O manifesto da “Coalizão do Evangelho” e os riscos da sugestão de “endeusamento da Ciência” em tempos de pandemia

popeMais de 11 milhões de pessoas assistiram ao papa Francisco entregar uma bênção em uma Praça de São Pedro durante a celebração da Missa da Páscoa de 2020 por causa da pandemia da COVID-19.

Enquanto o espectro mortal da COVID-19 avança por todos os lados no Brasil, e nosso país já ocupa o sexto lugar no número de mortos em nível mundial, as placas tectônicas da relação entre religião e ciência começam a se mover de forma mais clara. Um exemplo disso é o manifesto intitulado “Pela Pacificação da Nação em Meio à Pandemia” que acaba de ser lançado pela chamada “Coalizão do Evangelho“, onde são tecidas considerações sobre o que seriam desencontros e confusões que decorreriam de um suposto endeusamento da ciência (ver imagem abaixo).

endeusamento da ciência

Uma coisa que precisa ser dita inicialmente sobre essa assertiva é que se há uma esfera do conhecimento humano onde não há espaço para endeusamento, esse é o da ciência, em que pesem alguns pesquisadores se acharem “deuses”. É que o método científico em suas múltiplas formulações parte do pressuposto da “falibilidade”, o que, convenhamos, não é conducivo ao endeusamento, pois para os deuses (ou no caso do grupo em questão, de Deus) não há sequer a  possibilidade de que sejam falíveis.

Outro aspecto levantado no mesmo parágrafo é de que existe dentro da comunidade científica conflitos acerca dos dados e interpretações sobre como tratar a pandemia. Aqui há uma inverdade objetiva, pois não dentro da comunidade científica qualquer diferença significativa sobre a natureza do novo coronavírus ou, tampouco, sobre a sua letalidade.  O que de fato existe são lacunas que estão sendo preenchidas dentro do furor da batalha sobre como o coronavírus se difunde e de como evolui dentro de seus hospedeiros humanos, o que leva a variações de concepções sobre quais medicamentos podem amenizar a evolução da COVID-19, de modo a salvar vidas. Além disso, há uma corrida frenética, por exemplo, para a produção de uma vacina que possa preparar os organismos infectados para impedir que o coronavírus produza os efeitos que já estão em processo de identificação em meio a esta pandemia.

Desta forma, os líderes religiosos que assinam o manifesto “Pela Pacificação da Nação em Meio à Pandemia” estão incorrendo em um pecado que, reconheço, pode ser compreensível: criticam a Ciência e seus limites epistemológicos,  mas se esquecem de criticar os que têm efetivamente inviabilizado a aplicação do conhecimento científico já existente sobre o novo coronavírus para impedir o avanço da pandemia. É que afora a crítica a um inexistente endeusamento da ciência, a única crítica é feita para a mídia que está cobrindo a pandemia, por não possuir a “credibilidade que outrora desfrutava”. 

Por outro lado, a única menção ao sistema política  é sobre uma suposta “infindável luta ideológica e de poder” que tornaria difícil para o brasileiro comum viver “vida tranquila e mansa”.  A primeira coisa aqui é que a dificuldade para o brasileiro comum viver “vida tranquila e mansa” já estava posta há muito tempo, a começar pela falta de empregos e pelo encurtamento das proteções sociais.  Além disso, falar de infindável luta ideológica e de poder sem falar como os governantes estão agindo para combater ou não o avanço da pandemia serve apenas para aprofundar a polarização. Sem colocar o dedo na ferida e com essa vagueza de sentido, fica bem evidente para qual lado essas lideranças estão apontando o dedo. E isso,  é preciso que se informe aos signatários do manifesto, dificilmente nos levará à vida tranquila e mansa que eles parecem desejar.

Sugiro para quem desejar conhecer um pouco dos meandros com que os fundadores da Ciência moderna tiveram para percorrer para nos oferecer o caminho das luzes que leiam a obra do filósofo italiano Paolo Rossi intitulada “A ciência e a filosofia dos modernos“. Com essa leitura poderão ver que quando se acusa a ciência de endeusamento, está se apontando para o questionamento da própria existência do pensamento científico, que nos moveu para além da chamada “Idade das Trevas”.

