Ricardo Salles viverá muitas agruras se insistir em negar o óbvio

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Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, que foi condenado por fraudar o processo do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê, quando foi secretário estadual de SP.  Foto: Giovana Girardi/Estadão

O dublê de advogado e “agroboy” Ricardo Salles que agora virou ministro do Meio Ambiente vai aprender rapidamente que suas declarações serão constantemente checadas seja no Brasil ou no exterior. É que ser ministro do Meio Ambiente do país que contém a maior área contínua de florestas tropicais do planeta coloca o que ele disser sob uma lupa muito maior do que quando era secretário estadual de Geraldo Alckmin (PSDB/SP).

Salles usou seus primeiros dias no cargo para desqualificar a qualidade dos dados do desmatamento e secundarizar a questão das mudanças climáticas. Um exemplo disso foi uma entrevista que ele concedeu à Rádio Eldorado de São Paulo no dia de ontem (11/01) onde reafirmou em linhas gerais as mesmas declarações estapafúrdias em torno dessas duas questões centrais.

Cerca de 24 horas após essa entrevista ser veiculada, a competente jornalista, especializada em questões ambientais, Giovana Girardi produziu uma espécie de checagem acerca das declarações de Ricardo Salles acerca dos percentuais de desmatamento na Amazônia e o papel que o Brasil deverá cumprir no combate às questões resultantes das mudanças climáticas.

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O resultado dessa checagem deixa Ricardo Salles na condição de mais um ministro despido em via pública, como já está ocorrendo com o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Henrique Fraga.  Um dos desmontes mais vexaminosos das declarações de Salles se refere ao montante de desmatamento “ilegal em unidades de conservação que são desmentidas por dados oficiais.

Em outras palavras, Ricardo Salles ou não se preocupou em fazer a tal lição de casa que ele apregoa ser necessário e não leu os dados oficiais ou simplesmente decidiu brincar com a verdade e foi pego no contrapé na checagem feita por Giovana Girardi.

Quem desejar acesso a íntegra da reportagem de Giovana Girardi, basta clicar [Aqui]

“The Washington Post” convoca boicote a produtos originados de desmatamento na Amazônia

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Desde meados do ano passado venho apontando neste blog para a possibilidade concreta de que o Brasil seria transformado num pária ambiental planetário, caso se confirmasse o retrocesso na legislação ambiental criada para impedir o avanço do desmatamento na Amazônia brasileira.

Confirmada a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais e iniciado o seu governo foram confirmados os piores temores, já que os primeiros dias de janeiro foram marcados por um profundo ataque ao sistema ambiental brasileiro e aos direitos dos povos indígenas.

Enquanto no Brasil se perde tempo para discutir as afirmações estapafúrdias da ministra Damares sobre quais cores deveriam ser usadas por meninas e meninos, o influente jornal estadunidense “The Washington Post” não perdeu tempo e já sinalizou em um editorial publicado no dia de ontem (04/01) a necessidade de que produtos oriundos do desmatamento da Amazônia sejam o alvo de um boicote internacional (ver tradução do texto completo abaixo).

Em minha modesta opinião, a convocação que foi feita pelo Comitê Editorial do “The Washington Post” é uma sinalização clara de que já está em curso um processo para organizar esse boicote, não apenas nos EUA, mas em outros importantes mercados para as commodities agrícolas e minerais produzidas pelo Brasil.

E de nada adiantará o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, realizar um dos seus discursos anti-globalistas para resolver o problema. Aliás, se ele insistir em manter a postura que vem mantendo desde que foi anunciado que ele ocuparia o cargo mais alto da estrutura diplomática brasileira, o mais provável é que o boicote proposto pelo “The Washington Post” aconteça mais cedo do que tarde.

 

Será que Jair Bolsonaro rasgará as proteções ambientais e colocará em risco a Amazônia?

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A floresta amazônica virgem envolvendo trechos de áreas desmatadas preparadas para o plantio de soja no estado de Mato Grosso, no Brasil, em 2008. (Paulo Whitaker / Reuters)

Pelo Comitê Editorial do “The Washington Post”

O PRESIDENTE TRUMP foi, sem dúvida, o mais eficaz em destruir importantes proteções ambientais. Será que acontecerá o mesmo com o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro? O mundo deveria esperar que não.

O Brasil é a maior floresta ininterrupta do mundo. Funcionando como os pulmões da Terra, a Amazônia absorve dióxido de carbono – e mais de 2 bilhões de toneladas deste gás promotor do efeito estufa por ano – e expele oxigênio. Grandes quantidades de dióxido de carbono que se aquecem no planeta são armazenadas nas árvores e outras espécies da região. O desflorestamento, entretanto, libera cada vez mais desse dióxido de carbono preso no ar, mesmo como é. Em todo o mundo, o desmatamento é responsável por 15% das emissões anuais de aquecimento do planeta. Se a floresta amazônica encolher, a luta contra as mudanças climática ficará muito mais difícil. Com  desmatamento no atacado, o trabalho ficaria quase impossível.

