Tendências pós-pandemia apontam para cidades mais integradas à natureza

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Segundo Pedro Lira, sócio fundador da Natureza Urbana, representante do Brasil na WUP (World Urban Parks) e consultor do United Nation Office for Planning Services (UNOPS), devolver espaço à natureza é fundamental para reduzir as chances de novas pandemias acontecerem

A restrição à liberdade de ir e vir e socializar causada pela pandemia do novo coronavírus trouxe aos seres humanos uma oportunidade única de reflexão, principalmente sobre como lidamos e passaremos a lidar com a natureza, segundo o arquiteto e urbanista Pedro Lira, sócio fundador da Natureza Urbana, escritório de arquitetura, urbanismo e planejamento estratégico especialista na elaboração de projetos de grande escala, entre eles equipamentos de uso público e de interesse turístico, no âmbito das cidades e de áreas naturais.

O impacto negativo da atividade humana e suas consequências para o planeta pode ser visível a partir do atual período em que o mundo enfrenta. Pesquisa realizada por Marshall Burke, da Universidade de Stanford, nos EUA, aponta que o isolamento realizado pelo governo chinês durante a epidemia diminuiu de forma expressiva a poluição por lá, o que pode ter salvado a vida de, ao menos, 50 mil pessoas.

Para Lira, o estudo apenas reforçou que o desenvolvimento desenfreado nos fez chegar aonde estamos hoje, e que apenas um repensar na forma em como vivemos e nos relacionamos com o meio ambiente permitirá ao homem uma vida longa e saudável. “Tal alegação parece não ser novidade, mas foi preciso uma pandemia para que a levássemos a sério”, explica o arquiteto, que também é consultor para espaços públicos da United Nation Office for Planning Services (UNOPS) e representante do Brasil no comitê de cidades emergentes World Urban Parks (WUP).

Enquete aponta tendências nas cidades

Considerando que o ser humano é um animal social por natureza e que a maior parte da população mundial vive em áreas urbanas, quão grande é o desafio de reestruturar nosso modo de viver para atender às demandas de distanciamento social?

A partir desse questionamento, a Natureza Urbana realizou uma pesquisa em suas redes sociais e obteve respostas de aproximadamente 1000 participantes que se interessam por temas como planejamento urbano, mobilidade, política, arquitetura e turismo. A maioria dos respondentes foram dos estados de Minas Gerais (11%), Ceará (10%), Bahia (10%), São Paulo (8%) e Pernambuco (8%).

Questionados sobre quais locais serão mais frequentados pós-COVID-19, 55% apontaram para parques e praças, 22% para bares e restaurantes, 17% acreditam que espaços para o pedestre em geral serão os mais buscados e apenas 6% indicam os shoppings como possíveis lugares mais frequentados. A respeito do efeito sobre deslocamentos e quais meios de locomoção serão os mais privilegiados, 65% apostam em transportes que permitam deslocamentos de forma individual, como bicicletas, a pé ou veículos, 23% optaram por evitar deslocamentos, enquanto apenas 12% afirmam que vão buscar mais ônibus e metrô, sendo a maioria (65%) na faixa etária entre 18 e 24 anos.

Com relação aos espaços de trabalho, 81% acreditam que a relação mudará de forma permanente, e 72% acreditam que haverá uma redução na demanda por edifícios de escritórios. Por fim, perguntados livremente sobre quais hábitos serão criados nas cidades pós-pandemia, a maioria confirma a tendência de se evitar deslocamentos com o aumento do home office, de compras on-line e ensino a distância, havendo ainda uma demanda por um número maior de espaços públicos e mais amplos.

Para Lira, a enquete aponta para a tendência de maior valorização dos espaços livres nas cidades, que se confirmarão como os principais locais de lazer, para a realização de atividades físicas e até escolares, já que nesses espaços o distanciamento social pode ser mais bem administrado.

“Os resultados fortalecem a ideia de que a criação de mais parques equipados, associados a equipamentos de interesse público, sejam eles escolas, mercados, bibliotecas ou outras instituições que possam estender suas atividades ao espaço livre seja uma solução, principalmente em grandes centros áridos como São Paulo”, destaca o sócio fundador da Natureza Urbana.

