dado não pelo proprietário da terra mas pelo grande agronegócio.

Tem base?

Outra parte destas famílias garantiu que seus filhos se proletarizassem nestas mesmas agro-empresas por salários infames e arriscados e; outro expressivo segmento lançou-se ao imenso mundo das atividades informais e precárias acontecidas nas ruas, praças e vielas da cidade.<

A síntese do agronegócio canavieiro local?

É tragédia sob qualquer aspecto.

Em bem primeiro, é gritante e explícito atentado ao direito humano de viver sob condições públicas e sanitárias minimamente adequadas; em seguida, tem-se a combinação de latifúndio com destruição ambiental expressa na devastação própria das monoculturas e que se completam, sobretudo, com a imensa bomba química e que temos de “saborear” todos os dias.

Finalmente, a intensificação do empobrecimento e da pauperização dos trabalhadores rurais é outra consequência da “modernização conservadora” dos campos locais

A agricultura familiar, diferentemente do que possa conceber o juízo econômico utilitarista e liberal, é uma forma de integração sócio-ambiental viável, perene e possível.

Afora isso, temos crises respiratórias infernais, o câncer e esse maldito silêncio que não cessa.

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* Ângelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.

“Brasil é um inferno de agrotóxicos na Terra”

Bayer, agrotóxicos, câncer e padrões duplos de comportamento

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Acionista crítico leva a Bayer a prestar contas na assembleia geral anual da empresa

O presidente-executivo da Bayer, Werner Baumann, perdeu recentemente um voto crucial de confiança, com os investidores questionando sua forma de lidar com o acordo de US$ 63 bilhões da Monsanto e a onda de ações judiciais dos EUA que se seguiram. No que Bloomberg chamou de “um desenvolvimento impressionante para a companhia alemã de medicamentos e produtos químicos”, cerca de 55% dos acionistas votaram contra a absolvição de Baumann e outros gerentes de responsabilidade por suas ações na tomada da Monsanto que ocorreu no ano passado.

A votação colocou em dúvida o futuro de Baumann e provocou uma sessão imediata do conselho de supervisão. Enquanto o conselho supervisor ignorou a votação sem precedentes, os investidores não estão satisfeitos com a decisão dos diretores de apoiar Baumann e sua estratégia.

Embora grande parte da agitação dos investidores incida, sem dúvida, no passivo financeiro, fortes preocupações estão sendo levantadas sobre a ética da Bayer. Na reunião geral anual da Bayer, Christian Russau, da organização guarda-chuva, os Acionistas Críticos, fez um discurso no qual lançou um ataque contundente à empresa por seus “duplos padrões”. Segundo Russau, a Bayer vende pesticidas no Brasil que são proibidos na UE.

Russau realizou duas investigações, uma em 2016 e uma segunda em 2019.

Ele descobriu que 8 substâncias ativas de pesticidas foram vendidas pela Bayer no Brasil em 2016 e não estão autorizadas a nível da UE:

  • Carbendazim
  • Ciclanilida
  • Dissulfotam
  • Etiprona
  • Ethoxysulfuron
  • Ioxinil
  • Thidiazurom
  • Tiodicarbe

Mas em 2019, o número aumentou para 12:

  • Carbendazim
  • Ciclanilida
  • Etiprona
  • Ethoxysulfuron
  • Fenamidona
  • Indaziflam
  • Ioxinil
  • Oxadiazona
  • Propinebe
  • Thidiazurom
  • Tiodicarbe
  • Tirame

Russau comentou: “Este é um aumento de 50%”.

Russau observou que em 1988, o então CEO da Bayer Hermann J. Strenger se recusou a estabelecer padrões duplos. Ele disse: “Fazemos as mesmas exigências de nossos investimentos no Brasil ou na Índia, nos EUA ou no Japão, como [na Alemanha]”.

No entanto, 31 anos depois, Russau disse que a Bayer ainda vende no Brasil alguns herbicidas, inseticidas e fungicidas com ingredientes ativos que são proibidos na Europa. Por isso, está operando de acordo com um padrão duplo. Russau acusou o CEO da Bayer, Werner Baumann, de cumplicidade com esse duplo padrão, em uma “continuidade histórica indescritível”.

Por que o Brasil?

