‘Bolsonaro não sabe que a Terra é redonda’: como Lula pode reconquistar o Brasil

O tratamento incorreto da pandemia apenas fortaleceu a posição do ex-presidente – e agora ele está livre para concorrer novamente

lula vacinaLula da Silva recebe vacina contra coronavírus em São Bernardo do Campo no último sábado. Fotografia: Reuters

Por Andre Pagliarini para o jornal “The Guardian”

Na quarta-feira, 10 de março, o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso de retorno empolgante na sede do sindicato dos metalúrgicos em São Bernardo do Campo, um centro industrial na região metropolitana de São Paulo de onde Lula emergiu como uma figura nacional no 1970s. No dia anterior, em uma reviravolta chocante que surpreendeu até mesmo aqueles que estavam convencidos de sua inocência, um juiz do Supremo Tribunal anulou as condenações criminais contra Lula, tornando-o elegível para um terceiro mandato no ano que vem.

A decisão a favor de Lula teria sido uma grande história, mesmo se sua popularidade tivesse diminuído desde que deixou o cargo em 2011. Mas as pesquisas recentes mostram que ele continua surpreendentemente eleito, à frente do titular da extrema direita, Jair Bolsonaro, que venceu as eleições de 2018. Outras pesquisas apontam para uma disputa mais acirrada, o que ainda é notável visto que Lula nem começou a fazer campanha. Lula também liderou as pesquisas há três anos, mas foi impedido de concorrer por um infame juiz que ingressou no governo Bolsonaro. Por sua vez, Bolsonaro, capitão aposentado do exército que serviu sem distinção no Congresso por 27 anos, presidiu uma catástrofe absoluta. Se a maior nação da América Latina já foi tida como modelo para saber como equilibrar o crescimento econômico com a redução dramática da pobreza, sua liderança atual parece perfeitamente satisfeita em ser um pária global (o ministro das Relações Exteriores disse literalmente em outubro passado).

Desde o modo como lida com o meio ambiente e a pandemia, para citar algumas questões importantes, Bolsonaro se mostrou imune à razão. Por isso, Lula parecia tão decidido a reafirmar a primazia dos fatos no discurso político de seu país em seu discurso na semana passada. “É sempre importante reiterar sempre que possível”, declarou ele, “o planeta é redondo … e Bolsonaro não sabe disso”. Ele descreveu todas as medidas que teria tomado se estivesse no cargo quando a pandemia o atingiu, cada medida mais sensata que a anterior. O Bolsonaro continua a minimizar o vírus, mesmo enquanto observadores internacionais temem que o Brasil se torne um centro de disseminação de novas variantes.

Embora não esteja claro se Lula vai realmente concorrer novamente no ano que vem, o simples fato de que ele pode mudou o terreno político do Brasil. Tanto o atual presidente da Câmara, eleito para sua posição de influência com o apoio de Bolsonaro, quanto o anterior, uma figura de centro-direita cujo partido sugeriu que poderia endossar Bolsonaro em 2022, sinalizou uma abertura para a reabilitação de Lula. Esta é uma reversão impressionante em relação a apenas três anos atrás, quando a sociedade brasileira se viu nas garras de uma onda reacionária que responsabilizava os progressistas por todos os males sociais, reais ou imaginários. O reconhecimento que Lula recebeu da esquerda e da direita nos últimos dias pode ser atribuído à sua capacidade de vender uma mensagem conciliatória, enraizada não no confronto ideológico, mas na recuperação dos valores republicanos básicos que Bolsonaro abertamente desdenha.

Um obstáculo flagrante permanece no caminho caso Lula volte a assumir a presidência: as forças do mercado internacional. Conforme noticiado na Bloomberg , a renovada elegibilidade política de Lula “fez com que as ações e a moeda craterassem, aprofundando alguns dos piores desempenhos deste ano”. Em outro lugar, os investidores disseram à Reuters que “a perspectiva de Bolsonaro concorrer contra Lula coloca dois candidatos ‘populistas’ um contra o outro, esvaziando o centro, que é mais fértil para as reformas econômicas de que o Brasil precisa desesperadamente”. Em meio ao aperto de mão dos observadores mais sintonizados com os desejos estreitos dos investidores privados, vale a pena lembrar as diferenças óbvias entre o titular e o candidato a desafiante que, sem sucesso, concorreu à presidência três vezes antes de finalmente rompê-lo em 2002.

Sob o Partido dos Trabalhadores de Lula, o governo federal brasileiro implementou uma enxurrada de políticas federais inovadoras que transformaram a vida de milhões de brasileiros. A pobreza despencou, enquanto o número de graduados aumentou. Bolsonaro, por sua vez, lamenta sua incapacidade de fazer qualquer coisa, ansiando pelos dias de regime militar. Ele demonstra uma atitude irreverente em relação ao bem-estar de qualquer pessoa que não seja parente de sangue. O fato de ele ter conquistado a presidência em 2018 é uma prova não do apelo de sua agenda, mas da erosão da civilidade básica no Brasil. Essa é a comparação a ter em mente à medida que as manchetes aparecem nos próximos meses – e com certeza farão – alertando os investidores para a agenda econômica supostamente preocupante de Lula e seu partido, o mesmo “bando horrível” que uma vez levantou 28 milhões de pessoas saíram da pobreza.

Também houve algumas reclamações de militares aposentados sobre a impropriedade de Lula ser elegível para um cargo público. Para seu grande crédito, no entanto, o vice-presidente Hamilton Mourão, um general aposentado, jogou água fria em qualquer conversa sobre conspiração, dizendo que as pessoas têm todo o direito de votar no ex-presidente. É altamente improvável que uma trágica história de intervenção militar se repita. O retorno de Lula à cena também deixou a centro-direita em desordem. Por exemplo, João Doria, um ex-empresário que cavalgou a cauda do casaco de Bolsonaro até a mansão do governador de São Paulo em 2018, anunciou ele pode não exercer a presidência, afinal, reconhecendo o perigo de dividir o voto da direita. A ação de Doria é uma admissão tácita da capacidade do ex-presidente de atrair o amplo centro da política brasileira.

