Os pássaros mágicos nunca avistados : O golpe mesmo é o capitalismo

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Por Luciane Soares da Silva

Já faz algum tempo que tenho me dedicado a documentários sobre diferentes tipos de golpes. Tenho focado minha atenção nestes casos desde a bolha de 2008 na quebra do Lehman Brothers. Móveis jogados em frente as casas, desespero, centenas de pessoas vivendo em carros, hipotecando o que não tinham.

Recentemente Fraude e Privilégio chamou minha atenção. O uso de uma entrada “lateral” em Harvard para filhos de milionários jogava por terra qualquer ideal de meritocracia estadunidense. Enquanto milhares buscam entrar nestas Universidades famosas, o acesso tornava-se um negócio lucrativo e com a anuência de agentes da própria instituição. Outra série interessante Dirty Money (Na rota do dinheiro sujo) trata de casos como escândalos envolvendo a Wolkswagen nos Estados Unidos até a estranha relação entre HSBC e os cartéis de Juarez e Sinaloa no México. Sem falar na figura do presidente Trump e seus “Trump Towers” espalhados pelo mundo. Em todos estes casos o nível de corrupção corporativa é organizado ao ponto de manter grupos de advogados muito bem pagos trabalhando exatamente para atuar nas brechas do sistema.

Os casos recentes do Tinder, o Fyre Festival e a morte do CEO da Quadriga CX, Gerald Cotten, o bilionário da criptomoeda, merecem especial atenção por algumas inovações. Acredito que a representação de uma geração jovem, descolada, cosmopolita e consumista gera milhões de dólares de engajamento em mídias alternativas. Assim, as modelos que usaram suas redes sociais para declarar presença no Fyre Festival foram fundamentais para que outras milhares de pessoas comprassem os ingressos e financiassem o desastre. O festival deveria ser inesquecível, em um cenário luxuoso nas Bahamas. Tudo nas mãos de um jovem branco, ambicioso, capaz de vender bem suas ideias (e quando este perfil é diferente?) Billy McFarland. Atualmente ele cumpre pena em uma penitenciária federal no estado americano de Ohio. Tudo ali era uma mentira. Não haviam as tendas luxuosas, a gastronomia vibrante nem as aventuras prometidas. Apenas caos, chuva e perda de valores de até US$ 100 mil. Para os trabalhadores da ilha onde ocorreria o festival ficaram salários não pagos.

O escândalo envolvendo Gerald é muito mais complicado. Por envolver o mundo das criptomoedas, torna-se difícil explicar todos os mecanismos que funcionam neste mercado emergente e atraente. É importante informar que o nascimento da mais conhecida entre centenas de formas de criptomoedas é o bitcoin. E além da descentralização que envolve uma moeda virtual, a capacidade de verificação no sistema blockchain serviria para evitar golpes de emissão dupla. Esta cadeia de blocos emite informações codificadas que devem a cada verificação evitar fraudes. Mas como este jovem com ar despretensioso pôde ganhar, gastar, perder e morrer tão rapidamente e de forma misteriosa? Aqui temos o mesmo perfil do empresário do Fyre Festival. Branco, de estilo cosmopolita na geração dos nerds, Gerald ganhou fama com a Quadriga quando o bitcoin ganhou espaço na mídia. Mas até onde este mercado poderia crescer e como resgatar algo cuja existência no mundo virtual, não passava pelas tediosa e tradicionais redes monetárias representadas pelos bancos? O fato é que após uma queda dos ganhos, misteriosamente Gerald morreu na Índia levando consigo as economias de milhares de investidores. Literalmente, ele levou a senha para o caixão. Muitos pedem a exumação do corpo.

Vamos combinar que poucos entendem bem dos novos jargões de economia. Dois filmes são exemplares neste tema: a Grande Aposta de Adam McKay (2016), também diretor do recente Não Olhe para cima e A lavanderia de Steven Soderbergh de 2019. O primeiro filme trata de um investidor que “aposta contra o sistema” ao entender o que seria a quebradeira estadunidense de 2008. O segundo trata do famoso caso dos Panamá Papers e de como as formas de especulação impactam drasticamente a vida de pessoas comuns. Ambos estão mirando a complexidade de siglas, termos jurídicos, garantias mentirosas e crença em ganhos exorbitantes. Ou seja, a radiografia das complexas formas de golpe do século XXI. Ambos estão berrando que o estilo de vida esbanjado pelos americanos chega a um limite no qual os perdedores perdem não apenas dinheiro. Perdem dignidade, emprego, capacidade de renda, liberdade, saúde mental, acesso à educação e nesta roleta, a vida é um ativo calculado pelas grandes corporações.

No entanto, para uma geração narcisista de jovens investidores globais, ávidos por reafirmar sua sagacidade perante um mundo integrado pela tecnologia, Cotten, Mcfarland e Simon Leviev são estrelas desta nova constelação. No caso do golpista do Tinder, mesmo após a exposição do sofrimento causado pelos casos de estelionato, ele monetiza vídeos e sua aparição em festas é artigo desejado em boates da Filadélfia, México e Alemanha. Muito bem pago, mira o mercado do entretenimento. Nada melhor do que uma indústria como Hollywood para um golpista de tão alto nível. Nenhuma moral resiste ao espetáculo. Moral é um problema para classe trabalhadora não é mesmo? Ao menos é o que aprendi lendo os alemães.

Alerto neste texto o que realmente é novo no voo destes pássaros translúcidos. Os recursos gráficos, a simulação de voz, a modelagem facial, todos estes recursos tecnológicos são amplamente utilizados em redes sociais cotidianamente. Nada mais comum que a invenção de um perfil de instagram. Neste desejo de fuga da vida ordinária, marcada pela submissão e desigualdade, uma ideia de sorte grande pode vir pelo golpe do coração ou da criptomoeda. Ou ainda pela possibilidade de que a presença de celebridades torne seu perfil mais bombado junto a sua rede de amigos. E sua capacidade reside na manipulação precisa destes novos cenários. Ambiente tecnológico, deslocamento global e estilo desapegado.

Estranhamente é nesta sociedade do espetáculo que os mais crédulos aceitam a maçã. Sequestrados pela possibilidade de reconhecimento, enriquecimento, fama ou prazer, eles oferecem o pouco que herdaram ou construíram com seu trabalho para tubarões invisibilizados pelo que o sistema jurídico pode oferecer aos milionários. Nunca irem para prisão por muito tempo. É curioso participar de um golpe entrando pela porta da frente. Temos no comando deste mercado global, jovens tolos, ambiciosos narcisistas e capazes de despertar desejo. Não mais a dureza dos Rockefeller ou as histórias fabulosas sobre a família Rothschild.

O capital no século XXI nos apresenta a figura de Eike Batista como um investidor audacioso, filantropo dos esportes e da cultura. Preocupado com meio ambiente, investidor na melhoria da segurança pública. Um homem de faro e bom senso. Bem, devemos ou não mencionar o mapa herdado de seu pai? E suas falências acumuladas? Devemos reconhecer sua grande habilidade de vender sonhos. Talvez o mais rentável ativo do capitalismo atual: sonhos. Eike, aquele que colocou uma coleira em sua mulher na Sapucaí no ano de 1998. O visionário que iria transformar São João da Barra na Veneza tropical. E pasmem, contou um uma celeridade inédita da justiça local para uma vergonhosa desapropriação envolvendo em seu benefício, até o poder público. Em 2021, o intrépido empresário do grupo X ainda anunciava seu retorno ao Porto do Açu, recebendo homenagens na Câmara de Vereadores da cidade[1]. Ele faz parte deste time global que aplica golpes a luz do dia. Com a aquiescência de muitos, para miséria de milhares. 

[1] https://www.jornalterceiravia.com.br/2021/04/20/eike-tem-novos-projetos-para-o-acu-e-sera-homenageado-pela-camara-de-sjb/


*Luciane Soares da Silva é é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe Laboratório de Estudos sobre Sociedade Social e do Estado (Lesce), e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

A importância da Economia Ecológica diante da crise ambiental

É fundamental reconhecer o atual esquema produtivo e energético como uma situação de conflito que exige o trabalho de diferentes trincheiras e escalas da atividade econômica e humana ao invés de lutar por uma e apenas uma política ambiental para cada país

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Gabriel Alberto Rosas Sánchez 

As consequências das atividades antrópicas e do atual esquema de produção manifestam-se cada vez mais de forma intensa no meio ambiente. De acordo com o relatório do Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC) publicado em 6 de agosto de 2021 (disponível em http://www.ipcc.ch/report/ar6/wg1/ ), desde 1750 os aumentos nas emissões de gases de efeito estufa são inevitavelmente associados às atividades humanas. Dessa forma, o ser humano deixou de constituir uma espécie biológica para se tornar uma espécie geológica. Com efeito, a transição para o Antropoceno se deve ao reconhecimento do ser humano como fator de mudança nas condições climáticas vigentes durante o Holoceno.

De acordo com o relatório, a maioria dos fenômenos meteorológicos foram drasticamente modificados pela incidência humana. Por exemplo, durante 2001-2020, a temperatura planetária foi 0,99 ° C mais alta do que no período de 1850-1900. A perda de gelo devido ao aquecimento global tem sido o fator que explica 50% do aumento do mar no período 1971-2018, juntamente com a perda da cobertura de gelo que se multiplicou por quatro entre 1992-1999 e 2010-2019. Em relação ao nível de precipitação, estima-se que desde 1950 a tendência mudou drasticamente, além disso, o processo de acidificação global nos mares aumentou fortemente desde 1970.

O futuro não é encorajador. O relatório que analisou mais de 14 mil citações de pesquisas científicas e onde colaboraram 234 pesquisadores de 66 países, aponta fortemente que o dano ecológico atual é irreversível e não há elementos claros para pensar que o dano ambiental pára no tempo, pelo contrário, espera-se um agravamento das condições climáticas.

A análise integra uma série de resultados gerados a partir do Coupled Models Intercomparison Project (CMIP) do World Climate Research Program (WCRP). Este modelo permite, graças ao trabalho de recolha e construção de grandes bases de informação, criar modelos e previsões das condições climáticas futuras para ter evidências dos danos ecológicos que o planeta enfrentaria se não fossem tomadas medidas para impedir este problema.