Por que o foco no Brasil? Russau disse: “Porque o Brasil está no centro do interesse de crescimento da Bayer”. Dirigindo-se diretamente a Baumann, ele acrescentou que o CEO da Bayer disse na reunião geral anual de 2018 que o interesse da Bayer em adquirir a Monsanto seria no setor de sementes e no crescimento desse setor: “Este tipo de semente é geralmente geneticamente modificado, e é isso que Se essas três variáveis- sementes geneticamente modificadas, venenos agrícolas e crescimento – forem reunidas, somente um denominador comum pode ser encontrado em todo o mundo: o Brasil. Essa é a triste realidade, porque o crescimento nas áreas de sementes geneticamente modificadas e os venenos agrícolas já atingiram seus limites nos EUA, os processos contra a Monsanto atestam isso. “

Na Europa, Russau disse que a resistência pública é grande demais para que o crescimento seja esperado aqui. Na Índia, mais e mais estados estão declarando-se “livres de agrotóxicos” e a China está mostrando preocupação com a contaminação por agrotóxicos; “Então só o Brasil permanece. E há uma razão para isso.”

Russau comentou “notícias alarmantes do Brasil”: o novo governo brasileiro do presidente Jair Bolsonaro, com a ministra da agricultura e lobista agroquímica Tereza Cristina, que o maior e mais respeitado diário do Brasil apelidou de “Musa do Veneno”, lançou outros venenos agrícolas altamente tóxicos que são proibidos em outros lugares. Como cientista conhecida do instituto estadual de pesquisa para questões de saúde, a FIOCRUZ disse recentemente: “O Brasil se tornará um paraíso para os venenos agrícolas”.

Russau disse temer que empresas como a Bayer continue a participar, talvez mais do que nunca, na venda e distribuição de venenos agrícolas altamente tóxicos no Brasil. Como uma tática de sobrevivência diante da aquisição multibilionária da Monsanto, a Bayer irá crescer a qualquer preço. Qualquer veneno que possa ser vendido será vendido.

Brasil: Um “inferno de agrotóxicos na Terra”

Russau chamou o Brasil de um “inferno de agrotóxicos na Terra”, pelas seguintes razões:

* O Brasil é o líder mundial no uso de agrotóxicos – e a província de soja transgênica de Mato Grosso detém o recorde mundial: se a quantidade total de venenos agrícolas liberados no Brasil por ano é medida em termos de população per capita, então chega-se ao aterrorizante montante de 7,3 litros por cidadão brasileiro. Mas isso é “apenas” a média nacional. O líder brasileiro na pulverização de agrotóxicos é o estado de Mato Grosso, onde 13,3% (140 milhões de litros) de todos os venenos agrícolas usados no Brasil foram pulverizados anualmente entre 2005 a 2012, segundo os últimos cálculos do Instituto Estadual de Agricultura. Segurança do Mato Grosso (Indea).

* Observando uma dessas comunidades de “boom” – Sapezal, no estado do Mato Grosso, em 2012, nove milhões de litros de venenos agrícolas foram usados apenas no município de Sapezal. Estes são os últimos dados disponíveis da Indea. Se você contar a quantidade de agrotóxicos usados em todo o Brasil, chegamos aos 7.3 litros acima mencionados por pessoa. Em Sapezal, no entanto, esse valor é 52 vezes maior: 393 litros por pessoa, se tomarmos como base a população de 2016.

* Um estudo da Universidade Federal do Mato Grosso encontrou em um estudo que havia 1.442 casos de câncer gástrico, esofágico e pancreático em 13 municípios (644.746 habitantes segundo o último censo de 2015), nos quais soja, milho e algodão foram cultivados entre 1992 e 2014. Em comparação, nos 13 municípios comparáveis (219.801 habitantes segundo o último censo de 2015), onde o turismo predominou em vez da agricultura, o número de casos de câncer foi de apenas 53. Isso resulta em uma taxa de câncer de 223,65 por 100.000 habitantes predominantemente municípios agrícolas, enquanto que em municípios predominantemente turísticos, há uma taxa de câncer de 24,11 por 100.000 habitantes. Assim, em municípios onde os pesticidas são fortemente pulverizados, a taxa de câncer é estatisticamente maior por um fator de 8.

Em conclusão, Russau perguntou ao CEO da Bayer, Baumann: Quanto remédio anticâncer (volume e vendas) sua empresa farmacêutica enviou para o estado do Mato Grosso em 2016 e 2017?

