Na Campos dos Goytacazes de Rafael Diniz sobram bolas, mas falta água

Na costumeira passagem de olhos pelo site da rede social Facebook me revelou neste manhã dois fatos que explicitam as distâncias que existem neste momento em termos de prioridades para combater a pandemia do coronavírus que vai nos atingir em cheio em um tempo não muito distante.

A primeira é uma informação dada pelo jornalista Saulo Pessanha no dia 16 de março (última 2a. feira) de que a Fundação Municipal de Esportes (FME) gastou R$ 186.006,25 nos últimos 6 meses na aquisição de bolas! Logo a FME que teve de paralisar as aulas de lutas marciais em sua sede porque o teto ameaçava cair sobre a cabeças das crianças que estavam tendo aulas com profissionais que não são pagos há vários meses. Desce o pano.

saulo pessanha

Abrem-se as cortinas agora na localidade de Balança Rangel (que para quem não sabe fica próxima do Distrito de Travessão), onde a população reclamava da falta de abastecimento de água nas últimas 48 horas, sem que ninguém da concessionária Águas do Paraíba ou da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes dê as caras por lá para ver o que está acontecendo.  E as recomendações de asseio para combater a pandemia do Coronavírus? Só buscando água de poço ou de cacimba, isso com alguma sorte (ver o vídeo abaixo saído da página de Igor Abreu no Facebook).

Esses dois fatos para mim sintetizam a catástrofe que a administração de Rafael Diniz (Cidadania) representa para o município de Campos dos Goytacazes, especialmente para os segmentos mais pobres e que vivem nas regiões mais carentes de infraestrutura. 

Afora isso, salta aos olhos a lerdeza e a superficialidade na tomada de ações que preparem nossa população, especialmente os mais pobres, para a tsunami de infecções que serão causados pelo coronavírus.  Por isso, até o dia de ontem multidões se aglomeravam em estabelecimentos comerciais sem que as autoridades municipais mobilizassem qualquer contingente para minimizar os riscos de contaminação.

Essa inação custará vidas e lotará hospitais que já funcionam no limite por causa das ações desastrosas de uma administração que, curiosamente, como no caso na compra das bolas pela FME, tem gastos várias centenas de milhões com a área da saúde. Só que agora no momento em que esse gasto deveria nos oferecer serviços de saúde públicos de alto padrão, o que se sabe de dentro das unidades hospitalares municipais é que a improvisação é completa e que muitos insumos básicos estão sendo adquiridos pelos próprios servidores.

Se essa situação não explicita a natureza do governo ultraneoliberal de Rafael Diniz, eu não sei o que explicitaria. Lamentavelmente, vamos precisar passar por uma situação devastadora em termos de perdas de vidas humanas para fazermos o devido ajuste com um governo que gasta dinheiro com a compra de bolas, enquanto deixa parte da população passando sede em meio a uma pandemia.

 

 

Na hora que mais precisamos dela, governo Bolsonaro impõe mais cortes à ciência brasileira

png-pesquisa

Governos em todas as partes do mundo estão neste momento procurando saídas científicas para a pandemia do Coronavírus, o que implica em alocar mais recursos para os sistemas nacionais de ciência e tecnologia.  Mas como o Brasil possui hoje um governo que objetivamente despreza a contribuição da ciência para a resolução dos grandes problemas nacionais, o que temos é mais cortes de bolsas de pós-graduação, sendo o que informa o “Direto da Ciência“.

Segundo o que informa o “Direto da Ciência”, a direção da CAPES está abandonando uma portaria anterior  que foi negociada com o Fórum Nacional de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação (Foprop), entidade que reúne pró-reitores de pós-graduação de cerca de 250 instituições brasileiras. 

É preciso lembrar que os valores das bolsas de pós-graduação são relativamente baixos e não trazem consigo nenhum tipo de direito trabalhista, jogando esses anos de formação altamente especializada em uma espécie de limbo trabalhista. De quebra, os bolsistas, mesmo aqueles que estudam doenças altamente contagiosas, realizam suas atividades sem a proteção de planos de saúde, o que deixa por conta deles os custos de tratamento para acidentes ou enfermidades adquiridas durante o período de vigência das bolsas.