O modelo prevê três tipos de cenários: baixas, intermediárias e altas emissões de gases de efeito estufa. Em relação ao tempo, o ano de 2021-2040 é considerado o curto prazo, 2041-2060 o médio prazo e 2081-2100 o longo prazo. Se o nível de emissões, principalmente dióxido de carbono, continuar a mostrar o mesmo padrão de hoje, então mudanças extremas são esperadas. Entre os principais resultados catastróficos, a temperatura planetária, comparada a 1850-1900, deverá ficar entre 3,3 ° C e 5,7 ° C maior durante os anos 2081-2100, prevista em um cenário de altas emissões. Isso pode ser evitado se as emissões forem drasticamente reduzidas, causando um aumento de temperatura de apenas 0,8 ° C e 1,3 ° C. É importante ter em mente que o aumento a cada 0,5 ° C provoca fortes mudanças nas condições climáticas.

Desta forma, para cada 1 ° C de temperatura, de acordo com as previsões, pode-se aumentar a precipitação em 7% em relação ao nível atual. Porém, se considerado o cenário de altas emissões, essa probabilidade aumentaria para 13%. Da mesma forma, a temperatura dos oceanos pode aumentar até oito vezes, enquanto o aumento do nível do mar pode chegar a até 1 metro, antecipando um elevado nível de emissões em relação à faixa de 0,3 a 0,62 metros que o cenário otimista apresenta.

A partir dos resultados das simulações e modelos climáticos é possível obter algumas lições. Entre as mais importantes estão, independentemente dos esforços institucionais, governamentais, sociais e produtivos para reduzir o nível de emissões de gases de efeito estufa, os cenários otimistas de curto, médio e longo prazo apontam para mudanças substanciais nas condições climáticas. Ou seja, mesmo uma mudança favorável nas práticas de produção e consumo, as consequências das mudanças climáticas sobre o sistema ecológico são inevitáveis, irreversíveis e continuarão a se agravar.

É trabalho das diferentes disciplinas científicas fornecer soluções que evitem passar por cenários fatalistas de altas emissões poluentes. Da economia, como uma disciplina integral das ciências sociais, a abordagem tradicional para analisar os efeitos da produção, do comércio e das trocas nos ecossistemas é a economia neoclássica.

A partir dessa escola de pensamento, cujo fundamento epistemológico repousa nas idéias da física mecânica do século XVIII, o cerne da análise pressupõe um sistema econômico fechado, estático e equilibrado, onde não há troca de energia ou matéria com o meio ambiente. Dessa forma, em termos econômicos, toda a energia dos trabalhadores e das máquinas é convertida integralmente em mercadoria, anulando a possibilidade de desperdício. Outra implicação da teoria dominante é a perspectiva micro e macroeconômica do processo.

Na verdade, supondo que as empresas busquem maximizar seus lucros, elas fazem uso de dois insumos adicionais: capital e trabalho. De forma que, dentro dos elementos de produção, ambos os fatores se combinem graças à tecnologia atual, sem a necessidade de explicitar os fluxos de energia necessários para a produção dos bens. Como resultado, o esquema dominante indica que basta implementar métodos inovadores em tecnologias de produção para aumentar a produção sem nunca enfatizar a disponibilidade de fatores ambientais. Dessa forma, a economia tradicional vive da ideia de que as nações do mundo podem aumentar seu produto interno de forma sustentada e os únicos limites são a disponibilidade de mão de obra, capital e tecnologia.

Por fim, a ideia mais promovida da teoria tradicional é dimensionar a questão ambiental como um problema de externalidades. Ou seja, o problema da contaminação é um elemento inerente ao processo de produção, assim como um problema de sinalização de preço. Em outras palavras, os serviços ambientais sendo gratuitos para a população geram uma superexploração dos ecossistemas. A forma de o resolver é com a implementação de um sistema tributário e de tarifação eficiente que reflita a disponibilidade de serviços ambientais. Isso evita a sobreexploração e os efeitos adversos da produção em termos ecológicos.

Com base nessa visão sobre a interação entre os sistemas econômico e ambiental, o problema se reduz a uma questão de preços e mercantis. Em resposta, as propostas de política econômica aplicáveis ​​à deterioração ecológica implementam mecanismos de compensação estritamente monetários para aqueles afetados por problemas ecológicos. Por exemplo, créditos de carbono cuja função é transferir licenças de poluição ao custo de uma certa quantia de dinheiro de países menos industrializados para países desenvolvidos. Sob essa lógica, os países adquirem licenças para aumentar seu nível de emissões além dos parâmetros permitidos. Essa ideia pressupõe que o dano ambiental extra seja compensado em dinheiro para os países que não usam seus cupons de emissão. Porém,

Diante dessa redução do problema ambiental promovida a partir da teoria convencional, a economia ecológica surge como uma abordagem alternativa para, em um primeiro momento, mudar a forma de compreender as relações economia-sociedade-natureza e avançar nas propostas de forma a evitar situações futuras refletidas na. o relatório do IPCC.

Esta abordagem é institucionalizada após a criação da Sociedade Internacional de Economia Ecológica em 1989, cujos fundadores foram Dick Norgaard, John Proops, Charles Perrings, Joan Martinez-Alier, Peter May, John Gowdy, Bina Agarwal, Marina Fischer-Kowalski, Sabine O ‘ Hara e Clovis Cavalcanti (ISEE, 2021). Porém, na revisão histórica é possível verificar que as bases intelectuais e pioneiras se encontram anteriormente.

Sem tentar esgotar todas as bases intelectuais dessa abordagem, entre as mais destacadas estão o sociólogo Patrick Geddes (1854-1932) que, em suas reflexões, se assemelha à sociedade como uma grande máquina complexa que absorve e dissipa energia. Assim, o sistema econômico se comporta de forma semelhante a um sistema biológico. Sob a mesma ideia da economia como sistema biofísico e evolutivo, o matemático Alfred Lotka (1880-1949) adotou o princípio de Boltzmann para apontar que a evolução do mundo orgânico era uma luta por energia.

Outro dos grandes pioneiros que influenciaram o estudo dos fatores biológicos e da economia é o químico Frederich Soddy (1877-1956) em cuja obra seminal Riqueza, Riqueza Virtual e Dívida (1926) estabelece os princípios que relacionam a economia e o mundo. Para o autor, era importante distinguir entre a energia que um emprego produz, porque é ela que gera riqueza. Portanto, opulência ou pobreza no planeta é sinônimo de escassez ou abundância de energia disponível para o trabalho.

Dentro da revolução do pensamento surge a obra de um economista brilhante como Kennet Boulding (1910-1993). Em sua obra A Terra como uma nave espacial (1965), ele considera que a Terra deve se tornar uma nave espacial para escapar dos problemas que o ser humano tem gerado no meio físico, ecológico e social. A espécie humana estava acostumada a um espaço tão imenso que seu desperdício não era problema. Nos tempos modernos, a sociedade enfrenta o problema do aumento da entropia (para mais detalhes sobre este termo você pode consultar nossa colaboração disponível em https://www.alainet.org/es/articulo/211241) Dessa forma, a possibilidade de sobrevivência é determinada pela capacidade de gerar processos produtivos que reciclem integralmente os insumos naturais.

Finalmente, uma das principais e elementares obras da economia ecológica é A Lei da Entropia e o Processo Econômico.(1971) por Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994). Este economista romeno quebrou o paradigma dominante sobre um sistema econômico fechado à troca de energia e estático, enquanto apontava que todo sistema social está sujeito à força da entropia. Em outras palavras, toda ação humana e produtiva requer energia. De forma que, depois de usar essa energia, não seja mais possível reaproveitá-la. É a isso que a entropia se refere em termos simples. Portanto, uma das várias heranças de Georgescu-Roegen é o reconhecimento da produção de bens como um processo que usa e desgasta energia, o que implica que o resto dos sistemas e espécies não podem mais usar essa energia. (Novamente, para mais detalhes, nos referimos à nossa colaboração “Georgescu-Roegen e entropia:https://www.alainet.org/es/articulo/211241 )

Com base nesses fundamentos sobre a vida econômica, a abordagem da economia ecológica foi construída de forma científica e rigorosa, criando correntes particulares dentro da mesma abordagem. Mais uma vez, sem tentar esgotar o debate a esse respeito, é apresentada uma classificação breve e simples das diferentes correntes. Por um lado, os defensores do crescimento e da desmaterialização vão contra a ideia de crescimento ilimitado dos modelos tradicionais. Daly e Cobb (1989) exibem as pressões geradas sobre as comunidades pelo capitalismo impulsionado pelo crescimento.

O trabalho desta disciplina é construir conceitos que permitam compreender as inter-relações do mundo social e ecológico. Entre os mais importantes está o metabolismo socioambiental. Este termo é análogo ao conceito de biologia para dar conta dos vários processos materiais e energéticos dentro da sociedade cuja particularidade é a dinâmica, embora Toledo (2013) atribua o primeiro aparecimento na economia à obra de Karl Marx. O metabolismo surge como uma abordagem integrativa que nos permite compreender a dinâmica das relações sociais dentro da natureza, partindo do princípio de que qualquer sistema social está dentro do sistema ecológico, portanto, as leis da natureza contribuem para as leis dos fenômenos sociais, históricos e cultural.