Como em 2002, quando Lula prometeu uma alternativa social-democrata plausível às privações do neoliberalismo, seu momento pode novamente se provar impecável. Há um ciclo de feedback a seu favor – os números das pesquisas indicam que Lula se sai melhor contra o Bolsonaro entre figuras da oposição, fortalecendo assim sua posição como líder da oposição e levando a números mais altos nas pesquisas à medida que outros eleitores anti-Bolsonaro acorrem ao seu lado. Percebendo esse ímpeto, até mesmo figuras de centro-direita notaram a capacidade de Lula de construir pontes, uma crítica à incapacidade de Bolsonaro de fazê-lo. Talvez seja um sinal de que o establishment que antes apostou no Bolsonaro para manter o Partido dos Trabalhadores de Lula acuado em 2018 esteja chegando, aos trancos, à conclusão de que não vale mais a pena levar o país à beira do colapso.

*Andre Pagliarini é professor de história e estudos latino-americanos no Dartmouth College

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Paradoxo verde

Duas novas publicações falham ao tentar combinar proteção climática e teoria econômica,  pois omitem que esse é todo o conflito.

O estado deve definir os preços dos combustíveis fósseis diretamente e torná-los mais caros. dpa

O tempo é essencial: a Alemanha deve ser quase neutra em termos de clima até 2035 se quisermos ajudar a evitar que a Terra aqueça mais de 1,5 graus. Mas o que isso significa para a economia alemã? Duas novas publicações tratam dessa questão.

Primeiro, há a antologia da “economistsforfuture”: 25 economistas alemães descrevem como a Economia teria de mudar para capturar adequadamente a crise climática. Infelizmente, a maioria dos textos permanece em um meta-nível destacado e exige que a economia seja “pluralista”, “reflexiva”, “transparente”, “holística” e “interdisciplinar”. Isso não está errado, mas não fica mais correto com a repetição constante.

Apenas o breve texto de Helge Peukert se destaca. O professor de economia de Siegen dá uma explicação concisa e clara sobre as teorias que existiam na economia até agora e como elas poderiam ser aplicadas à crise climática. Tudo ocorre da economia institucional ao feminismo. Seria desejável que este pequeno texto fosse a introdução – e que todos os outros autores tivessem feito o trabalho específico para iluminar economicamente a crise climática. Mas talvez isso aconteça, é de se esperar.

Sem conceitos viáveis

Também o ex-economista-chefe da Unctad (Conferência Mundial de Comércio e Desenvolvimento), Heiner Flassbeck , afirma que não existem conceitos viáveis ​​para resolver a crise climática. Por isso escreveu um texto polêmico em que acertou contas com os verdes, os neoliberais e os “representantes da transição energética”, entre outros.

Flassbeck está claramente descobrindo por que os impostos sobre o CO 2 causariam o caos nos mercados de energia. Em vez disso, o estado deve definir os preços dos combustíveis fósseis diretamente e tornar o gás, o petróleo e o carvão cada vez mais caros – para que as empresas possam fazer cálculos previsíveis e investir cada vez mais em energias renováveis.

Flassbeck também está convencido de que a cooperação global entre todos os países é necessária. Se a Alemanha renunciasse à energia fóssil, a demanda por petróleo ou gás cairia neste país – mas a consequência seria que os preços da energia fóssil também cairiam, o que deveria encorajar outros países a consumir ainda mais petróleo, porque isso acontece qunado o petróleo é tão barato.

Flassbeck escreve furioso, como se fosse o único a reconhecer que a proteção do clima, de todas as coisas, pode levar ao consumo de ainda mais petróleo. Mas, na verdade, esse “paradoxo verde” é tão óbvio que o economista neoliberal Hans-Werner Sinn escreveu um livro inteiro sobre isso em 2008. Estranhamente, o significado não aparece em nenhum lugar de Flassbeck. Isso não é apenas cientificamente desonesto, mas afasta os leitores da compreensão de que os economistas keynesianos e conservadores ocasionalmente concordam.

Crise climática subestimada

Além disso, surge a suspeita de que Flassbeck está subestimando a crise climática. Ele felizmente escreve: “No futuro, as mudanças climáticas irão determinar nossas vidas da mesma forma que o clima hoje, ou seja, de forma alguma.”

Essa presunção danifica o livro. Flassbeck é um economista importante, mas quando se trata de proteção climática, ele permanece muito abaixo de seu potencial.

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Este texto foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo “TAZ” [Aqui!].

O preço da vida

E a “harmonia entre economia e ecologia”? Sobre as armadilhas da lógica capitalista

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Por Stephan Kaufmann para a Neus Deutschland

O campo dos ativistas pela proteção do clima está dividido: alguns culpam os cálculos capitalistas com despesas e receitas pela mudança climática e exigem “Mudança de sistema, não mudança climática!” Os demais, por outro lado, veem em boas mãos a proteção do clima no capitalismo. Para eles, a mudança climática não é resultado de competição por lucros e redução de custos, mas um caso de “falha de mercado”.

Para corrigir essa falha, a natureza precisa acima de tudo de uma coisa: um preço. Se os danos ao meio ambiente causarem apenas custos suficientes, sua proteção torna-se um objetivo comercial e, portanto, uma realidade. A “harmonia entre economia e ecologia” almejada pela precificação da natureza, entretanto, tem suas armadilhas. Porque quer usar a lógica capitalista e, portanto, permite sua aplicação.

As empresas de cálculo capitalista visam ao maior excesso possível sobre seus custos. A fim de reduzir custos, eles usam o meio ambiente como uma fonte barata de recursos e um depósito de poluentes: é por isso que alimentam seu crescimento com fontes de energia baratas e seguras, como petróleo e carvão, o que impulsiona a concentração de CO2 na atmosfera e, consequentemente, as mudanças climáticas. Porque as empresas não têm que pagar pelas emissões e suas consequências, ou apenas de forma limitada. É aí que entram os conceitos que colocam um preço no meio ambiente e, assim, tornam a proteção dele lucrativa, pois diminui os custos para a empresa.