Mobilidade ativa

Com relação à mobilidade, a enquete ressalta a importância da estruturação de uma infraestrutura urbana que permita mobilidade ativa, tais como ciclovias e espaços mais adequados aos pedestres, indicando a tendência de uma provável diminuição dos deslocamentos, situação que deve contribuir para redução nos índices de poluição.

“Faz-se necessário implantar uma rede contínua de espaços livres de fato, composta por eixos caminháveis e cicláveis associados a praças e parques. Para tal, transformar parte de nossas ruas em espaços para a mobilidade ativa e de lazer para o pedestre, em todos os bairros, pode ser solução de implantação rápida e barata”, explica Pedro Lira, dando como exemplo de Barcelona, que redesenhará a cidade nos próximos dias a fim de que a falta de confinamento não impeça a manutenção das distâncias recomendáveis de segurança nas ruas.

A prefeita catalã Ada Calau comentou, em uma coletiva de imprensa no último sábado (25), a proposta do governo de não ter o carro como principal meio de locomoção, mas sim alargar calçadas, demarcando-as com tinta, para que amplie seu uso por pedestres, facilitando também o uso da bicicleta e da scooter como meio de transporte. Iniciativas parecidas estão sendo pensadas em Milão, Paris e Nova York.

Segundo Pedro Lira, as tendências pós-pandemia apontam para uma oportunidade de diminuir definitivamente os impactos do homem sobre o planeta, “e indicam que parte das soluções já estão presentes no nosso dia a dia há muito tempo, desde repensar o modelo de ocupação do território ao tipo de comida que é colocada em nossos pratos, mas nunca houve a coragem de implantá-las”.

“A pandemia é resultado do excesso de pressões que exercemos sobre o ecossistema. Se não mudarmos a nossa relação com o planeta, outras virão com maior impacto. Devolver espaço à natureza em nossas vidas é a grande solução”, reforça o arquiteto.

Sobre a Natureza Urbana

Criada pelos arquitetos e urbanistas Manoela Machado e Pedro Lira, a Natureza Urbana (http://naturezaurbana.net/), escritório de arquitetura, urbanismo e planejamento estratégico, é especialista na elaboração de projetos de grande escala no âmbito público e privado, entre eles equipamentos de uso público, de interesse turístico, tanto no âmbito das cidades como de áreas naturais. O escritório apresenta projetos inovadores que atendem as demandas da sociedade, tendo a sustentabilidade econômica, ambiental e social como princípios dos seus trabalhos, fazendo uma imersão nas variáveis de cada projeto para entender seus desafios e potenciais, e a partir disso criar um conceito e visão de futuro para sua implantação. Seus projetos podem ser encontrados em 15 estados brasileiros e também no exterior. Em 2020, Pedro Lira passou a representar o Brasil na World Urban Parks (WUP), organização internacional para parques urbanos e espaços públicos que contribui para o diálogo a respeito da importância da criação de espaços livres e cidades sustentáveis a fim de minimizar o impacto dos eventos climáticos e auxiliar no processo de recuperação e reconstrução desses locais. Também é consultor para espaços públicos da United Nation Office for Planning Services (UNOPS).

Informações para a Imprensa:

Agência NB Comunicação

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Dá nele, máscara!

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O vídeo abaixo é rápido, mas extremamente revelador sobre o mato sem cachorro em que o Brasil está enfiado neste momento de pandemia letal. É que se o ministro da Saúde, Nelson Teich, tiver a mesma destreza que ele mostra no simples ato de vestir uma máscara na gestão da crise sanitária causada pelo coronavírus, a verdade é que vai faltar caixão no Brasil.

Erro
Este vídeo não existe

Pandemia e golpe de estado no Brasil?

bolsonaro-manifestaçãoContrariando orientações do Ministério da Saúde, Jair Bolsonaro saúda apoiadores que podem golpe de estado em meio à pandemia da COVID-19.