Finalmente, quero lembrar que o Papa Francisco, na missa da segunda-feira de Páscoa, pediu orações para que governos, cientistas e políticos pudessem encontrar soluções justas para a crise de COVID-19, a favor do povo. Essa tarefa, disse ele em sua homilia, dependerá da escolha entre a vida das pessoas e o “Deus dinheiro”.  Pensando bem, nesse caso, apesar de não ser católico, fico com o Papa Francisco.

Duzentos milhões de trouxas sendo explorados por seis bancos: a frase que explica mais do que parece

Manaus vive caos sanitário por casos de COVID-19 - ISTOÉ Independente

O jornal “Le Parisien” publicou neste domingo (10/05) o resultado de uma pesquisa feita sobre as perspectivas que milhões de franceses estão tendo sobre a volta ao trabalho a partir de amanhã, ainda em meio à pandemia da COVID-19. O resultado é que os trabalhadores franceses estão voltando ao trabalho com um sentimento nada agradável, pois a maioria se preocupa mais com a sua saúde do que com os efeitos da crise econômica.

le parisien economia saude

Se levarmos em conta que na França o apoio financeiro dado pelo Estado aos trabalhadores desempregados tem sido muito mais significativo do que o oferecido no Brasil pelo governo Bolsonaro, e de que lá as restrições impostas a quem voltar a funcionar deverão ser fiscalizadas com maior rigor do que por aqui, poderia soar exagerada o fato da maioria privilegiar a saúde em vez da economia. Entretanto, isto está muito provavelmente ligado ao grau de entendimento que os trabalhadores franceses possuem acerca dos pesos e medidas que devem ser usados para regular a relação entre capital e trabalho.

Já aqui no Brasil, o fato de que, mesmo antes da pandemia se manifestarem território nacional, quase 20 milhões de trabalhadores estivessem desempregados e que quase 40 milhões de brasileiros estivessem obtendo seus parcos ganhos em atividades informais, acaba impondo uma realidade dramática que leva a que a relação aqui seja invers, e que muitos queiram trabalhar (seja no que for) para amealhar dinheiro que possa colocar comida no prato.

Essa realidade dramática decorre de uma decisão racional das elites brasileiras em prol do rentismo que encolhe o número de empregos, precariza o trabalho e achata o valor dos salários. Não é à toa que, em um momento de sinceridade, o ministro da Fazenda do governo Bolsonaro, o banqueiro Paulo Guedes, afirmou em uma videoconferência promovida pelo banco Itaú que “somos 200 milhões de trouxas sendo explorados por seis bancos..“. 

200 milhões de trouxas

Como banqueiro que é, Paulo Guedes sabe muito bem do que está falando. É que desde muito tempo são os banqueiros que controlam a economia e o sistema político brasileiro.  Para quem não se lembra, o anúncio da indicação de Antonio Palocci para ocupar o cargo de ministro da Fazenda no primeiro mandato de Lula ocorreu dentro da sede do Clube de Washington e que o presidente do Banco Central naquele governo foi Henrique Meirelles, ex-presidente do Bank of Boston.

Mas, esse controle só foi aumentado com o impeachment de Dilma Rousseff que era vista como um obstáculo para o avanço dos ganhos já estratosféricos dos donos dos bancos.  Não é à toa que desde então,  os trabalhadores brasileiros foram alvo de várias investidas que lhes retiraram direitos sociais e trabalhistas, a começar pela famigerada PEC  241 (a do Teto de Gastos) que congelou os investimentos públicos em saúde, educação e assistência social por 20 anos. 

E é justamente a vigência plena da PEC 241 que está não apenas impedindo que existam os recursos necessários para dotar o SUS das condições necessárias para assistir os trabalhadores contaminados pelo coronavírus, mas também representa um grande obstáculo para qualquer retomada da economia brasileira que se encontra em um espiral descendente.