O impressionante é que atravessamos um momento em que o orçamento das agências de fomento já estão precarizados por causa de vários anos de desinvestimento. Ao aprofundar os cortes nas bolsas, o governo Bolsonaro contribui para a aceleração da destruição do sistema nacional de pós-graduação. 

E tudo isso em um momento em que o mundo atravessa uma das piores crises sanitárias da história recente com a pandemia do coronavírus. E justamente neste momento de grande demanda para o desenvolvimento de medicamentos e instrumentos de testagem, o governo Bolsonaro decide aprofundar a crise financeira da ciência brasileira. Se isso não for atentar contra a segurança nacional, eu não sei o que poderá ser.

Finalmente, é preciso notar que há vários não se vê a presença pública do ministro da Ciência e Tecnologia, o astronauta Marcos Pontes.  Essa ausência não seria nada se uma pasta tão estratégica para a conjuntura que atravessamos não estivesse sendo completamente asfixiada.

O potencial devastador do coronavírus sobre os pobres e o que isso nos diz sobre o futuro do Brasil

Tendler-2Os chamados para distanciamento social ignora as flagrantes diferenças econômicas que separam ricos e pobres nas cidades brasileiras

Estou há alguns dias aplicando regras de distanciamento social que poderão me poupar da contaminação por coronavírus.  Essa distância foi facilitada por decisões do governo Witzel e da reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), sendo uma delas a possibilidade de que eu possa trabalhar na modalidade de “home office”  Como possuo carro, não estou tendo que utilizar os precários serviços de transporte público que existem em Campos dos Goytacazes. Por fim, moro em uma casa ampla que compartilho com uma gata, e aqui não há falta de espaço para nós dois.

Essas condições descritas acima mostram como sou um privilegiado, e como as condições pelas quais estou me preparando para a pior fase da pandemia do coronavírus me diferencia de milhões de brasileiros que vivem em habitações diminutas, sem esgotamento sanitário e com acesso precário a água. De quebra, muitos desses brasileiros não possuem fonte de renda, não tendo como se alimentar e, em consequência, não possuem as reservas energéticas para manter seus sistemas imunológicos funcionando de forma adequada.

Não podemos nos enganar ou tentar enganar. Neste momento, milhões de brasileiros pobres estão sendo contaminados pelo coronavírus, e em breve isto se tornará evidente, formando uma onda de doentes que precisará acorrer ao sistema público de saúde. O problema é que os serviços públicos de saúde foram gravemente sucateados que já se encontram sob forte pressão de outras epidemias que correm o Brasil de uma forma relativamente silenciosa, a começar pela dengue e chegando na tuberculose.  O quadro que se desvela é, desta forma, assustador, principalmente para os habitantes das áreas mais pobres das nossas cidades.

Enquanto isso, ao contrário da maioria dos governos mundiais, o do Brasil se comporta com insensibilidade e indiferença singulares, enquanto tenta aprofundar as reformas ultraneoliberais que foram iniciadas no governo de Michel Temer.  Assim, em vez de assegurar renda mínima para todos os brasileiros pobres, as medidas anunciadas pelo dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, Paulo Guedes, indicam ainda mais ataques contra os direitos sociais e trabalhistas de que os trabalhadores ainda possuem. As parcas medidas adotadas por Paulo Guedes vão no sentido de proteger os interesses das grandes corporações financeiras que controlam a economia brasileira com mão de ferro.

Por outro lado, os panelaços que ocorreram por duas noites seguidas, mormente nas áreas ricas das principais cidades brasileiras, revelam que uma parcela significativa dos que elegeram Jair Bolsonaro presidente começou a se descolar do programa ultraneoliberal de Paulo Guedes.  Esse descolamento vai se aprofundar quando os efeitos econômicos da pandemia do coronavírus se agravarem, pois esses setores já se encontram estressados por uma recessão que se prolonga desde o início do segundo mandato de Dilma Rousseff.