Começo esta postagem mostrando o gráfico da curva ascensional dos casos de infecção do coranavírus nos países que se tornaram o epicentro desta pandemia.  A partir dessa curva se pode notar que o Brasil caminha para em breve substituir um grupo de países que até agora liderou a corrida das infecções e mortes (i.e., Espanha, Itália e Alemanha), e deverá passar a disputar o primeiro lugar nos dois quesitos com os EUA.

curva ascensão

O fato é que neste início de segunda-feira (04/05), o Brasil já ocupa o 10o no número de infecções, o 7o  no número de óbitos e o 2o  no número de casos graves. E, pior, como a tendência de crescimento está evidente na curva ascensional mostrada acima, tudo indica que teremos semanas bastante difíceis pela frente, na medida em que a pandemia deverá se alastrar para cidades médias e pequenas, mais do que já se alastrou. O momento então é de extremo cuidado e de persistência nas medidas de isolamento social, cuidados com a higiene pessoal e uso de máscaras faciais.  Tais cuidados já estão mais do que anunciados como as únicas formas de se evitar o alastramento do coronavírus.

Enquanto isso a pandemia come solta pelo país afora, o presidente Jair Bolsonaro mais uma vez reuniu seus apoiadores e se misturou a eles em claro confronto com as recomendações emanadas do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde. E em meio a desfiles de bandeiras estrangeiras na rampa do Palácio do Planalto (no caso as bandeiras dos EUA e de Israel como mostra a imagem abaixo), Jair Bolsonaro dá a entender que pode realizar um golpe de estado com o apoio das forças armadas.

bandieras

Ainda que não se possa desprezar o pendor autoritário do presidente da república, prefiro chamar a atenção para outro aspecto da aglomeração de ontem: apesar de barulhenta e cheia de atos anti-democráticos contra profissionais da mídia corporativa, a aglomeração expressou em quantidade o real apoio que Bolsonaro possui na população brasileira, qual seja, um apoio residual (ver imagem abaixo mostrando tomada aérea da aglomeração em frente do Palácio do Planalto).

Apesar de ruidosa, a manifestação pró-golpe de estado foi raquítica em termos de participantes, revelando o real tamanho de Jair Bolsonaro.

Outro aspecto que me parece merecer a atenção que a mídia corporativa não tem nada. Ao chamar seus apoiadores para se aglomerarem em público, contradizendo tudo o que se sabe sobre as vias de disseminação do coronavírus, Bolsonaro está (consciente ou inconscientemente) possibilitando que seus apoiadores adoeçam em taxas maiores do que aqueles que estão aderindo ao isolamento social.

Essa propensão de colocar seus apoiadores em um processo de sacrifício em nome da causa lembra o que fez o pastor Jim Jones que,  em 18 de novembro de 1978,  resultou na morte de 918 pessoas  em um misto de suicídio coletivo e assassinatos em Jonestown, uma comuna fundada pelo fundador do Templo Popular.  Um aspecto que é pouco falado sobre Jim Jones é que ele viveu um ano no Brasil antes de se instalar na Guiana. Além disso, as ideias de Jones tinham um pendor socialista.  Mas o maior problema é que, ao contrário de Jones que sacrificou apenas seus seguidores, a indiferença de Jair Bolsonaro em relação ao potencial letal do coronavírus pode exportar as mortes para além daqueles que professam suas ideias.

Resta saber o que vão fazer os setores que apoiaram e continuando apoiando a via ultraneoliberal do atual governo. Até onde eu sei sobre determinadas figuras, não há muita propensão ao suicídio coletivo em nome de qualquer causa que seja. Essa indisposição para o auto-sacrifício por parte dos segmentos das elites que ainda o apoiam deverá pesar nas decisões que já devem estar em curso sobre o destino do presidente Jair Bolsonaro.

Em tempo, quando atacou as medidas de isolamento social, o empresário bolsonarista Junior Durski, proprietário do Madero, estimou que o Brasil não “poderia parar por 5 ou 7 mil mortes“.  Pois bem, o Brasil já ultrapassou o limite superior das previsões de Junior Durski e parece rumar para um recorde fúnebre sem precedentes na sua história recente. Por onde será que Durski anda e o que ele tem a nos dizer agora? 