Por isso, toda a cantilena feita pelo presidente Jair Bolsonaro sobre a necessidade de se quebrar as ações de isolamento em nome da volta das atividades econômicas e da retomada dos empregos não passa disso. E, pior, toda essa conversa de priorizar a atividade econômica sobre as necessidades de se proteger a saúde dos brasileiros não passa de um cortina de fumaça para esconder o que o ministro da Fazenda reconheceu de forma tão sincera, qual seja, que somos 200 milhões de trouxas sendo explorados por 6 instituições financeiras que só têm feito aumentar seus lucros bilionários enquanto valas comuns estão sendo abertas pelo Brasil afora para receber os trabalhadores mortos pela COVID-19.

É com essa disparidade que teremos de nos defrontar no período pós-pandemia, sem que precisemos nos distrair com as pantomimas rocambolescas dos seguidores mais ardorosos de Jair Bolsonaro. Seguidores esses que, se continuarem se expondo de forma tão irresponsável ao processo de infecção pelo coronavírus, brevemente serão lembrados como kamikazes de uma causa perdida.

 

Medicamento anticoagulante reduz em 70% a infecção de células pelo novo coronavírus

Fapesp: Remédio anticoagulante reduz em 70% a infecção de células ...

Por Elton Alisson | Agência FAPESP

Estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e colaboradores europeus revela um possível novo mecanismo de ação do fármaco heparina no tratamento da COVID-19. Além de combater distúrbios de coagulação que podem afetar vasos do pulmão e prejudicar a oxigenação, o medicamento parece também ser capaz de dificultar a entrada do novo coronavírus (SARS-CoV-2) nas células.

Em testes de laboratório, feitos em linhagem celular proveniente do rim do macaco-verde africano (Cercopithecus aethiops), a heparina reduziu em 70% a invasão das células pelo novo coronavírus. Os resultados do estudo, apoiado pela FAPESP no âmbito de um projeto selecionado na chamada FAPESP “Suplementos de rápida implementação contra a COVID-19”, foram descritos em artigo publicado na plataforma bioRxiv, ainda em versão pré-print (sem revisão por pares). A pesquisa contou com a participação de cientistas da Inglaterra e da Itália.

“Existiam indícios de que a heparina, que é um fármaco que desempenha várias funções farmacológicas, também tinha capacidade de prevenir infecções virais, incluindo por coronavírus, mas as evidências não eram muito robustas. Conseguimos comprovar essa propriedade do medicamento em ensaios in vitro”, diz à Agência FAPESP Helena Bonciani Nader, professora da Unifesp e coordenadora do projeto do lado brasileiro.

heparina

O grupo de Nader estuda há mais de 40 anos os glicosaminoglicanos – classe de carboidratos complexos à qual a heparina pertence – e desenvolveu as primeiras heparinas de baixo peso molecular, usadas clinicamente como agentes anticoagulantes e antitrombóticos, inclusive em pacientes com COVID-19.

Uma das descobertas feitas pelo grupo ao longo deste período foi que a heparina é um medicamento multialvo, pois além do seu efeito na prevenção da coagulação do sangue pode se ligar a diversas proteínas. Entre elas, fatores de crescimento e citocinas que se ligam a receptores específicos na superfície de células-alvo.

Nos últimos anos, estudos feitos por outros grupos sugeriram que as proteínas de superfície de outros coronavírus até então relatados poderiam se ligar a um glicosaminoglicano das células de mamíferos, chamado heparam sulfato, para infectá-las.

Com o surgimento do SARS-CoV-2, os pesquisadores da Unifesp, em colaboração com os colegas ingleses e italianos, tiveram a ideia de avaliar se a proteína de superfície do novo coronavírus responsável pela infecção das células – chamada proteína spike – se liga à heparina, uma vez que a molécula do fármaco tem estrutura muito semelhante à do heparam sulfato.

Os experimentos confirmaram a hipótese. Por meio de técnicas de ressonância plasmônica de superfície e de espectroscopia de dicroísmo circular, observou-se que a heparina, ao se ligar às proteínas spike do SARS-CoV-2, causa nessas moléculas uma alteração conformacional. Dessa forma, avaria a “fechadura” para entrada do vírus nas células.

“Se não entrar na célula, o vírus não consegue se multiplicar e não tem sucesso na infecção”, explica Nader.

