Brumadinho, desastre anunciado, Santa Barbara, uma possibilidade

dam_road-3000
Por Frederico Lopes Freire*
A lição não foi aprendida, se em Mariana pode ser alegado algum desconhecimento ou desatenção pelo ineditismo, isto não se aplica a Brumadinho.
Versões sobre o ocorrido surgem diariamente, todas com foco em liquefação. Para haver liquefação obviamente é necessária a presença de líquido.
A observação simples de imagens disponíveis no Google Earth, em ordem cronológica a partir de 2011, até a última em 2018, são claras para qualquer observador mais atento, seja um especialista ou não.

imagem 3
Imagem 03 – datada de 30 de julho de 2011
O escoamento das águas superficiais é claramente indicado pelas cotas de nível do interior da barragem, as setas indicando o fluxo em direção a dois pontos de drenagem (cotas 912 e 913).
Estas águas tem origem na precipitação pluvial no local e em encostas montanhosas na parte posterior da barragem, sendo visível na cota 948 um ponto de entrada de águas. Certamente não é o único, mas este é possivelmente alimentado por uma nascente ou córrego. Podemos observar também as cotas do perímetro da barragem e de alguns pontos do seu talude.
A mancha escura provocada pela presença e fluxo das águas superficiais é claramente visível.

imagem 4
Imagem 04 – datada de 03 de setembro de 2012
Serviços de terraplanagem e outros não identificáveis estão sendo executados.
Canteiro de obras pode ser visto no talude da barragem. Os pontos de escoamento de águas da imagem anterior (03) foram desativados, e uma inversão da declividade a partir da barragem, indica o fluxo das águas superficiais na direção de uma área interna em torno da cota 912.
Cotas de perímetro inalteradas. No lado direito da imagem, cota 941, nova entrada de águas superficiais partindo da estrada adjacente, pode ser observada. O mesmo ocorre na extremidade oposta da barragem na cota 945.
Não são mais visíveis pontos de escoamento das águas superficiais. A mancha produzida pelo acúmulo de águas superficiais fica restrita a metade superior da área da barragem.

imagem 5
Imagem 05 – Datada de 23 de agosto de 2014.
Não há alteração nas cotas de perímetro ou existência de atividades visíveis. A mancha produzida pelo acúmulo de águas superficiais se expande em direção a barragem.

imagem 6
Imagem 06 – datada de 16 de agosto de 2015.
Não há alteração nas cotas e nem existência de atividades visíveis. A tonalidade da mancha produzida pelo acúmulo de águas superficiais se acentua, e ocupa agora toda a área da barragem.

imagem 7
Imagem 07 – datada de 10 de junho de 2017
Não há alteração nas cotas e nem atividades visíveis. A tonalidade da mancha produzida pelo acúmulo de águas superficiais se acentua cada vez mais, ocupando toda a área da barragem. Não há drenagem visível, o rejeito continua sendo impregnado por água.

imagem 8
Imagem 08 – datada de 21 de julho de 2018- última imagem disponível
Não há alteração de cotas ou atividades visíveis. A mancha produzida pelo acúmulo de umidade torna difícil identificar o tipo de superfície aparente.
O espaço de tempo entre a imagem 04, datada de 03 de setembro de 2012, quando foram eliminados os pontos de escoamento de águas superficiais, e a imagem atual, é de 2.146 dias, ou aproximadamente 6 anos. Devemos acrescentar mais 188 dias decorridos até o rompimento da barragem.

imagem 10
Imagem 10 – com base na última imagem disponível ( 21/07/2018).
Indica uma bacia de contribuição de águas pluviais de aproximadamente 90 hectares para a barragem 1, apenas no trecho até a estrada acima.
Em todo o período de tempo analisado, nenhuma atividade relacionada com drenagem de águas superficiais pôde ser observada.
Não há liquefação sem a presença de líquido.
Olhos experientes teriam constatado que algo precisava ser feito com relação a drenagem local, independentemente de instrumentos de monitoramento. Não seria tão dispendiosa uma drenagem de perímetro, direcionando as águas afluentes para outro local.
É preciso aprender com os erros, para não repeti-los. É preciso dar valor aos profissionais experientes, sejam de nível superior ou simples operários.
Exigem-se títulos e diplomas teóricos para os professores universitários, eles são avaliados pela variedade e quantidade destes. Despreza-se a experiência e a prática. Jovens aprendem a confiar somente na tecnologia cada vez mais sofisticada, perdem a capacidade de avaliar e tomar decisões que não sejam corroboradas pelos instrumentos. Todavia, piezometros não tomam decisões, indicam decisões a serem tomadas.
Que as lições sejam aprendidas, pois muitos outros incidentes deste tipo estão pendentes, alguns muitíssimo mais graves como no caso de minerações auríferas, onde contaminação por cianureto, uma das mais perigosas substancias conhecidas, está presente.

O perigo ronda Santa Bárbara: o gigantesco reservatório da AngloGold Ashanti guarda o equivalente 13 bilhões de litros de rejeitos contaminados com cianeto

Informações recebidas através de vídeo gravado em 18 de março de 2018, e enviado pela médica veterinária Sara Xavier, moradora da cidade de Santa Bárbara chamando a atenção para a barragem localizada na comunidade de Carrapato. A quantidade de rejeito de mineração de ouro acumulada no local é de cerca de 13.000.000 de m3, ou 13 bilhões de litros, contaminados com cianeto, ou cianureto de potássio. Com cerca de 40 m de altura e 500 m de extensão, a barragem usa o mesmo sistema construtivo de Mariana e Brumadinho, utilizando alteamentos sucessivos.


Usado para a separação do ouro de outros metais e resíduos, o cianeto é uma das substâncias mais perigosas conhecidas, podendo uma pitada matar um ser humano em segundos. Os danos para qualquer tipo de vida, vegetal ou animal, é imensurável num caso de vazamento da lama.
A mineração pertence a empresa AngloGold Ashanti, Sul Africana com capital americano segundo a Dra. Xavier, que ainda informa não haver qualquer tipo de informações ou treinamento fornecidos a população.
É fácil constatar nas imagens a grande quantidade de líquido recobrindo o depósito. No caso de um rompimento o caminho da lama atingirá a jusante o rio Piracicaba em Minas Gerais, ou seja, a bacia do Rio Doce.


Frederico Lopes Freire é Arquiteto, possuindo ampla experiência profissional no Brasil e nos EUA, e atualmente vive no município de Colatina, norte do estado do Espírito Santo.