Organizemos uma forma de vida mais modesta

Nossa sociedade global tem recursos suficientes para coordenar nossa sobrevivência

OR Book Going Rouge

Por Slavoj Žizek*

Há algo errado com a severa imposição de confinamento, e não apenas no sentido em que o estado explora a epidemia para impor controle total. Acredito cada vez mais que um tipo de ato simbólico supersticioso está envolvido em tudo isso. Como a verdade é que não sabemos bem como tudo isso funciona, se fizermos um gesto duro de sacrifício que realmente machuca e paralisa nossa vida social, talvez possamos esperar misericórdia. O que é surpreendente é quão pouco parece que entendemos (incluindo cientistas) como a epidemia se comporta. Muitas vezes recebemos avisos conflitantes das autoridades. Recebemos ordens estritas para nos limitarmos a evitar a infecção viral, mas quando o número de infecções diminui, surge o medo de que tudo o que podemos fazer seja tornar-se mais vulnerável durante a segunda onda esperada do ataque do vírus. Todas as esperanças de uma saída rápida (calor do verão, imunidade de grupo, vacina) são frustradas.

Há uma coisa que está clara: durante um confinamento, vivemos com antigas reservas de alimentos e outras provisões. Portanto, agora a tarefa árdua é sair do confinamento e inventar uma nova vida marcada pelo vírus. Devemos mudar nosso imaginário e parar de esperar por um pico grande e bem definido, após o qual as coisas voltarão ao normal. Nem mesmo a catástrofe total acabou de aparecer, a situação está se prolongando cada vez mais. Somos informados de que alcançamos o achatamento da curva, então tudo está indo um pouco melhor, mas … a crise está ficando cada vez mais longa. O desejo secreto de todos nós, e o que pensamos sem parar, é um: quando isso vai acabar? Quando isso aconteceu? É razoável ver na epidemia atual o anúncio de um novo período de problemas ecológicos. Em 2017, a BBC descreveu o que poderia nos esperar como resultado de nossa maneira de intervir na natureza: “As mudanças climáticas estão derretendo o permafrost, congelado há milhares de anos, e, à medida que os solos se derretem, eles liberam vírus antigos que, permanecendo adormecidos, estão ressurgindo para a vida “.

Isso significa que nossa situação é desesperadora? Absolutamente não. Se observarmos as coisas da distância certa (o que é muito difícil), poderemos prever um número relativamente baixo de mortes, e nossa sociedade global terá recursos suficientes para coordenar nossa sobrevivência e organizar um modo de vida mais modesto, no qual a escassez de comida é compensada pela cooperação em escala global e na qual temos um sistema de saúde global mais bem preparado para os seguintes ataques. Seremos capazes de fazer isso?

*Slavoj Žizek é filosófo e autor do livro “Pandemic!” onde fala das consequencias do coronavírus sobre o coronavírus.

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Este artigo foi originalmente escrito em espanhol e publicado pelo jornal “El País” [Aqui!].

 

Webinar “O enfrentamento da COVID-19 nas favelas”

Na próxima segunda, dia 04 de Maio, às 17:00 h, participe do próximo webinar da série #Corona360, que tratará do tema “O enfrentamento do COVID-19 nas favelas” com a presença de Raquel Willadino (Observatório de Favelas), Lidiane Malaquine (Redes da Maré) e Renata Trajano (Coletivo Papo Reto).

webinar

Neste momento em que estamos praticando o distanciamento social, a comunidade do MAPI/IRI/BPC (PUC-Rio) se reuniu para organizar uma série de conversas com especialistas, operadores de políticas e tomadores de decisão para nos ajudar a compreender os efeitos da pandemia em suas mais diversas dimensões. Essa é a série Corona 360. #cooperacovid

Evento online através do Webinar da plataforma Zoom.