A economia ecológica reconheceu a relação entre os processos econômicos e a natureza como um processo de disputa e conflito onde toda ação gera vencedores e perdedores. Os exemplos na realidade são, infelizmente, diversos. Os esquemas de energia dos países são exclusivos de segmentos da população que não podem pagar por serviços elementares como eletricidade. Por outro lado, a mineração a céu aberto, as monoculturas, a extração de petróleo por fracking, entre outras, têm gerado uma série de problemas ambientais, conflitos territoriais e injustiças sociais. Grandes projetos de infraestrutura ou atividades produtivas voltaram suas consequências contra as comunidades rurais, indígenas e pobres devido ao choque de visões. De um lado,

Na mesma linha, a economia ecológica reconhece o esforço das comunidades na luta pela defesa do território e na construção de propostas de gestão energética e produtiva. Entre eles, Ramachandra Guda e Joan Martínez Alier se destacam por sua ecologia dos pobres e pela ecologia popular . Esta demonstração vai contra o argumento de que os ricos são os que melhor cuidam do meio ambiente graças ao amadurecimento de sua consciência ambiental e à atitude política do cidadão em relação ao meio ambiente. Os dois autores concordam que o ambientalismo do mundo desenvolvido carece de raízes culturais por ser considerado supérfluo, enquanto das comunidades indígenas e rurais há uma relação com o caráter sistemático e cultural. Da mesma forma, Barkin et al.(2020) destaca a abordagem da economia ecológica radical como uma corrente que consolida esse tipo de sociedade, melhorando sua qualidade de vida e conservando seus ecossistemas.

A economia ecológica entende que a crise ambiental deve ser abordada sob diferentes perspectivas, escalas e dimensões, pelo que não se limita ao trabalho das comunidades, mas constrói quadros analíticos que permitem a construção de alternativas a nível setorial. A ecologia industrial delineia o processo econômico como o conjunto da produção, distribuição e consumo sem desligá-lo da dinâmica social e biológica. Para integrar as sucessões, retoma-se o conceito de metabolismo, agora de cunho industrial, em que a dinâmica produtiva é assimilada à natureza sujeita a limites energéticos. Nesse sentido, Ayres e Ayres (2001) consideram vital enfatizar os insumos, os produtos. , fluxos e ciclos dos materiais ao longo do processo, portanto,

Para concluir, é importante apontar a contribuição da economia ecológica para compreender, internalizar e desenvolver alternativas à crise ambiental a partir de uma perspectiva analítica diferente. Retomar os trabalhos pioneiros de economistas, biólogos, químicos, sociólogos, entre outras disciplinas, permite que esta corrente tenha uma plataforma intelectual que manifesta claramente a necessidade de reconsiderar os modelos abstratos dos economistas. Para Constanza (1996), a análise multidisciplinar é essencial, incluindo uma mudança epistemológica e ontológica no método de análise no que diz respeito ao método lógico positivista, como apontado por Spash (2012) e permitindo uma pluralidade de métodos (Spash, 2020).

É fundamental reconhecer o atual esquema produtivo e energético como uma situação de conflito que requer trabalho de diferentes trincheiras e escalas da atividade econômica e humana ao invés de lutar por uma e apenas uma política ambiental para cada país. Portanto, esta corrente oferece alternativas de trabalho comunitário, regional e industrial a partir da relação economia-sociedade-natureza para além do aspecto monetário, mas reconhecendo o conjunto de relações complexas que implicam valores, visões de mundo, atores excluídos, perdedores, condições históricas, recursos e possibilidades. a partir do qual podem ser propostas alternativas que permitam mudar o estado de coisas atual e caminhar para diferentes esquemas de produção que atendam às necessidades de uma nação.

Bibliografia referenciada:

  • Ayres, R. Ayres, L. (Eds.). (2002). Um manual de ecologia industrial. Editora Edward Elgar.
  • Barkin, D. e Sánchez, A. (2020). O sujeito revolucionário comunitário: novas formas de transformação social. Third World Quarterly, 41 (8), 1421-1441.
  • Boulding, KE (1965). A Terra como uma nave espacial. Comitê de Ciências Espaciais da Washington State University, 10.
  • Costanza, R. (1991). Economia ecológica: uma agenda de pesquisa. Structural Change and Economic Dynamics, 2 (2), 335-357
  • Daly e Cobb (1989). Para o bem comum: redirecionando a economia para a comunidade, o meio ambiente e um futuro sustentável. Universidade de Cambridge.
  • Georgescu-Roegen, N. (1971). A lei da entropia e o processo econômico. Harvard University Press.
  • Frederick, S. (1926). Riqueza, riqueza virtual e dívida.
  • Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC). Sexto Relatório de Avaliação “AR6 Climate Change 2021: The Physical Science Basis” Disponível em https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg1/
  • Rosas, G. (2021). Georgescu-Roegen e a entropia: o abandonado na luta contra as mudanças climáticas ”Agência Latino-Americana de Informação. Disponível em https://www.alainet.org/es/articulo/211241
  • Spash, C. (2012). Novas bases para a economia ecológica. Ecological Economics, 77, 36-47.
  • Spash, C. (2020). Um conto de três paradigmas: Percebendo o potencial revolucionário da economia ecológica. Ecological Economics, 169, 106518.
  • Toledo, V. (2013). Metabolismo social: uma nova teoria socioecológica. Relações. History and Society Studies, 34 (136), 41-71.

Gabriel Alberto Rosas Sánchez cursa o Doutorado em Economia pela Autonomous Metropolitan University (México) e é membro da Mesoamerican and Caribbean Society of Ecological Economics. Email:  rosassanchezgabriel@gmail.com

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Este texto foi originalmente escrito em Espanhol e publicado pela América Latina en Movimiento [Aqui!  ].

Classe, classismo e crítica de classe

A diversidade crítica é importante; o que deve decorrer disso é uma crítica à situação que gera as discriminações

240001Foto: dpa

Por Livia Sarai Lergenmüller para o Neues Deutschland

Está na boca de todos há vários anos: política de identidade. No decorrer da minha politização, eu mesmo me tornei a “cultura acordada” e por muito tempo defendi seus argumentos com convicção. Enquanto isso, porém, meu relacionamento é ambivalente.

Por muito tempo falamos sobre pessoas afetadas sem pessoas afetadas. Ao fazer isso, tomamos decisões sobre a realidade da vida das pessoas sem levá-las em consideração. Às vezes ainda fazemos isso. O exemplo mais recente é a recente proibição do aborto no Texas. É, portanto, um desenvolvimento indispensável para tornar visíveis as perspectivas daqueles que são afetados pelos discursos sociais e incluí-los mais de perto.

É tão importante dar espaço às emoções das pessoas que foram discriminadas. O racismo ou a trans-hostilidade não são apenas mecanismos estruturais, mas frequentemente também traumas coletivos. Os sentimentos individuais, portanto, devem ser levados a sério politicamente.

Nos últimos anos, entretanto, essa abordagem assumiu uma dinâmica própria, na qual o problema, e não a solução, costuma estar no centro do debate. As condições que causam esses problemas são discutidas cada vez menos. Isso é suportado principalmente por jovens que exercem sua condição de esquerda principalmente por meio de sua luta contra a discriminação, e que dividem as lutas políticas em grupos individuais. Um grupo no qual eu também fui politizado e cujas posições considero amplamente progressistas.

Mas cada vez mais perco uma visão. Isso ocorre porque o anti-capitalismo e a crítica de classe ainda parecem ser consensos, mas cada vez mais permanecem uma nota lateral superficial. Frequentemente, a pessoa até quer se distanciar das questões da velha esquerda. A questão do sistema e um maior enfoque na dinâmica da discriminação não devem, no entanto, ser lidos como posições opostas. A esquerda tradicional versus a esquerda moderna não são ou / ou, mas devem andar de mãos dadas e aprender umas com as outras.

Pouco antes da eleição, um usuário de esquerda da rede social Instagram anunciou que desta vez não poderia votar na esquerda devido a declarações racistas e fraca representação das minorias. Portanto, ele decidiu com o coração pesado pelos verdes. Também estremeço quando Sahra Wagenknecht considera a preocupação com muitas crianças migrantes nas aulas da escola alemã como uma posição legítima de esquerda, quer regular a imigração e, em retórica populista, declarar as preocupações da comunidade Roma como irrelevantes. No entanto, dar o seu voto a um partido que dirige sua política principalmente para os de renda mais alta e que só achou necessário se distanciar do racista Boris Palmer no início da campanha eleitoral me deixa perplexo.

Outro exemplo dessa dinâmica é a noção de tendência do classicismo. A frase, que é usada em paralelo com outros ismos como sexismo ou racismo, denota discriminação com base na origem socioeconômica; o debate sobre isso e, sem dúvida, produziu muito bem. Às vezes, as coisas só precisam ser nomeadas para serem reconhecidas pela sociedade como um todo. Porém, torna-se difícil quando a luta contra o classismo se torna o objetivo político primário.

Porque o conceito de classismo reformula a questão de classe como uma questão de discriminação e transfigura a origem socioeconômica em uma característica da diversidade. Questionar preconceitos contra as pessoas mais pobres e descobrir as estruturas problemáticas que dificultam o avanço social é, sem dúvida, um processo importante. No entanto, minha preocupação de longo prazo como esquerda não é tratar melhor os pobres, mas superar a pobreza. Portanto, o classicismo só pode ser uma linha secundária. O que se segue é uma crítica à situação.

Em tempos em que o ativismo político está ocorrendo cada vez mais nas redes sociais, a necessidade de sempre se posicionar claramente parece estar crescendo. Mesmo dentro dos campos de esquerda. No entanto, isso encurta as linhas de argumentação. Diversidade crítica e ações sensíveis à discriminação são importantes – mas sem uma mudança fundamental no sistema, elas permanecerão uma gota no oceano.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui! ].

Capital e corpo

A pandemia da COVID-19 joga o trabalho humano para trás na competição com as máquinas

mother babyA compatibilidade da vida e do trabalho no escritório doméstico. Foto: pixabay.com

Por Stephan Kaufmann para o “Neues Deutschland”

As pessoas “, escreveu Kurt Tucholsky 90 anos atrás,” têm duas paixões além do desejo de se reproduzir e de comer e beber: fazer barulho e não ouvir “- em resumo: irritar os outros. Por mais verdadeiro que isso seja, também é verdade que as pessoas não podem viver sem as outras. A proximidade física é importante, até o toque, o que o “Dia Mundial do Carinho” anual em 21 de janeiro deve nos lembrar. O capitalismo também precisa de contato entre as pessoas em sua função de trabalhadores, como compradores e vendedores. Se você separá-los, ficará caro: De acordo com o instituto IW, que é próximo ao empregador, o “bloqueio”, ou seja, a separação do corpo humano para proteção contra a COVID-19, tem custado caro para a economia alemã até agora.

