Forbes sintetiza a situação brasileira: até quando esta loucura vai continuar?

O Brasil realmente pode ser tão ruim assim, mas por quanto tempo?

bolso choro

Uma paciente do Covid-19 reage enquanto se prepara para ser transferida de barco de ambulância para um hospital em Breves … [+] AFP VIA GETTY IMAGES

Por Kenneth Rapoza para a revista Forbes

O Brasil está sendo espancado na política da pandemia, e os investidores, embora capazes de ganhar dinheiro por lá, ainda estão coçando a cabeça. Quanto tempo essa loucura pode durar?

O presidente Jair Bolsonaro está no comando. Ele é odiado pela mídia, incluindo a maioria da imprensa estrangeira que é muito crítica a ele.

Bolsonaro é fácil de criticar, é claro. Ele gosta de lutar contra a mídia e dar joelhadas no que ela diz. O coronavírus é mortal! Não, não é, é apenas um resfriado.

A revista científica britânica The Lancet, conhecida por mergulhar na política, pediu sua demissão. Não foi baseado em ciência. Foi baseado na opinião de celebridades e professores de esquerda. Não, sério.

walkingAs pessoas andam por uma rua comercial após a reabertura, no centro de São Paulo, em 10 de junho de 2020. O município de São Paulo autorizou a reabertura de ruas comerciais sob medidas de segurança, como o uso de álcool gel e máscaras faciais.  Foto de NELSON ALMEIDA / AFP (Foto de NELSON ALMEIDA / AFP via Getty Images) AFP VIA GETTY IMAGES

O Brasil está sendo completamente envergonhado pelos erros do governo Bolsonaro em combater o coronavírus, ao mesmo tempo em que é elogiado pelo mercado por fazer um bom trabalho em impedir as consequências econômicas por meio de estímulos recordes aos brasileiros, especialmente à classe trabalhadora.

As ações do Brasil, conforme medidas pelo ETF iShares MSCI Brazil (EWZ), caíram 33% no acumulado do ano, muito piores do que outros mercados emergentes no benchmark MSCI Emerging Markets. Eles caíram apenas 8,8%.

O horário de pré-mercado diminuiu o EWZ mais 6,04%, embora seja principalmente uma realização de lucros. O Brasil, como um investimento amplo, é totalmente sobrecomprado.

Em 9 de junho, a Fitch Ratings atualizou as previsões econômicas e fiscais brasileiras de estáveis para negativas. Eles reduziram a previsão de crescimento do PIB real do país em 26 de maio e isso ainda permanece em uma contração de 6% em relação aos 4% anteriormente, em grande parte devido à atual crise de saúde pública.

Brasília agora é um novo epicentro.

No geral, o país tem 772.416 casos confirmados e 39.680 mortes até quarta-feira (10/06) à noite.

As medidas de distanciamento social continuarão pesando na atividade doméstica, apesar da variação da conformidade nos estados, escreveram analistas da Fitch, liderados por Shelly Shetty, em nota aos clientes na terça-feira.

bolsaApós um grande impulso, as ações do Brasil perderam força. (Foto de Cris Faga / NurPhoto via … [+] NURFHOTO VIA GETTY IMAGES

Quão ruim isso pode ficar e quão ruim pode ser?

A contração do PIB no primeiro trimestre foi menor do que o esperado, mas quedas mensais acentuadas na produção industrial em março (9%) e abril (18,8%), queda na confiança dos negócios e do consumidor e aumento progressivo do desemprego indicam que o impacto do impacto será sentido na economia. segundo trimestre, que termina em cerca de três semanas.

As receitas do governo federal caíram 32% em abril, enquanto as despesas aumentaram 45% devido aos pacotes de ajuda. Isso resultou em um déficit fiscal recorde de R $ 93 bilhões (US $ 18,6 bilhões) em abril, observa Gustavo Medeiros, analista da Ashmore, especialista em mercados emergentes em Londres.

A produção industrial caiu 18,8% em abril, a pior queda já registrada, “mas isso foi melhor do que a expectativa de um declínio de 28,3% do consenso”, diz Medeiros.

Uau …

O Brasil voltou a ser uma jogada da China. A recuperação chinesa é boa para as exportações brasileiras – todas commodities, é claro. A China importa principalmente soja e minério de ferro brasileiros.