Para inscrições e mais informações sobre a série, acesse: http://www.iri.puc-rio.br/mapi/corona-360/

O destino do Brasil como pária global no mundo pós-pandemia

bolsonaro pariaA combinação entre o desmanche da governança ambiental com o tratamento dado à pandemia da COVID-19 pelo governo Bolsonaro colocará o Brasil na posição de pária global

Venho há algum tempo insistindo na tese de que o Brasil, graças ao processo de desmantelamento da precária governança ambiental comandado pelo governo Bolsonaro, se encaminhava para se tornar um pária ambiental que, por causa disso, seria alienado dos principais fóruns e decisões políticas de alcance global. É que a estas alturas do campeonato e com o conhecimento científico acumulado, existe um certo acordo sobre a necessidade de se rever as formas de apropriação do ambiente natural. 

A eclosão da pandemia da COVID-19 acabou colocar ainda mais pressão para que práticas dominantes na produção e consumo em escala global.  É que qualquer um que se aventure a ultrapassar o limiar das “fake news” (notícias falsas) que, repercutem o negacionismo em relação à gravidade da pandemia, verá que já está explicitado a ligação entre a disseminação do “novo” coronavírus e a destruição de ecossistemas naturais para a implantação de grandes áreas de monoculturas e suas co-irmãs, as mega fazendas industriais.

coronavirusA forma do governo Bolsonaro tratar a pandemia da COVID-19 causa espanto no resto do mundo. E o pior da pandemia ainda nem começou….

A junção de uma mudança paradigmática entre os mecanismos dominantes de apropriação da Natureza com o reconhecimento de que a COVID-19 prosperou tão eficazmente justamente por causa da degradação ambiental deverá gerar uma pressão global para que acordos multilaterais sejam firmados para diminuir a velocidade da destruição de grandes ecossistemas naturais, como é o caso das florestas tropicais. Aliás, isto acabará ocorrendo também porque já se prognostica que a erradicação dessas florestas poderá contribuir para a ocorrência de pandemias ainda mais graves.

Um exemplo de como essa pressão irá ocorrer foi a recente  da Assembleia Geral de acionistas da mineradora Vale que decidiu retirar todos os pedidos para mineração em terras indígenas na Amazônia que se encontravam sob análise pela Agência Nacional de Mineração. Essa decisão decorreu da pressão externa, especialmente daqueles grupos conhecidos como “acionistas críticos”. Interessante lembrar que a empresa alemã Siemens já havia informado em agosto de 2019  que não venderia equipamentos para serem usados em áreas de mineração dentro de terras indígenas no Brasil.

Mas a condição de pária global a que o Brasil vinha se candidatando a ocupar deverá levar um empurrão adicional  para ser reconhecido como tal pela forma irresponsável com que o governo Bolsonaro vem tratando a pandemia da COVID-19.   Não é por acaso que grandes veículos da mídia internacional estão colocando o presidente Jair Bolsonaro na companhia nada ilustre de um pequeno número de governantes que negam a gravidade da pandemia (os outros três negacionistas do coronavírus são Gurbanguly Berdymukhamedov (do Turcomenistão), Daniel Ortega (da Nicarágua) e Alexander Lukashenko da Bielo-Rússia). Esse grupo de negacionistas recebeu o nada elogioso rótulo de “Aliança das Avestruzes” pelo Financial Times.

aliança das avestruzesJair Bolsonaro, Alexander Lukashenko, Daniel Ortega e Gurbanguly Berdymukhamedov, grupo de líderes negacionistas, que formam a “Aliança das Avestruzes”. Fonte: Financial Times

E o pior é que o final previsto para o período mais duro da pandemia da COVID-19 (para a maioria dos analistas isto ocorrerá no Brasil no final de junho) irá coincidir com o início de um grande de queimadas na Amazônia, a qual deverá superar os números recordes alcançados em 2019. Me arrisco a dizer que a combinação entre o gerenciamento desastroso que o governo Bolsonaro está dando à COVID-19 combinada com as imagens de grandes áreas em chamas na Amazônia será uma espécie de “last straw” (ou a gota que fará o balde transbordar) da falta de paciência de grandes investidores e agentes governamentais com o Brasil.  Por isso, mesmo pesando os grandes interesses econômicos envolvidos,  o primeiro acordo econômico que deverá ser bombardeado será o firmado entre o Mercosul e a União Europeia.  A estas alturas do campeonato, esse acordo é o que se chama em inglês de um “lame duck” (ou pato manco em português), que não terá muita chance de se tornar realidade.