O ex-vice-presidente do Banco Mundial Nicholas Stern ancorou firmemente o argumento do custo no debate de 2007. Segundo seu “Relatório Stern”, as mudanças climáticas são “a maior falha de mercado que já ocorreu”. O dano econômico aumentaria com a velocidade do aquecimento global: se a temperatura média global subisse de 2 a 3 graus Celsius, até 3 por cento da produção global poderia ser perdida para sempre. Com um aquecimento de 5 a 6 graus Celsius, a perda chega a atingir uma média de 10%.

Em contraste, os custos anuais da proteção climática necessária seriam significativamente menores. Stern estimou em cerca de 1% do PIB em 2050. “Isso é significativo, mas está completamente alinhado com o crescimento contínuo, em oposição à mudança climática desenfreada, que em algum momento ameaçará seriamente o crescimento.”

Pavan Sukhdev, ex-banqueiro de investimentos do Deutsche Bank, adotou uma abordagem semelhante em 2008. Em nome da Comissão Europeia e do Ministério Federal do Meio Ambiente, ele teve os custos econômicos da extinção de espécies calculados. Além disso, recifes de corais, fungos e bactérias deveriam ter um preço. Os economistas calcularam esse preço extrapolando os lucros potenciais do uso da biodiversidade. Afinal, a biodiversidade não só estabiliza os ecossistemas, mas também é uma fonte inesgotável de novas substâncias medicinais, e garante o abastecimento de alimentos, água e qualidade do solo. O valor de mercado global dos produtos farmacêuticos baseados em recursos genéticos está entre 75 e 150 bilhões de dólares por ano. Dessa forma, os economistas criaram uma forma de “biocapital” a partir da natureza.

Sukhdev e seus colegas resumiram os benefícios econômicos desse capital como “serviços” da natureza, cujo valor estimaram em cerca de US$ 5 trilhões por ano apenas nas reservas naturais do continente. Esses valores econômicos seriam gradualmente destruídos pela degradação ambiental, o que reduziria o crescimento econômico.

Claro, a questão que permanece é se as previsões de Stern e Sukhdev serão corretas – afinal, é difícil para os economistas prever o crescimento econômico no trimestre atual. É ainda mais difícil fazer um prognóstico ao longo de décadas em condições de desastre. Além disso, no entanto, a abordagem econômica já é importante. Nele, por um lado, a destruição da natureza não é mais o resultado lógico da produção e do cálculo capitalista, mas ineficiente em termos de economia de mercado. Na realidade presume-se que o capitalismo e a proteção climática realmente formam um todo harmonioso e são mutuamente dependentes.

Por outro lado, a consideração econômica do meio ambiente significa que a natureza e os humanos só valem a pena ser protegidos porque seus danos causam custos que deprimem o crescimento econômico. O Comissário da UE Stavros Dimas, um dos iniciadores do estudo Sukhdev, chamou a preservação da biodiversidade de “um dever ético e moral”. No entanto, ele não se baseou na ética e na moral, mas enfatizou a utilidade capitalista da natureza como um poderoso argumento para a proteção ambiental.

No entanto, essa abordagem é problemática. Porque a partir dele se seguem três condições, quando e em que medida as espécies e o clima são protegidos.

Em primeiro lugar, do ponto de vista capitalista, proteger o meio ambiente só é racional se seus custos forem menores do que os da destruição ambiental. Onde a proteção do clima e das espécies é muito cara, ela não é feita, apesar de toda moral e ética. Em segundo lugar, apenas as partes da natureza são protegidas que podem ser usadas economicamente e cujos danos, portanto, geram custos. Quais custos são aceitáveis ​​para a proteção do clima, portanto, dependem do valor capitalista das pessoas, espécies e ecossistemas ameaçados pelas mudanças climáticas. E existem grandes diferenças. Sabemos disso pelos danos causados ​​pelas tempestades: tempestades severas em países pobres causam custos mais baixos do que pequenas tempestades em países ricos, portanto, são menos problemáticas economicamente, embora ceifem mais vidas humanas.

Em terceiro lugar, porém, a vida boa e saudável não começa para todas aquelas pessoas e espécies que são reconhecidas como economicamente dignas de proteção. Porque eles são valorizados e protegidos apenas como partes utilizáveis ​​da natureza viva. O objetivo da proteção do clima, do ponto de vista do custo, é simplesmente garantir a existência das pessoas e do meio ambiente como recurso para o crescimento. Mais não é possível.
Para argumentar com os custos econômicos da conservação da natureza, o próprio Sukhdev chamou de “humilhação da humanidade” porque se trata apenas de lucros e perdas. No entanto, “a única maneira de preservar a natureza” é colocar uma etiqueta de preço nela. Também para Jianguo Liu, da Michigan State University, “avaliar a contribuição da natureza é o passo decisivo” no cálculo de “tornar acessível a preservação de florestas, savanas e pântanos”. Liu está atualmente calculando um produto bruto do ecossistema como um suplemento ao produto nacional bruto.

Os danos ao meio ambiente diminuem quanto mais caro fica – esse cálculo é simples em si mesmo. Proteção ambiental drástica significaria preços muito altos. Mas mesmo aqui você pode ver que as coisas não são tão simples. Veja o imposto sobre o CO2, por exemplo: para conseguir a redução rápida necessária nas emissões de gases de efeito estufa, o preço do CO2 teria que ser “extremamente alto”, diz Patrick Artus do banco francês Natixis. Mas isso prejudicaria as empresas e o crescimento econômico – e, portanto, não está acontecendo. O mesmo se aplica à simples proibição, por exemplo, da emissão de gases de efeito estufa. “A desvantagem da lei regulatória geralmente são os altos custos econômicos”, explica Eric Heymann, do Deutsche Bank.

Por um lado, a destruição da natureza deve ter um preço para que aconteça custos e não ocorra. Por outro lado, esses custos não devem subir muito, razão pela qual são mantidos baixos. Resultado: a extinção de espécies e as mudanças climáticas estão avançando. A contradição entre o crescimento capitalista e a conservação da natureza, portanto, não se resolve dando um preço à natureza. Os políticos estão atualmente impondo “tecnologia” para resolver essa contradição. O “desafio” é que “são necessárias melhores soluções tecnológicas para evitar altos custos econômicos”, diz Heymann.