Entretanto, não há ainda uma pressão organizada que possa impor a quebra do teto de gastos que hoje asfixia o SUS e impede uma resposta ampla que impeça que o Brasil seja engolido pelo tsunami que o coronavírus irá criar sobre um sistema de saúde que já funciona em condições crítica.  Desta forma, a principal tarefa política do momento é garantir que haja dinheiro para dotar a rede pública de saúde dos equipamentos e insumos que serão necessários para impedir que o Brasil viva uma crise sanitária sem precedentes.

Finalmente, não haverá como conter esse cenário quase apocalíptico se não houver a devida solidariedade social com os mais pobres que hoje se encontram totalmente despreparados para enfrentar esta pandemia. Se não praticarmos solidariedade de forma genuína, que pelo menos façamos em nome da sobrevivência e a saúde de nossas próprias famílias.  É que não haverá como impedir as piores projeções do impacto do coronavírus no Brasil se os pobres forem deixados à mercê da própria sorte.

Yes, habemus coronavírus!

A imagem abaixo nem precisa de legenda, pois se trata do reconhecimento (tardio é verdade) de que o Brasil passa por uma grave crise sanitária e que pode ter tido sua amplitude aumentada pela irresponsabilidade do presidente Jair Bolsonaro que saiu às ruas quando deveria estar confinado, segundo orientações do seu ministro da Saúde.

MINISTÉRIO MASCARADOEm cadeia nacional, Jair Bolsonaro informa que 17 membros da comitiva que o acampanhou a Miami contraíram o coronavírus.

Agora, convenhamos, quem imaginaria há uma semana ver Sérgio Moro, Paulo Guedes e Jair Bolsonaro portando máscaras cirúrgicas? Seria cômico, se não fosse trágico e, pior, perigoso.

Os panelaços voltaram… o alvo agora é Jair Bolsonaro

Há alguns dias acompanho a movimentação nas redes sociais em prol da realização de um panelaço neste dia 18 de março a partir das 20:30 (ver um dos cartazes de convocação abaixo).

wp-1584497295053.jpg

Mas eis que na noite desta 3a. feira, 24 horas antes do protesto que está sendo convocado nas redes sociais, as principais capitais brasileiras (principalmente em suas áreas mais ricas) eclodiram um estridente panelaço, do mesmo tipo daqueles que ocorreram durante a campanha em prol do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (ver abaixo vídeo mostrando este protesto no bairro de Vila Madalena na cidade de São Paulo).

Ainda que seja precoce dizer qualquer coisa sobre a capilaridade da revolta que aparece nas áreas ocupadas pelas classes médias e altas nos setores mais pobres da população, o certo é que se o governo Bolsonaro fosse um barco, o melhor nome para ele seria “Titanic”, e o que estamos vendo hoje é apenas a ponta de um gigantesco iceberg.

Como amanhã há outro protesto marcado e com as mesmas características do que aconteceu espontaneamente na noite de hoje. Vamos conferir se a toada será a mesma ou não. Se for, poderemos afirmar coisas mais concretas.

Incrivelmente, a degradação do suporte político ao governo Bolsonaro não parece vir de nenhuma ação coordenada da chamada esquerda institucional, e sim da sequência de manifestações irresponsáveis do próprio presidente Jair Bolsonaro (incluindo as feitas sobre a pandemia do coronavírus) e sua trupe de ministros sinistros. A noite deverá ser tensa no Palácio do Planalto. Essa esquerda deve estar tão surpresa quanto os bolcheviques quando entraram no Palácio de Inverno do Czar em São Petersburgo.  E não ficarei surpreso se dentro do que se chama de “esquerda” vierem pedidos de respeito à institucionalidade. A ver!

Não, a mídia não está exagerando em relação à pandemia do Coronavírus

pandemia

Vindo de diferentes segmentos da sociedade brasileira, estamos ouvindo a afirmação de que a pandemia causada pelo Coronavírus não é o bicho papão que mídia estaria fazendo crer. A essas pseudo vozes de uma razão irracional que não, a mídia não está exagerando em relação ao grave problema de saúde coletiva que está forçando países inteiras a simplesmente fecharem seus cidadãos em casa para diminuir a velocidade do contágio. 