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Este artigo foi originalmente publicado pela GMWatch [Aqui!]

Com agrotóxicos aparecendo em mais lugares, aumentam as preocupações com a segurança

Um corpo crescente de pesquisas está desafiando a suposição de que os neonicotinóides são mais seguros e menos propensos a se espalhar no ambiente do que outros agrotóxicos

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Credito: Danita Delimont Getty Images

Por Jim Daley para a Scientific American

Durante décadas, Judy Hoy dirigiu um centro independente de reabilitação da vida selvagem na sua casa no estado de Montana, onde também realizou autópsias em cervos atingidos por carros. No final dos anos de 1990, ela notou uma tendência bizarra: muitos cervos tinham pronunciado sobremordidas, ventrículos cardíacos ampliados e glândulas e timo danificados ou ausentes. E os cervos não estavam sozinhos. “Estávamos vendo os mesmos defeitos congênitos em todos os animais de caça e domésticos”, diz Hoy, que relatou suas observações em 2002 no Journal of Environmental Biology. Ela suspeitava que uma nova classe de agrotóxicos chamada neonicotinóides poderia ser responsável por esses problemas.

Impulsionado pelo trabalho de Hoy, Jonathan Jenks, um ecologista de vida selvagem da Universidade Estadual de Dakota do Sul, testou essa ideia em 2015 e 2016. Ele deu água a um  cervo cativo contendo imidaclopride, o neonicotinóide mais comumente usado, e mediu sua presença em vários órgãos. Veados com níveis mais altos em seus baços tinham sobremordidas pronunciadas, exatamente como Hoy tinha visto. O que realmente surpreendeu Jenks foi que ele também encontrou imidacloprid em seus animais de controle – que não haviam sido expostos intencionalmente ao agrotóxico. Suas descobertas se somam a um corpo acumulado de indicações sinistras de que os neonicotinóides podem estar representando um risco ambiental e de saúde sub-reconhecido.

Os neonicotinóides, que visam o sistema nervoso dos insetos com eficiência letal, foram desenvolvidos pela Bayer na década de 1980 como uma alternativa mais segura aos agrotóxicos então existentes. Eles são considerados menos tóxicos para os vertebrados e, em vez de serem amplamente pulverizados sobre os campos, podem ser aplicados diretamente às sementes ou entregues via irrigação e incorporados aos tecidos à medida que a planta se desenvolve – em tese, minimizando suas chances de se espalhar no meio ambiente. Mas um corpo crescente de literatura está desafiando esse paradigma, apontando para impactos tóxicos em espécies não-pestes de abelhas e em veados e para a transmissão além dos campos agrícolas. Apenas 2 a 20% dos neonicotinóides aplicados às sementes chegam à planta, diz Jonathan Lundgren, um ecologista que trabalhou com Jenks e dirige a Ecdysis Foundation, uma organização de pesquisa agrícola. “Isso levanta a questão de para onde os outros 80 a 98 %  dos agrotóxicos estão indo”, diz ele. “E estamos começando a encontrá-los em outras áreas do meio ambiente. Estamos encontrando-os em águas superficiais. Estamos encontrando-os em plantas não tratadas com agrotóxicos.

De Pardais a Alimentos

Jenks não tem certeza de como o cervo controle em seu experimento foi exposto ao imidaclopride, mas ele suspeita que eles possam ter comido vegetação de um campo próximo ao local onde foram mantidos ou que sua ração baseada em grãos pode ter sido tratada com o pesticida.  Jenks observa que 90% do milho e 50% da soja nos Estados Unidos são tratados com neonicotinóides. Os produtos químicos são projetados para diminuir nas plantas tratadas ao longo do tempo, mas Jenks diz que sua meia-vida é de até 1.400 dias – o que significa que as aplicações anuais nas lavouras podem estar causando o acúmulo de neonicotinóides no ambiente. “Qualquer alimento doméstico usado em um estudo experimental provavelmente resultaria em contaminação”, diz ele. Os agrotóxicos também são solúveis em água, razão pela qual podem ser entregues a plantas em crescimento por meio de irrigação, mas também significa que o escoamento pode levá-los a lagos e rios. Jenks diz que seu estudo, publicado em março na Scientific Reports, foi o primeiro a examinar experimentalmente os efeitos do imidacloprid sobre grandes mamíferos. Os efeitos dos neonicotinóides sobre os vertebrados de forma mais ampla estão apenas começando a ser compreendidos.