O preço do ambiente deve, portanto, operar um milagre: por um lado, deve ser suficientemente baixo para não destruir os cálculos dos lucros ou – se for introduzido apenas a nível nacional – dar às empresas em causa uma desvantagem competitiva em relação à concorrência. Por outro lado, deve ser alto o suficiente para tornar os danos ambientais mais caros e, assim, promover o desenvolvimento e a aplicação de tecnologia amiga do clima. Essa tecnologia, por sua vez, deveria ser cara o suficiente para trazer lucro a seus desenvolvedores e, ao mesmo tempo, tão barata para seus usuários que seu uso custasse menos que o custo da poluição ambiental – no caso da proteção do clima, menos que o custo das emissões de gases de efeito estufa. E, finalmente, a tecnologia também deve ser eficiente

É incerto e até improvável que isso funcione. Até porque os preços da natureza deveriam tornar lucrativo o desenvolvimento de uma tecnologia de ar condicionado que ainda não existe. Enquanto não existir, a proteção do clima permanece subordinada ao crescimento econômico. Se o Conselho Consultivo Alemão está exigindo atualmente: “Os enormes recursos que são usados ​​para a recuperação econômica devem ser consistentemente alinhados com os objetivos de proteção ambiental”, então a prioridade é a “recuperação econômica” – e esta então deveria ser “verde”, quanto mais possível fosse”.

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Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pela Neues Deutschland [Aqui!].

Duzentos milhões de trouxas sendo explorados por seis bancos: a frase que explica mais do que parece

Manaus vive caos sanitário por casos de COVID-19 - ISTOÉ Independente

O jornal “Le Parisien” publicou neste domingo (10/05) o resultado de uma pesquisa feita sobre as perspectivas que milhões de franceses estão tendo sobre a volta ao trabalho a partir de amanhã, ainda em meio à pandemia da COVID-19. O resultado é que os trabalhadores franceses estão voltando ao trabalho com um sentimento nada agradável, pois a maioria se preocupa mais com a sua saúde do que com os efeitos da crise econômica.

le parisien economia saude

Se levarmos em conta que na França o apoio financeiro dado pelo Estado aos trabalhadores desempregados tem sido muito mais significativo do que o oferecido no Brasil pelo governo Bolsonaro, e de que lá as restrições impostas a quem voltar a funcionar deverão ser fiscalizadas com maior rigor do que por aqui, poderia soar exagerada o fato da maioria privilegiar a saúde em vez da economia. Entretanto, isto está muito provavelmente ligado ao grau de entendimento que os trabalhadores franceses possuem acerca dos pesos e medidas que devem ser usados para regular a relação entre capital e trabalho.

Já aqui no Brasil, o fato de que, mesmo antes da pandemia se manifestarem território nacional, quase 20 milhões de trabalhadores estivessem desempregados e que quase 40 milhões de brasileiros estivessem obtendo seus parcos ganhos em atividades informais, acaba impondo uma realidade dramática que leva a que a relação aqui seja invers, e que muitos queiram trabalhar (seja no que for) para amealhar dinheiro que possa colocar comida no prato.

Essa realidade dramática decorre de uma decisão racional das elites brasileiras em prol do rentismo que encolhe o número de empregos, precariza o trabalho e achata o valor dos salários. Não é à toa que, em um momento de sinceridade, o ministro da Fazenda do governo Bolsonaro, o banqueiro Paulo Guedes, afirmou em uma videoconferência promovida pelo banco Itaú que “somos 200 milhões de trouxas sendo explorados por seis bancos..“. 

200 milhões de trouxas

Como banqueiro que é, Paulo Guedes sabe muito bem do que está falando. É que desde muito tempo são os banqueiros que controlam a economia e o sistema político brasileiro.  Para quem não se lembra, o anúncio da indicação de Antonio Palocci para ocupar o cargo de ministro da Fazenda no primeiro mandato de Lula ocorreu dentro da sede do Clube de Washington e que o presidente do Banco Central naquele governo foi Henrique Meirelles, ex-presidente do Bank of Boston.

Mas, esse controle só foi aumentado com o impeachment de Dilma Rousseff que era vista como um obstáculo para o avanço dos ganhos já estratosféricos dos donos dos bancos.  Não é à toa que desde então,  os trabalhadores brasileiros foram alvo de várias investidas que lhes retiraram direitos sociais e trabalhistas, a começar pela famigerada PEC  241 (a do Teto de Gastos) que congelou os investimentos públicos em saúde, educação e assistência social por 20 anos. 

E é justamente a vigência plena da PEC 241 que está não apenas impedindo que existam os recursos necessários para dotar o SUS das condições necessárias para assistir os trabalhadores contaminados pelo coronavírus, mas também representa um grande obstáculo para qualquer retomada da economia brasileira que se encontra em um espiral descendente.

Por isso, toda a cantilena feita pelo presidente Jair Bolsonaro sobre a necessidade de se quebrar as ações de isolamento em nome da volta das atividades econômicas e da retomada dos empregos não passa disso. E, pior, toda essa conversa de priorizar a atividade econômica sobre as necessidades de se proteger a saúde dos brasileiros não passa de um cortina de fumaça para esconder o que o ministro da Fazenda reconheceu de forma tão sincera, qual seja, que somos 200 milhões de trouxas sendo explorados por 6 instituições financeiras que só têm feito aumentar seus lucros bilionários enquanto valas comuns estão sendo abertas pelo Brasil afora para receber os trabalhadores mortos pela COVID-19.

É com essa disparidade que teremos de nos defrontar no período pós-pandemia, sem que precisemos nos distrair com as pantomimas rocambolescas dos seguidores mais ardorosos de Jair Bolsonaro. Seguidores esses que, se continuarem se expondo de forma tão irresponsável ao processo de infecção pelo coronavírus, brevemente serão lembrados como kamikazes de uma causa perdida.