Mas, à medida que o sul e o sudeste do Brasil se curam, e esses são os motores econômicos do Brasil, o país deve ter uma sensação de normalidade nas próximas quatro semanas, mesmo que o coronavírus se manifeste nos estados do centro-oeste a seguir.

O alto custo de capital no Brasil prejudicou a inovação e o empreendedorismo local no passado, mas as taxas de juros nunca foram tão baixas quanto são agora.

As empresas podem emprestar mais barato agora.

Para Wall Street, o argumento é que Bolsonaro pode ser uma biruta, mas investir no Brasil é mais atraente do que nunca. Os mercados estão procurando uma mudança de momento. O Brasil tem sido um trem descontrolado. É hora de pisar no freio. Mas isso não vai durar para sempre. Nem o coronavírus,  por mais ruim que esteja no Brasil.

“De nossa perspectiva de baixo para cima, estamos entusiasmados com as oportunidades em todo o universo de investimentos, onde quer que as encontremos”, diz John Paul Lech, gerente de fundos de mercados emergentes da Matthews Asia.

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pela revista Forbes [Aqui!].

Com a pandemia fora de controle, trabalhadores brasileiros são jogados nos braços da COVID-19

Depois que muito outros milhares de brasileiros morrerem por causa da insensibilidade e irresponsabilidade dos governantes que colocam o lucro acima da vida, lembrem bem dessa imagem de um ônibus carregando trabalhadores na cidade do Rio de Janeiro. É nesse sistema de transporte público aquém da dignidade dos transportados, que governantes como Marcelo Crivella e Wilson Witzel estão jogando os trabalhadores nos braços mortais da COVID-19.

pandemia isolamento

O fato inescapável é que as elites econômicas do Brasil estão satisfeitas em poder jogar milhões de trabalhadores pobres no cadafalso em nome da manutenção das políticas ultraneoliberais do governo Bolsonaro e do seu ministro banqueiro, Paulo Guedes. É que, ao contrário dos trabalhadores, as elites possuem jatos, helicópteros que podem levar seus membros para o interior de mansões nababescas.

No futuro quando se olhar para essas imagens, poderemos lembrar que em meio a uma pandemia letal e com a curva de contaminação ainda longe do seu pico, os trabalhadores foram sacrificados para que os ricos pudessem continuar suas vidas luxuriantes, como se nada estivesse acontecendo.

Enquanto isso, a COVID-19 segue sua margem implacável: o Brasil possui no momento em números oficiais um total 742.084 de pessoas infectados pelo coronavírus e 38.497 mortos. E isto sem levar a óbvia subnotificação que omite uma quantidade ainda desconhecida de pessoas afetadas pela pandemia.

 

Mais de 70 entidades assinam nota contra ocultação de dados da COVID-19 pelo governo Bolsonaro

ocultação

A nota foi divulgada nesse domingo, 7 de junho,  pela SBPC e pela ABC. “Repudiamos qualquer omissão ou deturpação de dados relativos à covid-19. A subtração e a manipulação de dados não mudam a realidade. E não aliviam o peso de milhares de mortes sobre aqueles que preferirem a ficção à ação, abdicando de seu dever de proteger a saúde da população”, escrevem as entidades

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), divulgaram nesse domingo, 7 de junho uma nota contra a ocultação de dados da covid-19 pelo governo. Até o momento, o documento foi subscrito por mais de 70 entidades e instituições de todo o País.

Na carta, as entidades alertam que a atitude do atitude do Governo Federal em não revelar os dados da pandemia permite a manipulação das informações sobre a evolução da doença no Brasil, além de impedir o correto acompanhamento e contenção do vírus que já infectou centenas de milhares de pessoas e levou dezenas de milhares à morte.

“Repudiamos qualquer omissão ou deturpação de dados relativos à COVID-19. A subtração e a manipulação de dados não mudam a realidade. E não aliviam o peso de milhares de mortes sobre aqueles que preferirem a ficção à ação, abdicando de seu dever de proteger a saúde da população”, escrevem as entidades.

O documento foi encaminhado ao Ministério da Saúde (MS), à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde (SCTIE) do MS, ao Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), ao Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e ao Conselho Nacional de Saúde (CNS).