A história do capital é a história de suas tentativas de usar a natureza e ao mesmo tempo de se libertar de seus imponderáveis. Isso nunca dá muito certo – as mudanças climáticas e a pandemia são um doloroso lembrete ao capitalismo financeiro digitalizado de como ele é dependente de condições arcaicas como a concentração de CO2 e os corpos humanos. Este último, em particular, incomoda o sistema: as pessoas nascem pequenas e desamparadas, têm que crescer em paz, adoecer, precisam de pausas e recuperação até que finalmente apodreçam e morram. Não se encaixa em uma economia que não tem começo nem fim e odeia quebras.

A funcionalidade limitada do corpo humano traz enormes custos para a economia capitalista, mesmo em tempos livres de pandemia. Os bebês querem nascer e as crianças querem ser criadas. A vida e o trabalho adoecem as pessoas, o que significa um triplo golpe para as pessoas sem seguro afetadas: têm maiores custos com o tratamento, sofrem fisicamente e perdem a renda com o trabalho – o capital não paga as pessoas, mas apenas os trabalhadores. Por esse motivo, os países mais ricos introduziram fundos de seguridade social nos quais a classe de assalariados economiza compulsoriamente para os períodos de desemprego, ou seja, trabalha com antecedência.

Mesmo os corpos antigos não podem mais servir ao crescimento econômico, mas ainda querem sobreviver, que o seguro de pensão paga a 325 bilhões de euros anuais. Muitas vezes, isso não é suficiente, e é por isso que a previdência privada tem de intervir – as seguradoras ficam felizes em assumir o “risco de longevidade” individual. Além dos gastos sociais do Estado, há quase 300 bilhões de euros em seguros de saúde e de longa permanência. Todas essas somas representam custos salariais para o capital que atrapalham sua competitividade. Um corpo competitivo está sempre pronto para a ação e resiliente, o que estabelece a base econômica para a tendência de auto-otimização e para a mania juvenil prevalecente.

Não apenas os idosos e doentes, mas também o corpo funcional devem ser protegidos – em tempos normais, não de pandemias, mas das demandas das empresas. As fases de trabalho e recuperação são, portanto, estritamente prescritas. “O trabalho deve ser interrompido por um período de descanso predeterminado de pelo menos 30 minutos para horas de trabalho de mais de seis a nove horas e 45 minutos para horas de trabalho de mais de nove horas”, a Lei de Horas de Trabalho exige antes de regulamentar as exceções . Os regulamentos do local de trabalho estipulam a quanto espaço o corpo de um trabalhador de escritório plano aberto tem direito (12 a 15 metros quadrados), como ele pode ficar de pé, andar, sentar, quanto ar fresco, luz e calor ele pode usar e quanto ruído ele tem que suportar. Tudo isso é constantemente discutido, porque a luz,

O corpo humano não termina na superfície da pele, vai além disso: Há alguns meses, uma distância de 1,5 metro é a distância necessária que as pessoas têm que manter e que torna a pandemia da COVID-19 cara. Formulações como “Lockdown custou à economia 250 bilhões de euros até agora” mostram, portanto, que a proteção e o cuidado com o corpo no sistema vigente não fazem parte da economia, mas se opõem a ela, porque ela custa. E os custos são ruins, você sabe disso. A reprodução do capital e a do corpo não formam uma unidade, nem a reprodução do capital está subordinada à do corpo. Ambos se opõem, como interesses com igualdade de direitos, daí a questão permanente: Quanto vale um ano saudável? Quanto pode custar uma pessoa?

O capital precisa de pessoas para ter lucro, ao mesmo tempo que eles trazem custos dos quais ele quer se livrar. A saída para essa contradição é conhecida como “racionalização”. Quanto mais cara a manutenção da carroceria, mais atraente se torna para as empresas substituí-la por uma máquina que funcione ininterruptamente, não faça greve e faça exigências muito previsíveis nos cálculos do negócio. Nessa competição com as máquinas, a pandemia da COVID-19 joga os trabalhadores humanos para trás, porque eles perdem uma vantagem de custo em relação às máquinas. A racionalização permanente da produção de bens de capital funciona na mesma direção, tornando as máquinas mais baratas e eficientes.

O resultado da pandemia, prevê o think tank norte-americano Brookings Institute, será, portanto, um salto na “digitalização”. Em vista do aumento dos riscos à saúde, as empresas estão cada vez mais substituindo os trabalhadores por robôs. “Milhões de empregos estão ameaçados.” Em 2020, uma em cada cinco empresas na Alemanha com mais de dez funcionários no setor de manufatura usava robôs industriais ou de serviço.
Uma empresa de investimentos dos Estados Unidos comparou recentemente os preços das ações de empresas que têm um número relativamente grande de funcionários em relação às suas vendas com aquelas que trabalham relativamente poucos. Aqueles com pequeno número de funcionários tiveram um desempenho significativamente melhor. A conclusão do estudo: “Parece que teremos tempos ruins para as pessoas”.

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Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo “Neues Deutschland” [Aqui! ]. 

Limites do “Socialismo de Mercado”

As tentativas de países de socialismo realmente existente de combinar uma economia planejada com mecanismos de mercado falharam não apenas por causa do dogmatismo

v congresso

Por Felix Wemheuer para o Neues Deutschland

No contexto da crise climática e das novas possibilidades tecnológicas por meio da digitalização, tornou-se socialmente aceitável novamente, pelo menos nos debates de esquerda, discutir uma economia planejada como modelo para o futuro. Um problema central neste contexto, entretanto, continua sendo o fracasso da economia planejada centralizada sob o “socialismo real”. Alguns acreditam que combinar socialismo com mecanismos de mercado é uma alternativa. Vale a pena reler os debates sobre o “socialismo de mercado” no século XX.

Os defensores do “socialismo de mercado” ainda consideram a “Nova Política Econômica” soviética (NEP) (1921-1928) um ​​importante ponto de referência. Nos confrontos entre Josef Stalin e a chamada “oposição de direita” em torno de Nikolai Bukharin em 1928, foram levantados muitos argumentos que mais tarde foram usados ​​em debates. Bukharin defendeu a NEP como um modelo de longo prazo para a construção do socialismo. Ele argumentou que o setor estatal da indústria deveria competir no mercado com o comércio privado e a vasta massa de pequenos produtores. O governo deve promover o setor estatal e uma associação voluntária para formar cooperativas de produção rural. Esses elementos socialistas não poderiam, no entanto, por meio de medidas coercitivas, mas apenas demonstrando sua maior produtividade em relação ao setor privado. O aumento da renda dos pequenos agricultores pode gerar demanda por produtos da indústria leve e, assim, impulsionar seu desenvolvimento. Bukharin não falou em “socialismo de mercado”. Ele não deixou dúvidas de que entendia a NEP como uma luta de classes com o objetivo de finalmente desaparecer a produção de mercadorias e “explorar as classes”. Era indiscutível que sua concepção incluía a aceitação de diferenças de renda maiores como um mal inevitável por um longo período de tempo. 

Quando Stalin realmente se voltou contra a NEP no contexto de uma crise de abastecimento urbano em 1928, ele argumentou que essa estratégia havia levado à divisão de classes no campo e que os “kulaks” haviam de fato conquistado o poder em muitas aldeias. Com o modelo de Bukharin, só se pode esperar até que a população rural cresça pacificamente para o socialismo em “passo de caracol”. A proposta de Bukharin de neutralizar a crise de abastecimento urbano importando grãos de países capitalistas estrangeiros levaria a uma desaceleração ainda maior no ritmo de industrialização, já que faltariam divisas para a importação de tecnologia industrial. Diante da ameaça imperialista, o desenvolvimento da indústria pesada deve ter precedência e ser financiado por meio de um “tributo” à agricultura, disse Stalin.

O afastamento da NEP não foi apenas o resultado da arbitrariedade de Stalin. A crise de abastecimento urbano, o alto desemprego e a nova riqueza do »povo da NEP«, comerciantes privados, causaram grande ressentimento na população e na festa da cidade em 1928. Como primeiro passo para superar a crise de abastecimento, Stalin iniciou medidas coercitivas para confiscar grãos na Sibéria. Por fim, desencadeou-se uma dinâmica que resultou na coletivização por vezes violenta da agricultura e na chamada “liquidação dos kulaks como classe”. A luta pelos grãos levou a uma grande fome rural (1931-1933) com milhões de mortes e confrontos semelhantes a uma guerra civil na Ucrânia. Em meados da década de 1930, esse “batismo de fogo” deu origem ao “modelo clássico”, que se caracterizava por uma economia planejada centralizada com determinação estatal de quase todas as metas de produção, investimentos, preços e salários. Além da grande indústria estatal e da agricultura coletiva, o estado concedeu à população rural terras para autossuficiência.

Após a Segunda Guerra Mundial, as “democracias populares” na Europa Oriental e os países socialistas de estado da Ásia seguiram o modelo soviético. Na primeira fase da “nova democracia” ou “ordem básica antifascista”, os governos realizaram “reformas agrárias antifeudais” e criaram sistemas econômicos que lembravam a NEP. Quase em todos os países, houve defensores de uma mudança gradual e prolongada para o “modelo clássico” e forças mais radicais que foram orientadas para a “ofensiva socialista” de Stalin de 1928/29. Em vista de uma crise de abastecimento urbano na China em 1953, Mao Zedong, por exemplo, defendeu a coletivização forçada da agricultura com quase os mesmos argumentos de Stalin em 1928. Liu Shaoqi, por outro lado, defendeu a continuação de longo prazo do ” ordem econômica neo-democrática,

No início, a rápida transição para o “modelo clássico” na Europa Oriental e na China parecia promissora. Na década de 1950, muitos países socialistas estatais conseguiram construir indústrias pesadas e gerar um crescimento econômico impressionante. Os governos dos estados agrários da Europa Oriental e da Ásia também esperavam superar a posição periférica de seus países no período entre guerras, construindo eles próprios uma base industrial.