 

Por que a desaceleração da China importa para o mundo

(Reuters)
Após décadas de forte crescimento, gigante asiático apresenta sinais de menor atividade econômica

Depois de um período de forte crescimento, a economia da China está agora desacelerando.

Até 2010, o PIB (Produto Interno Bruto, a soma de bens e serviços produzidos por um país) cresceu em média 10% ao ano durante três décadas.

Mas desde então a atividade econômica perdeu força. No ano passado, a economia chinesa cresceu 7,4%. Segundo a previsão mais recente do Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB do país deve registrar alta de 6,8% neste ano e 6,3% em 2016.

Mas por que isso é importante?

Por que a economia da China está desacelerando?

Crédito: Reuters
Política do filho único na China pode levar à escassez de trabalhadores?

O governo queria uma retração, e, de certa forma, a incentivou porque há forças de longo prazo que, inevitavelmente, produziram tal resultado.

O melhor dos mundos é que o gigante asiático obtenha uma desaceleração moderada ─ chamada de “aterrisagem suave” ─ do que uma abrupta.

Além disso, o rápido crescimento econômico do país era baseado em alguns fatores que não durariam para sempre.

Níveis de investimento muito altos têm papel fundamental nessa história.

No ano passado, eles respondiam por 48% do PIB, segundo estimativas do FMI.

Para efeitos de comparação, no mesmo período, no Brasil, essa proporção era de 19,7%, abaixo do que os especialistas recomendam para um crescimento sustentável da economia (em torno de 25%).

Há poucas economias no mundo onde essa taxa se mantém tão alta.

Na maioria dos países, como o Brasil, o número varia entre 15% e 30%.

O investimento é certamente essencial para ampliar a capacidade da economia no futuro.

Na prática, altas taxas de investimento são um fator importante por trás das histórias de sucesso de muitos países asiáticos.

Mas é quase impossível mantê-las a um nível tão alto por tanto tempo.

Há sempre um risco com os investimentos em larga escala: alguns projetos podem ser antieconômicos.

Forte investimento em construção, por exemplo, pode criar instabilidade nos preços dos imóveis, e, atualmente, há preocupações persistentes sobre se haverá uma crise imobiliária na China.

Sendo assim, o objetivo do governo é fazer com que o consumo das famílias chinesas desempenhe um papel mais preponderante na economia, o que conta com o apoio do FMI.

Um relatório da instituição concluiu em 2012 que o nível de investimento chinês estava muito alto.

Há também o limite de oferta de novos trabalhadores que saem do campo em direção às cidades.

O FMI alertou que a China poderia enfrentar uma escassez de trabalhadores, parcialmente por causa da política de filho único vigente no país.

O que aconteceu com as exportações da China?

Exportações de produtos baratos foram fundamentais para explicar crescimento formidável da China

Exportações de produtos muito baratos foram fundamentais para explicar o crescimento formidável da China.

Da virada do século até 2011, em apenas dois anos as vendas externas do país não cresceram mais do que 10% anualmente.

Desse período, em seis anos, as exportações chegaram a registrar alta superior a 20%.

As exceções foram 2008 e 2009, quando os principais destinos das vendas chinesas no Ocidente foram atingidos em cheio pela crise financeira.

Desde 2011, no entanto, as exportações chinesas vêm sendo mais modestas, caindo para 6,4% no ano passado.

O bom desempenho das vendas do país para o exterior, no entanto, é alvo de críticas, especialmente dos Estados Unidos.

Estudam afirmam que emprego e salários foram afetados na indústria americana exposta à competição com produtos feitos na China.

O saldo comercial ─ a diferença entre exportações e importações ─ também é visto por alguns especialistas como um sinal do desafio que o país representa para a indústria manufatureira em nações desenvolvidas.

Mas observando um único dado ─ o superávit em conta corrente ─ essa situação se moderou.

Essa é uma medida das transações da China com o resto do mundo, e não com um país específico.

Como proporção do PIB chinês, esse superávit atingiu 10% em 2007. No ano passado, contudo, foi de 2%.

Em termos financeiros, o saldo ainda é alto, em torno de US$ 200 bilhões (R$ 600 bilhões).

Qual será o impacto da desaceleração da China para todos nós?

Menor atividade econômica da China teve impacto no preço global das commodities

A China não só exporta, mas importa muito. Essa é uma das razões por que uma atividade econômica mais enfraquecida importa para o resto do mundo.

O gigante asiático é, atualmente, o segundo maior importador de produtos e serviços comerciais, atrás dos Estados Unidos.

É também o principal destino das exportações da Tailândia e ocupa o segundo lugar para países como Indonésia, África do Sul, Brasil e Japão – nos dois últimos, não está longe da primeira posição.

A China é, ainda, o terceiro maior mercado para a União Europeia (formada por 28 países) e o quarto principal destino das vendas do Reino Unido e dos Estados Unidos.

O país é um ávido consumidor de petróleo e de outras commodities, e a desaceleração do país está por trás da queda do preço internacional desses produtos nos últimos meses.

Assim, apesar de o crescimento mais moderado da China ser benéfico a longo prazo, o menor apetite do gigante asiático tem um impacto negativo para muitos países, especialmente os chamados “exportadores de commodities”, como o Brasil, por exemplo.

Há também a possibilidade de que a instabilidade financeira da China se espalhe pelo mundo.

Desde a crise financeira, a dívida do país tem crescido rapidamente.

Um relatório recente do FMI mostrou preocupação sobre o mercado imobiliário e como isso poderia afetar empresas que fizeram empréstimos vultosos a esse setor.

“Na China, exposições aos imóveis (excluindo hipotecas) estão a quase 20% do PIB, e uma instabilidade financeira entre empresas do setor pode causar efeitos nocivos diretos fora de suas fronteiras”, informou o estudo.

Qual é o tamanho da economia chinesa?

Crédito: Reuters
Em 2014, China ultrapassou EUA em paridade do poder de compra

Dependendo de como se analisam os números, a China é hoje a maior ou segunda maior economia do planeta.

A variação se deve ao fato de que, para comparar o tamanho de economias, é preciso converter os números em uma mesma moeda.