Leia a carta na íntegra:

NOTA DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS E DA SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA SOBRE A OCULTAÇÃO DOS DADOS DA COVID-19

Na noite de sexta feira, 5 de junho de 2020, foi retirado o acesso ao portal do governo federal que divulga os dados diários da COVID-19. O referido portal foi reaberto no sábado, 6 de junho de 2020, contendo informações reduzidas, com a justificativa de adoção de nova sistemática de contabilização de casos e óbitos causados pela doença.

A atitude do Governo em não revelar os dados da pandemia permite a manipulação das informações sobre a evolução da COVID-19 no país e impede o acompanhamento e a contenção da doença que tem afetado centenas de milhares de brasileiros. Um cenário de desinformação contribui para que a população se sinta abandonada à sua própria sorte. A ocultação de dados prejudica também a programação para volta de atividades e circulação de pessoas, impactando o planejamento econômico para a saída da recessão, e atenta contra a imagem do Brasil no exterior.

Os dados epidemiológicos são fundamentais para esse planejamento e impactam não somente o conhecimento da evolução da doença no país, mas também no exterior, pois são coletados por instituições  como a tradicional universidade John Hopkins dos Estados Unidos e o Imperial College do Reino Unido. É inaceitável a omissão dos dados sobre a pandemia

É, portanto, indispensável e urgente que sejam restabelecidas a transparência e a clareza na divulgação dos dados, em tempo real, para toda a população e para o mundo, condição necessária para o enfrentamento dessa terrível pandemia. Só assim será possível, a partir da análise científica baseada em dados confiáveis, sair da crise e reduzir o número de vítimas.

Repudiamos qualquer omissão ou deturpação de dados relativos à COVID-19. A subtração e a manipulação de dados não mudam a realidade. E não aliviam o peso de milhares de mortes sobre aqueles que preferirem a ficção à ação, abdicando de seu dever de proteger a saúde da população.

Rio de Janeiro, 7 de junho de 2020

Ildeu de Castro Moreira

Presidente da SBPC

 Luiz Davidovich

Presidente da ABC

Veja o documento aqui.

 

Além da SBPC e da ABC, subscrevem o documento as seguintes entidades:

Academia de Ciências do Estado de São Paulo (ACIESP)

Academia Pernambucana de Ciências (APC)

Associação Brasileira de Antropologia (ABA)

Associação Brasileira de Bioinformática e Biologia Computacional (AB3C)

Associação Brasileira de Ciência Ecológica e Conservação (ABECO)

Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP)

Associação Brasileira de Ciências Farmacêuticas (ABCF)

Associação Brasileira de Cristalografia (ABCr)

Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM)

Associação Brasileira de Engenharia e Ciências Mecânicas (ABCM)

Associação Brasileira de Estatística (SBE)

Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED)

Associação Brasileira de Etnomusicologia (ABET)

Associação Brasileira de Imprensa (ABI)

Associação Brasileira de Limnologia (ABLimno)

Associação Brasileira de Linguística (Abralin)

Associação Brasileira de Mutagênese e Genômica Ambiental (Mutagen-Brasil)

Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (ABRAPEC)

Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor)

Associação Brasileira de Química (ABQ)

Associação Nacional de História (ANPUH)

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (ANPARQ)

Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP)

Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (ANPOLL)

Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS)

Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPED)

Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE)

Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR)

Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF)

Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação (COMPÓS)

Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE)

Federação Brasileira das Associações Científicas e Acadêmicas da Comunicação (SOCICOM)

Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FESBE)

Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC)

Sociedade Astronômica Brasileira (SAB)

Sociedade Brasileira de Automática (SBA)

Sociedade Brasileira de Biofísica (SBBfis)

Sociedade Brasileira de Biologia Celular (SBBC)

Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular (SBBq)

Sociedade Brasileira de Computação (SBC)

Sociedade Brasileira de Ecotoxicologia (ECOTOX-Brasil)

Sociedade Brasileira de Eletromagnetismo (SBMAG)

Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos (SBEC)

Sociedade Brasileira de Farmacognosia (SBFGnosia)

Sociedade Brasileira de Física (SBF)

Sociedade Brasileira de Fisiologia (SBFis)

Sociedade Brasileira de Fisiologia Vegetal (SBFV)

Sociedade Brasileira de Genética (SBG)

Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC)

Sociedade Brasileira de História da Educação (SBHE)

Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI)

Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI)

Sociedade Brasileira de Inflamação (SBIN)