Melhor forma estrutural

Os pesquisadores também avaliaram quais formas estruturais da heparina apresentam melhor interação e são capazes de mudar a conformação das proteínas spike do novo coronavírus, com base em uma biblioteca de derivados e em diferentes fragmentos da molécula, definidos por tamanho.

“Os resultados das análises indicaram que a heparina que apresenta a melhor interação e atividade de alteração conformacional da proteína spike do SARS-CoV-2 é com oito polissacarídeos, ou seja, um octossacarídeo”, afirma Nader.

Os pesquisadores estão fazendo, agora, mudanças estruturais em heparinas para identificar uma molécula que apresente o mesmo efeito de ligação e mudança conformacional da proteína spike do novo coronavírus, mas que cause menos sangramento – um potencial efeito colateral do fármaco.

Além disso, também estão testando outros compostos chamados de heparinas miméticas – que mimetizam a ação da heparina.

“A ideia é chegar a uma molécula com melhor efeito antiviral”, afirma Nader, que também integra o Conselho Superior da FAPESP.

Segundo a pesquisadora, os estudos em andamento serão feitos com tecnologias de biologia estrutural que envolvem técnicas de ressonância nuclear magnética, de cinética de interação rápida por stop-flow, microscopia confocal e citometria de fluxo, entre outras, empregando diferentes modelos celulares.

O artigo Heparin inhibitis cellular invasion by SARS-CoV-2: structural dependence of the interaction of the surface protein (spike) S1 receptor binding domain with heparin (DOI: 10.1101/2020.04.28.066761), de Courtney J. Mycroft-West, Dunhao Su, Isabel Pagani, Timothy R. Rudd, Stefano Elli, Scott E. Guimond, Gavin Miller, Maria C. Z. Meneghetti, Helena B. Nader, Yong Li, Quentin M. Nunes, Patricia Procter, Nicasio Mancini, Massimo Clementi, Nicholas R. Forsyth, Jeremy E. Turnbull, Marco Guerrini, David G. Fernig, Elisa Vicenzi, Edwin A. Yates, Marcelo A. Lima e Mark A. Skidmore, pode ser lido no bioRxiv em https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.04.28.066761v1.full.

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Este artigo foi inicialmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui! ].

Padrão de difusão no RJ reforça o caráter multipolar do coronavírus

Aparecida de Goiânia registra segunda morte causada pelo novo ...

Ainda que se desconte o alto fato de subnotificação que marca a difusão do coronavírus no Rio de Janeiro, o mapa abaixo reforça algo que já se sabe sobre o caráter multipolar que caracteriza o seu espalhamento espacial.

disseminação covid rj

Com base na concentração do número de casos confirmados, identifiquei vários áreas polos (marcadas por cada um dos círculos com cores diferentes para identificar a região administrativa a que pertencem os municípios).

Se usarmos a “teoria dos lugares centrais” desenvolvida pelo geógrafo alemão Walter Christaller fica fácil entender porque determinados municípios estão servindo como pólos de difusão do coronavírus. É que ao assumir papéis centrais no processo de circulação de pessoas e por serem áreas mais dotadas de determinados serviços, estes municípios acabam sendo mais impactadas pela chegada e saída de pessoas. Daí a razão para que se transformem neste momento áreas focais, mas também irradiadoras, do coronavírus.

Um elemento que o mapa acima nos permite dizer é que o estado do Rio de Janeiro, apesar de possuir áreas mais “quentes” em termos do número de casos de infecção, está totalmente ocupado pelo coronavírus.  E as diferenças existentes na magnitude de casos confirmados se dá por suas características demográficas e de nível de atividade econômica. Entretanto, o fundamental é que o coronavírus está perfeitamente distribuído no território fluminense. E isto deveria ser respondido com um maior articulação entre as autoridades sanitárias, de modo a conter a percolação mais intensa do coronavírus, impedindo que se aumente o número de casos nos municípios com menor capacidade hospitalar instalada.