Nos últimos anos o Brasil pareceu reconhecer sua responsabilidade especial em cuidar deste recurso planetário insubstituível. Apesar de cerca 4.800 km2 de florestas tropicais perdidas no passado, a taxa de desmatamento do país caiu drasticamente na última década.  O Brasil adotou um código florestal proibindo que proprietários de terras da Amazônia de desmatar mais de 20 por cento de suas terras. As áreas reservadas para os povos indígenas serviram como refúgios cruciais do processo de desenvolvimento.  Reconhecendo a crise climática, o Brasil se comprometeu a reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 43% até 2030, em sua adesão ao Acordo climático de Paris.

Entra Bolsonaro, às vezes chamado de Donald Trump do Brasil. O novo presidente propôs a construção de uma estrada através da floresta amazônica, expressou hostilidade para organizações ambientais internacionais, disse que as comunidades indígenas devem “adaptar ou simplesmente desaparecer”, chamou suas reservas catapora na paisagem e prometeu fundir o Ministério do Meio Ambiente, que abriga as autoridades que supervisionam as proteções da Amazônia, com o Ministério da Agricultura pró-agricultura. Imediatamente após assumir a presidência, ele transferiu a autoridade sobre as reservas indígenas para o Ministério da Agricultura e ordenou novo monitoramento das organizações não-governamentais internacionais. A partir daqui, os agentes ambientais já sobrecarregados poderão ver seus recursos e o apoio diminuir ainda mais.

O senhor Bolsonaro não tem liberdade plena. Ele não pode alterar o código florestal, eliminar as proteções aos povos indígenas ou retirar-se do Acordo de Paris sem a cooperação do congresso brasileiro, no qual seu partido não tem maioria. Enquanto isso, o resto do mundo pode ter algum impacto também. Consumidores, empresas e governos ocidentais devem evitar comprar produtos provenientes de áreas desmatadas e pressionar os parceiros comerciais brasileiros a fazerem mesmo.


O editorial acima foi publicado originalmente em inglês [Aqui!]

Florestas, quilombolas e índios, os primeiros alvos dos retrocessos de Jair Bolsonaro

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Apesar da cortina de fumaça que foi levantada com o tratamento indigno dado a apoiadores e jornalistas que estiveram na posse do presidente Jair Bolsonaro, já sabemos que os ecossistemas florestais, quilombolas e índios são as primeiras vítimas dos retrocessos planejados nos bastidores dos novos dirigentes que assumiram o poder no dia de ontem.

Isto fica evidente nas notícias de que o Ministério da Agricultura, comandado pela rainha dos venenos, Tereza Cristina (DEM/MS) ficará à cargo  das demarcações de terras de quilombolas e comunidades indígenas e, de quebra, com o Serviço Florestal Brasileiro [1 2]. Esses encargos se encontravam antes quase que totalmente sob o guarda-chuva dos ministérios da Justiça e do Meio Ambiente.

As consequências mais prováveis dessa concentração de “galinhas dentro de um ninho de raposas” será o aumento dos ataques à quilombolas e povos originários (alvos claros do desgosto pessoal de Jair Bolsonaro) e a liberalização ainda maior do processo de degradação dos biomas do Cerrado e da Amazônia para onde se movem com avidez os interesses do latifúndio agro-exportador e das grandes mineradoras.

Mas, convenhamos, nada disso é inesperado. A questão é que graças à sua forma de ganhar a eleição presidencial, Jair Bolsonaro não precisou nem explicar como faria o que fará.  De fato, Bolsonaro recebeu um cheque em branco de seus eleitores (muitos deles fazendo isso de forma consentida e alegre), o qual ele passa agora a sacar de forma frugal (tal qual o seu ex assessor Fabrício Queiróz costumava fazer nos dias que se sucediam ao depósito dos salários dos assessores do ex deputado estadual e agora senador Flávio Bolsonaro).

Como da oposição institucional pouco se pode esperar em termos de reação concreta ao início dos retrocessos idealizados pelo governo Bolsonaro, cumprirá aos atingidos organizarem o processo de reação.  O Brasil, com isso, deverá entrar em uma nova e forte espiral de violência, mas também de reorganização dos movimentos sociais.  É que diante do tamanho dos ataques que estão se iniciando, os principais interessados em conter o retrocesso não terão outro caminho a não ser o da reação.