Um dos problemas do Coronavírus, especialmente em países que privatizaram as suas redes de saúde e enfraqueceram o serviço público é que agora há um inevitável choque entre a demanda do bem comum e o único interesse dos capitalistas que controlam a maioria dos hospitais que é simplesmente aumentar suas taxas de lucro.

Por causa desse desencontro entre o bem comum e a busca do lucro que a Espanha acaba de nacionalizar (em outras palavras colocou sob controle do Estado) a rede particular de saúde do país para melhor fazer frente aos desafios postos pela pandemia do Coronavírus.

Mas voltando ao Brasil, o que estamos vivenciando é uma demora em determinar medidas duras para diminuir a circulação de pessoas, o que poderá elevar o número de óbitos de forma exponencial. É que, como já mostrou com extremo sucesso a Coréia do Sul, a ferramenta mais eficaz para diminuir a sobrecarga dos hospitais é diminuir a circulação de pessoas logo no início do surto. Ao não fazer a mesma coisa que os coreanos do sul, estamos criando uma bomba de tempo que rapidamente explodirá e deixará nossas cidades em situação de calamidade pública.

O caso brasileiro é ainda complicado pelo fato de que cerca de 100 milhões de pessoas não possuem serviços de esgotos, enquanto que 35 milhões não possuem fontes de água de tratada. Essa precariedade total impedirá que uma parcela significativa da população não possa realizar as medidas profiláticas básicas para se proteger do coronavírus, aumentando ainda a possibilidade contaminação dos que possuem.

Para complicar o que já é bastante complicado, vivenciamos uma situação em que ocupantes de diferentes níveis de governo estão entre aqueles que negam a periculosidade associada ao coronavírus, a começar pelo presidente da república, o ex-capitão do exército Jair Bolsonaro.  Com seu negacionismo obtuso, esses governantes estão atrasando a adoção de medidas que poderiam conter a disseminação exponencial do coronavírus. Para melhor entendimento do problema que resultará desse negacionismo oficial, posto abaixo duas simulações feitas pelo jornal “The Washington Post” sobre disseminação do coronavírus: a primeira sem restrição de movimento e a segunda com restrição.

1) Disseminação do coronavírus com livre movimentação de pessoas

2) Disseminaçaõ do coranavírus com restrição de movimentação de pessoas

Finalmente, é essencial que saiamos da posição de expectantes dessa pandemia e passemos a ser ativos disseminadores do conhecimento existente sobre o coronavírus. Falo isso especialmente para membros da comunidade científica que, por má fé ou desconhecimento, estão negando a gravidade da situação.  Que ocupantes de cargos públicos possam se dar à liberdade de brincar com fogo e atuar como negacionistas da pandemia do coronavírus, dos membros da comunidade científica seria esperado que ajam guiados pela aplicação das regras básicas do método científico em que lógica e racionalidade, e não preconceito ou interesses particulares, devem resultar em uma informação mais rigorosa sobre o que está de fato acontecendo.

E não, a mídia brasileira não está exagerando o problema da pandemia do Coronavírus. Na verdade até aqui vem se omitindo em prol das ditas reformas do governo Bolsonaro.

O coronavírus avança: Já são 13 os contaminados na comitiva que esteve com Bolsonaro em Miami

bolso atoO presidente Jair Bolsonaro tira fotos com apoiadores em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília, depois de participar de protestos contra o STF e o Congresso Nacional

O número cabalístico para o Bolsonarismo já foi alcançado entre os membros da comitiva que acompanhou o presidente Jair Bolsonaro em seu recente tour em Miami. É que o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Robson Andrade, é o 13o. a ser declarado oficialmente como estando contaminado pelo coronavírus.

Entre os já oficialmente declarados como portadores do coronavírus estariam quatro seguranças pessoais do presidente Jair Bolsonaro, o que coloca esses servidores públicos em uma distância mínima do chefe do executivo federal. Tal constatação torna ainda mais “sui generis” a declaração de que Jair Bolsonaro testou negativo para essa infecção, visto que seguranças pessoais estão sempre muito próximos daquele cuja pessoa estão protegendo.