Sociedade Brasileira de Matemática (SBM)

Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC)

Sociedade Brasileira de Microbiologia (SBM)

Sociedade Brasileira de Microeletrônica (SBMicro)

Sociedade Brasileira de Micro-ondas e Optoeletrônica (SBMO)

Sociedade Brasileira de Microscopia e Microanálise (SBMM)

Sociedade Brasileira de Ornitologia (SBO)

Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP)

Sociedade Brasileira de Parasitologia (SBP)

Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais (SBPMat)

Sociedade Brasileira de Pesquisa Operacional (SOBRAPO)

Sociedade Brasileira de Protozoologia (SBPz)

Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP)

Sociedade Brasileira de Química (SBQ)

Sociedade Brasileira de Telecomunicações (SBrT)

Sociedade Brasileira de Virologia (SBV)

Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB)

União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (Ulepicc-Brasil)

Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional (ABRAPEE)

Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (ECOECO)

Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO)

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Esta matéria foi inicialmente publicada pelo jornal eletrônico da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) [Aqui!].

Garimpo ilegal e devastação ambiental na Terra dos Yonamami: esse é a “gestão modelo” do governo Bolsonaro

alto-uraricuera-6-2_article_column@2xUm dos muitos garimpos ilegais existentes dentro da Terra Indígena Yonamami. Na porção inferior é visível a presença de dezenas de balsas de mineração.

Toda vez que surge algum tipo de evidência acerca do desastre de grandes proporções que está ocorrendo na Amazônia sob a batuta do “sinistro” do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, sempre aparece alguma personalidade do governo Bolsonaro para negar os fatos e dizer que o atual governo tem responsabilidade com a proteção da floresta amazônica.

Se estivéssemos na década de 1970 como gostariam alguns dos principais ministros do governo Bolsonaro é possível que a simples negação deles tivesse algum peso político. Mas como estamos no Século XXI e as metodologias de sensoriamento remoto já avançaram muito nas últimas quatro décadas, sempre há que se dê ao pueril trabalho de juntar duas imagens para comparar. Este, aliás, foi o que faz organização não governamental Survival International que produziu a animação que segue abaixo, e que mostra uma área dentro da Terra Indígena Yonamami.

Erro
Este vídeo não existe

A Survival International, uma organização muito respeitada em nível internacional, está  apoiando uma campanha  global para denunciar a presença de nada menos que 20.000 mil garimpeiros e exigir a sua remoção do interior das terras do povo Yonamami. E tudo isso sob o olhar permissivo de Ricardo Salles, o improbo.

Uma coisa é certa: se alguém do governo Bolsonaro, incluindo o próprio presidente Jair Bolsonaro e seu “sinistro” do Meio Ambiente, acha que toda essa destruição vai passar em brancas nuvens no plano internacional, é melhor pensar melhor.

Em plena pandemia, atos públicos contra o governo Bolsonaro ocorrem em todo o Brasil. A democracia brasileira respira

wp-1591565026599.jpgTomada aérea do ato público em defesa da democracia em Brasília.   Foto: Ricardo Stuckert.

Encarando uma pandemia letal, ameaças de truculência policial e pedidos de intelectuais tensos com a possibilidade de um golpe militar, milhares de pessoas saíram às ruas de cidades brasileiras neste domingo em defesa da democracia (ver cenas do ato realizado em Brasília).

Ainda que não seja possível realizar um balanço definitivo em termos numéricos, especialmente na comparação daqueles que saíram às ruas nos últimos meses para defender o fechamento do congresso nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), o que temos no Brasil é uma situação alvissareira, pois depois de quase um ano e meio de contenções e recuos,  aparecem os primeiros sinais de que haverá reação de massas ao “não projeto”  do governo Bolsonaro (que é só um governo de negações e não de proposições para resolver a grave crise econômica, política e sanitária que temos no Brasil neste momento).