Christy Morrissey, ecotoxicologista da Universidade de Saskatchewan, que não participou do estudo de Jenks, diz que a exposição a neonicotinóides tem efeitos perturbadores sobre pássaros canoros migratórios. Em 2017, Morrissey mostrou em um estudo da Scientific Reports que a alimentação do imidaclopride com pardais coroados-brancos fazia com que eles perdessem até um quarto da massa corporal – e em uma longa jornada migratória, cada miligrama é importante. Além disso, os pardais também não conseguiram encontrar o norte verdadeiro por semanas depois de serem expostos. Morrissey diz que uma alta porcentagem de pardais migratórios capturados no sul de Ontário tem níveis detectáveis ​​de neonicotinóides no sangue. “Os níveis são baixos, mas indicam uma contaminação generalizada”, disse ela. “Esses produtos químicos estão entrando na cadeia alimentar mais ampla … e não são atóxicos para muitas espécies.” Outros estudos começaram a detectar neonicotinóides em aves de rapina selvagens, roedores, peixes, lagartos e sapos; os biólogos suspeitam que os animais estão sendo expostos de várias maneiras, incluindo comer sementes tratadas ou presas contaminadas, ou entrar em contato com o escoamento de campo contaminado.

Neonicotinóides também estão aparecendo na comida humana. Um artigo de revisão  publicado na revista Environmental Science and Toxicity em 2018 constatou que mais da metade das frutas e verduras servidas na cafeteria do Congresso dos EUA continha neonicotinóides, embora em níveis considerados aceitáveis ​​pela Agência de Proteção Ambiental com base em estudos em roedores (a prática padrão da EPA para testar toxicidade de agrotóxicos)  E um estudo publicado em janeiro de 2019 na Environmental Health encontrou neonicotinóides mesmo em algumas frutas e vegetais orgânicos certificados – possivelmente devido à má rotulação do produto, à contaminação pós-colheita ou à deriva de  agrotóxicos carregados pelo vento.

Mas a extensão da toxicidade desses agrotóxicos para os seres humanos ainda não está clara para os cientistas, em parte porque, até muito recentemente, não possuíam capacidade analítica para detectar esses produtos químicos ou subprodutos em humanos, diz Melissa Perry, pesquisadora de saúde pública da Universidade George Washington. “Nos últimos 15 anos, chegamos a entender que muitos agrotóxicos podem imitar hormônios, o que pode afetar as atividades do sistema endócrino humano”, diz ela. “Como os estudos sobre os efeitos dos neonicotinóides sobre a saúde humana têm sido bastante limitados, se eles têm atividade endócrina humana ainda não é conhecido.”

De acordo com David Fischer, diretor da divisão de segurança ambiental da Bayer Crop Science, os métodos de testes ambientais atuais são mais sensíveis – e os níveis dos agrotóxicos detectados não são prejudiciais. Lundgren, entretanto, contrapõe que, mesmo em níveis baixos, “os neonicotinóides são 5 a 10.000 vezes mais tóxicos para as abelhas que o DDT [diclorodifeniltricloroetano, um pesticida que a EPA proibiu na década de 1970]”. Fischer também diz que as concentrações utilizadas por Jenks e Lundgren em seus experimentos são maiores do que os níveis ambientais atuais, o que Jenks prontamente reconhece. Mas Jenks e seus colegas encontraram alguns cervos selvagens com concentrações de imidacloprid ainda mais altas do que aqueles em seus cervos experimentais, indicando que os níveis ambientais podem variar.

Repensando os agrotóxicos

Jenks e outros estão analisando os impactos dos neonicotinóides em outras espécies, para entender melhor o escopo potencial do problema. Em seu trabalho atual com faisões, Jenks encontrou novamente contaminação em seus animais de controle. Ele testou sua alimentação e identificou-a como uma possível fonte de contaminação. Outros pesquisadores começaram a pedir por biomonitoramento e estudos epidemiológicos de larga escala para determinar os efeitos dos neonicotinóides na saúde humana.