E não esqueçamos de que fora do Brasil, o crédito do governo Bolsonaro já é quase nenhum, vide o baixíssimo comparecimento de dirigentes estrangeiros à sua posse.  Com o início dos retrocessos começando por quilombolas, indígenas e ecossistemas florestais, imaginem o que deverá se seguir. Eu me arrisco a dizer que o Brasil passará em breve à condição de pária ambiental sobre o qual barreiras sanitárias e políticas deverão ser impostas como forma de punição por esses retrocessos. Assim, o agro-negócio que ri agora, deverá chorar. A ver!


[1] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/bolsonaro-retira-da-funai-a-demarcacao-de-terras-indigenas.shtml

[2] http://www.diretodaciencia.com/2019/01/02/bolsonaro-transfere-servico-florestal-do-meio-ambiente-para-agricultura/

Fraude ambiental em Mato Grosso antecipa o que virá com “autolicenciamento” do governo Bolsonaro

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O jornal Folha de São Paulo publicou hoje (26/12) uma reportagem assinada pelo jornalista Rodrigo Vargas mostrando a existência de um amplo processo de fraude na emissão de licenças ambientais para beneficiar grandes proprietários rurais (incluindo Blairo Maggi, atual ministro da Agricultura) [1].

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Segundo a reportagem de Rodrigo Vargas, o esquema  envolvia procedimentos amparados em  informações e documentos falsos, sendo validados por técnicos de fachada da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), permitiu apenas em dois casos o desmatamento de uma área de 5.000 hectares de florestas.

Ainda segundo a reportagem, a justiça de Mato Grosso já determinou o bloqueio de R$ 407 milhões em bens pertencentes a cinco supostos beneficiários do esquema apenas no município de Querência (que está localizado a 959 km ao norte de Cuiabá), sendo o prefeito Fernando Gorgen (PSB) um dos envolvidos nas ilegalidades cometidas para acelerar o processo de desmatamento ilegal.

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Área de floresta próxima uma pastagem em Mato Grosso, um dos campeões do desmatamento na Amazônia Legal.  Lalo de Almeida/Folha Press.

Agora imaginem o que teremos pela frente se for confirmada a proposta “genial” do futuro presidente do Ibama, o procurador federal Eduardo Fortunato Bim, de estabelecer uma forma de “licenciamento a jato” onde o processo ficará a cargo dos próprios proprietários rurais interessados em remover áreas de floresta no interior de seus latifúndios, no que está sendo chamado de “licenciamento automático” [2].

Que ninguém no futuro governo reclame se Brasil passar a sofrer boicotes na compra de produtos saídos da Amazônia Legal por parte de alguns dos principais mercados para as commodities agrícolas brasileiras. É que maior do que a fome por produtos agrícolas baratos como os oferecidos pelo Brasil está a preocupação com o controle que as florestas amazônicas possibilitam das mudanças climáticas globais.

Entretanto, até que esses boicotes ocorram, o que deveremos ter é um avanço da franja de desmatamento para além do tradicional “arco do desmatamento”, com prejuízos incalculáveis para os ecossistemas amazônicos e para as populações que dependem de seu funcionamento para sua reprodução social.

 


[1] https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2018/12/ministerio-publico-aponta-crimes-de-licenciamento-ambiental-em-mt.shtml

[2] https://www.terra.com.br/economia/futuro-presidente-do-ibama-quer-licenciamento-ambiental-automatico,a8b3d565bc174aeeb35da55ae8653c3c3oxcjdku.html

Autocontrole é a senha do governo Bolsonaro para “chutar o balde” no controle da produção de carne e do desmatamento

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O governo Bolsonaro ainda não começou mas já sabemos qual será a senha para afrouxar os frágeis controles que existem sobre a indústria de carne no Brasil. A palavra que vem sendo usada para nos informar das pretensões de um governo de concretizar amplos retrocessos na frágil estrutura de controle existente no Brasil é “autocontrole”. 

Autocontrole foi usado pela futura ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS) para anunciar sua pretensão de afrouxar o controle existente nos frigoríficos brasileiros e deixar sob o controle das empresas a responsabilidade de atender a legislação no tocante ao abate animal e produção de carne [1]. A desculpa é permitir a ampliação da produção de carne, como se não tivéssemos tido recentemente a operação “Carne Fraca” que revelou uma série de procedimentos ilegais, mesmo em face da inspeção diária de fiscais.

Autocontrole também apareceu nas declarações do futuro presidente do IBAMA,  Eduardo Fortunato Blm, que indicou que deixará a cargo dos grandes proprietários rurais realizar uma forma de “licenciamento ambiental automático” para permitir não apenas acelerar o processo, mas como também deixar a cargo do interessado a responsabilidade por seguir a legislação no tocante ao controle das atividades envolvidas, incluindo a remoção de floresta nativa [2].