Normalmente, a divisa usada é o dólar americano, e há duas maneiras que os economistas fazem isso.

Uma é converter valores usando a taxa de câmbio; a outra consiste em um método chamado paridade do poder de compra (PPP, na sigla em inglês), que tende a ser mais preciso, pois corrige as distorções de preço.

No ano passado, a China ultrapassou os Estados Unidos em paridade do poder de compra.

Se a primeira medida for usada, contudo, o gigante asiático ainda permanece em segundo lugar. Por essa ótica, a economia chinesa vale cerca de US$ 10 trilhões (R$ 30 trilhões).

Para efeitos de comparação, os valores são de US$ 17,4 trilhões para os EUA, US$ 4,6 trilhões para o Japão, US$ 4 trilhões para a Alemanha e US$ 3 trilhões para o Reino Unido. Na lista, o Brasil aparece com US$ 2,3 trilhões.

Em termos per capita ─ o que dá uma indicação mais clara do que aconteceu com os padrões de vida ─ a China avançou 1.300% de 1980 a 2010.

É preciso salientar, no entanto, que nesses termos, a China ainda permanece muito distante dos países ricos.

O PIB do país pode ser muito alto, mas sua população é imensa.

Em PPP, o PIB da China por pessoa equivale a um quarto do dos Estados Unidos e a um terço do Reino Unido. Também é menor do que o do Brasil.

Essa lacuna, no entanto, está se estreitando.

A luta contra a corrupção impulsionada pelo presidente Xi Jinping teve um impacto na economia chinesa?

Crédito: AFP
Governo chinês vem fazendo ‘limpeza’ contra corrupção endêmica

Alguns dizem que sim.

Um relatório do Bank of America Merrill Lynch sugeriu que autoridades chinesas estariam mais relutantes em aprovar projetos pelo risco de serem acusadas de corrupção.

Rumores também indicam que essa mudança de postura do governo chinês também teve um impacto em hotéis e restaurantes.

Mas mesmo se tiver havido um impacto a curto prazo, há uma visão generalizada entre os economistas que a corrupção tem efeitos negativos a longo prazo.

O título de um estudo do Banco Mundial em 1999 traz consigo o próprio questionamento: “Corruption in Economic Development: Beneficial Grease, Minor Annoyance, or Major Obstacle?” (Corrupção no Desenvolvimento Econômico: Gordura Benéfica, Pequeno Contratempo ou Grande Obstáculo?”, em tradução livre)

A conclusão era de que a corrupção se tratava de um grande obstáculo.

A prática encoraja o excesso de gasto público, e distorce a maneira pelo qual ele deve ser usado. As verbas deixam de ser aplicadas em saúde e educação, por exemplo, para serem direcionadas a projetos públicos menos eficientes.

Também inibe o investimento privado ─ embora o investimento insuficiente não seja atualmente um problema na China.

O que devemos esperar para os próximos meses?

As autoridades chinesas divulgam dados econômicos a cada três meses.

No primeiro trimestre deste ano, a economia da China cresceu 7% em relação ao mesmo período do ano anterior e 1,3% sobre os três últimos meses de 2014.

Mas há muito ceticismo sobre a confiabilidade das estimativas oficiais.

Diana Choyleva, da consultoria Lombard Street Research, acredita que o PIB chinês tenha registrado queda de janeiro a março deste ano.

A desaceleração da economia chinesa será um dos principais assuntos dos grandes eventos internacionais de política econômica do ano: a cúpula do G20 na Turquia em novembro e o encontro anual do FMI em outubro, que será realizado no Peru.

Certamente, a menor atividade econômica da China será um fator-chave no cenário global por muitos anos e afetará todos nós.

A expectativa do resto do mundo, entretanto, é de que a China possa alcançar a tão sonhada “aterrisagem suave”.

FONTE: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/05/150508_china_desaceleracao_lgb

O passado e o incerto presente

Por PAULO PASSARINHO   
 
 
Em meio às referências e análises sobre os cinquenta anos que nos separam do golpe de Estado de 1964, uma verdade parece insofismável: os setores da burguesia brasileira e do capital internacional envolvidos no processo de deposição de Jango continuam a mandar no país.

Sob o ponto de vista econômico, o golpe representou a vitória dos segmentos que, desde os anos 1950, defendiam que o caminho “desenvolvimentista” do Brasil deveria passar por uma crescente integração do país com capitais e a tecnologia que o mundo capitalista desenvolvido, especialmente os Estados Unidos, poderiam nos transferir. Daí o protagonismo que Washington teve na preparação, articulação e apoio político e financeiro aos golpistas.

Contudo, é importante destacar, o mundo de então – dos anos 1960 – era bastante diferente do atual. A hegemonia do capital financeiro não se exercia da forma, por exemplo, com que passou a ser imposta com as políticas liberalizantes dos anos 1980/1990, particularmente nesta parte do mundo capitalista onde nos encontramos, que é a América Latina.

Sem a devida compreensão desse processo histórico, muitas confusões ou equívocos analíticos podem ser feitos. Um deles, por exemplo, pode ser a apologia ou defesa das iniciativas da ditadura no campo da infraestrutura, com os investimentos realizados – através de empresas estatais – nas áreas de energia, transportes e telecomunicações.

Foram iniciativas importantes, mas absolutamente coerentes com os processos de internacionalização da economia brasileira e de estímulos à concentração e centralização de capitais, fortalecendo grupos oligopolistas e monopolistas privados, os grandes beneficiários da intervenção estatal nos setores mencionados. A realidade atual que vivemos no setor bancário ou na área televisiva, por exemplo, não teria sido possível sem este aporte estatal, que criou ótimas condições infraestruturais para grupos privados, como são os casos atuais do Itaú/Unibanco ou das Organizações Globo, exercerem o domínio que hoje dispõem.

