Ricardo Salles, um ministro à altura da agenda reacionária do governo Bolsonaro

SALLES MANEJO

Ricardo Salles quando era secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo e tentava explicar alterações em mapas que favoreciam interesses privados. Foto: Giovana Girardi/Estadão

O anúncio do que o advogado Ricardo Salles, líder do movimento “Endireita Brasil”, para ser o novo ministro do Meio Ambiente deixou muita gente alarmada, dada a passagem turbulenta (e pela qual responde por ações de improbidade administrativa) que ele teve pela congênere estadual em São Paulo no governo de Geraldo Alckmin, do qual teve de sair pelas portas do fundo por ter comandado uma manipulação de mapas de manejo ambiental do rio Tietê [1&2].

Em minha modesta opinião, essa indicação apenas reforça o caráter reacionário que o governo Bolsonaro terá em várias frentes altamente sensíveis, sendo que a do meio ambiente é apenas uma delas. Além disso, Ricardo Salles parece o homem indicado para fazer o tipo de trabalho que o próximo governo acha que poderá fazer à revelia do resto do planeta. Afinal, que maior credencial para ser ministro de Bolsonaro do que a propaganda eleitoral da fracassada campanha para deputado federal que Salles realizou sugerindo o uso de balas .30 para matar javalis, esquerdistas e membros do MST? (ver imagem abaixo)

salles

As primeiras declarações de Salles reforçam que ele está disposto a tornar o seu ministério numa espécie de franquia dos interesses dos latifundiários e dos interessados em ampliar o saque aos ecossistemas naturais dos quais o Brasil deveria ser o principal interessado em preservar, mas objetivamente nunca foi.

Primeiro, Ricardo Salles declarou que a questão das mudanças climáticas não serão uma questão prioritária para o próximo governo [3], exatamente quando está sendo realizada a 24a. edição da Conferência do Clima das Nações Unidas (COP 24) em Katowice na Polônia. Além de dizer que as mudanças climáticas não serão prioridade política sob o governo Bolsonaro, ele tampouco disse que essa discussão crucial (inclusive em termos de comércio internacional) terá prioridade alguma.

Segundo, Ricardo Salles disse que os números explosivos do desmatamento no território nacional (e em especial na Amazônia Legal) não dizem “toda a verdade”, seja qual ela for.  Salles ainda experimentou uma justificativa para essa afirmação dizendo que “É preciso ver em que área foi feita e se não corresponde aos 20% que o proprietário tem por lei para desmatar em uma área privada” [4]. Ele apenas omitiu o fato de que parte significativa ocorreu em terras públicas ou devolutas, o que efetivamente faz desmoronar essa tentativa de contemporarizar o grave problema que o crescimento desenfreado do desmatamento representa para o Brasil e, por extensão, para o resto do mundo.

salles PORCOS

Em julho deste ano, Salles visitou a cidade de Pratânia, no estado de São Paulo. Lá, participou de um churrasco de chão, no qual vários porcos estavam empalados inteiros, assando. Salles filmou a cena e tirou um sarro dos veganos na legenda da publicação no Instagram: “Churrasco vegano de Pratânia.” – disse o futuro ministro (confira aqui).

Aos que se sentiram alarmados pela escolha de Ricardo Salles, a minha sugestão é que se preparem para se engajar em formas concretas de combater as práticas que ele certamente adotará para desmontar a legislação ambiental e os órgãos que existem para fazê-la valer.  É que seu “tracking record” em São Paulo mostra que ele não hesita em agir como lei e órgãos ambientais fossem estorvos à causa maior da apropriação privada desregulada dos recursos naturais. Por isso, qualquer espaço livre que seja dado à Ricardo Salles representará mais degradação ambiental e mais risco para as populações que dependem diretamente da integridade dos ecossistemas naturais para sua reprodução social.


[1] https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,secretario-alterou-manejo-no-entorno-do-tiete-para-favorecer-industria-aponta-investigacao,70001699671

[2[ https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/09/politica/1544379683_286039.html

[3] https://blogdacidadania.com.br/2018/12/mudancas-climaticas-serao-secundarias-no-novo-governo/

[4] https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2018/12/10/ministro-diz-que-numeros-do-desmatamento-nao-revelam-toda-a-verdade.htm

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