Quando combinadas as intenções da ministra da Agricultura e do presidente do IBAMA, o que está se preparando é o aumento do risco de que a carne produzida no Brasil não atenda os critérios legais e de que haja uma aceleração no processo de desmatamento, especialmente na bacia Amazônica, região onde a criação de pastagens já é o principal tipo de uso do solo para dar conta ao crescimento do rebanho bovino.

A questão que certamente não deve estar sendo levada em conta pelos membros do governo Bolsonaro é que essa combinação também deverá causar uma forte reação dos países que tenham preocupações não apenas com a segurança alimentar de sua população, mas também com as consequências desastrosas que o avanço do desmatamento na Amazônia deverá causar na regulação climática da Terra.

Como já escrevi várias vezes aqui neste blog, todos esses anúncios toscos por parte dos membros do governo Bolsonaro já acenderam todas as luzes de alerta em muitos países que adquirem produtos de origem anima que são produzidos pelo Brasil.  Se acrescentarmos ainda a possibilidade de boicote dos países árabes por causa da anunciada mudança da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, os agro-exportadores de “face moderna” terão muitas preocupações com as ações do governo que ajudaram a colocar no poder.

É que apesar do desejo do presidente eleito de retroceder o Brasil para o Século XIX, o resto do mundo está mais preocupado com a aplicação de agendas que ele e seus ministros consideram com questões que ele considera fúteis.

Um bom sinal de que a porca poderá torcer o rabo foi a declaração do atual ministro da Agricultura, o latifundiário Blairo Maggi, que afirmou que quem exige a presença diária de fiscais dentro dos frigoríficos são os países que importam a carne brasileira, a começar pelos EUA [3]. Assim, ao anunciar essa intenção de “chutar o balde” em nome do “aucontrole”, o que os futuros dirigentes do governo Bolsonaro estarão fazendo é colocar em risco a posição do Brasil como um grande fornecedor de carne animal e outras commodities que fazem a alegria do latifúndio agro-exportador.


[1] https://www.terra.com.br/economia/futura-ministra-quer-acabar-com-inspecao-diaria-em-frigorificos-do-pais,9fe49e07279475b6829c144870ea2ea05uxcilcy.html

[2] https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,futuro-presidente-do-ibama-quer-licenciamento-ambiental-automatico,70002653997

[3] https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2018/12/22/estado-e-vital-no-frigorifico-diz-blairo-maggi-sobre-proposta-de-nova-ministra.htm

Mudanças climáticas: estudo diz que riscos do ‘efeito dominó’ dos pontos de inflexão são maiores do que tradicionalmente se acredita

Cientistas alertam os políticos para não ignorar os links, e enfatizam que “toda ação conta”

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Quando o gelo ártico derrete, menos luz solar é refletida, o que aumenta a temperatura global e aumenta o risco de incêndios florestais. Foto: Mario Tama /Getty Images

Por Jonathan Watts para o jornal “The Guardian” [1]

Os formuladores de políticas subestimaram severamente os riscos dos pontos de inflexão ecológicos, de acordo com um estudo que mostra que 45% de todos os possíveis colapsos ambientais estão interrelacionados e podem se ampliar mutuamente.

Os autores disseram que seu artigo, publicado na revista Science, destaca como os sistemas naturais sobrecarregados e sobrepostos se combinam para gerar um número crescente de surpresas indesejáveis.

“Os riscos são maiores do que o suposto porque as interações são mais dinâmicas”, disse Juan Rocha, do Centro de Resiliência de Estocolmo. “A mensagem importante é reconhecer a gravidade do problema que a humanidade enfrenta.”

O estudo reuniu pesquisas existentes sobre transições de ecossistemas que podem irreversivelmente virar para outro estado, como o branqueamento de corais e a invasão de algas, as florestas se transformando em savanas e camadas de gelo derretendo nos oceanos. Em seguida, ele cruzou os 30 tipos de mudanças para examinar os impactos que elas poderiam ter um sobre o outro e sobre a sociedade humana.

Apenas 19% das mudanças verificadas foram totalmente isoladas. Outros 36% compartilharam uma causa comum, mas provavelmente não interagiram. Os 45% restantes tinham o potencial de criar um efeito dominó unidirecional ou feedbacks reforçados mutuamente.

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A destruição de recifes de corais pode enfraquecer as defesas costeiras e expor as florestas de mangue a danos. Foto: Greg Torda / Centro de Excelência ARC para Estudos de Recifes de Coral

Entre os últimos casos de combinação entre efeitos das mudanças climáticas estão os lençóis de gelo do Ártico e as florestas boreais. Quando o primeiro derrete, há menos gelo para refletir o calor do sol, de modo que a temperatura do planeta aumenta. Isso aumenta os riscos de incêndios florestais, que descarregam carbono no ar que aumenta o efeito estufa, que derrete mais gelo. Embora geograficamente distantes, cada um amplifica o outro.