Recentemente, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças estabeleceram métodos analíticos para estudar a presença de agrotóxicos na urina, como parte da Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição, uma ampla pesquisa do status médico e alimentar dos americanos. Devon Payne-Sturges, cientista de saúde ambiental da Universidade de Maryland, diz que o estudo da NHANES “preencherá uma importante lacuna de dados” no biomonitoramento de neonicotinóides.

Em grande parte porque os neonicotinóides já mostraram ser mortais para as abelhas, que são cruciais para as plantas polinizadoras, alguns governos começaram a restringir seu uso. Em 2018, a União Europeia expandiu a proibição de três neonicotinóides, incluindo o imidaclopride. Nos EUA, o congressista Earl Blumenauer (D-Ore.) reintroduziu uma lei em fevereiro de 2019 para limitar o uso de imidaclopride e outros neonicotinóides, e para direcionar a Environmental Protection Agency (EPA) a estabelecer um “conselho de proteção de polinizadores” que envolveria apicultores, agricultores e conservacionistas em processos de revisão de toxicidade de agrotóxicos.

No entanto, Morrissey diz que o problema não é tão simples quanto proibir um agrotóxico ou outro. “O maior problema é que nos tornamos complacentes com o uso de agrotóxicos para tudo”, diz ela. Lundgren diz que alternativas como a agricultura regenerativa – uma abordagem que é defendida pela Fundação Ecdysis e promove a biodiversidade para ajudar a controlar pragas com insetos benéficos – já estão disponíveis e são escaláveis ​​para a agricultura comercial. Mas ele acrescenta que uma mudança significativa terá que vir dos esforços de base. “Acho que esse tipo de mudança de paradigma ao longo da história não vem necessariamente do governo ou da universidade; eles vêm das pessoas que decidem fazer uma mudança ”, diz ele. “Dentro do nosso sistema alimentar, quem precisa fazer essa mudança? Os fazendeiros, os apicultores, os consumidores. Eles precisam exigir algo melhor ”.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela revista Scientific American [Aqui!]

Cocaina, remédios e agrotóxicos contaminam corpos aquáticos no Reino Unido

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Estudo encontrou contaminação de águas por cocaina, ketamina e agrotóxicos no Reino Unido.

A reportagem abaixo publicada pela rede britânica BBC apresenta os resultados de um estudo publicado no dia de hoje pela revista Environment International cujo autor principal é o professor Thomas H. Miller do King´s College de Londres. 

Este estudo apresenta resultados inesperados até para seus autores onde são mostrados os níveis exposição de animais selvagens que habitam ecossistemas de água doce, como o camarão Gammarus pulex de água doce, a diferentes micropoluentes – produtos químicos encontrados em níveis extremamente baixos, bem como para as quantidades desses compostos encontrados nos animais estudados. 

É importante notar que entre os 67 contaminantes encontrados estavam  drogas ilícitas – incluíndo cocaína (esta presente em todas as amostras analisadas) -, cetamina, e um agrotóxico proibido na União Europeia, o fenuron. 

Outro fato surpreendente é que a coleta de amostras foi realizada em áreas rurais distantes de grandes áreas urbanas onde o processo de contaminação é mais provável. Neste sentido, o que este estudo revela, especialmente em um país como o Brasil onde o processo de regulação é mais frágil do que no Reino Unido é que o processo de difusão da contaminação por drogas ilegais, remédios e agrotóxicos pode ser ainda mais amplo e grave.

Além disso, como recentemente revelado acerca da contaminação de agrotóxicos na água que é consumida em mais de 1.000 municípios brasileiros,  este estudo confirma que existem outras fontes que irão agravar este processo.

Camarões contaminados com cocaína intrigam cientistas no Reino Unido

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Descoberta de cocaína e outras substâncias em camarões foi vista com surpresa por pesquisadores

Como cocaína, remédios e pesticidas foram parar nos corpos de camarões de água doce? Cientistas tentam entender o fenômeno após encontrarem as substâncias nos crustáceos em Suffolk, no Reino Unido.

A descoberta foi feita quando os pesquisadores analisavam a exposição de animais selvagens, como o camarão Gammarus pulex de água doce, a diferentes micropoluentes – produtos químicos encontrados em níveis extremamente baixos – e as quantidades desses compostos nos animais.

A probabilidade de as substâncias nos níveis encontrados afetarem os animais é “baixa”, segundo os pesquisadores, mas eles fazem um alerta.