Mas o que importa aqui é que diante de uma situação de saúde coletiva, a opção do presidente da república de abandonar o confinamento em que estava colocado para participar de um ato público em que apertou mãos e manuseou telefones celulares de vários participantes me parece algo que beira o inexplicável.

A questão de fundo aqui é que ao desprezar orientações médicas que indicavam a necessidade de confinamento até segunda ordem, o presidente da república enviou mais um sinal anti-ciência para seus apoiadores mais apaixonados. Estes apoiadores que podem não ser muitos numericamente compensam a falta de massa com um inegável aguerrimento para seguir os passos anti-ciência de seu “mito”. E esse aguerrimento poderá consequências nefastas se for aplicado para impedir a aplicação as decisões de várias instâncias de governo, resultando em conflito aberto como aquele que passou o governador de Goiás e ex-líder da União Democrático Ruralista, Ronaldo Caiado, quando tentou sensibilizar os participantes do ato pró-Bolsonaro em Goiânia sobre o potencial devastador do coronavírus (ver vídeo abaixo).

Que ninguém se engane ou se deixe enganar: o combate à pandemia do coronavírus necessitará de uma quase perfeita articulação entre diferentes esferas de governo, forte apoio da comunidade científica, alta integração dos serviços de saúde e um alto grau de cooperação da população.  E não será com bravatas e descuido como as oferecidas ontem pelo presidente Jair Bolsonaro que o Brasil irá conseguir isso. Simples assim!

Atos pró-Bolsonaro em tempos de coronavírus são produto do desprezo pelo conhecimento científico

Image result for coronavirus

Os atos que estão marcados para o dia de hoje contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional em mais de 229 cidades brasileiras estão sendo motivos de chacota generalizada, visto que muitos que se opõe ao governo Bolsonaro dizem que se as pessoas de extrema-direita optarem por se contaminar pelo coronavírus, isto poderia até ser bom porque haveria uma espécie de auto-eliminação de pessoas indesejáveis.

Esse raciocínio não resiste a um exame mínimo da realidade de como o coronavírus se propaga de forma tão eficiente quanto letal.  Assim, qualquer aglomeração, independente da ideologia que as convoquem, são, neste momento, um atentado à saúde pública de todos os brasileiros.  Que dentre os apoiadores do atual governo exista um grande número de céticos quanto ao valor do conhecimento científico, isto é inegável. Entretanto, tal fato não isenta os que se opõe a Jair Bolsonaro de apontar para o fato de que distanciamento social neste momento é a ferramenta mais eficiente para conter o crescimento exponencial da contaminação pelo coronavírus.

maniestacaoes-15marco-coronavirus-868x644

Mas pior do que opositores que se comportam de forma jocosa de tratar a presença nos atos de hoje é atitude do presidente Jair Bolsonaro que está reforçando, desde sua área de confinamento contra o coronavírus, com o uso do Twitter, o chamado para que seus apoiadores compareçam aos atos e se aglomerem para defender suas políticas ultraneoliberais. Aí já passamos do limite da irresponsabilidade para adentrar no campo da irresponsabilidade com a saúde coletiva dos brasileiros.

E é fundamental lembrar algo básico: o coronavírus ignora diferenças ideológicas e age com forte eficiência em seres humanos, seja qual for a posição que elas ocupam no espectro. Por isso, dependendo do tamanho dos atos desde 15 de março,  poderemos ter um aumento mais rápido da penetração da pandemia no Brasil. Se isso acontecer, o dia de hoje ficará marcado como aquele em que um governo, contaminado por seus crenças anti-científicas, jogou o nosso país nos braços de um vírus letal.

Mudar a política econômica e fortalecer o SUS são medidas corretas para combater coronavírus

cv2

Por Carlos Ocklé Reis*

A Organização Mundial da Saúde – OMS – elevou a Covid-19, infecção respiratória aguda provocada pelo novo coronavírus (SARS-CoV2), à categoria de pandemia na última quarta-feira, 11 de março, pressionando os mercados em escala global com sua disseminação em mais de cem países, em todos os continentes.