Por isso tudo é que me arrisco a dizer que o Brasil sairá muito mais isolado econômica e politicamente do que entrou na pandemia.  A ver!

 

Brasil vive cenas de caos (programado) em meio a uma pandemia

As imagens abaixo vem de pontos diferentes do território brasileiro e têm em comum duas coisas: multidões de brasileiros tentando acessar míseros R$ 600,00 diante de agências de um banco público, a Caixa Econômica Federal. 

Nada há de me convencer que esse caos, que poderia ter sido facilmente evitado, não foi friamente programado para ocorrer e levar à difusão exponencial do coronavírus. Essas imagens devem ser guardadas cuidadosamente, até porque cedo ou tarde os responsáveis por essas cenas lamentáveis terão que ser levados a tribunais penais para responderem por aquilo que ajudaram a desencadear.

Apenas à guisa de comparação, na Alemanha apenas o governo de Berlim disponibilizou rapidamente e sem filas um total de 5.000 euros (o equivalente a R$ 30 mil) a cerca de 150 mil pequenos empresários e a profissionais desempregados pela pandemia da COVID-19, incluindo artistas, designers de moda, programadores de computador, cabeleireiros e web designers.

Blog do Berta, uma leitura essencial para entender a natureza seletiva da crise financeira no Rio de Janeiro

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Apesar de não possuir uma listagem pública de veículos da mídia alternativa que eu acompanho regularmente, o fato é que existem excelentes jornalistas que optaram (ou foram optados por assim dizer) a criar seus próprios veículos para continuarem fazendo jornalismo de qualidade.  Por isso, leio regularmente vários blogs e portais que sinalizam essa mudança de paradigma para a produção de jornalismo investigativo qualificado.  Dentre alguns destes veículos cito o portal “Viu!“, o blog do jornalista Marcelo Auler, e, mais recentemente, o blog do jornalista Ruben Berta.

E quero me deter aqui me deter nas interessantíssimas apurações que o jornalista Ruben Berta vem realizando sobre gastos curiosos e vultosos (convenhamos que essa é uma estranha combinação) que estão sendo realizados pelo governo do estado do Rio de Janeiro à guisa de dotar as estruturas públicas estaduais de saúde das condições necessárias para combater a difusão e as inevitáveis consequências da pandemia da COVID-19.

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Uma das matérias publicadas pelo jornalista Ruben Berta revelou que a Polícia Militar do Rio de Janeiro irá pagar R$ 2,3 milhões para que uma loja de materiais de construção forneça, sem licitação é preciso que se frise, forneça máscaras e aventais que, em tese, serão usados para combater os efeitos da COVID-19.

Em outra matéria apareceu algo ainda mais grave que foi a compra superfaturada de 100 mil frascos do antibiótico claritromicina que custando no mercado um preço médio de R$ 30,00, custou aos cofres estaduais a “bagatela” de R$ 120,00.

Uma investigação ainda mais reveladora feita por Ruben Berta se deu com a contratação de uma empresa investigada no Rio Grande do Sul para a construção, também sem licitação, dos chamados “hospitais de campanha” a um custo milionário.  Essa matéria acabou tendo repercussão na mídia corporativa, e explica porque até hoje a cidade de Campos dos Goytacazes ainda não viu a conclusão da unidade deste tipo que deverá operar no antigo terreno da concessionária Vasa.

O que me parece peculiar é que se não fosse pela ação diligente e robusta do ponto de vista jornalístico do jornalista Ruben Berta, não seria possível saber que o problema do estado do Rio de Janeiro continua não sendo falta de dinheiro, mas as formas pelas quais os recursos públicos são utilizados pelos governantes de plantão.

Mas agora que o Ruben Berta “tirou o gato do saco”, é fundamental que os servidores públicos estaduais e suas entidades de classe não caiam na ladainha de que não há dinheiro nos cofres estaduais para que se continue pagando salários em dia. A verdade é que todo aceno no sentido contrário parece apenas querer distrair a atenção de fatos que demonstram o contrário.