“Embora as concentrações fossem baixas, conseguimos identificar compostos que podem ser motivo de preocupação ambiental e, fundamentalmente, podem representar um risco para a vida selvagem”, disse o autor principal do estudo, Thomas Miller, pesquisador do King’s College de Londres.

O estudo foi publicado hoje na revista científica Environment International e foi realizado em colaboração com a Universidade de Suffolk.

O que a análise mostrou

Os testes avaliaram amostras colhidas em 15 locais diferentes dos rios Alde, Box, Deben, Gipping e Waveney, em Suffolk.

Os pesquisadores disseram que “pela primeira vez, encontraram um conjunto diversificado de produtos químicos, incluindo drogas ilícitas e pesticidas na vida selvagem do Reino Unido”. E que a cocaína estava presente em todas as amostras.

De acordo com o principal autor do estudo, os compostos mais frequentemente detectados nas amostras foram drogas ilícitas – incluíndo cocaína -, cetamina e um pesticida proibido, o fenuron.

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GEOGRAPH/ROGER JONES. Cientistas coletaram amostras de 15 locais em Suffolk, incluindo o rio Alde

Foi uma descoberta “surpreendente”, disse o pesquisador Leon Barron, também do King’s College.

“Poderíamos esperar encontrar isso em áreas urbanas como Londres, mas não em bacias menores e mais rurais”, disse ele.

Outro pesquisador, Nic Bury, acrescentou que “é preciso investigar se a presença de cocaína em animais aquáticos é um problema apenas para Suffolk, ou uma ocorrência mais generalizada no Reino Unido”.

“A saúde do meio ambiente tem atraído muita atenção do público devido aos desafios associados às mudanças climáticas e à poluição por microplástico. No entanto, o impacto da poluição química ‘invisível’ (como as drogas) na saúde dos animais selvagens precisa de mais foco no Reino Unido”, disse ainda.

Os pesquisadores afirmaram que a presença de pesticidas que há muito tempo foram proibidos no Reino Unido também representa um desafio especial, já que as origens desse material ainda não estão claras.

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Esta reportagem foi inicialmente publicada pela rede BBC [Aqui!]

Estado de Nova York determina banimento de Clorpirifós. Já no Brasil, consumo deverá aumentar

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A notícia abaixo é daquelas que se pode ser considerada como auspiciosa, na medida em que o mercado e a legislação dos EUA são normalmente considerados pró-indústria dos venenos agrícolas.  Assim, a decisão de banir um produto não apenas decorre de intensas pressões, mas também de complexos acordos dentro das legislaturas estaduais.

Há que se lembrar que em relação ao Clorpirifós, o banimento foi determinado em apenas dois estados (Nova York e Havaí), mas deverá ser seguido em outras regiões, especialmente na União Europeia onde este agrotóxico vem sendo submetido a análises quanto à pertinência da continuidade de seu uso em áreas agrícolas.

Já no Brasil, 6 novos produtos técnicos contendo Clorpirifós foram autorizados para comercializados apenas na leva de 152 agrotóxicos liberados nos primeiros 100 dias do governo Bolsonaro, o que deverá aumentar substantivamente o número de agrotóxicos disponíveis no mercado nacional com este princípio ativo.

 

Nova York decide banir Clorpirifós por causa de seus efeitos negativos sobre a saúde humana

O Clorpirifós, ligado a deficiências intelectuais em crianças, será banido em 2021

agrotóxico

Albany, NY –  30 de Abril de 2019- Hoje, os legisladores aprovaram o projeto de lei Senado S5343 e o projeto de lei A2477B, que proíbe o Clorpirifós em Nova York. Esta é uma grande vitória para a saúde das crianças e coloca Nova York no caminho certo para se tornar, até 2021, o primeiro estado do país a acabar com o uso do Clorpirifós. O Havaí decretou a proibição em 2018, embora não tenha efeito até o final de 2022.

Dezenas de estudos mostram que a exposição ao Clorpirifós está associada a baixo peso ao nascer, redução do QI, distúrbios da atenção e atraso no desenvolvimento motor de bebês e crianças. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) concluiu em 2016 que todos os usos de clorpirifos são inseguros, mas o EPA de Trump se recusa a proibir o pesticida apesar da ciência. O Clorpirifos, um organofosforado proveniente da mesma família química do gás nervoso sarin, é usado em culturas, tais como: maçã, cítricos, brócolis, milho e muito mais.