Apesar da insegurança sobre a magnitude e duração dessa pandemia, neste momento de desaceleração econômica, um conjunto de países adota medidas para fortalecer suas economias e sistemas de saúde: vários bancos centrais já reduziram seus juros e vêm defendendo políticas fiscais expansionistas.

Vale dizer, a decisão da Arábia Saudita de reduzir o preço do petróleo, dentro da disputa geopolítica internacional entre Rússia e EUA, acabou contribuindo para o aumento da instabilidade na economia mundial, já debilitada com a agudização da crise sanitária.

No Brasil, por exemplo, o dólar atingiu a marca histórica de R$ 5 reais e, além da fuga de capital observada em 2019, esse ano já saíram R$ 50 bilhões de dólares. Dada a queda dos preços dos ativos de risco, o Ibovespa suspendeu o pregão da bolsa de valores diversas vezes essa semana, deixando claro que a política econômica equivocada de Guedes desarma o país para o enfrentamento desta pandemia.

Diante de tais incertezas econômicas e sanitárias é crescente o risco de a economia global crescer abaixo de 1,5% em 2020, comprometendo a capacidade de pagamento das dívidas das empresas petrolíferas, uma vez que o baixo preço do petróleo pode colocar em xeque o mercado de crédito nos Estados Unidos (Federal Reserve injetou US$ 1,5 trilhões de dólares para regular as operações de curto prazo entre as instituições financeiras).

Neste quadro, de um lado, a União Europeia criará um fundo de 25 bilhões de euros para combater os efeitos da pandemia na zona do euro, que será usado, entre outros, para reforçar os sistemas de saúde e proteger o mercado de trabalho europeu. Em particular, o Reino Unido anunciou a aplicação de 30 bilhões de libras para enfrentar o coronavírus. De outro lado, a Casa Branca anunciou também um pacote de estímulos fiscais, bem como prometeu ampliar a licença médica dos trabalhadores estadunidenses. E, finalmente, a Itália pretende oferecer uma moratória do pagamento de dívidas e hipotecas, para permitir que trabalhadores e empresas enfrentem o coronavírus: o governo italiano aplicará até 10 bilhões de euros para reduzir os danos causados pela pandemia.

Sendo assim, o governo Bolsonaro está no mínimo mal assessorado ao seguir a cartilha de Guedes. A China, é bom lembrar, precisou adotar medidas agressivas do ponto de vista social e econômico contra a expansão da doença, que permitiu a redução do número de novos casos.

No contexto de redução de R$ 20 bilhões dos recursos da saúde, entramos na fase da transmissão comunitária do vírus, que tem alta taxa de letalidade entre os idosos: idade avançada, doenças crônicas e respiratórias, e sinais de sepse indicam maior risco de gravidade.

Desse modo, o Ministério da Economia não pode permanecer prisioneiro da sua estratégia de manter as restrições aos investimentos públicos e gastos sociais, de negar o papel do BNDES como garantidor do crédito de longo prazo da economia, de aprofundar a política de austeridade com a aprovação das “reformas” e de contingenciar o orçamento federal em 2020.

Essa postura fiscalista é irracional e irresponsável. Devemos nos prevenir para evitar o quadro sofrido até agora pela China, Itália, Irã, Coréia do Sul e mesmo os Estados Unidos. O próprio Banco Central Europeu recomendou a aplicação da política fiscal para combater o coronavírus, citando a crise financeira de 2008 como um exemplo dos riscos associados à paralisia governamental.

O mercado fez o seguinte balanço antes do anúncio da pandemia pela OMS: no cenário otimista haveria estabilização do ritmo da alta de novos infectados e controle efetivo da transmissão em dois meses; no intermediário, a epidemia continuaria a se espalhar pelo mundo, mas sem se transformar numa pandemia global, encerrando seu ciclo em julho; e, finalmente, no cenário pessimista, o coronavírus se tornaria uma pandemia com reflexos negativos sobre a demanda global até o terceiro trimestre de 2020.