No caso de Campos dos Goytacazes, também não há nada de surpreendente no fato de que o município seja com o maior número de casos confirmados. Isto se dá por todas as características já apontadas acima. A confirmação de que Campos se tornou uma das áreas focais de disseminação do coronavírus é particularmente preocupante, pois em seu interior existem profundas diferenças sociais, o que poderá resultar em uma alta perda de vidas humanas nas áreas mais periféricas e desprovidas de serviços básicos de saúde, abastecimento de água e tratamento de esgotos. 

MPF e DPU recomendam que estado do RJ reforce medidas para conter disseminação de COVID-19

Documento recomenda medidas como ações de informação e fiscalização continuadas para o engajamento da população às regras de isolamento

COVID RJ

O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) recomendaram ao governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSL), e ao secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, que o estado adote uma série de medidas para conter a disseminação da COVID-19 e engajar a população nas medidas de isolamento social.A recomendação, enviada na quinta-feira (8) sugere que o uso de máscaras seja obrigatório em todo o estado e que o governo estadual adote medidas de informação continuada para aumentar o engajamento da população, inclusive com coletivas de imprensa pela SES/RJ sobre a importância das ações de isolamento. Também pede a fiscalização das medidas implementadas, no regular exercício do poder de polícia, observados os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, eficiência e dignidade da pessoa humana.

O estado deve apresentar os critérios para identificar o esgotamento dos serviços de saúde e, caso identificado, deve fortalecer gradualmente as ações de isolamento, com base nos critérios definidos em documentação técnica e coleta de informações estratégicas em saúde.

O MPF e a DPU destacam a necessidade de que haja número suficiente de profissionais para atendimento aos doentes, bem como EPIs para os trabalhadores de saúde, testes laboratoriais para diagnósticos, leitos clínicos e leitos de UTI completos com respiradores em número pertinente para absorver o impacto do aumento de número de casos caso o isolamento seja flexibilizado.

O documento ainda pede a ampliação de testes para detecção da nova doença e a observância de orientações e normas da Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde e Conselho Nacional e Estadual de Saúde referentes à retirada de distanciamento social para enfrentamento à covid-19.

“O movimento do governo pelo recrudescimento das medidas de isolamento já está sendo anunciado. O foco da recomendação enviada foi, portanto, ressaltar os aspectos da rede de assistência à saúde e a falta de vagas já observada pela análise direta do sistema informatizado de leitos da Regulação (Sistema Plataforma-SMS), bem como ressaltar a necessidade da adoção de medidas fundamentais para o engajamento da população – como condição para o êxito do isolamento, em qualquer de suas modalidades – e de medidas eficazes de fiscalização, observados os princípios que regem a Administração Pública e o principio da dignidade da pessoa humana. O MPF e DPU entenderam também essencial uniformizar em todo território do estado do Rio de Janeiro a ordem pelo uso obrigatório de máscaras – outra medida recomendada”, destacam os procuradores da República e o defensor público federal que assinam a recomendação.

O documento, com prazo de resposta de 72 horas, lembra que 67% da população fluminense depende exclusivamente do SUS e que o estado do Rio de Janeiro registra aumento exponencial da contaminação, com adesão ao isolamento social de 46,2%, bem abaixo do índice de 70% considerado ideal para o achatamento da curva. Em 7/5, data da recomendação, o painel eletrônico da SES-RJ mostrava 13.295 casos confirmados ; 8.300 recuperados; 1.205 óbitos confirmados; 2.471 internações. Desse total de casos confirmados, 8.577 são no município do Rio de Janeiro.

Ação civil pública – Em outra frente de atuação, outras medidas estão sendo adotadas no processo judicial n. 5004268-19.2020.4.02.5101, em trâmite na 15a Vara Federal do Rio de Janeiro, para engajar a rede federal na rede de assistência da covid-19 e, desta forma, evitar desperdício da capacidade de assistência pública de saúde instalada.

Veja aqui a íntegra da recomendação.

O preço final do negacionismo da COVID-19 será calculado em vidas perdidas

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Como já foi dito aqui, o presidente Jair Bolsonaro está em uma restrita lista de líderes mundiais que ainda negam a gravidade da crise sanitária causada pela COVID-19. Se esse negacionismo não tivesse efeitos práticos, esse negacionismo do presidente do Brasil não teria nada de novidade, pois ele se somaria a uma lista de negações que ele professa (a começar pela que nega a natureza hedionda da tortura).