A declaração a seguir é de Tyler Smith, cientista da equipe da Earthjustice:

“Hoje, a Assembléia Legislativa de Nova York decidiu não esperar Donald Trump para proteger as crianças de um  agrotóxico que danifica o cérebro. Agradecemos à Assemblyman Englebright e ao senador Kaminsky por sua liderança essencial. ”

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Este artigo foi originalmente publicado pela “Earthjustice” [Aqui!]

O Brasil da Bayer, o Brasil da Monsanto

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Em 25 maio de 2018, Alan Tygel da Campanha Contra os Agrotóxicos e Pela Vida), foi a convite dos Acionistas críticos na Assembleia Geral Anual da Bayer AG em 25 de maio de 2018 Bonn

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Campanha Permanente contra os Venenos Agrícolas e pela Vida organiza no Brasil resistência a pesticidas e plantas e sementes modificadas transgênicas. FONTE:CAMPANHA PERMANENTE CONTRA OS AGROTÓXICOS E PELA VIDA

Prezadas senhoras e senhores,

Meu nome é Alan Tygel, sou da Campanha Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

Do ponto de vista da Bayer, o Brasil é um país muito promissor. O Brasil é o país que usa mais agrotóxicos no mundo. E o Brasil é o país que promete o maior crescimento na venda de agrotóxicos. No Brasil, a Bayer foi a empresa em 2014, o segundo maior vendedora de agrotóxicos. Após a aquisição da Monsanto, a Bayer ficará em primeiro lugar, com uma participação de mercado de cerca de 23%.

E o Brasil tem a segunda maior área de sementes geneticamente modificadas do mundo. Em contraste com o país com a maior do mundo cultivo área de plantas geneticamente modificadas – os EUA – O Brasil tem planos para colocar sementes transgênicas até mesmo nos cultivos de algodão. Além disso, a autoridade responsável pelo registro de autoridade plantas geneticamente modificadas CTNBio, estão em processo de tramitação a aprovação de licenças para novos cultivos transgênicos. Assim, não é de admirar quando dois milhões de hectares de terra estejam sendo definidos para o cultivo de arroz transgênico.

Este é o Brasil da Bayer. Este é o Brasil da Monsanto.

Mas há outro Brasil também. O Brasil onde eu moro. Esta é a terra da agricultura camponesa, a terra da diversidade alimentar, a terra da mandioca e do milho indígena. É neste Brasil que a nossa Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida “leva as vozes de milhões de pessoas a uma só voz”. E essa voz diz “não!” a agrotóxicos e plantas e sementes modificadas transgênicas. E essa voz diz “sim!” para construir um movimento em direção à agroecologia.

No outro Brasil, há a cada ano 6.000 pessoas que precisam de tratamento médico para intoxicação por venenos agrícolas. Mas sabemos que os números reais são certamente dez vezes maiores. Porque a maioria dos envenenados mora no campo, onde há pouco ou nenhum acesso a cuidados médicos. Os agricultores cometem suicídio, as crianças nascem com danos, os bebês mostram sinais de puberdade. Tudo provado por causa dos venenos agrícolas.

Na sua política de responsabilidade social e ambiental, a Bayer declara que é aconselhável seguir as instruções no folheto informativo, a calibração do equipamento de aplicação, a utilização de vestuário protector prescrito, a limpeza do equipamento e a eliminação adequada das águas residuais após a utilização.

Peço-lhe, portanto: Você acha que Bayer está livre de tal culpa por todo o envenenamento e todo o sofrimento? Então, as próprias vítimas são culpadas?

O portfólio de venenos agrícolas da Bayer registrados no Brasil inclui 109 produtos fabricados com 50 ingredientes ativos diferentes. Seus best-sellers no Brasil são os produtos à base de carbendazim e imidaclopride. Ambas as drogas estão na lista das dez substâncias mais utilizadas. É pura coincidência que uma das duas substâncias na União Europeia (UE) seja proibida, a outra seja banida? Além disso, a Bayer vendida no Brasil oito outros ingredientes ativos utilizados em produtos que são proibidos na UE: Thidiazuron, Tiodicarbe, Ioxinil, iprodiona, indaziflam, Etiprol, Etoxissulfurom e Cloridrato de Propamocarbe.