Após a morte de Stalin, o “modelo clássico” experimentou sua primeira crise de legitimação com os levantes na RDA em 1953 e na Polônia e Hungria em 1956. Além do ressentimento com o domínio esmagador da União Soviética, partes da classe trabalhadora não queriam mais apoiar o regime de acumulação de ricos de privação de renúncia ao consumo e elevação dos padrões para o desenvolvimento da indústria pesada. Numa “primeira onda de reformas” (1953-1957), quadros e economistas iniciaram debates sobre como alcançar um equilíbrio no desenvolvimento da indústria pesada e leve, bem como da agricultura. A Iugoslávia e a Polônia permitiam agricultura em grande parte privada. A descentralização do planejamento, bem como mais autonomia para as empresas deve ajudar, por exemplo, na Polônia, a ser capaz de fazer uma adaptação mais flexível às necessidades do comprador, mas também aos desafios técnicos. Em vez de reformas, foi inicialmente referido com cautela como “aperfeiçoar o plano”.

Um grande problema era, por exemplo, que as empresas acumulavam materiais e trabalhadores, às vezes escondidos das autoridades, para poderem compensar as faltas no futuro. Os consumidores agiam de maneira semelhante, acumulando mercadorias quando estavam disponíveis nas lojas, aumentando assim a escassez de suprimentos. A definição de metas com base em critérios predominantemente quantitativos (a infame “ideologia do barril”) gerou deficiências de qualidade e grande desperdício de recursos. A ética do trabalho na força de trabalho deixou a desejar, pois não havia medo do desemprego, principalmente entre os procurados trabalhadores qualificados. Foi fácil para eles pedirem demissão por uma mudança de emprego, mas foi difícil para as empresas demiti-los. O entusiasmo dos novos começos se foi em grande parte. Pelo menos na Europa Oriental, as lideranças do partido não estavam mais dispostas e eram capazes de usar punições draconianas como na era de Stalin para impor a disciplina de trabalho, entrega e planejamento. Na maioria dos países socialistas de estado do bloco soviético, as tentativas de reforma foram interrompidas em 1957 e as idéias em questão foram descartadas como “revisionismo”.

Após as primeiras breves tentativas de reforma, uma »segunda onda« mais abrangente ocorreu na primeira metade da década de 1960. Em comparação com os anos do pós-guerra, o crescimento econômico diminuiu significativamente em muitos países do Leste Europeu durante este período. Sérios problemas de abastecimento surgiram com bens de consumo cotidianos, por exemplo, na Tchecoslováquia. Na China, a imitação da “ofensiva socialista” de Stalin como parte do “Grande Salto para a Frente” entre 1959 e 1961 levou a uma fome com entre 15 e 40 milhões de mortos. Somente uma nova “orientação” radical da economia e das importações de grãos poderia acabar com a catástrofe.

No contexto da “idade de ouro” do capitalismo ocidental nos centros, aumentaram as dúvidas sobre a “superioridade” da economia centralizada planejada na Europa Oriental na competição dos sistemas. Na URSS, o líder do partido Nikita Khrushchev buscou em 1962, no curso do chamado debate de Liberman, uma orientação mais forte para o lucro e a autonomia das empresas estatais a fim de aumentar a eficiência econômica. Em 1965, a liderança do partido do PCUS aprovou as chamadas reformas Kosygin, em homenagem ao então primeiro-ministro. O desenvolvimento na URSS também abriu uma nova liberdade para os “Estados irmãos”. O “Novo Sistema Econômico de Planejamento e Controle” (NÖSPL) (denominado “Sistema Econômico do Socialismo” de 1967) e o novo “Mecanismo Econômico” na Hungria (1968-1973) foram particularmente ambiciosos na RDA de 1963. Na Tchecoslováquia, a liderança do partido sob Alexander Dubcek combinou reformas econômicas com liberalização política na “Primavera de Praga” em 1968. O governo iugoslavo de Tito fortaleceu a autonomia das fábricas e a competição no quadro da “autogestão operária”.

O termo socialismo de mercado costumava ser evitado na maioria dos países para não dar a impressão de que a economia planejada havia falhado e que havia um retorno ao capitalismo. Em vez de mercados, as forças reformistas frequentemente falavam da “aplicação da lei do valor”, da “produção socialista de bens”, da “contabilidade econômica” ou do “controle por meio de alavancas econômicas”. É claro que os debates e reformas durante a segunda onda não ocorreram da mesma forma em todos os países, mas havia semelhanças: as empresas deveriam ser incentivadas a aumentar a produtividade por meio da orientação para o lucro e de bônus mais altos para a administração e a força de trabalho. Lucros e perdas só poderiam ser mapeados de forma realista se todos os preços não fossem mais definidos politicamente, mas sim baseados no “valor” dos produtos, segundo os reformadores. Os altos subsídios para alimentos básicos, em particular, sobrecarregaram o orçamento do estado. Esse problema se agravou após o fim da era Stalin, quando na maioria dos países socialistas os preços de compra aumentaram em favor dos agricultores, mas não os preços de venda nas lojas. Como parte da agenda de reforma, o número de produtos nas especificações do plano central agora foi reduzido significativamente. Além das reformas de negócios e de preços, o fortalecimento do setor coletivo e o reconhecimento de um pequeno setor privado devem compensar as deficiências na oferta e levar a mais concorrência. Os reformadores tentaram convencer a população de seu plano prometendo um nível de consumo significativamente mais alto.

Na esfera de influência soviética, Moscou interrompeu em grande parte as reformas econômicas no início dos anos 1970 e pôde contar com as alas conservadoras dentro dos partidos comunistas. Na pesquisa histórica também foi apontado que na RDA e na Tchecoslováquia, por exemplo, as ideias igualitárias do período entre guerras ainda estavam ancoradas no corpo dos trabalhadores, o que em alguns casos levou à rejeição de maiores diferenças de renda dentro das empresas. Na China, o início da Revolução Cultural em 1966 acabou com o “alinhamento” da economia.

De qualquer forma, as reformas econômicas não foram capazes de atender a muitas expectativas. As reformas de preços foram particularmente complicadas, pois inicialmente levaram a preços mais altos para alimentos básicos anteriormente altamente subsidiados e à inflação. Por exemplo, anúncios de aumentos de preços de alimentos na União Soviética em 1962 e na Polônia em 1976 e 1981 levaram a protestos de trabalhadores. Mesmo o “segundo pacote salarial” na forma de assistência médica, educação, moradia ou ofertas culturais disponibilizadas pelo Estado gratuitamente ou a preços simbólicos também não era desejado pela maioria das forças reformistas. O economista tcheco e vice-premier durante a “Primavera de Praga”, Ota Šik, já havia pedido em 1965 a possibilidade de fechamentos e demissões de empresas como um elemento necessário da estrutura de incentivos econômicos. A introdução de um mercado de trabalho e a aceitação do desemprego em larga escala situaram-se nos “verdadeiros países socialistas” (com exceção da Iugoslávia) para a grande maioria do partido e da população em oposição às “conquistas do socialismo”. Em quase todos os países da Europa Oriental, os benefícios e subsídios sociais podiam ser cada vez menos suportados pelo nível de produtividade na década de 1970. A alta dívida externa atrasou a crise final por mais uma década. Em quase todos os países da Europa Oriental, os benefícios e subsídios sociais podiam ser cada vez menos suportados pelo nível de produtividade na década de 1970. A alta dívida externa atrasou a crise final por uma década. Em quase todos os países da Europa Oriental, os benefícios e subsídios sociais podiam ser cada vez menos suportados pelo nível de produtividade na década de 1970. A alta dívida externa atrasou a crise final por mais uma década.

Como na Hungria no final dos anos 1960, o economista húngaro Janosch Kornai considerou o “socialismo de mercado” um modelo híbrido ineficiente. Apesar de todos os incentivos proporcionados pelos bônus, a gestão das empresas estatais se comportava como parte da burocracia e não como empreendedora. Como não podiam ameaçar demissões, a administração tentou acalmar a força de trabalho fazendo concessões paternalistas. Na verdade, as empresas poderiam continuar operando com “orçamentos brandos” e não teriam que contar com consequências dolorosas mesmo em caso de perdas. A aplicação administrativa da disciplina no desempenho do trabalho e cumprimento do plano por parte do Estado fragilizou a descentralização e mais autonomia para as empresas. No entanto, as reformas operacionais e de preços não levaram à criação de uma nova disciplina por meio de incentivos econômicos, disse Kornai. A partir disso, ele concluiu que apenas uma privatização completa e mercantilização do trabalho poderia resolver esse dilema.

As lideranças do partido na Europa Oriental não estavam preparadas para isso e as “mudanças de regime” após 1989 foram necessárias para iniciar essa transformação. Na República Popular da China, o governo foi muito mais longe do que os “camaradas” do Leste Europeu. Entre 1998 e 2002, fechou grande parte das empresas estatais, demitiu mais de 40 milhões de trabalhadores e finalmente mercantilizou completamente a força de trabalho. A habitação foi privatizada e os cuidados de saúde, educação e ofertas culturais foram fortemente comercializados. Ao fazer isso, o PCCh excedeu os limites do “socialismo de mercado” da “segunda onda”. É extremamente duvidoso que o modelo chinês tenha algo a ver com o socialismo.

Felix Wemheuer é professor de Estudos da China Moderna na Universidade de Colônia. O leitor crítico que editou, Market Socialism: A Controversial Debate, será publicado pela Promedia Verlag em março.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Eco-Leninismo 2.0

Poder estatal socialista e crescimento zero como solução para a crise climática? O que o marxista Andreas Malm propôs já foi esboçado por Wolfgang Harich há quase 50 anos na RDA. 

Com Lênin e pela ditadura ecológica? Estátua em frente à siderúrgica Magnitogorsk. Foto: Imago Images / Christian Thiel
Por Alexander Amberger para o Neues Deutschland

No VIII Congresso Pan-Russo dos Soviets em 1920, Vladimir Ilyich Lenin emitiu o slogan: “Comunismo – isto é o poder soviético mais a eletrificação de todo o país”. Em seguida, a Rússia atrasada. Lenin confiou em uma industrialização abrangente – portanto, é inicialmente surpreendente quando os protetores radicais do clima hoje defendem o ecoleninismo. Seu representante mais importante é provavelmente o ecologista humano e ativista climático sueco Andreas Malm. Ele atualiza Lenin no contexto das crises atuais. “Resgate do clima = poder do estado mais o fim dos combustíveis fósseis”, isso poderia ser dito hoje. Mas os pensamentos de Malm não são tão novos.