Por outro lado, um impacto unidirecional do tipo dominó é aquele entre recifes de corais e florestas de mangue. Quando os primeiros são destruídos, enfraquece as defesas costeiras e expõe mangues a tempestades e ondas oceânicas.

O desmatamento da Amazônia é responsável por múltiplos “efeitos em cascata” – enfraquecendo os sistemas de chuva, as florestas tornando-se savanas e reduzindo o suprimento de água para cidades como São Paulo e culturas no sopé dos Andes. Isso, por sua vez, aumenta a pressão por mais desmatamento.

Até recentemente, o estudo dos pontos de inflexão era controverso, mas é cada vez mais aceito como uma explicação para as mudanças climáticas que estão acontecendo com mais velocidade e ferocidade do que os modelos computacionais anteriores previam. A perda de recifes de corais e o gelo marinho do Ártico já pode estar além do ponto de não retorno. Há sinais de que a Antártica está seguindo o mesmo caminho mais rápido do que se pensava.

O co-autor Garry Peterson disse que o depósito de gelo na Antártica ocidental não estava no radar de muitos cientistas 10 anos atrás, mas agora havia provas contundentes dos riscos – incluindo perdas de pedaços de gelo do tamanho de Nova York – e alguns estudos agora sugerem que o ponto de inflexão já pode ter sido passado pelo manto de gelo do sul, que pode agora liberar carbono na atmosfera.

“Estamos surpresos com a taxa de mudança no sistema da Terra. Tanta coisa está acontecendo ao mesmo tempo e em uma velocidade maior do que poderíamos pensar 20 anos atrás. Isso é uma preocupação real”, disse Peterson. “Estamos indo cada vez mais rápido para a beira de um precipício.”

A quarta pesquisa acadêmica mais baixada de 2018 foi o artigo Hothouse Earth, que considerou como os pontos de inflexão poderiam se combinar para levar o clima global a um estado inabitável [2].

Os autores do novo artigo dizem que seu trabalho vai além dos estudos climáticos, mapeando uma ampla gama de pontos de estresse ecológico, como a perda de biodiversidade, a expansão agrícola, a urbanização e a erosão do solo. Também se concentra mais no que está acontecendo no nível local agora, ao invés de projetar tendências geo-planetárias no futuro.

“Estamos vendo coisas que afetam as pessoas em suas vidas diárias. São coisas que estão acontecendo hoje”, disse Peterson. “Há uma mensagem positiva, pois amplia o leque de opções de ação. Não é apenas a nível internacional. Os prefeitos também podem fazer a diferença, abordando a erosão do solo, ou implementando políticas sociais que causem menos estresse ao meio ambiente ou construindo defesas costeiras naturais”.

Rocha passou 10 anos construindo um banco de dados de pontos de inflexão, ou “mudanças de regime”, como ele os chama. Ele insta os formuladores de políticas a adotarem uma abordagem interdisciplinar semelhante para que possam entender melhor o que está acontecendo.

“Estamos tentando conectar os pontos entre diferentes comunidades de pesquisa”, disse Rocha. “Os governos também precisam olhar mais para as interações. Eles devem parar de compartimentar os ministérios como a agricultura, a pesca e as relações internacionais e tentar administrar os problemas ambientais abraçando a diversidade de causas e mecanismos subjacentes a eles. As políticas precisam corresponder à escala do problema.

“É um pouco deprimente saber que não estamos em uma trajetória para manter nosso ecossistema em um estado funcional, mas essas conexões também são motivo de esperança; uma boa gestão em um só lugar pode prevenir a degradação ambiental grave em outros lugares. Cada ação conta.

Este artigo foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [1]


[2] https://www.pnas.org/content/115/33/8252

Novos satélites e novas técnicas de detecção irão dificultar tentativas de “liberar geral” na Amazônia brasileira

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Um dos fatos tidos como mais importantes para os esforços para controlar o avanço das temperaturas, o controle das taxas de desmatamento nas florestas tropicais, vem recebendo instrumentos cada vez mais poderosos para que se possa avaliar a situação. Um exemplo disso são as novas gerações de satélites com níveis de resolução cada vez melhores que permitem a avaliação do impacto de atividades que, até recentemente, não eram corretamente detectadas.

É por isso que as declarações recentes do futuro ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, o advogado Ricardo Salles, de que nem todo o desmatamento novo é desnecessariamente ilegal podem ser facilmente verificadas de modo a serem suportadas ou negadas.  Não adianta, assim, tentar tampar o sol com a peneira porque os instrumentos para a verificação científica de determinadas declarações não só já existem, como estão evoluindo rapidamente.