E se alguém ainda tiver dúvidas de que a crise financeira do Rio de Janeiro, sugiro a leitura das reportagens postadas pelo jornalista Ruben Berta em seu blog. Simples assim!

 

No dia Internacional dos Trabalhadores de 2020, a principal tarefa é defender a vida

Ao longo da existência deste blog sempre posto imagens de manifestações que ocorrem em diferentes partes do planeta para celebrar o “Dia dos Trabalhadores”, sempre com muita gente na rua e mensagens multicoloridas em defesa da classe trabalhadora.  Mas o 1o. de Maio de 2020 será de ruas vazias na maioria dos países por causa da pandemia da COVID-19.  

Entretanto, talvez este seja um dos primeiros de maio mais cruciais da história recente da classe trabalhadora, pois a crise sanitária causada pelo coronavírus está servindo para que as elites econômicas e políticas tentem avançar com o processo de precarização das condições de vida dos trabalhadores, visando salvar uma forma social altamente parasitária que só beneficia uma ínfima minoria da espécie humana.

Por isso, a melhor forma de estarmos prontos para o mundo pós-pandemia que demandará a inconteste e insubstituível liderança da classe trabalhadora é que ficar em casa e preservar a saúde de nossas famílias é o maior ato político que podemos realizar no dia internacional dos trabalhadores de 2020. E que estejamos vivos para estarmos nas ruas nos próximos meses, e que em 2021 possamos realizar manifestações gigantescas por todas as partes da Terra para celebrar o vigor e a essencialidade dos trabalhadores na construção de uma sociedade mais justa, democrática e fraterna.

Ex-presidente da Colômbia afirma que o Brasil é um barco à deriva no meio da pandemia

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O ex-presidente da Colombia (1994-1998) e ex-secretário geral da União das Nações da América do Sul (UNASUR) entre 2014 e 2017, Ernesto Samper Pizano (e membro de uma das famílias mais ricas daquele país), caracterizou a situação do Brasil como “um barco à deriva” no meio da pandemia da COVID-19 por causa da atuação errática do presidente Jair Bolsonaro.

Samper lembrou em sua página oficial da rede social Twitter que quando a pandemia começou, Bolsonaro afirmou que a COVID-19 não passava de uma “gripezinha”, e que agora que o Brasil já passou das 5.000 mortes, o presidente do Brasil pergunta às famílias dos mortos o que querem que ele faça. Em função disso, Samper dispara uma sentença inclemente: o Brasil é um barco à deriva (ver imagem abaixo).

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Uma primeira observação sobre as afirmações do ex-presidente colombiano é que Samper está corretíssimo em sua caracterização da situação do Brasil no meio dessa pandemia. É que depois de sabotar as medidas de confinamento social, atacar os governadores e prefeitos que as adotando, e demitir o precário mas minimamente funcional Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, Jair Bolsonaro explicita a sua falta de contato com qualquer proposta de tratamento organizado das necessárias respostas ao agravamento da pandemia em território brasileiro.

A minha segunda observação se dá em relação ao papel que o Brasil não terá na liderança regional após a passagem da pandemia. É que tendo ignorado todas as medidas de contenção da crise sanitária e deixado a maioria dos seus trabalhadores ao mar, o governo Bolsonaro certamente enfrentará uma séria crise social ao final da pandemia, o que impedirá que ocupe qualquer papel relevante da reorganização da economia regional. E é esta a sinalização que as declarações do ex-presidente colombiano deixam claro.

Como um ocupante deste barco à deriva chamado Brasil, a minha expectativa é que as medidas que estão em curso a partir das comunidades mais afetadas e dos movimentos sociais em geral, possamos nos preparar para minimizar as perdas humanas que a pandemia causará, para depois nos defrontarmos com os responsáveis pela situação “à deriva” em que fomos deixados. Esse será um ajuste necessário, até para que tenhamos alguma possibilidade de reconstruir o Brasil no pós-pandemia.