Crise em Barão de Cocais: Vale sabe do risco de rompimento desde o início de março

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Desde os rompimentos ocorridos em Mariana e Brumadinho, não chega a ser nenhuma novidade que há um padrão de ocultação nos problemas de estabilidade que ocorrem em barragens de rejeitos por parte das direções das mineradores. Entretanto, uma matéria assinada pela jornalista Rafaela Mansur para o jornal “O Tempo” informa que a Vale  tinha conhecimento dos riscos de rompimento da barragem Sul Superior em Barão de Cocais (MG) estava com problemas desde o início deste mês.

o tempo barão de cocais

A confirmação deste conhecimento foi verificada pelo Ministério Público Estadual de Minas Gerais em e-mails trocados entre funcionários da Vale que tinham conhecimento de alterações na estabilidade da barragem, o que indicaria o potencial para rompimento.

Ainda que a Vale continue negando a gravidade da situação na barragem Sul Superior, o fato é que agora medidas tardias para orientar a população para rotas de fuga estão sendo tomadas, o que poderia ter sido feito antes e de forma mais organizada e racional.

Este caso reforça a necessidade de que o processo de controle da condição de estabilidade das barragens não fique sob controle das mineradoras, pois está evidente que no caso da Vale o reconhecimento de rompimento das barragens é deixado para quando a situação é praticamente irreversível, evitando assim custos com tentativas de contenção das barragens e com o estabelecimento de estruturas que diminuam a velocidade e o alcance do espalhamento dos rejeitos.

Em assim fazendo a Vale aumenta o ônus econômico e ambiental dos rompimentos de barragens sob sua responsabilidade.

 

 

Rio Doce, tem mais uma morte anunciada

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Desde o dia o8 de fevereiro, quando se anunciou que a barragem (ou barragens) do complexo de Gongo Seco está em condição de rompimento, uma sirene (não as da Vale) deveria ter soado nos governos estaduais e municipais de Minas Gerais e Espírito Santo. Mas tanto os governadores Romeu Zema (MG) e Renato Casagrande (ES) preferiram gastar tempo precioso com as articulações pró-contrarreforma da previdência proposta pelo ministro Paulo Guedes, e nenhuma medida de urgência aparentemente foi tomada para impedir mais um assassinato do Rio Doce.

É que em meio às declarações da mineradora Vale sobre não haver razões para pânico já que os moradores dos arredores imediatos foram removidos de suas residências, essa aparentemente calma serve apenas para acalmar os ânimos dos detentores de suas ações.

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A verdade é que não motivo algum para calma caso a barragem (ou barragens) de rejeito da mina Gongo Soco, pois ali estão estocados algo em torno de 10 milhões de metros cúbicos do mesmo tipo de rejeito que escapou em Mariana e Brumadinho, e equivalente ao que escapou da mina do Córrego do Feijão. E mais, como no caso de Mariana, não se trata de atingir uns poucos moradores dos arredores, mas cidades inteiras que estarão no rastro da lama que deverá escapar de Gongo Soco, sendo que a primeira cidade a ser atingida será Barão de Cocais (ver primeira imagem abaixo).

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Mas Barão de Cocais será a primeira de uma série de cidades vizinhas que receberão o grosso do impacto de uma eventual onda de lama (Tsulama, como eu já batizei) já que logo abaixo estão as cidades de Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo (ver imagem abaixo).

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Mas o detalhe que deveria estar incomodando tanto os governadores Romeu Zema e Renato Casagrande como dezenas de prefeitos de cidades que estão localizadas à jusante da barragem que ameaça romper em Gongo Soco é o fato de que um eventual Tsulama em Gongo Soco irá desembocar novamente no Rio Doce que ainda nem começou a se recuperar dos impactos causados pelo rompimento da barragem de Fundão em Mariana (ver imagem abaixo).

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E mais ainda, como Gongo Soco é apenas umas das muitas minas em condição de estabilidade duvidosa cujo rompimento enviaria novas ondas de lama para o Rio Doce, a verdade é que não há motivo para que se minimize o que está acontecendo neste momento em Barão de Cocais. A verdade é que estamos assistindo a mais uma morte anunciada do Rio Doce, enquanto as autoridades constituídas permitem mais uma vez que a Vale dite a narrativa dos acontecimentos e estabeleça um controle do território que dificultará qualquer acompanhamento independente dos impactos de mais essa tragédia anunciada.

