Cantar é o ato mais subversivo do povo chileno

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O professor, poeta, diretor de teatro, compositor e ativista comunista Victor Jara foi  assassinado após ser barbaramente torturado pela ditadura militar de Augusto Pinochet no dia 16 de setembro de 1973.  Jara compôs alguns dos maiores clássicos da música latino-americana, incluindo “Te recuerdo Amanda”  e ” El derecho de bien vivir”.  Jara teve ainda seu corpo jogado em um matagal, provavelmente para dificultar a sua identificação.

Quase 50 anos depois de sua morte, Victor Jara está sendo celebrado nas ruas chilenas pelas massas que se levantam contra as políticas neoliberais iniciadas por Pinochet e continuadas por Sebastian Pinera (ver abaixo manifestantes cantando “El derecho de bien vivir”.

Sem me alongar muito na análise do terremoto político que hoje abala as estruturas políticas deixadas intactas após o fim da ditadura de Augusto Pinochet, eu diria que não há mais perigoso do que as massas enfrentando a repressão com a força da poesia dos que foram assassinadas em muitos anteriores.

Noto ainda que em muitas manifestações, inclusive nessa que é mostrada no vídeo, a bandeira do Chile se mistura ao povo Mapuche, etnia indígena que tem sido historicamente perseguida.  Nesse sentido, o levante do povo chileno é um movimento que busca resgatar direitos que têm sido negados aos seus povos originários.

E aí eu digo: o temor e o tremor gerado pelo maioria do povo chileno tem tudo para gerar mudanças extraordinárias na América Latina. É que não há mais nada subersivo de que um povo que canta seus mortos.

Victor Jara, presente!

De Salvador Allende para Jair Bolsonaro: muito cuidado com suas escolhas!

 

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Presidente deposto por um golpe militar, Salvador Allende é lembrado a uma frase que diz que “a justiça é igual à serpente, pois só morde os descalços”.

Assistir ao cerco que está sendo imposto ao presidente Jair Bolsonaro, no que remonta a uma das mais rápidas frituras da história republicana no Brasil, não posso deixar de lembrar do finado presidente socialista do Chile, Salvador Allende, que foi assassinado resistindo ao golpe de estado de Augusto Pinochet em 11 de Setembro de 1973.

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Salvador Allende dando posse a Augusto Pinochet como comandante do Exército do Chile em 24 de Agosto de 1973. 

É que, como os historiadores contam, Salvador Allende tentou responder às pressões politicas que se faziam cair sobre ele, nomeando para comandante do exército o General Augusto Pinochet no dia 24 de Agosto como uma forma de apaziguar a situação.  Pois bem, como os livros de história mostram, Pinochet precisou apenas de 18 dias para derrubar Allende e impor uma das mais sanguinárias da história recente da América Latina. 

Agora, em pleno 2019, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu a proeza de ter mais militares em seu gabinete ministerial do que alguns generais que vestiram a faixa presidencial entre 1964 e 1988, provavelmente para se sentir mais seguro. 

O problema aqui é que, talvez sem contemplar o possível paralelo histórico, Jair Bolsonaro talvez esteja aumentando seu problemas para continuar segurando a faixa presidencial, e sem antecipar corretamente os passos que dá, seguindo a mesma trajetória que levou Salvador Allende ao cadafalso.

Aliás, falando em Chile e Augusto Pinochet, nunca é demais lembrar que o ministro da Economia, Paulo Guedes, é um admirador confesso das políticas ultraneoliberais que o ditador chileno aplicou. Talvez esteja aí mais uma daquelas sinalizações de que Bolsonaro pode estar plantando em 11 de Setembro em sua vida. A questão agora é se ele consegue chegar até lá. No momento, os ventos conspiram (aliás, não só os ventos) contra Bolsonaro.

E antes que me perguntem, sou contrário a qualquer remoção de Jair Bolsonaro via outro golpe de estado light, como o que foi aplicado em Dilma Rousseff.. Não porque apoio suas ideias, mas sim porque imagino o estrago que isto causará numa ordem política.

É que a maioria das forças que parecem desejar um rápido afastamento de Bolsonaro da presidência não o fazem por motivos republicanos. Aliás, muito pelo contrário.

Paulo Guedes quer congresso a la Pinochet para impor sua agenda ultraneoliberal

Já disse que deveríamos esquecer por alguns minutos a propaganda ideológica do deputado federal Jair Bolsonaro e nos concentrar no que seu guru econômico, o misto de banqueiro e articulista das organizações Globo, anda propondo para viabilizar a implantação uma variante ainda mais radical das políticas neoliberais no Brasil. 

Vejamos, por exemplo, a informação postada nos principais veículos da mídia corporativa que nos dá conta que Paulo Guedes está articulando uma fórmula que sufocará o direito da divergência dentro das bancadas no congresso nacional. A fórmula proposta por Paulo Guedes é simples e brutal:  todos os votos de uma bancada seriam computados integralmente a favor de um projeto se mais da metade dos parlamentares daquele partido votarem a seu favor, conferindo assim uma espécie de superpoderes aos líderes partidários [1].

Na prática, como se sabe que certas mudanças, especialmente aquelas que afetam os princípios estabelecidos pela Constituição Federal de 1988, são difíceis de ser consensuais dentro das maiores bancadas, Paulo Guedes está se adiantando e propondo que se estabeleça uma medida que sufoca a posição das minorias, já que independente da diferença de votos dentro da bancada, prevaleceria artificialmente a vontade da maioria.

O raciocínio de Paulo Guedes é explicitado nas reportagens, pois segundo ele a ideia seria facilitar a aprovação de projetos de um presidente sem maioria parlamentar [2]. Em outras palavras, a ideia é impor o mesmo tipo de concordância que foi vista no Chile sob a ditadura de Augusto Pinochet que juntou seu profundo autoritarismo e um receituário neoliberal, o qual foi imposto por uma maioria parlamentar extremamente obediente.

Há que se frisar que Paulo Guedes está anunciando que já o apoio de Rodrigo Maia (DEM) para este parlamento manietado pelo desrespeito à opinião das minorias.  Apesar de Maia já ter negado, pelo “tracking record” dele não seria surpreendente se ele vier a aceitar a proposta no futuro.

Por isso, repito, paremos de nos preocupar com Jair Bolsonaro, mas com aqueles que vão dar realmente as cartas no seu governo, começando por Paulo Guedes e sua equipe de economistas ultraneoliberais.


[1] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/09/paulo-guedes-guru-de-bolsonaro-defende-superpoderes-a-partidos-na-camara.shtml

[2] https://oglobo.globo.com/brasil/economista-de-bolsonaro-defende-superpoderes-partidos-na-camara-23090553?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=O%20Globo