Eu lhes pergunto: Vocês acham que sua política de enviar venenos agrícolas proibidos há longa data na Alemanha para países em desenvolvimento é eticamente justificável? O que a Bayer fará com o glifosato da Monsanto se ele for banido na União Europeia por ser cancerígeno?

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Alan Tygel na ação de protesto durante a reunião geral anual da Bayer AG FONTE:UMBRELLA ASSOCIATION OF CRITICAL SHAREHOLDER

Atualmente, uma enorme pressão está sendo exercida no Brasil para derrubar a lei existente sobre agrotóxicos. Em seu lugar, os congressistas da bancada ruralista propõem uma lei sobre agrotóxicos. Isso reduziria o papel das autoridades sanitárias e ambientais no registro de agrotóxicos e aboliria as disposições do Registro de Venenos Agrícolas Carcinogênicos. Atualmente, 250.000 pessoas assinaram uma petição contra esse projeto, mas este projeto é abertamente apoiado pelo Sindiveg, a associação setorial da qual a Monsanto e a Bayer são membros.

Em 2018, a Monsanto participou de nove reuniões com o Ministério da Agricultura do Brasil e a Bayer em seis, algumas das quais diretamente com o ministro da Agricultura do Brasil, Blairo Maggi.

A Bayer considera justificado fazer lobby com o objetivo de enfraquecer a legislação nos países subdesenvolvidos e fornecer produtos já proibidos na Alemanha para o Brasil?

A Bayer também tem muito a ser criticado em relação às plantas transgênicas no Brasil: a Bayer tem atualmente onze patentes sobre sementes transgênicas no Brasil. Após a aquisição da Monsanto, que tem 23 patentes, a Bayer seria a dona de quase metade de todas as 75 modificações transgênicas registradas no Brasil.

Hoje vocês falam muito sobre plantas transgênicas sendo sustentáveis ​​e contribuindo para a redução de venenos agrícolas. Na realidade, porém, estamos experimentando uma trágica contaminação ambiental, a perda de uma herança genética preservada há séculos e um aumento maciço no consumo de agrotóxicos.

O caso da coruja cápsula de algodão Falters (Helicoverpa armigera) mostra claramente o problema: em 2012, a população dos Falters explodiu porque o milho transgênico geneticamente modificado não poderia mais prejudicá-lo. Em grande parte do nordeste brasileiro, houve então uma situação extrema de emergência, que chegou a uma perda de bilhões de reais. Em resposta, o Brasil importou uma toxina agrícola que já era proibida no país há muito tempo, porque é altamente prejudicial para o sistema nervoso humano: o benzoato de emamectina. O Ministério da Agricultura, que era tão transgênico, viu a culpa do milho transgênico, mas sobre a lei no ano passado, a aprovação do benzoato de emamectina no Brasil.

Entre 2007, quando o primeiro produto transgênico da Bayer foi registrado no Brasil e em 2014, o consumo de venenos agrícolas aumentou 52%. Estudos recentes indicam que esse aumento é em grande parte devido à soja transgênica, uma área em que a Monsanto é a campeã de vendas.

Contra esse pano de fundo, gostaríamos de saber: o seu entendimento de sustentabilidade inclui esse alto consumo de venenos agrícolas induzidos pelo uso de plantas transgênicas? Sua compreensão da sustentabilidade inclui a contaminação ambiental e o desequilíbrio ecológico causado por uma profunda desconsideração pelos direitos humanos dos pequenos agricultores?

Prezadas Senhoras e Senhores, Acionistas. Se vocês acham que o Brasil é a terra do lucro, não importa o preço e a que custo, e se vocês acham que pode despejar todo o seu lixo que não é bom aqui no nosso país, então tenha certeza que nós iremos Resistir.

Obrigado pela sua atenção.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo site Amerika21 [Aqui!]

Agrotóxicos: crime e castigo

agrotoxicos

Abaixo uma interessante entrevista realizada pelo jornalista Bob Fernandes com a geógrafa e professora da Universidade de São Paulo (USP), Larissa Miers Bombardi, sobre a grave ameaça que paira hoje sobre todos os brasileiros em função do uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo.

Depois de assistir este vídeo, tenho certeza que a maioria das pessoas irá começar a entender os problemas que hoje são causados por um modelo de exportação viciado no uso de agrotóxicos em larga escala.