Esses grandes projetos da ditadura foram também viabilizados através de financiamentos externos que, especialmente nos anos 1970, os governos da periferia do capitalismo central foram incentivados a assumirem, estimulados pela abundância de recursos disponíveis no mercado financeiro internacional, com taxas de juros muito atrativas. Ao final daquela década, contudo, o banco central dos Estados Unidos eleva substancialmente a sua taxa básica de juros e o cenário do farto e barato financiamento aos países do terceiro mundo se altera por completo. Os contratos de endividamento anteriores se encarecem – por conta das chamadas taxas de juros flutuantes, reajustadas de acordo com as taxas de remuneração vigentes no “mercado” – e os países endividados entram em crise, por conta do impacto que a dívida externa gera, encarecida pelo custo corrente da conta de juros, escancaradamente elevada.

Esse processo nos levou à chamada crise da dívida externa dos países em desenvolvimento, ao longo de toda a década de 1980. Aqui no Brasil, essa crise acelerou o processo de transição da ditadura, abrindo espaço para a redemocratização – “pelo alto” – do país. Mas, acima de tudo, essa crise representou o fim do processo de desenvolvimento que havíamos experimentado até então. O Estado brasileiro entra em crise e o dito modelo de substituição de importações – que, de uma forma genérica, desde os anos 1950, orientava a condução econômica do país – tem o seu fim.

As crises que vivenciamos ao longo dos anos de 1980 e nos primeiros anos da década de 1990 estão relacionadas a esse desarranjo econômico e à falta de um consenso político entre as classes dominantes sobre como superar esse quadro. A “solução”, curiosamente, somente começa a surgir ao fim do processo de renegociação da dívida externa do país – aliás, patrocinada pelo governo dos Estados Unidos – e  com a adoção, quase que simultaneamente, do programa de reformas liberalizantes, envolvendo amplo programa de privatizações e mudanças legais, incluindo alterações constitucionais, buscando ampliar as aberturas financeira, comercial e produtiva do país.

Entramos, assim, na era neoliberal, com a adoção de uma nova moeda, atrelada ao dólar, e nos integramos financeiramente aos circuitos internacionais das finanças mundiais, com a remoção de todos os instrumentos e medidas que impediam, anteriormente, a livre movimentação de capitais. Na prática, renunciamos, com essas medidas, à necessária autonomia para definir nossa política macroeconômica, de acordo com as nossas necessidades.

Câmbio valorizado, como instrumento artificial de combate à inflação e aumento da oferta de bens e serviços importados; e juros reais elevados, como consequência desta política cambial – independentemente dos regimes de “âncora cambial” (1994/1998) ou “câmbio flutuante” (1999 até hoje) –, passaram a ser características do modelo que nos empurra a uma condição neocolonial, com a política fiscal ficando subordinada aos constrangimentos orçamentários decorrentes do endividamento interno, produzido pelos efeitos deletérios das políticas cambial e monetária.

Para gerar as divisas necessárias ao financiamento de um modelo que nos expõe sobremaneira aos humores do mercado internacional de capitais, radicalizamos a opção exportadora de commodities agrícolas e minerais, segmentos em que disporíamos de “vantagens comparativas”, concedendo ao setor do agronegócio inúmeras facilidades e incentivos, transformando o latifúndio produtivo em uma tábua de salvação.

Os principais beneficiários deste modelo são os bancos e as multinacionais, justamente os segmentos que igualmente mais se beneficiaram em 1964, com o golpe de Estado, com a ditadura e com o “desenvolvimentismo” sob a batuta dos militares.

Agora, entretanto, ao contrário do período da ditadura, o apoio ao modelo antinacional e antipopular possui grande respaldo. A partir de 2003, os governos presididos por Lula operaram a construção de um poderoso pacto social, procurando conceder vantagens aos mais pobres, ao movimento sindical, aos movimentos sociais e suas pautas específicas de reivindicações. Porém, sempre com o cuidado de não colocar em risco nenhuma das premissas de interesse dos bancos, das multinacionais e do latifúndio produtivo, guindado ao posto estratégico de “estrela maior” de uma economia cada vez mais desnacionalizada. É um pacto social em torno do programa ditado pelo setor financeiro.

O dilema de Dilma Rousseff é que, com o tempo avançando, as fissuras do modelo reaparecem. Com FHC, houve aquele fôlego inicial de 1994/1998, com uma popularidade para o seu governo que lhe permitiu a fraude constitucional da emenda da reeleição e a sua própria vitória eleitoral, já no primeiro turno, tanto em 1994, como também em 1998.

Lula, com o céu de brigadeiro da economia internacional entre os anos de 2003 e 2007, reelegeu-se em 2006, soube segurar o tranco da crise mundial de 2008 e garantiu a eleição de Dilma, em 2010. Entretanto, neste momento, o modelo dos bancos e das multinacionais volta a entrar em crise, com a deterioração das contas externas do país, baixo crescimento econômico, gritante degradação dos serviços públicos e a tensão política do ano eleitoral e da polêmica realização da Copa do Mundo no Brasil.

Paulo Passarinho é economista

FONTE: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9487:submanchete030414&catid=72:imagens-rolantes

Cegos no Tiroteio

Por  PAULO PASSARINHO   

copa

Definitivamente, as coisas não andam lá muito bem para o governo Dilma.

Após três anos completos do seu governo, o que assistimos foi a contínua frustração da meta de se retomar o crescimento econômico, nos níveis do segundo mandato do governo Lula, conforme era a expectativa oficial.

Além disso, acrescente-se que, depois do início do seu governo, quando foi elevada a taxa Selic até 12,5% ao ano, a ideia predominante no governo foi de reduzir a taxa básica de juros, em termos reais, para 2% ao ano. De fato, para tanto, iniciou-se um ciclo de redução da taxa Selic que chegou a levá-la a 7,25%.

Contudo, como temos visto desde abril do ano passado, e alegando-se como sempre os riscos de pressões inflacionárias, o Banco Central voltou a lançar mão do aparentemente único instrumento de que dispõe para enfrentar esse tipo de problema, que é a elevação da taxa básica. Desde então, a Selic sofreu sucessivos aumentos, encontra-se em 10,75% ao ano – voltando a colocar o Brasil na liderança dos países que praticam as taxas reais de juros mais elevadas do mundo –, e não há a menor certeza de que esse atual ciclo de alta tenha chegado ao seu término. Em recente depoimento no Senado, Alexandre Tombini deu a entender que, pressionado pela alta dos alimentos(!) e seus reflexos na inflação em curso, o atual ciclo de elevação da Selic deve prosseguir.