De toda forma, é preciso ressalvar que os dados recentemente compilados pelo jornalista Maurício Tuffani (do site Direto da Ciência) sobre a evolução temporal do desmatamento na Amazônia brasileira são apenas parciais em termos da degradação dos biomas ali existentes (ver tabela abaixo mostrando que 19,9%  da floresta já foi removida na Amazônia), na medida em que medem apenas o percentual perdido com corte raso [1].

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Esse alerta é importante porque existem outras formas agudas de degradação, as quais podem servir como motores de desmatamento, incluindo a extração de madeira e as diferentes formas de garimpo (como os de ouro e diamante).  Além disso, algumas dessas formas de degradação estão induzindo a ocorrência de incêndios florestais, os quais servem para aumentar ainda mais o tamanho das áreas cuja vegetação perde a capacidade de oferecer serviços ambientais e de autossustentação [2[. 

Em outras palavras, o que já parece ruim quando se apresentam os dados de corte raso das florestas é ainda pior quando se considera que os processos de degradação florestal podem causar danos também severos, além de facilitar a ocorrência futura de novos eventos de remoção total da vegetação.

A boa notícia (se é que se pode chamar assim) é que as ferramentas para a detecção dos processos de degradação estão ficando cada vez mais robustos, e os dados estão sendo gerados com confiabilidade cada vez mais maior para toda a bacia Amazônica, como bem demonstrou o estudo recentemente liberado sobre o alcance da mineração ilegal de ouro  que mostrou a existência de uma verdadeira epidemia de garimpos clandestinos naquela região [3].

Alguém mais cético poderá se perguntar de que adianta termos esse aumento na capacidade na detecção dos diferentes processos de remoção e degradação das florestas amazônicas tendo um ministro como Ricardo Salles comandando o meio ambiente e um presidente eleito que faz questão de manter ignorante sobre o debate internacional em curso sobre o que fazer para conter as mudanças climáticas. A resposta aqui é simples: de nada adiantará os governantes brasileiros serem negacionistas, pois há hoje uma forte pressão para que não haja um retorno a um passado recente onde havia um aceite tático da aplicação de um paradigma que tratava as florestas amazônicas como uma mera fronteira de recursos inexplorados.

Assim, se o Brasil resolver se abster de suas responsabilidades de conservar as florestas da Amazônia é quase certo que decorrerão disso muitas consequências de cunho econômico, não sendo difícil prever a criação de barreiras aos produtos brasileiros saídos de áreas recentemente desmatadas. Aí veremos como se comportarão os que hoje se omitem frente ao avanço das propostas de “liberar geral” na Amazônia brasileira.


[1] http://www.diretodaciencia.com/2018/11/24/desmatamento-na-amazonia-cresce-138-floresta-ja-perdeu-199/

[2] Ver artigo por Matricardi et al (2013), Assessment of forest disturbances by selective logging and forest fires in the Brazilian Amazon using Landsat data , publicado pela revista International Journal of Remote Sensing, que pode ser acessado no link https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/01431161.2012.717182

[3] https://www.dw.com/pt-br/estudo-denuncia-epidemia-de-garimpos-na-amaz%C3%B4nia-brasileira/a-46664874

 

Ricardo Salles, um ministro à altura da agenda reacionária do governo Bolsonaro

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Ricardo Salles quando era secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo e tentava explicar alterações em mapas que favoreciam interesses privados. Foto: Giovana Girardi/Estadão

O anúncio do que o advogado Ricardo Salles, líder do movimento “Endireita Brasil”, para ser o novo ministro do Meio Ambiente deixou muita gente alarmada, dada a passagem turbulenta (e pela qual responde por ações de improbidade administrativa) que ele teve pela congênere estadual em São Paulo no governo de Geraldo Alckmin, do qual teve de sair pelas portas do fundo por ter comandado uma manipulação de mapas de manejo ambiental do rio Tietê [1&2].

Em minha modesta opinião, essa indicação apenas reforça o caráter reacionário que o governo Bolsonaro terá em várias frentes altamente sensíveis, sendo que a do meio ambiente é apenas uma delas. Além disso, Ricardo Salles parece o homem indicado para fazer o tipo de trabalho que o próximo governo acha que poderá fazer à revelia do resto do planeta. Afinal, que maior credencial para ser ministro de Bolsonaro do que a propaganda eleitoral da fracassada campanha para deputado federal que Salles realizou sugerindo o uso de balas .30 para matar javalis, esquerdistas e membros do MST? (ver imagem abaixo)

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As primeiras declarações de Salles reforçam que ele está disposto a tornar o seu ministério numa espécie de franquia dos interesses dos latifundiários e dos interessados em ampliar o saque aos ecossistemas naturais dos quais o Brasil deveria ser o principal interessado em preservar, mas objetivamente nunca foi.