Ato antirracismo na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio Foto: Bruno MarinhoAto em defesa da democracia na Avenida Presidente Vargas na cidade do Rio de Janeiro. Foto: Bruno Marinho

Um dos aspectos mais óbvios dos atos do dia de hoje é que a maioria deles (a exceção foi no Rio de Janeiro onde a Polícia Militar usou da usual força excessiva contra os manifestantes em um aparente esforço de diminuir a afluência aos atos que acabaram ocorrendo em diferentes pontos da cidade) transcorreu de forma pacífica, sem uma intervenção truculenta das forças policiais, como temia o cientista político Luiz Eduardo Soares (abaixo uma imagem do ato realizado no Largo da Batata em São Paulo mostrando os cantores rap Mano Brown, Thaíde e Dexter)

wp-1591565295544.jpgMano Brown, Thaíde e Dexter participam do ato público no Largo da Batata em São Paulo.

Ainda que seja cedo para fazer maiores análises sobre o porquê da aparente tranquilidade dos atos de hoje, eu me arriscaria a dizer que muito disso teve a ver com a ação desastrada do Ministério da Saúde que criou uma espécie de vazio informacional sobre a situação da pandemia da COVID-19, e colocou o governo Bolsonaro sobre uma pressão cada vez maior perante a maioria da população no tocante à qualidade da gestão realizada para evitar o avanço desenfreado do coronavírus no Brasil.

Esse novo desgaste não só empurrou mais gente para protestar contra o governo federal para as ruas, como também inibiu parte da truculência que se dizia estava preparada para ocorrer, inclusive abrindo as portas para um golpe militar segundo Luiz Eduardo Soares.

O avanço da pandemia e o aumento do número de mortos ainda colocará muita pressão não apenas sobre o governo federal, mas também sobre governadores e prefeitos que decidirem relaxar o isolamento social em um momento em que a curva de contaminação continua em franca ascendência.

Por mais arriscado que tenha sido para os participantes dos atos de hoje, o fato é que essa coragem de enfrentar o vírus e as ameaças de truculência mostra que, como eu já disse aqui, o jogo em defesa da democracia continua sendo jogado. E como mostram as cenas nos EUA e em outras partes do mundo, é bem possível que os opositores do governo Bolsonaro saiam rapidamente da posição defensiva para outra mais questionadora do estado de coisas que vige neste momento no Brasil.

Sociedade Brasileira de Infectologia repudia falta de transparência nos dados sobre a COVID-19

enterroAté a manhã deste domingo (07/06) o Brasil contabiliza 676.494 infectados e 36.044 mortos pela COVID-19

A Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) se somou à onda de indignação causada pela decisão do Ministério da Saúde em relação à divulgação dos dados confirmados de infecção e de óbitos por COVID-19 no Brasil, e lançou uma nota pública de repúdio no dia de ontem (ver abaixo).

 

nota de repudio amb

Segundo a SBI,  a nova forma de divulgação dos dados da COVID-19,  “somente com informações epidemiológicas confiáveis será possível a avaliação das medidas atuais e o planejamento de ações para combater a propagação do novo coronavírus, que vem causando danos avassaladores no mundo e especialmente no Brasil.

A nota de repúdio da SBI vai ao encontro das declarações da presidente Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Nísia Trindade Lima que afirmou que ” a divulgação de dados do coronavírus é tão vital quanto uma vacina”.

Resta saber agora o que fará o Ministério da Saúde, mas uma coisa é certa: o estrago na reputação do Brasil já foi feito, e não é pequeno. Afinal, que tipo de governo tenta esconder dados que são estratégicos no controle de uma pandemia letal? Provavelmente um que está destinado a ser alijado das principais decisões que venham a ser tomadas no mundo nos próximos anos.

Mandetta usa termos duros para definir decisão do governo Bolsonaro de mudar divulgação dos dados da COVID-19

mandettaPara o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a decisão de mudar a divulgação dos dados da COVID-19 seria resultado de uma mentalidade militar que prioriza promoções.  Imagem: Andressa Anholete/Getty Images

Em entrevista que deverá ter amplas repercussões políticas no Brasil e no mundo, o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, imputou à ala militar do governo Bolsonaro, as decisões que resultaram nas mudanças de estratégia do Ministério da ?Saúde para a divulgação de dados da pandemia da COVID-19.

Em termos particularmente duros, Mandetta afirmou que pessoas ligadas à carreira militar, e não à Saúde, priorizam outro tipo de abordagem, “que chegue às suas promoções por atos de bravura ou de lealdade extrema, mesmo que burra e genocida“. 

