Manifestações pró-Bolsonaro no 7 de setembro sofrem encolhimento, apesar de continuarem estridentes

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A captura do dia 7 de setembro pela campanha eleitoral do presidente Jair Bolsonaro ainda será estudada pelos historiadores e cientistas sociais do futuro.  É que hoje se completam os duzentos anos da independência política do Brasil, mas que são marcadas pela presença ostensiva de apoiadores de um governo claramente anti-nacional, apesar de todo o discurso em contrário. É que tendo entregue estatais estratégicas ao controle de governos estrangeiros (o da China inclusive), o governo Bolsonaro completou sua obra com uma escancarada abertura à influência de grupos estrangeiros que aagenda, ainda que informalmente, por exemplo, na exploração ilegal de ouro na Amazônia.

Do ponto de vista interna, o governo Bolsonaro implantou políticas que agravaram a fome e a miséria, e tornaram insustentáveis as vidas de milhões de brasileiros. Com seu nacionalismo castiço, Bolsonaro criou um país que não tem empregos, pois aliados como Luciano Havan aproveitam os incentivos para inundar o comércio brasileiro com bugigangas que ninguém mais consome. 

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As multidões (pequenas e barulhentas) que estão hoje nas ruas para apoiar a candidatura de Jair Bolsonaro atendem ao seu chamado por se enxergarem como parte dos milhões que sofrem os efeitos desse governo anti-nacional e anti-povo. Apenas podemos entender essa adesão se olharmos para a estrutura social herdada do período colonial escravocrata que ainda se mantém relativamente intacta. É apenas a negação de olhar para a história brasileira pode explicar que segmentos das classes médias baixas possam aderir a um governante que só tem agido para precarizar suas vidas.  É o poder da ideologia obscurecendo o entendimento da realidade, pura e simplesmente.

A boa notícia é que apesar de estridentes, as multidões bolsonaristas encolheram até no Rio de Janeiro

Imagens aéreas se espalham e internautas apontam que 7 de setembro  bolsonarista em Brasília fracassou: “flopou” - Brasil 247

Pessoas honestas que olham hoje para as pequenas multidões bolsonaristas ficam impressionadas com a quantidade de pessoas que ainda saem às ruas para apoiar Jair Bolsonaro.  O grau de impressão que é causada varia do estado onde a manifestação ocorre para aquela onde ela é mostrada.  Eu que moro em um estado fortemente controlado pela ideologia bolsonarista não me impressiono mais, pois já multidões muito maiores, por exemplo, no período anterior ao golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff em 2016.

Ao menos nas imagens que vi de Belo Horizonte, Brasília e Rio de Janeiro, o grau de estridência foi o costumeiro, mas as quantidades foram visivelmente menores.  Além disso, o uso de imagens fechadas para mostrar o apoio a Bolsonaro é uma demonstração a mais que está se tentando inflar a real afluência aos atos, pois quando as imagens são abertas, é possível ver que não é tanta gente assim (apesar de ainda serem muitas).

O resultado final disso é que nem estamos tendo o golpe de estado que é temido para o segundo sete de setembro seguido, nem houve uma mudança para cima dos presentes nos atos. O resultado disso é que a única esperança real de que os ideólogos da campanha presidencial de Jair Bolsonaro podem ter é que o uso extensivo das imagens fechadas sirva para aquecer uma campanha que nem o aporte milionário tardio em auxílio financeiro para os pobres está aumentando as intenções de voto. 

E com um detalhe: o relógio para o dia do primeiro turno continua avançando de forma inapelável.

Dia da Amazônia é celebrado pelo agronegócio com muita queimada e fumaça

Desde 1º de janeiro até domingo (4), Amazônia teve 58 mil focos de queimadas, total que representa 20% a mais do que o registrado em 2021

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Jair Bolsonaro é um aliado preferencial na destruição orquestrada pelo agronegócio na Amazônia

O dia de ontem (5 de setembro) é marcado por ter sido definido como  o “Dia da Amazônia” para celebrar a biodiversidade e os povos que transformaram aquela parte da Terra em um berçário de vida e importantes serviços ambientais.  Mas ao em vez de termos celebrações e, mais importante ainda, políticas para garantir a proteção e o uso racional da biodiversidade amazônica, o que as imagens de satélite mostram que no “Dia da Amazônia”  boa parte de região estava ardendo em chamas (pontos vermelhos) e coberta por uma espessa camada de fumaça (ver imagens abaixo).