Primeiro, Ricardo Salles declarou que a questão das mudanças climáticas não serão uma questão prioritária para o próximo governo [3], exatamente quando está sendo realizada a 24a. edição da Conferência do Clima das Nações Unidas (COP 24) em Katowice na Polônia. Além de dizer que as mudanças climáticas não serão prioridade política sob o governo Bolsonaro, ele tampouco disse que essa discussão crucial (inclusive em termos de comércio internacional) terá prioridade alguma.

Segundo, Ricardo Salles disse que os números explosivos do desmatamento no território nacional (e em especial na Amazônia Legal) não dizem “toda a verdade”, seja qual ela for.  Salles ainda experimentou uma justificativa para essa afirmação dizendo que “É preciso ver em que área foi feita e se não corresponde aos 20% que o proprietário tem por lei para desmatar em uma área privada” [4]. Ele apenas omitiu o fato de que parte significativa ocorreu em terras públicas ou devolutas, o que efetivamente faz desmoronar essa tentativa de contemporarizar o grave problema que o crescimento desenfreado do desmatamento representa para o Brasil e, por extensão, para o resto do mundo.

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Em julho deste ano, Salles visitou a cidade de Pratânia, no estado de São Paulo. Lá, participou de um churrasco de chão, no qual vários porcos estavam empalados inteiros, assando. Salles filmou a cena e tirou um sarro dos veganos na legenda da publicação no Instagram: “Churrasco vegano de Pratânia.” – disse o futuro ministro (confira aqui).

Aos que se sentiram alarmados pela escolha de Ricardo Salles, a minha sugestão é que se preparem para se engajar em formas concretas de combater as práticas que ele certamente adotará para desmontar a legislação ambiental e os órgãos que existem para fazê-la valer.  É que seu “tracking record” em São Paulo mostra que ele não hesita em agir como lei e órgãos ambientais fossem estorvos à causa maior da apropriação privada desregulada dos recursos naturais. Por isso, qualquer espaço livre que seja dado à Ricardo Salles representará mais degradação ambiental e mais risco para as populações que dependem diretamente da integridade dos ecossistemas naturais para sua reprodução social.


[1] https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,secretario-alterou-manejo-no-entorno-do-tiete-para-favorecer-industria-aponta-investigacao,70001699671

[2[ https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/09/politica/1544379683_286039.html

[3] https://blogdacidadania.com.br/2018/12/mudancas-climaticas-serao-secundarias-no-novo-governo/

[4] https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2018/12/10/ministro-diz-que-numeros-do-desmatamento-nao-revelam-toda-a-verdade.htm

Manter a Amazônia intacta é melhor para a economia, diz estudo

Preservar a floresta economiza US$ 8,2 bilhões por ano, mas o novo presidente brasileiro parece deslumbrado com os ganhos de curto prazo.

Por Kaleigh Rogers; Traduzido por Marina Schnoor
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Se você é um ambientalista, o valor da Floresta Amazônica – que equivale à metade das florestas tropicais restantes do mundo – é óbvio. Mas, para quem está mais interessado no valor financeiro do bioma, derrubar esse magnífico ecossistema para construir fazendas, minas e infraestrutura pode parecer um empreendimento mais lucrativo.

Só que essa teoria financeira capitaneada pelo presidente eleito do Brasil Jair Bolsonaro pode não fazer muito sentido: um novo estudo de economistas e engenheiros agrícolas publicado recentemente mostra que o benefício econômico da floresta conservada é de US$ 8,2 bilhões por ano. É um benefício econômico que supera de longe os ganhos de curto prazo do desmatamento.

“A floresta deveria ser salva quando medida num sentido puramente econômico”, diz o estudo, publicado pela revista científica Nature este mês.

Esses US$8,2 bilhões incluem benefícios das indústrias sustentáveis que atualmente funcionam na floresta, como o cultivo de castanhas e madeira de seringueira. E também leva em conta os benefícios econômicos da influência ambiental da Amazônia, como sequestrar dióxido de carbono e regular o clima local.

Derrubar a floresta reduziria as chuvas tão significativamente que geraria uma perda anual de US$ 422 milhões para a agricultura, derrotando o benefício de ter mais terra para plantar.

Esse número não vem de um cálculo qualquer num guardanapo. São resultados de um estudo econômico rigoroso em que os pesquisadores analisaram dezenas de fatores contribuintes, e contraditórios, para criar um mapa espacial dos valores econômicos por toda a Amazônia. Mesmo assim, os pesquisadores apontaram que esses números só capturam uma fração do “valor geral incomensurável da Floresta Amazônica”.

A descoberta veio numa boa hora porque o Brasil, lar de 60% da Amazônia. Bolsonaro, afinal, é a resposta brasileira ao presidente americano Donald Trump; ele é anti-globalista, nega as mudanças climáticas, sugeriu que vai tirar o Brasil do Acordo Climático de Paris e disse que vai começar a derrubar a Amazônia para explorar minas, criar fazendas e construir represas.