O que a inflação de alimentos tem a ver com supostas pressões de demanda, ou a possibilidade de reversão deste quadro com a continuidade do processo de elevação da Selic, somente a desfaçatez dos arautos do mercado financeiro pode explicar.

Mas o quadro econômico negativo não se resume a esses pontos.

A longa e continuada utilização do câmbio valorizado, para conter custos internos e manter a inflação sob controle, tem o seu preço. Depois da fase de bonança, que nos propiciou saldos positivos nas transações correntes do país, viabilizados por expressivos e crescentes saldos comerciais, especialmente entre os anos de 2003 e 2007 (decorrência da alta de preços de commodities agrícolas e minerais), voltamos agora a contrair déficits em conta-corrente e uma perigosa trajetória de redução significativa dos saldos comerciais do país, cada vez mais dependente de importações, e de uma conta de serviços em constante elevação.

Para que os leitores tenham uma ideia, em 2006, nosso saldo comercial recorde chegou a US$ 46,5 bilhões; agora, em 2013, fechamos a conta de comércio com um saldo de apenas US$ 2,6 bilhões. Enquanto isso, neste mesmo intervalo de tempo, nosso saldo negativo da conta de serviços e rendas saiu de US$ 37,1 bilhões para US$ 87,3 bilhões. Esses números são apenas uma indicação da forma como vamos – frente à acelerada desnacionalização do parque produtivo, regressão do grau de autonomia tecnológica de nossa indústria e acelerada dependência às importações – nos tornando cada vez mais vulneráveis às oscilações da economia mundial, com reflexos mais do que negativos em nossas contas externas.

Mas os problemas não se limitam à esfera macroeconômica. Há sérias incertezas na área energética, com a desastrada política do setor elétrico impondo pesadas perdas ao complexo Eletrobrás, comprometendo sua capacidade de novos investimentos e gestão estratégica, ao mesmo tempo em que – particularmente frente aos baixos níveis dos reservatórios das hidrelétricas – cada vez mais dependemos da geração de energia a partir das termoelétricas, com inevitáveis impactos de custo que, cedo ou tarde, tenderão a ser transferidos aos consumidores.

Para coroar esse quadro nada positivo, temos um ano eleitoral que aguça a disputa política e já produziu uma dissidência importante no bloco de forças que sustenta o atual governo, com o lançamento da candidatura presidencial de Eduardo Campos, do PSB, contando com o apoio de Marina Silva, ex-petista, ex-ministra de Lula e, hoje, uma espécie de neo-tucana, pré-candidata a vice-presidente na chapa do governador de Pernambuco.

A favor do governo Dilma, seus apoiadores destacam que, apesar de todas as dificuldades em curso, o desemprego se encontra sob controle, em níveis reduzidos para a realidade brasileira, e a renda dos trabalhadores continua em recuperação, embora em um ritmo bastante reduzido. A grande incógnita é que, com esse quadro macroeconômico negativo, a conjuntura eleitoral de disputa e as incertezas e insatisfações acumuladas e crescentes, dificilmente poderemos vir a ter um panorama conjuntural que não acentue a crise de credibilidade do governo.

Mais do que isso, as motivações que levaram multidões às ruas no ano passado – por razões por demais diferenciadas, mas que indicam o esgotamento de uma era de imposturas, inaugurada no país desde meados dos anos 1990 – continuam sem uma resposta convincente dos poderes constituídos.

Neste ano de Copa do Mundo, as manifestações tenderão a readquirir uma nova radicalidade, com diversas categorias de trabalhadores em luta, e a crescente consciência e organização dos movimentos sociais na busca de bandeiras comuns reivindicativas, como é o caso da campanha pelos “10% do PIB para a educação pública” ou a luta pela destinação de “10% do Orçamento da União para a Saúde Pública”. São bandeiras que podem unificar amplos setores dos trabalhadores, além de colocar na berlinda o modelo econômico em curso no país.

O que lamentamos é que, à frente do governo federal, se encontrem forças políticas que – tendo origem na esquerda – deixaram de lado as suas antigas convicções e agora se coloquem como obstáculos para as necessárias mudanças que o país exige, ao menos sob o ponto de vista dos trabalhadores.

Em nome de uma medíocre – e covarde – concepção de governabilidade, essas forças encontram-se cegas, em meio a um verdadeiro tiroteio político, de consequências ainda imprevisíveis.

Paulo Passarinho é economista.

Eike Batista: 68% mais pobre e com problemas de endividamento

O Jornal Valor Econômico publicou hoje uma matéria (veja síntese abaixo) mostrando que Eike Batista possui atualmente apenas R$ 2 bilhões em ações de suas antigas empresas, o que representa um impressionante decréscimo dos estimados 70 bilhões de dólares que chegou a possui. E mais, a matéria aponta para o fato de que Eike, mesmo após cortar na própria carne, continua com problemas para equacionar o pagamento de suas dívidas.

Apesar do Valor Econômico sinalizar que o Grupo EBX já passou por seu momento mais agudo, todas as sinalizações que são atualmente emitidas pela economia mundial apontam para o fato de que Eike ainda poderá ficar ainda mais pobre ao longo de 2014.

Fortuna de Eike encolhe e suas ações valem R$ 2 bilhões na bolsa

Eike Batista iniciou 2014 assim como terminou 2013: vendendo participações em empresas para levantar recursos. Conforme as últimas notícias, em dezembro vendeu sua fatia na BRIX, bolsa de comercialização de energia; e, semana passada, deixou a SIX Semicondutores. A movimentação sinaliza que apesar de ter superado o momento agudo da crise em seu grupo, com soluções mais ou menos drásticas, o empresário ainda não conseguiu equacionar seu endividamento.

FONTE: http://www.valor.com.br/empresas/3398318/fortuna-de-eike-encolhe-e-suas-acoes-valem-r-2-bilhoes-na-bolsa#ixzz2qgDLSCDS