O interessante é que há vários meses o arquiteto Frederico Lopes Freire, que traçou nas imagens acima o trajeto dos rejeitos que podem escapar de Gongo Soco, vem tentando alertar autoridades e representantes de empresas sobre os graves riscos que pairam sobre o Rio Doce em cujas margens ele vive. Até agora, os alertas de Lopes Freire caíram em ouvidos mocos e insensíveis.  Vamos ver como ficarão aqueles que se fingiram de surdos quando ele tentou avisar se o pior acontecer.

Rompimento é iminente na barragem de rejeitos da Vale em Barão de Cocais

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Sirene da barragem de Barão de Cocais é acionada e alerta sobe para nível mais crítico

Redação, Rádio Itatiaia

Foto: Reprodução/TV Globo

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A sirene da barragem da mina de Gongo Soco, localizada em Barão de Cocais, na Região Central do estado, tocou na noite desta sexta-feira. De acordo com a Defesa Civil de Minas, o nível de segurança da estrutura, que pertence à Vale, passou de 2 para 3, quando já há o risco iminente de rompimento.

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Barragem Sul Superior recebe rejeitos da mina de Gongo Soco da mineradora Vale em Barão de Cocais (MG).

No entanto, não será necessário fazer a evacuação do entorno da área, já que cerca de 500 moradores da região já foram retirados de casa no dia 8 de fevereiro, quando foi acionado o nível 2 da barragem. Na ocasião, foi esvaziada as áreas das comunidades de Socorro, Tabuleiro e Piteiras por determinação da Agência Nacional de Mineração (ANM), após uma consultoria avaliar que a barragem não era estável.

A Defesa Civil estadual marcou uma entrevista coletiva para as 23h desta sexta-feira, em Belo Horizonte, para dar mais detalhes da situação da barragem em Barão de Cocais.


Esta matéria foi originalmente publicada pela Rádio Itatiaia [ Aqui!]

 

Mais tragédias rondam Minas Gerais na forma de barragens de rejeitos

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Barragem da Mina Gongo Soco da Vale em Barão de Cocais (MG).

No dia 27 de janeiro escrevi uma postagem intitulada “Façam suas apostas: onde e quando ocorrerá o próximo Tsulama em Minas Gerais?” onde apontei para o fato de que Minas Gerais possui  450 barragens,  e que pelo menos 22 delas não têm garantia de estabilidade.  Já no dia 03 de fevereiro escrevi sobre o medo que rondava cidades mineiras que estão próximas de grandes barragens.

Nesta 6a. feira o que era medo potencial passou a risco iminente para duas cidades que até então não apareciam na lista das mais ameçadas pela possibilidade da eclosão de Tsulama.  Essas duas cidades, Itatiaiuçu e Barão de Cocais, hospedam, respectivamente, barragens da Vale e da Arcelor Mital.  Em ambos os casos moradores tiveram de ser retirados das áreas que seriam atingidas por uma eventual ruptura das barragens e não possuem prazo para serem retornados para suas casas (ver vídeo abaixo com o depoimento de um militante do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB).

O fato é que apenas em Minas Gerais existem neste momento um alto potencial para a repetição das tragédias socioambientais que já ocorreram em Mariana e Brumadinho. Além disso, como os casos de Itatiaiuçu e Barão de Cocais demonstram é que há sim razão para que os habitantes de municípios que abrigam barragens de rejeitos, algumas delas maiores do que as que já romperam,  estejam tomados pela sensação de medo.

Por outro lado, o que essa situação que agora toma ares de emergência total escancara é que a ideia de deixar as mineradoras como fiéis depositárias de seus próprios rejeitos é um modelo superado, o que só seria agravado pelo aprofundamento e legalização do modelo de autolicenciamento “de facto” que vem sendo executado em função da atitude benevolente da maioria dos governantes brasileiros.

Desta forma, é fundamental que sejam organizadas atividades para alertar os habitantes das cidades que estejam próximas de barragens, de forma a educá-las para que pressionem as mineradores a adotarem medidas urgentes para monitorar a real condição dessas estruturas. Do contrário, tudo indica que efetivamente não só teremos novos “Tsulamas”, mas como não existirão os necessários mecanismos de alerta que são fundamentais para impedir a enorme perda de vidas humanas que ocorreu em Brumadinho.