O problema é que, como presidente da república, e um líder que arrasta uma parcela da população brasileira para abraçar suas negações, Jair Bolsonaro produz uma conta social que é contada no número de pessoas mortas pela negação de colocar todas as forças e recursos disponíveis ao governo federal para conter o avanço da pandemia no Brasil..

Essa conta social nos apresentada não apenas em número de mortes, mas também de pessoas que ficarão sequeladas pelas diversas mazelas que são causadas pela COVID-19 em casos mais drásticos da infecção. Mas, por enquanto, os números (subnotificados, é preciso que se frise) já colocam o Brasil como o 9o colocado em número total de casos, o 6o colocado no número de mortos, e o 2o em número de casos graves (ver imagem abaixo).

tabela covid 19 2

Há que se notar ainda que o crescente número de mortos está se localizando nas áreas mais pobres, o que indica que são os trabalhadores e a juventude pobre que estão arcando com o principal peso da negação disseminada por Jair Bolsonaro e pelos detentores de grandes fortunas que o seguem.

Por outro lado,  o Brasil, ao contrário de outros países, está tendo uma concentração de infecções pelo novo coronavírus na faixa de 20 a 39 anos, o também derruba a tese do isolamento vertical que tem sido defendida pelo presidente da república. Essa diferença é fundamental para que se entenda as vias pelas quais o coronavírus está disseminando na população brasileira,  de forma até a minimizar o baixíssimo número de testes realizados para determinar se uma pessoa está contaminada ou não.

O avanço rápido da pandemia deverá implicar em um aprofundamento das medidas de isolamento social e não o contrário, como vem sendo apregoado pelo presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores. Esse aprofundamento será a única forma de se deter um aumento ainda mais acelerado no número de infectados e, por consequência, no número de pessoas mortas pela COVID-19. 

Uma coisa é certa: depois que o pior da pandemia passar, o Brasil terá que fazer um ajuste com os responsáveis para que tenhamos chegado ao ingrato posto de um dos principais focos mundiais da pandemia. Isto será o mínimo que se poderá fazer para honrar a memória dos milhares que morrerão por causa da insistência em se negar a Ciência e o conhecimento que ela disponibilizou para que o pior fosse evitado.

 

The Wall Street Journal aponta que Brasil pode ter mais casos de coronavírus que os EUA

Em matéria assinada pelas jornalistas Luciana Magalhães e Christiana Sciaudone, o principal veículo de mídia especializada no mercado financeiro dos EUA, o “The Wall Street Journal” (WSJ), o Brasil aparece como o novo centro mundial da pandemia causada pelo novo coronavírus (ver capa da matéria abaixo que mostra enterros na cidade de Manaus), superando, inclusive, os EUA.

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A matéria aponta que, ao contrário dos números oficialmente divulgados pelo Ministério da Saúde, as jornalistas, usando uma base de dados desenvolvida pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto, apontam que a quantidade real de infectados pelo coronavírus no Brasil já deve ter ultrapassado a casa do primeiro milhão de casos.

Dentre os aspectos apontados pela matéria do “WSJ” para explicar tamanha discrepância entre os dados oficiais do Ministério da Saúde e o que deve estar ocorrendo na realidade estão a precária estrutura urbana, o baixo número de testes realizados para determinar os casos de pessoas infeccionadas pelo coronavírus, e a postura negacionista do presidente Jair Bolsonaro em relação aos riscos associados à COVID-19.

Como o WSJ não é exatamente um veículo interessado em prolongar o desaquecimento da economia capitalista, este artigo deverá ter sido recebido com especial atenção nos círculos financeiros globais, sendo praticamente inevitável que haja uma aceleração dos capitais especulativos que ainda permanecem no Brasil.

Enquanto a pandemia se agrava e o número de mortes tende a crescer de forma igualmente grave, o Brasil continua sendo distraído pela confusão política criada pelo presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores.