Quando Malm escreve que as empresas de energia fóssil são “a maior e mais perigosa força”, que elas atrapalham uma verdadeira reviravolta energética e, portanto, devem ser “liquidadas”, é uma forte reminiscência de um “eco-leninista” da antiga República Democrática Alemã (RDA): Wolfgang Harich. Ele escreveu em 1977: “O dogma das necessidades crescentes de energia deve ser decididamente lançado ao mar. As usinas a carvão, como toda combustão de recursos fósseis, sobrecarregam a atmosfera com dióxido de carbono.” Harich foi um filósofo, marxista, vítima do sistema judiciário da RDA e provavelmente o primeiro defensor do“ crescimento zero” no Oriente. A era do »milagre econômico« estava chegando ao fim desde o início dos anos 1970. Um bom quarto de século após o fim da guerra, o crescimento econômico estagnou, especialmente no Ocidente.

Wolfgang Harich contra o SED

Ainda outra grande reclamação mudou para a consciência social: a superexploração cada vez maior da natureza, florestas morrendo, água envenenada, acidentes químicos, poluição e pilhas de lixo tornaram-se sintomas visíveis de uma crise ecológica. Esses fenômenos foram cientificamente apoiados pelo primeiro relatório do “Clube de Roma”. Sob o título »The Limits of Growth«, publicado em alemão em 1972, a equipe de pesquisa liderada por Dennis Meadows olhou para o futuro pela primeira vez usando dados e tendências existentes usando simulação de computador. O resultado foi devastador: se a humanidade continuasse assim, o planeta não seria mais habitável em 100 anos. Maior industrialização, crescimento populacional exponencial, desnutrição no Sul Global, As escassas reservas de matéria-prima e a destruição de habitats naturais já eram tendências perigosas há 50 anos. Como consequência desses cálculos, os cientistas exigiam uma estratégia econômica de crescimento zero.

Embora vivesse na RDA, Wolfgang Harich tinha muitos contatos na República Federal da Alemanha por meio de sua posição especial como intelectual comunista freelance e recebia literatura ocidental atualizada. As previsões do eco-alarmista logo o alcançaram. Para o marxista, estava claro que a interrupção do crescimento não era possível nas condições capitalistas, uma vez que o sistema deve crescer permanentemente com o propósito de sua autopreservação. Uma economia sem crescimento só é possível em condições comunistas. Em 1975, ele descreveu como isso poderia ser em “Comunismo sem crescimento?” Este clássico do eco-socialismo foi recentemente relançado junto com outros materiais no Volume 14 dos escritos póstumos de Harich sob o título “A Década Verde”. “Comunismo sem crescimento?” Foi publicado por Rowohlt no Ocidente, o SED não estava interessado em uma edição da RDA. Alguns anos antes, em 1971, o novo Primeiro Secretário do Comitê Central, Erich Honecker, havia proclamado a “unidade da política econômica e social” no 8º congresso do partido – o partido queria marcar pontos com a população com mais crescimento, o programa de construção de moradias e melhores oportunidades de consumo.

As demandas máximas de Harich significavam o contrário, eram politicamente indesejáveis ​​e não poderiam ter sido transmitidas: uma ditadura ecológica global sem crescimento; planejamento de acordo com a necessidade e valor de uso para evitar superprodução e desperdício; um “conselho econômico mundial” que elabora um “plano econômico mundial” para esse fim e regula a distribuição. Aos olhos de Harich, tratava-se de medidas que poderiam dar a todos neste planeta uma “vida decente”, nem menos, nem, sobretudo, mais. Quem não renuncia voluntariamente “por compreensão da necessidade” deve, se necessário, ser “reeducado”, mesmo por meios repressivos. Ao restringir certas liberdades no presente, mais liberdades permaneceriam no longo prazo.

Novo comunismo de guerra

Depois do colapso da União Soviética há 30 anos, as demandas de muitos esquerdistas por medidas autoritárias, um Estado forte e a “ditadura do proletariado” no espírito de Lenin e o fim rápido do capitalismo silenciaram. Harich também se afastou dele. Mas hoje essas palavras da moda estão de volta, mas nem em vista da crescente divisão social, nem por causa de novos escândalos nos mercados financeiros globais desregulamentados. Em vez disso, eles se referem às consequências cada vez mais perceptíveis da mudança climática, que os especialistas também incluem o surto da pandemia corona. Na primavera de 2020, o sueco Andreas Malm escreveu sua polêmica “Corona, Clima, Emergência Crônica: Comunismo de Guerra no Século XXI”.

Malm descreve Covid-19 como um problema caseiro do modo de produção industrial capitalista. A destruição contínua dos trópicos aumenta o risco de que doenças se espalhem dos animais para os humanos. A necessidade da classe alta global por carne, soja, madeira, óleo de palma, chá, café e matérias-primas não apenas garante que os habitats naturais sejam desmatados cada vez mais rapidamente, mas também que os patógenos se espalhem mais rapidamente. As causas são múltiplas. Desde a diminuição da biodiversidade, o contato com patógenos anteriormente isolados nas profundezas da floresta tropical, até a expansão das cadeias de abastecimento globais. O habitus da elite também desempenha aqui um papel importante, pois o consumo de animais tão exóticos quanto possível é considerado um sinal de luxo e exclusividade nestes círculos.

Alcance o poder do estado

Atualmente, está se tornando cada vez mais claro que a estratégia de reestruturação sócio-ecológica vagarosa não é suficiente para atingir os objetivos do Acordo do Clima de Paris. Para Malm, no entanto, as emissões de CO2 significativamente reduzidas devido ao bloqueio global no ano passado são a prova de que, em primeiro lugar, medidas drásticas de estado são possíveis para lidar com uma crise global e, em segundo lugar, tais medidas seriam bem-sucedidas e necessárias em termos de política climática. No entanto, entra em jogo algo que provavelmente causará dor de estômago em muitos esquerdistas, mas que Malm descreve como inevitável: “Não podemos simplesmente desejar que o estado desapareça em tempos de emergência. É difícil imaginar como poderia ser uma transição dos combustíveis fósseis para as energias renováveis ​​sem a ação do Estado. 

Durante a crise global de um século atrás, Lenin assumiu o controle central do aparelho de estado para poder implementar imediatamente medidas urgentes para acabar com a guerra, a fome e a desigualdade social. Para hoje, segundo Malm, isso significa usar o estado para expropriar o “capital fóssil” e implementar leis de proteção ao clima. Somente um estado forte poderia fazer isso no curto período de tempo que restou. As abordagens anarquistas, por outro lado – Malm concorda com Lenin e Harich – estão fadadas ao fracasso aqui. No entanto, ele não pode responder à questão de como o perigo de uma burocracia excessiva pode ser combatido e a independência totalitária de uma elite do poder permanentemente evitada – embora ele esteja bem ciente do problema.

Wolfgang Harich: A década verde. Ed. Andreas Heyer. Tectum, 852 pp., Capa dura, € 99; Andreas Malm: Clima | x. Matthes & Seitz Berlin, 263 pp., Br., 15 €.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo “Neues Deutschland”  [Aqui!].

A máquina de queimar o mundo

Por que um capitalismo eficiente em recursos é, em princípio, impossível

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Por Tomasz Konicz para o Neues Deutschland

O capitalismo e a proteção do clima podem ser acordados? Para a opinião publicada, esta questão parece ter sido esclarecida há muito tempo. A necessidade de deixar a economia de combustível fóssil para trás dificilmente é seriamente questionada no parlamento alemão. Mesmo um partido empresarial muito conservador como a CDU agora é capaz de se comprometer com a proteção do clima em suas declarações. Mas, ao mesmo tempo, logo depois que Armin Laschet foi eleito líder da CDU, vilarejos inteiros estão sendo demolidos na Renânia do Norte-Vestfália para expandir a queima de lignito, particularmente prejudicial ao clima.

Um abismo semelhante entre a realpolitik suja e as demandas ecológicas arejadas caracteriza muitas outras áreas políticas do capitalismo tardio real existente: O compromisso da UE de reduzir as emissões de CO2 em 55% até 2030 em comparação com 1990 contrasta com uma reforma agrária europeia que trata das estruturas industriais em ruínas A agricultura na União, em grande medida. A reviravolta no trânsito equivale à mudança para a produção em massa de carros elétricos, que devem ser fabricados com um consumo de energia muito maior do que os veículos com motores de combustão e cujo funcionamento só seria neutro para o clima se realmente operassem com “eletricidade verde”.

O capitalismo só pode reduzir o CO2 em modo de crise

A tão discutida reviravolta ecológica parece ter degenerado em um item fixo na agenda dos discursos de domingo. Todo mundo quer mais proteção climática – e ainda assim a economia parece estar seguindo seu curso normal, voltada para um crescimento sem limites. O problema aqui é que as mudanças climáticas, como um processo objetivo, não podem ser enganadas, ao contrário do público, por retórica floreada e promessas vazias. Porque o que é decisivo é o que o sistema mundial capitalista acaba por fabricar. E, a esse respeito, essas são suas emissões cada vez maiores de gases de efeito estufa.

Em todo o século 21, houve apenas dois anos em que as emissões globais de CO2 caíram: em 2009, durante a crise econômica global que se seguiu ao estouro das bolhas imobiliárias transatlânticas nos EUA e na UE, e em 2020, devido ao violento surto que causou o bloqueio da Covid foi acionado. Sem exagero, pode portanto afirmar-se que a redução das emissões de gases com efeito de estufa na economia mundial capitalista só é possível à custa de uma grave »crise económica«.