É importante notar que até agora o uso da palavra “genocida” (ou ainda de “genocídio”) estava restrita a menções indiretas para se referir à gestão errática da pandemia da COVID-19, sem que ninguém do porte de um ex-ministro da Saúde do próprio governo Bolsonaro tivesse tido a disposição de proferir isso em público.

Ao fazer isso, Luiz Henrique Mandetta deu uma imensa contribuição para aprofundar a crise política no Brasil, na medida em que ele colocou em xeque a capacidade técnica dos membros das forças armadas que hoje ocupam cargos estratégicos dentro do Ministério da Saúde, a começar pelo general Eduardo Pazuello, uma espécie de ministro interino permanente da Saúde.

Como Mandetta fez uma série de afirmações particularmente duras contra a estratégia de divulgação dos dados da COVID-19 pelo governo Bolsonaro, é bem provável que ele o fez de caso pensado, já que não é conhecido por ter um temperamento explosivo, ao menos em público.

Assim, se as manifestações programadas pela oposição para este domingo precisavam de um ingridiente a mais, Mandetta acabou de fornecer um bem agudo.

CONASS repudia acusação de manipulação de dados sobre COVID-19 feita por Carlos Wizard

wizard 1Recém-empossado no cargo de secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, o milionário Carlos Wizard, é alvo de carta de repúdio do CONASS por causa da sugestão de que os dados de óbitos pela COVID-19 são falsos.

O presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS), Alberto Beltrame (que é secretário estadual de Saúde do Pará), publicou nota oficial onde repudia com “veemência e indignação” as afirmações do secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Carlos Wizard, de que os dados  sobre óbitos decorrentes da  COVID-19 estariam sendo falsificados em busca de mais “orçamento” do governo federal ( ver imagem abaixo).

nota oficial Conselho Nacional dos Secretários de Saúde.

A nota afirma que Carlos Wizard,  “além de revelar sua profunda ignorância sobre o tema, insulta a memória de todas aquelas vítimas indefesas desta terrível pandemia e suas famílias“, produz uma “tentativa autoritária, insensível, desumana e antiética de dar invisibilidade aos mortos pela COVID-19“.

A nota do CONASS enfatiza que a tentativa  do secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde não prosperará, pois as vítimas não será esquecidas, e,  tampouco a tragédia que se abate sobre o Brasil.

O CONASS afirma ainda que Carlos Wizard “ofende Secretários, médicos e todos os profissionais da saúde que têm se dedicado incansavelmente a salvar vidas” e, que ao fazer isso,  ele “menospreza  a inteligência de todos os brasileiros, que num momento de tanto sofrimento e dor, veem seus entes queridos mortos tratados como “mercadoria”.

Finalmente, a nota afirma que a declaração de  Wizard é “grosseira, falaciosa, desprovida de qualquer senso ético, de humanidade e de respeito, merece nosso profundo desprezo, repúdio e asco“.

Em meio ao avanço desenfreado da pandemia, governo Bolsonaro suspende portal e vai recontar os mortos da COVID-19

Brasil chega aos 35 mil mortos por covid-19; total de casos vai a ...

Não sei quantos assistiram o filme “Apocalipse Now” de Francis Coppola que mostrou no final da década de 1970 os horrores da Guerra do Vietnã.  Em uma das cenas finais e mais marcantes do filme, Marlon Brandon, no papel do renegado Coronel Walter E. Kurtz que se considerava um Deus, emite uma frase que se tornará celebre.  Kurtz, quer dizer Marlon Brandon, diz a seguinte frase:

O horror tem um rosto … e você se tornar amigo do horror. O horror e o terror moral são teus amigos“.

Lembrei da cena em que Kurtz acaba sendo eliminado ao ler duas informaçoes sobre a forma que o governo Bolsonaro está tratando o avanço desenfreado da COVID-19 no Brasil. A primeira informação é que o Ministério da Saúde tirou do ar o  “Coronavírus Brasil”, colocando-o “sob manutenção” desde o final do dia de ontem.

portalPortal “Coronavírus Brasil” foi colocado em “manutenção”, e o Brasil agora está em voo cego em relação à pandemia da COVID-19

Com essa medida, o governo Bolsonaro aumenta a já flagrante dificuldade que marca a pandemia da COVID-19 de se estimar a intensidade e as direções de difusão. Esse agravamento da opacidade na divulgação das informações sobre intensidade e direção da pandemia vai aumentar a já difícil tarefa de governos estaduais e municipais de avaliar mais corretamente as medidas sobre confinamento social e retomada das atividades econômicas. 