Dada a estagnação da economia brasileira, o governo precisa responder a esses cenários revogando o teto do gasto (Emenda Constitucional 95), para retomar o crescimento econômico, aumentar a arrecadação e fortalecer as políticas sociais para mitigar os efeitos desta pandemia, no contexto do aumento da pobreza e da desigualdade na sociedade brasileira.

A rigor, os investimentos públicos e os gastos sociais devem ser avaliados pela sua efetividade, ou seja, pelo seu efeito multiplicador na cadeia produtiva e pelo bem-estar produzido na sociedade e não apenas pelos efeitos fiscais produzidos sobre o déficit primário. A inflação está abaixo do centro da meta e o Banco Central vem reduzindo a taxa de juros, abrindo espaço fiscal para o governo adotar uma política contracíclica, a partir da introdução de três mecanismos:

(i) a despesa primária deve estar condicionada a uma meta fiscal vinculada ao ciclo econômico (Produto Interno Bruto ou Receita Corrente Bruta);

(ii) o investimento público deve ser retirado do cálculo do superávit primário (assim como o gasto com juros é retirado desse indicador);

(iii) a abertura de crédito extraordinário para o SUS no valor de R$ 20 bilhões, criando um fundo público emergencial semelhante ao da União Europeia.

Cabe destacar, os recursos deste fundo teriam por objetivo fortalecer o SUS, assegurar condições dignas de trabalho aos profissionais de saúde e proteger a população: (i) retomada do programa Mais Médicos; (ii) melhoria das ações de vigilância em saúde; (iii) busca ativa de possíveis infectados a partir dos agentes comunitários de saúde (iv) ampliação do teste laboratorial do coronavírus; (v) garantia de insumos, equipamentos e respiradores nas unidades de saúde; (vi) oferta de leitos hospitalares e de unidades de terapia intensiva; (vii) agilidade da licença médica dos trabalhadores (auxílio-doença); (viii) organização das quarentenas e dos isolamentos de locais públicos com a participação do controle social; (ix) campanhas educativas massivas nas rádios, tevês e redes sociais.

Em particular, é fundamental destinar recursos adicionais para a Fiocruz desenvolver kits de diagnósticos, bem como para participar dos esforços da comunidade científica internacional na busca da vacina contra o coronavírus. Como afirma corretamente o professor Reinaldo Guimarães, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – Abrasco “(…) não é razoável acreditar que um país que não estiver envolvido no esforço global de pesquisa e desenvolvimento de ferramentas diagnósticas, terapêuticas ou de vacinas contra o vírus poderá ter a capacidade de produzir industrialmente essas ferramentas e o direito de comercializá-las”.

Essas medidas econômicas demostrariam que o governo está adotando ações efetivas para conter e monitorar a expansão da doença e preparar o SUS para o seu enfrentamento, caso haja um crescimento exponencial de casos.

Desse modo, considerando as altas taxas de desemprego e as condições de moradia e transporte da maioria da população brasileira, bem como o tamanho do mercado informal de trabalho sem cobertura previdenciária, não devemos subestimar os efeitos dessa pandemia, tampouco o nível de estresse sobre o Sistema Único de Saúde – SUS, que hoje está desfinanciado e pressionado pela dengue e pelo retorno de doenças evitáveis, como sarampo e febre amarela.

*Carlos Ocké-Reis é economista, pesquisador do Ipea e pós-doutor pela Yale School of Management. Vice-presidente da Associação Brasileira de Economia da Saúde (ABrES) (as opiniões emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista do Ipea).

+ Retorne ao Especial Abrasco coronavírus

Arte: Hara Flaeschen

_________________________________________

Este material foi inicialmente no site da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) [Aqui!].

Asfixiada financeiramente e perseguida ideologicamente, ciência brasileira terá papel chave no combate ao Coronavírus

Virus Outbreak Brazil

Depois de indicar que a pandemia do coronavírus era uma fantasia criada pela mídia, o presidente Jair Bolsonaro teve de se submeter a testes para verificar se estava contaminado.