Pandemia e golpe de estado no Brasil?

bolsonaro-manifestaçãoContrariando orientações do Ministério da Saúde, Jair Bolsonaro saúda apoiadores que podem golpe de estado em meio à pandemia da COVID-19.

Começo esta postagem mostrando o gráfico da curva ascensional dos casos de infecção do coranavírus nos países que se tornaram o epicentro desta pandemia.  A partir dessa curva se pode notar que o Brasil caminha para em breve substituir um grupo de países que até agora liderou a corrida das infecções e mortes (i.e., Espanha, Itália e Alemanha), e deverá passar a disputar o primeiro lugar nos dois quesitos com os EUA.

curva ascensão

O fato é que neste início de segunda-feira (04/05), o Brasil já ocupa o 10o no número de infecções, o 7o  no número de óbitos e o 2o  no número de casos graves. E, pior, como a tendência de crescimento está evidente na curva ascensional mostrada acima, tudo indica que teremos semanas bastante difíceis pela frente, na medida em que a pandemia deverá se alastrar para cidades médias e pequenas, mais do que já se alastrou. O momento então é de extremo cuidado e de persistência nas medidas de isolamento social, cuidados com a higiene pessoal e uso de máscaras faciais.  Tais cuidados já estão mais do que anunciados como as únicas formas de se evitar o alastramento do coronavírus.

Enquanto isso a pandemia come solta pelo país afora, o presidente Jair Bolsonaro mais uma vez reuniu seus apoiadores e se misturou a eles em claro confronto com as recomendações emanadas do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde. E em meio a desfiles de bandeiras estrangeiras na rampa do Palácio do Planalto (no caso as bandeiras dos EUA e de Israel como mostra a imagem abaixo), Jair Bolsonaro dá a entender que pode realizar um golpe de estado com o apoio das forças armadas.

bandieras

Ainda que não se possa desprezar o pendor autoritário do presidente da república, prefiro chamar a atenção para outro aspecto da aglomeração de ontem: apesar de barulhenta e cheia de atos anti-democráticos contra profissionais da mídia corporativa, a aglomeração expressou em quantidade o real apoio que Bolsonaro possui na população brasileira, qual seja, um apoio residual (ver imagem abaixo mostrando tomada aérea da aglomeração em frente do Palácio do Planalto).

Apesar de ruidosa, a manifestação pró-golpe de estado foi raquítica em termos de participantes, revelando o real tamanho de Jair Bolsonaro.

Outro aspecto que me parece merecer a atenção que a mídia corporativa não tem nada. Ao chamar seus apoiadores para se aglomerarem em público, contradizendo tudo o que se sabe sobre as vias de disseminação do coronavírus, Bolsonaro está (consciente ou inconscientemente) possibilitando que seus apoiadores adoeçam em taxas maiores do que aqueles que estão aderindo ao isolamento social.

Essa propensão de colocar seus apoiadores em um processo de sacrifício em nome da causa lembra o que fez o pastor Jim Jones que,  em 18 de novembro de 1978,  resultou na morte de 918 pessoas  em um misto de suicídio coletivo e assassinatos em Jonestown, uma comuna fundada pelo fundador do Templo Popular.  Um aspecto que é pouco falado sobre Jim Jones é que ele viveu um ano no Brasil antes de se instalar na Guiana. Além disso, as ideias de Jones tinham um pendor socialista.  Mas o maior problema é que, ao contrário de Jones que sacrificou apenas seus seguidores, a indiferença de Jair Bolsonaro em relação ao potencial letal do coronavírus pode exportar as mortes para além daqueles que professam suas ideias.

Resta saber o que vão fazer os setores que apoiaram e continuando apoiando a via ultraneoliberal do atual governo. Até onde eu sei sobre determinadas figuras, não há muita propensão ao suicídio coletivo em nome de qualquer causa que seja. Essa indisposição para o auto-sacrifício por parte dos segmentos das elites que ainda o apoiam deverá pesar nas decisões que já devem estar em curso sobre o destino do presidente Jair Bolsonaro.