Mais ainda: as medidas keynesianas de combate à crise, com as quais foi combatida a retração econômica de 2009, fizeram com que as emissões globais de CO2 disparassem 5,9% em 2010, após queda de 1,3% no ano anterior. Algo semelhante também pode ser esperado para 2021, caso as consequências econômicas e financeiras da pandemia sejam novamente contidas e substituídas por outra formação de bolha. A clara queda nas emissões de gases de efeito estufa, relacionada à crise, de cerca de 7% no ano passado, provavelmente será seguida por um aumento similarmente alto no curso da »recuperação« econômica. Esses fatos apontam para uma contradição fundamental entre economia capitalista e ecologia.

As aparências não enganam neste caso. Sem crescimento econômico existe a ameaça de estagnação e de crise, em que o crescimento do PIB é apenas a expressão econômica do movimento de exploração do capital, que está na origem da crise climática. E o mais tardar com a eclosão da crise financeira em 2008 deveria ter ficado claro que esse processo de acumulação de capital está vinculado à produção de bens – e não pode se sustentar nos mercados financeiros com base em processos puramente especulativos.

O mesmo se aplica à ideia de uma sociedade de serviços pura, como falhou nos EUA desindustrializados, por meio da qual o crescente protecionismo sob o presidente Donald Trump indiretamente prova a necessidade de uma indústria produtora de bens como base de uma sociedade capitalista do trabalho. Trump havia anunciado que “tornaria os EUA grandes novamente” por meio da reindustrialização protecionista.

Como este processo de utilização de capital é projetado? O capitalista investe o capital em trabalho assalariado, matérias-primas, máquinas e locais de produção para vender os bens produzidos com lucro – sendo o trabalho assalariado a fonte da mais-valia. Em última análise, o capital acumula quantidades cada vez maiores de trabalho abstrato gasto neste processo ilimitado de utilização. Depois disso – com o nível de produtividade permanecendo o mesmo – o capital aumentado é investido em um novo ciclo de reciclagem em mais matéria-prima, energia e assim por diante.

Assim, o “business as usual” capitalista já se assemelha a um processo de queimar mais e mais recursos. Segundo sua própria lei de pulsão, o capital tem que “queimar” quantidades cada vez maiores de energia e matéria-prima para manter seu movimento de acumulação – até atingir seu “limite externo”, que consiste na finitude dos recursos do planeta. A compulsão ao crescimento desse sistema econômico resulta diretamente da natureza do capital.

Este processo “oco” e autorreferencial é cego para todas as consequências sociais ou ecológicas de sua atividade de exploração cada vez maior, pois desenvolve seu próprio dinamismo em sua forma de mudança de dinheiro via bens para mais dinheiro, mediado pelo mercado, em um nível social. Como é bem sabido, Karl Marx introduziu o conceito de “sujeito automático” para esse automovimento fetichista e social do capital em todos os seus estados agregados. Os recursos cada vez mais escassos deste mundo formam, portanto, o buraco cada vez mais estreito de uma agulha através da qual esse processo irracional e cego de utilização de capital tem que se espremer sob atritos cada vez maiores.

Este processo de queimar o mundo é alimentado de forma decisiva pelo nível de produtividade cada vez mais alto da economia capitalista mundial. À primeira vista parece absurdo, mas são precisamente os enormes aumentos de produtividade da produção capitalista tardia de mercadorias que contribuem significativamente para a escalada da crise ecológica. Uma vez que o trabalho assalariado forma a substância do capital, os aumentos permanentes na produtividade compelem o capitalismo tardio a levar ao extremo o desperdício “eficiente” de recursos e matérias-primas. No contexto da utilização do capital, os recursos e as matérias-primas são relevantes apenas como portadores de valor – isto é, de trabalho humano abstrato. Quanto maior a produtividade, menos o trabalho abstrato é reificado em uma determinada quantidade de mercadoria.

Se, por exemplo, um fabricante de veículos aumenta a produtividade em dez por cento ao apresentar um novo modelo de veículo, então ele também tem que realocar dez por cento mais carros para utilizar a mesma quantidade de valor pelo mesmo preço de produto – ou dispensar cada décimo trabalhador. Para manter o processo de realização de capital, mais bens devem ser produzidos e vendidos à medida que a produtividade aumenta. É por isso que se aplica o seguinte: quanto maior a produtividade da maquinaria industrial global, maior será sua fome de recursos, pois a massa de valor por unidade produzida tende a diminuir. Uma tentativa de introduzir um modo de produção que conserva os recursos na economia mundial capitalista é, portanto, impossível – equivaleria à destruição do capital.

Conclusão: O aumento da produtividade, que é realmente indispensável para a implementação de um método econômico de economia de recursos, atua como um acelerador de fogo no capitalismo, uma vez que aqui uma racionalidade funcionalista cega deve servir ao fim irracional em si mesmo de utilização ilimitada de capital, que se baseia em suas contradições crescentes.

Tomasz Konicz publicou o livro »Klimakiller Kapital. Como um sistema econômico destrói nossos meios de subsistência «, 360 p., Brochura, 20 €.

fecho

Este artigo foi originalmente escrito em alemã e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

O racismo integra a formação e desenvolvimento do Capitalismo a la brasileira, negar a sua existência também

joão albertoO assassinato de João Alberto Silveira Freitas por seguranças da rede Carrefour em Porto Alegre deixa mais uma vez nu o racismo estrutural que permeia as relações capitalistas no Brasil

Como muitos leitores já devem saber, morei alguns anos nos EUA e em regiões de estados onde as relações raciais são ainda muito tensas (i.e., Tennessee e Virginia).  Em minha convivência com colegas de universidades e instituições de pesquisa, um dos momentos de constrangimento certo era aquele em que eu recusava o cumprimento pelo fato do Brasil ser uma suposta democracia racial, terra do samba e do futebol. Para surpresa dos meus interlocutores que me dirigiam o cumprimento por ser brasileiro, eu retrucava dizendo que éramos tão ou mais racistas que os EUA.  O meu exemplo da existência  do elevador de serviço para onde deveriam se dirigir os trabalhadores domésticos ou prestadores de serviço como uma prova do racismo brasileiro deixava sempre as pessoas atônitas, pois esse tipo de elevador não existe por lá.

Aliás, falando no elevador de serviço (uma forma escondida de segregação), os incorporadores imobiliários portugueses tiveram que após mais de quatro décadas começar a reincluir este tipo de aparato nas plantas dos novos prédios, especialmente em Lisboa, após a enxurrada de brasileiros de classes abastadas chegarem por lá para comprar imóveis após o golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff em 2016.

Esse preâmbulo todo é para dizer que não há como deixar de reconhecer que a escravidão (primeiro indígena e depois negra) foi a base da criação do Brasil como país, e que o nosso modelo peculiar de desenvolvimento capitalista esteve sempre ligado ao uso do trabalho escravo. A forma pela qual transitamos da escravidão legal também teve vários traços singulares desse capitalismo escravocrata, a começar pela promulgação da Lei de Terras em 1850, a qual objetivamente impediu que indígenas e negros pudessem ter o direito a possuir títulos de terras, na medida em que essa lei determinou que só poderia ter título de terra quem pudesse pagar por ele. E naquele momento exato da história do Capitalismo brasileiro, isso serviu como uma senha para impedir que membros dos povos originários e os negros escravizados pudessem ter a propriedade da terra.

Desde a independência do Brasil, o desenvolvimento do Capitalismo “a la brasileira” nunca teve como prioridade superar as injustiças e desigualdades causadas por mais de 300 anos de escravidão.  Ainda que formalmente uma série de leis tenham sido criadas para alcançar mais equidade social (ou, na prática, uma menor iniquidade), avançamos muito pouco na reparação da herança do escravismo e, por isso, o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais e segregados do planeta.

Ser indígena ou negro no Brasil nunca foi fácil, pois o Estado  brasileiro sempre dedicou aos que não tem pele branca o uso da mão pesada para conter demandas e manter a insatisfação prisioneira em territórios guetizados, fossem eles reservas indígenas ou favelas.  

O estabelecimento do “Dia da Consciência Negra” pela Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011 é para mim mais um exemplo em que formalmente se avança para ficar no mesmo lugar. Ainda que seja correto lembrar e celebrar a contribuição dos negros na formação e no desenvolvimento do Brasil, o fato é que nem nesse dia os afrodescendentes podem usufruir de um dia de paz e tranquilidade. A prova maior disso foi o brutal assassinato a sangue frio de  João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, espancado e morto em uma unidade do supermercado Carrefour em Porto Alegre, e que está causando tanta comoção nos últimos dois dias.

Mas o assassinato de João Alberto é apenas mais um e não será o último, essa é a verdade. A certeza disso vem das declarações do presidente Jair Bolsonaro e do seu vice-presidente Hamilton Mourão que não só negam a existência de algo inegável que é o racismo no Brasil, mas também se dão ao trabalho de culpabilizar os que se revoltaram e protestaram contra mais essa morte de um trabalhador negro. De forma objetiva, querendo ou não, Bolsonaro e Mourão explicitam de forma crua e direta a lógica racista que naturaliza as mortes e aponta o dedo acusador contra quem se revolta.

Aos meus orientandos que se interessam pelas questões sobre a existência do brasileiro negro em uma sociedade tão racista como a nossa, eu sempre recomendo a leitura da obra de Florestan Fernandes “A integração do negro na sociedade de classes“.  É que com a leitura desse livro se pode compreender as raízes da persistente desigualdade e das agudeza do processo de exploração ao qual os negros brasileiros continuam sofrendo após a passagem da escravidão para o trabalho supostamente livre vigente em uma sociedade capitalista (o vídeo abaixo é bastante didático sobre o conteúdo dessa obra seminal de Florestan).

O fato é que não vejo como se alcançar qualquer nuance do que pode ser chamado de “democracia racial” enquanto perdurarem no Brasil as relações sociais, econômicas e políticas determinadas pela posição periférica do Brasil no sistema capitalista.  Se o Capitalismo já traz em si vírus fundamental da negação da democracia enquanto um elemento que possa ser pertinente a todas as classes sociais, como escreveu a marxista canadense Ellen Meiksins Wood em seu livro “Democracia contra capitalismo”, no Brasil essa negação é mais profunda e severa, já que nem os aspectos formais dos sistemas democráticos ocidentais foram efetivamente implantados.