No dia 11 de janeiro de 2019 concedi uma entrevista ao Diário de Notícias, jornal publicado em Lisboa, e apontei para um fato que já estava mais do que anunciado, qual seja, o ataque ideológico que a ciência iria sofrer por parte do recém-empossado presidente Jair Bolsonaro. Desde então, tenho presenciado a lamentável confirmação das minhas próprias previsões, visto que o governo Bolsonaro impôs fortes retrocessos não apenas no orçamento da Ciência e Tecnologia que já vinha definhando, mas também em termos da autonomia de ação dos cientistas brasileiras. O resultado disso foi o início de uma forte evasão de cérebros, tal como já havia ocorrido durante o período da ditadura de 1964.

Resultado de imagem para evasão de cérebros bolsonaro

Um dos aspectos mais notáveis da ação do governo Bolsonaro tem sido a desqualificação do saber científico em prol de versões mal acabadas do que efetivamente está ocorrendo na realidade. Um exemplo disso é a posição negacionista em face do processo de mudanças climáticas sobre o qual há uma robusta concordância de que a Terra passa hoje por um inédito processo de ajuste do funcionamento do seu sistema climático, o qual deverá impor fortes impactos sobre assentamentos humanos e suas áreas de produção de alimentos. Em função desse negacionismo é que o Brasil regrediu décadas em seus esforços para ter um modelo de governança que nos permitisse fazer frente aos eventos climáticos extremos que iremos inevitavelmente presenciar.  O fato é que, em vez de se orientar pelo conhecimento científico já comprovado, o presidente Jair Bolsonaro e vários de seus ministros preferiram abraçar a versão que associa as mudanças climáticas a um complô marxista.

A mesma posição foi oferecida até poucos dias em relação à pandemia causada pelo coronavírus. Apesar de todas as evidências científicas que imputam ao Coronavírus uma letalidade considerável em determinados segmentos da população mundial, o presidente Jair Bolsonaro imputou à mídia a criação de uma fantasia acerca do alcance e riscos deste vírus. Agora que está comprovado que vários de seus auxiliares diretos estão contaminados (e ele próprio sob suspeita de haver contraído o coronavírus), o presidente Jair Bolsonaro resolveu sair de sua posição negacionista para um reconhecimento pálido de que estamos no limiar de uma grave crise de saúde pública.

Aqui é preciso que se diga que pandemias não são superadas sem muito investimento público em ciência e tecnologia e saúde pública. Mas não estou aqui falando de um investimento pontual para vencer uma situação pontual, mas de financiamento continuado, daquele tipo que permita que grupos de pesquisa se consolidem e tenham condições de realizar pesquisas longitudinais que sejam capazes de gerar conhecimento compreensivo. E a comunidade científica brasileira não poderia estar mais longe dessa condição de sustentabilidade do que no atual momento, muito em função do desinvestimento realizado pelo governo Bolsonaro que dizimou grupos de pesquisas e exilou jovens pesquisadores em outras partes do mundo. 

Como os cientistas brasileiras são acima de tudo otimistas insuperáveis e com alta resiliência, é provável que avanços importantes sejam alcançados no conhecimento sobre o coronavírus e nas melhores formas de combatê-lo. Mas é preciso que se diga que os pesquisadores brasileiros foram deixados em uma condição de penúria e desmoralização e entrarão nessa guerra em condições muitos desiguais, visto que o “inimigo” (no caso o Coronavírus) já demonstrou sua alta efetividade em países cujos investimentos em ciência tem sido muito mais alto do que os feitos pelo governo Bolsonaro.

Finalmente, há que se lembrar que enquanto não se vence pandemia sem ciência, não há como fazer ciência sem dinheiro. Essa verdade óbvia vai ter que ser entendida pelo presidente Bolsonaro e seu ministro da Fazenda, o banqueiro Paulo Guedes. Do contrário, não haverá disposição para a luta que segure o coronavírus e tantos outras doenças que correm soltas pelo Brasil neste momento. Simples assim!