Em tempo, quando atacou as medidas de isolamento social, o empresário bolsonarista Junior Durski, proprietário do Madero, estimou que o Brasil não “poderia parar por 5 ou 7 mil mortes“.  Pois bem, o Brasil já ultrapassou o limite superior das previsões de Junior Durski e parece rumar para um recorde fúnebre sem precedentes na sua história recente. Por onde será que Durski anda e o que ele tem a nos dizer agora? 

Organizemos uma forma de vida mais modesta

Nossa sociedade global tem recursos suficientes para coordenar nossa sobrevivência

OR Book Going Rouge

Por Slavoj Žizek*

Há algo errado com a severa imposição de confinamento, e não apenas no sentido em que o estado explora a epidemia para impor controle total. Acredito cada vez mais que um tipo de ato simbólico supersticioso está envolvido em tudo isso. Como a verdade é que não sabemos bem como tudo isso funciona, se fizermos um gesto duro de sacrifício que realmente machuca e paralisa nossa vida social, talvez possamos esperar misericórdia. O que é surpreendente é quão pouco parece que entendemos (incluindo cientistas) como a epidemia se comporta. Muitas vezes recebemos avisos conflitantes das autoridades. Recebemos ordens estritas para nos limitarmos a evitar a infecção viral, mas quando o número de infecções diminui, surge o medo de que tudo o que podemos fazer seja tornar-se mais vulnerável durante a segunda onda esperada do ataque do vírus. Todas as esperanças de uma saída rápida (calor do verão, imunidade de grupo, vacina) são frustradas.

Há uma coisa que está clara: durante um confinamento, vivemos com antigas reservas de alimentos e outras provisões. Portanto, agora a tarefa árdua é sair do confinamento e inventar uma nova vida marcada pelo vírus. Devemos mudar nosso imaginário e parar de esperar por um pico grande e bem definido, após o qual as coisas voltarão ao normal. Nem mesmo a catástrofe total acabou de aparecer, a situação está se prolongando cada vez mais. Somos informados de que alcançamos o achatamento da curva, então tudo está indo um pouco melhor, mas … a crise está ficando cada vez mais longa. O desejo secreto de todos nós, e o que pensamos sem parar, é um: quando isso vai acabar? Quando isso aconteceu? É razoável ver na epidemia atual o anúncio de um novo período de problemas ecológicos. Em 2017, a BBC descreveu o que poderia nos esperar como resultado de nossa maneira de intervir na natureza: “As mudanças climáticas estão derretendo o permafrost, congelado há milhares de anos, e, à medida que os solos se derretem, eles liberam vírus antigos que, permanecendo adormecidos, estão ressurgindo para a vida “.

Isso significa que nossa situação é desesperadora? Absolutamente não. Se observarmos as coisas da distância certa (o que é muito difícil), poderemos prever um número relativamente baixo de mortes, e nossa sociedade global terá recursos suficientes para coordenar nossa sobrevivência e organizar um modo de vida mais modesto, no qual a escassez de comida é compensada pela cooperação em escala global e na qual temos um sistema de saúde global mais bem preparado para os seguintes ataques. Seremos capazes de fazer isso?

*Slavoj Žizek é filosófo e autor do livro “Pandemic!” onde fala das consequencias do coronavírus sobre o coronavírus.

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Este artigo foi originalmente escrito em espanhol e publicado pelo jornal “El País” [Aqui!].

 

Webinar “O enfrentamento da COVID-19 nas favelas”

Na próxima segunda, dia 04 de Maio, às 17:00 h, participe do próximo webinar da série #Corona360, que tratará do tema “O enfrentamento do COVID-19 nas favelas” com a presença de Raquel Willadino (Observatório de Favelas), Lidiane Malaquine (Redes da Maré) e Renata Trajano (Coletivo Papo Reto).

webinar

Neste momento em que estamos praticando o distanciamento social, a comunidade do MAPI/IRI/BPC (PUC-Rio) se reuniu para organizar uma série de conversas com especialistas, operadores de políticas e tomadores de decisão para nos ajudar a compreender os efeitos da pandemia em suas mais diversas dimensões. Essa é a série Corona 360. #cooperacovid

Evento online através do Webinar da plataforma Zoom.

Para inscrições e mais informações sobre a série, acesse: http://www.iri.puc-rio.br/mapi/corona-360/