FONTE: https://www.vice.com/pt_br/article/bje7wd/manter-a-amazonia-intacta-e-melhor-para-a-economia-diz-estudo

O descontrole deliberado do desmatamento na Amazônia

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Terra Indígena Cachoeira Seca do Iriri (PA), campeão do desmatamento na Amazônia | Lilo Clareto / ISA

Do Instituto Socioambiental

Quem se preocupa com o meio ambiente não anda otimista. A notícia do final da semana passada, no entanto, não poderia ser pior: a estimativa preliminar do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o desmatamento na Amazônia, entre agosto de 2017 e julho de 2018, foi de 7.900 km2, um aumento de quase 14% em relação a 2016-2017, quando foram registrados 6.947 km2. É o maior índice apurado pelo Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes) nos últimos dez anos, o equivalente ao território do Distrito Federal devastado.

Outro sistema operado pelo Inpe, o de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), que não tem a precisão do Prodes para calcular as taxas anuais de desmatamento, mas permite detectar sua ocorrência mais rapidamente, indicou taxas explosivas de crescimento da destruição da floresta entre agosto e outubro, período não coberto pelo último índice do Prodes e que coincide com a campanha eleitoral. Trata-se de um indício de que a tendência de crescimento do desmatamento deve continuar.

O Pará continua liderando a pressão pela devastação: além de seguir como campeão dos desmates (34% do total da Amazônia), teve um crescimento em sua taxa de 18%. Os novos desmatamentos no Pará se concentram, sobretudo, ao longo dos eixos das BRs 230 (Transamazônica) e 163 (Cuiabá-Santarém), regiões onde também estão grandes projetos de infraestrutura e de mineração, como a hidrelétrica de Belo Monte, a mina de ouro da Belo Sun e a ferrovia Ferrogrão.

O descontrole sobre essas áreas está transformando o antigo “Arco do Desmatamento” num círculo de fogo e devastação que promete separar, definitivamente, as matas remanescentes da Bacia do Xingu, entre o norte do Mato Grosso e o sudoeste do Pará, do resto da floresta amazônica. E é essa a região que os cientistas afirmam ser mais suscetível à “savanização”, ou seja, a transformação da floresta num tipo de Cerrado, com perda de umidade e aumento do potencial de queimadas nas respectivas formações vegetais.

Segundo os dados do Inpe, as terras indígenas (TIs) e as unidades de conservação (UCs) continuam sendo as principais barreiras de proteção à floresta. O desmatamento em seu interior segue pequeno em termos absolutos – 6% do total da Amazônia – e concentrado em regiões críticas. Mas também nelas a aceleração das derrubadas é alarmante: 124% nas TIs e de 48% nas UCs federais, entre 2016-2017 e 2017-2018.

Das dez TI mais desmatadas, cinco estão próximas dos trechos paraenses das duas rodovias, na Bacia do Xingu. No caso das UCs, seis das mais devastadas estão na mesma região.

TI Cachoeira Seca do Iriri (PA), às margens da Transamazônica, segue como a campeã do desflorestamento, com cerca de 5,5 mil campos de futebol destruídos em 2017-2018, um acréscimo de 233% em relação ao período anterior. Somente em outubro, mês não registrado pela taxa última taxa do Prodes, foram desmatados o equivalente a 1,8 mil campos de futebol, mais do que todo o ano de 2017. A área já concluiu o processo de demarcação, mas segue como alvo da especulação e invasão de políticos e grileiros locais.

Outra TI localizada na Bacia do Xingu no Pará, a Apyterewa, também está entre as mais devastadas, com 1,9 mil hectares desmatados em 2017-2018, um aumento de 251% em relação a 2016-2017. A área também já foi totalmente reconhecida e sofre com as idas e vindas do processo de retirada de não indígenas, influenciado também por políticos locais.

Fatores conjunturais, como a taxa de câmbio favorável às exportações do agronegócio e um período de seca maior mais prolongado, além de falhas na fiscalização, podem ter estimulado os desmatadores no último ano. Porém, considerando-se a tendência de alta das taxas desde 2012, a despeito de suas flutuações, elementos político-institucionais ajudam a explicar o problema, como a fragilização do Código Florestal em 2012, a legalização da grilagem por meio do Programa Terra Legal, a execução descuidada de grandes obras e, mais recentes, sinalizações negativas para o meio ambiente produzidas no processo eleitoral, inclusive pelo presidente eleito Jair Bolsonaro.

FONTE: https://www.socioambiental.org/pt-br/blog/blog-do-isa/o-descontrole-deliberado-do-desmatamento-na-amazonia