Neste momento, o Brasil está definitivamente  em um voo cego em meio a uma pandemia que se mostra cada vez mais presente e letal.  E o pior é que, ao dificultar o acesso a informações consolidadas sobre infectados e mortos pela COVID-19, o governo Bolsonaro termina facilitando a expansão ainda maior do coronavírus.

Mas aparentemente quando se trata do governo Bolsonaro, o poço definitivamente não tem fundo. É que além de aumentar a opacidade na distribuição das informações (em um momento em que deveria estar aumentando a transparência), o governo Bolsonaro agora quer recontar o número de mortos sob a estapafúrdia alegação de que a quantidade de pessoas levadas a óbito pela COVID-19 estaria sendo inflado por oponentes do presidente Jair Bolsonaro.

Essa ideia genial foi publicizada pelo milionário proprietário do curso de línguas Wizard, Carlos Wizard, que foi, sabe-se lá por que cargas d`água, em secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde. Nesse sentido, Wizard afirmou que “disse que os dados atuais são “fantasiosos ou manipulados” e que um balanço atualizado deve ser publicado em um mês“. 

wizardO milionário Carlos Wizard, agora transformando em secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, quer recontar os mortos pela COVID-19  por considerar os números oficiais exagerados.  Alô! E a subnotificação?

Em outras palavras, não basta esconder os dados, agora há que se “revê-los”. Enquanto isso, governadores, como é o caso de Wilson Witzel do Rio de Janeiro, aproveitam as ações do governo Bolsonaro para realizar “um libera geral” nos estados, quando a curva de contaminação ainda se encontra em ascensão.

Do jeito que vai, o Brasil ainda passará os EUA  no número de infectados e de mortos, gerando uma crise social, econômica e política que não deixará pedra sob pedra. E continuo me lembrando do Coronel Kurtz… o horror, o horror….

E agora Bolsonaro? Donald Trump cita Brasil como mau exemplo de gerenciamento da pandemia da COVID-19

Em um daqueles exemplos da máxima “das voltas que o mundo dá”, o presidente dos EUA, Donald Trump citou o Brasil e a Suécia como maus exemplos no gerenciamento da pandemia da COVID-19.   Em uma coletiva de imprensa na Casa Branca, Donald Trump  afirmou hoje (05/06)  que “se você olhar para o Brasil, eles estão passando por dificuldades. A propósito, eles estão seguindo o exemplo da Suécia. A Suécia está passando por um momento terrível. Se tivéssemos feito isso, teríamos perdido 1 milhão, 1 milhão e meio, talvez até 2 milhões ou mais de vidas” 

trump brasil

Essa rejeição do “Brazilian Way” (o famoso “jeitinho brasileiro” de tratar (ou melhor, ignorar) a pandemia da COVID-19 vem em um momento especialmente delicado para Donald Trump que vê o seu isolamento crescer após os EUA acumularam a incrível marca de mais de 110 mil mortos que resulta, para muitos, da sua incapacidade de liderar os esforços da primeira economia do mundo para controlar a pandemia (ver fala de Donald Trump no vídeo abaixo).

Assim, se até Donald Trump está tratando o caso brasileiro como um mau exemplo de descontrole na luta contra o coronavírus, imaginemos o que pensam os seus oponentes democratas. 

Aliás, um pouco do que pensam os democratas já se sabe.  É que no dia  04 de junho, membros do estratégico comitê “House and Means” da Câmara de Deputados dos EUA rejeitaram  a intenção do governo Trump de buscar uma parceria econômica ampliada com o Brasil, sob a liderança do presidente Jair Bolsonaro.  Estes membros do “House and Means” escreveram uma carta ao Representante Comercial Robert Lighthizer, onde  detalharam o que eles chamaram de “uma plêiade de razões pelas quais é inapropriado o governo doss EUA se engajar em discussões de parceria econômica de qualquer escopo com o governo Bolsonaro no Brasil,  visto que este desmantelou anos de esforços para progredir direitos civis,  humanos, ambientais e trabalhistas”.

Em outras palavras, se o presidente Jair Bolsonaro está achando que a salvação do seu governo virá do “grande irmão do Norte”, melhor pensar de novo.