O caminho de saída, como vem mostrando o marxista negro estadunidense Adolph Reed terá de ser pelo reconhecimento de que a luta anti-racista só poderá ter um desfecho positivo se for involucrada pelo elemento de classe. Entender essa condição inescapável certamente deveria merecer uma profunda reflexão dos partidos e movimentos sociais que se colocam na linha de frente das lutas anti-racistas no Brasil.

Quanto mais cedo nos antenarmos para essa indissociabilidade, melhor será, especialmente para aqueles milhões de brasileiros que acordam todos os dias com medo de serem o próximo João Alberto.

Finalmente, uma reminiscência pessoal. Graças ao meu amigo Edilberto Rocha Silveira, professor titular da Universidade Federal do Ceará, pude visitar uma senzala, hoje transformada no “Museu Senzala Negro Liberto“, no município de Redenção, que foi justamente o primeiro lugar no Brasil, cinco anos antes da promulgação da Lei Áurea, a libertar todos os seus escravos. Essa visita me fez ver as condições de horror e claustrofobia em que viviam os negros escravizados. Quem tiver dúvida do que se deu a escravidão negra no Brasil, sugiro uma visita a este museu.  Ah, sim, se seu sangue não ferver vendo as condições em que viviam os escravos, você provavelmente não sente nada pelos milhões de brasileiros a quem tudo é negado por descender deles. Por isso, sim, você é um racista a la brasileira.

Diário de Pandemia

democracia

Por Douglas da Mata

O mito ocidental da democracia (e sua impossibilidade de convívio com os sistemas capitalistas).

Boa parte de nossa ciência social, destacando a sociologia brasileira, e certamente parte considerável da latino-americana, padece de um erro conceitual que deriva diretamente da mentalidade colonizada.

Na verdade, esta submissão não é deletéria às nossas ciências e cientistas sociais, mas a constatação de um fato histórico, ou seja, assim como o capitalismo subordina as relações sociais dentre as classes sociais de uma nação, ele o faz quando se trata de sociedades localizadas em países de diferentes posições relativas, aquilo que Adam Smith chamou de divisão internacional (do trabalho).

Claro que devemos afastar o risco economicista que ronda tais análises, mas não é errado supor que parte do que a ciência social produz aqui repercute uma anterioridade científica como referência, seja para criar novos olhares sobre as teses produzidas no chamado “mundo anterior” (principalmente a Europa), seja para confirmar outras teses.

O capitalismo subordina seus atores, e com boa chance de acerto, subordina também as narrativas elaboradas por estes.

Neste sentido, a ciência social brasileira nunca questionou a existência da Democracia e sua convivência com o sistema capitalista que se hegemonizou a partir da Era Moderna.

No mínimo, sempre teve um grande receio de abordar com profundidade a possibilidade que a Democracia seja incompatível com o capitalismo.

Democracia aqui mal definida como um sistema de representação (direta e/ou indireta) que proporcione a supremacia de um projeto majoritário, sem aniquilação de minorias, fortalecimento de impessoalidade e isonomia (cada qual na medida de sua capacidade, responsabilidade, necessidade) na aplicação de recursos públicos e tributação, e que via de regra, dê chance para que as classes que se opõem no capitalismo se alternem no poder!

Certamente alguns sociólogos mais precipitados correrão a recitar o chavão: Democracia é um processo em construção!

Pois bem, mas para aceitar este sofisma temos que enxergar algum aspecto de progressividade, ou de avanço do empoderamento das classes subalternas.

A pergunta que se deve fazer, além dos parâmetros econométricos (IDH, PIB, longevidade, mortalidade infantil, etc) ou dos parâmetros institucionais formais (direito a voto, funcionamento das chamadas instituições, com imprensa e judiciário) é se, de fato, os “processos democráticos” permitiram alguma forma real de alternância de PODER.

Há pergunta anterior?

Sim, há:

É possível, dentro dos limites da ordem capitalista, que haja tal alternância?

Pensamos que não, e pensamos ainda que o chamado “processo democrático” nos trouxe a lugares bem distantes desta necessidade democrática de alternância, sem a qual, a etimologia da palavra democracia perde sentido ou utilidade.

Não me refiro aos dias atuais, onde esta distância parece óbvia, seja no chamado berço democrático (Europa, GBR), seja nos “campeões da democracia”, os EUA.

Falo de toda a história do capitalismo, que excetuando a rasa análise das agregações formais e econométricas que já citamos, sempre foi um vai e vem, de um passo a frente e vinte atrás, no quesito dos controles sociais dedicados a conservar as estruturas de subordinação!

Na verdade, toda a gama de “direitos” conquistada ao longo deste processo nunca teve sua permanência garantida, e “coincidentemente” (não é coincidência, mas causa e efeito recíproco), a cada volta da espiral de refluxo e fluxo da acumulação capitalista (agora pós capitalista, no rentismo) foi cassada parte considerável destas conquistas, trazendo as lutas para estágios anteriores aos que foram estabelecidos.

Enquanto isto, as estruturas de dominação nunca foram alteradas e/ou ameaçadas, ao contrário, a cada “direito” conquistado, criaram-se outros tantos freios ao avanço das sociedades, diluindo tais conquistas em uma equação de resultado (-1).

Por isto não nos espanta que os sistemas militares globais tenham estabelecido suas agendas como concorrentes a expansão rentista, monitorando e tutelando, direta ou indiretamente, os governos e entidades.

O medo da nossa ciência social de falar em alto e bom som que não existe e nem existirá democracia alguma em um sistema capitalista, é explicável.

Deriva do truque semiótico imposto pelos detentores do capital, imputando a pecha de autoritários a todos àqueles que desejam romper esta ordem pseudo-democrática.

Aproveitando o que nos diz Robert Kürz, este erro grave leva a outro, que é a construção de uma práxis “revolucionária” que só macaqueia e reproduz os erros de uma sociedade baseada nos mesmos pilares capitalistas, sem romper com esta ordem, sem oferecer a mesma dinâmica do consumo (prazerosa) e deixando apenas a parte autoritária das experiências planificadoras estatais, no chamado capitalismo planejado de estado, que tem seu maior expoente a China!

Só existirá Democracia ou processo democrático na luta anti-capital, e na extinção completa de suas formas de organização da sociedade.

Robert Kürz chama tudo isso de totalitarismo democrático, porque no capitalismo todas as escolhas já estão pré-determinadas, e o capital sempre sabe o resultado.

Algo como o alegado livre-arbítrio religioso, frente a um deus onisciente que sabe o que você escolherá!

É isso que a ciência social precisa dizer, e é isto que devemos ouvir:

Capitalismo e democracia são incompatíveis!

Consumo, logo existo. Mas qual é a surpresa, se esse é o maior fetiche capitalista?

mallClientes fazem fila para entrar da Gucci no shopping The Gallery , depois que um shopping foi aberto durante o surto  de COVID -19, em Houston, EUA, 1 de maio de 2020. / Reuters

As cenas de multidões acorrendo os shoppings centers que reabriram ontem em São Paulo são chocantes, ao menos para aqueles que entendem a gravidade da pandemia da COVID-19 que ronda todo o Brasil neste momento. Uma reação de muitos que estão podendo ou desejando se manter socialmente isolados enquanto os pobres acorrem os templos do consumismo às vésperas  e no do “Dia dos Namorados” é meio que jogar a toalha para o Brasil e os brasileiros, como se fossemos uma causa perdida, restando apenas o caminho do aeroporto para aqueles que puderem.

shoppingShopping Tatuapé teve fila com mais de 200 pessoas à espera da reabertura nesta quinta-feira, 11 de junho.

Mas alto lá! As cenas de shopping centers e cafés lotados foram comuns em países como França e Espanha, onde a pandemia da COVID-19 matou proporcionalmente muito mais do que deverá no Brasil, apesar dos gigantescos números brasileiros que hoje já somam mais de 40.000 mortos e quase 1 milhão de infectados (com subnotificação e tudo). Isto sem falar dos EUA, onde os shopping centers foram reabertos antes do Brasil.

E não nos esqueçamos que nos anos em que fomos governados pelo ex-presidente Lula, o acesso ao consumo para amplas camadas da população funcionou como uma espécie de pedra filosofal do Neodesenvolvimentismo.  Agora que os pobres sentiram o gostinho do consumo e das comodidades dos habitantes assépticos que os shoppings centers (onde o tempo é congelado pela falta proposital de relógios e a violência social é mantida do lado de fora), eu não me sinto em condição de julgá-los.

A questão mais profunda que aparece desde o centro até a periferia do Capitalismo é que o consumo, seja lá do que for, é o principal fetiche pela qual as sociedades são mantidas letárgicas, enquanto o planeta nos emite sinais de que esse modo de vida é insustentável. No Volume 1 do ” O Capital”, Karl Marx chamou esse processo de encantamento com o consumo de o “fetichismo da mercadoria“.

Por outro lado, a pandemia da COVID-19 é uma prova cabal de que o avanço desenfreado do consumo está criando as condições necessárias para o aparecimento de uma sucessão de vírus que são mortais para seres humanos e para os animais que eles colocaram no topo da sua cadeia alimentar, como os porcos e bois.

Como se libertar do fetiche do consumo é uma das questões mais transcendentais que a espécie humana enfrenta em mais de 2 milhões de anos de evolução enquanto espécie. As indicações vindas da Europa é que um modelo de decrescimento está em gestão, e isto afetará forçosamente a intensidade e o tipo de consumo a que determinadas sociedades vão se adequar. Se isso será suficiente para impedir a repetição de pandemias como a COVID-19 é uma questão que fica aberta.

Mas voltando ao Brasil, o mais resultado mais óbvio desse retorno ao consumo intenso em um momento em que a pandemia continua se alastrando como fogo em pasto seco será o aumento inevitável de infectados e mortos. E isso ficará claro daqui a duas semanas quando quem se infectar nessa corrida aos shoppings tiver completado o ciclo mortal da COVID-19.

E nos túmulos que tiverem lápide: morri por quiz consumir, sem medo do coronavírus. Lamentavelmente, para muitos restará apenas as covas coletivas.