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Se a dramaticidade dos acontecimentos em curso na Amazônia não são suficientes com imagens congeladas, mostro abaixo um pequeno clipe da espessa camada de fumaça que cobre boa parte da bacia, em uma demonstração que a insanidade dos operadores do agronegócio (desde aqueles sentados confortavelmente em um algum “headquarter” corporativo do hemisfério até o operador de trator que desmata usando correntão para deixar o patrão brasileiro ainda mais rico) não tem limites.

Como venho mostrando de forma repetida em diferentes postagens, não há nada de muito avançado na lógica que o agronegócio utiliza para destruir os ecossistemas amazônicos, na medida em que o que vale mesmo é o avanço da mancha de desmatamento e de degradação sobre áreas intocadas, na medida em que as áreas antigas perdem rapidamente a capacidade de gerar produção sem pesados investimentos, coisa que os operadores do agronegócio não querem nem pensar em ter de fazer.

O problema é que a conta desta destruição virá na forma de secas prolongadas, dentro e fora da Amazônia, o que agravará o processo de ressecamento de áreas extensas do planeta, inclusive no Brasil. Com isso, a possibilidade é de que tenhamos um agravamento das mudanças climáticas que, por sua vez, ameaçarão as áreas que ainda possuem florestas relativamente intactas, criando uma espécie de feedback positivo que poderá resultar na realização da hipótese da savanização da Amazônia. 

E tudo isso para quê? Apenas garantir que o agronegócio gere ainda mais riqueza para um grupo diminuto de pessoas. Ah, e antes que eu me esqueça: em vez de matar a fome,  com sua voracidade por devorar florestas, o agronegócio está preparando um ciclo de fome sem precedentes na história moderna.

 

 

Em editorial, “The Lancet” abre exceção, aborda eleição presidencial no Brasil e diz que país precisa de mudança urgente

Novos começos para a América Latina?

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Editorial

As apostas são altas para as próximas eleições presidenciais do Brasil. Se as previsões atuais estiverem corretas, o presidente Jair Bolsonaro será derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva, seja no primeiro turno, em 2 de outubro, ou no segundo turno, em 30 de outubro. . Há temores no país de que Bolsonaro, conhecido por sua volatilidade e incitação indireta à violência, não vá em silêncio. Ele já criticou o sistema de votação eletrônica do Brasil na presença de embaixadores estrangeiros.

O manejo desastroso de Bolsonaro com a pandemia de COVID-19 e seu desrespeito às mulheres, minorias étnicas, povos indígenas e meio ambiente são amplamente conhecidos. Durante o reinado de Bolsonaro, as medidas de proteção social foram prejudicadas pelo financiamento reduzido, as desigualdades e a pobreza aumentaram acentuadamente, e o Brasil voltou a aderir ao Mapa da Fome da ONU. De acordo com dados da 2ª Pesquisa Nacional de Insegurança Alimentar divulgados em junho, estima-se que 30,7% dos brasileiros estejam passando por insegurança alimentar moderada ou grave devido à combinação da pandemia, aumento do desemprego, enfraquecimento de programas sociais e desmantelamento de políticas de bem-estar. Mais de 3,5 anos do regime de Bolsonaro deixaram o Brasil em sua pior posição em décadas. As questões perenes de desigualdade, pobreza, e a corrupção continuam a prejudicar os brasileiros e sua saúde. A violência baseada em gênero e com armas ainda é galopante e a decisão de Bolsonaro de relaxar as leis de armas foi um passo na direção errada. Correspondência publicada emThe Lancet descreveu como cientistas e instituições científicas foram prejudicados. O Brasil precisa de uma mudança urgente.

Se as previsões para a eleição do Brasil estiverem corretas, ela se juntará a outros países latino-americanos onde há uma esperança renovada de mudança social progressiva. Os dois líderes mais recentemente eleitos na América Latina são Gustavo Petro (na Colômbia), ex-guerrilheiro que assumiu em agosto, e Gabriel Boric (no Chile), no cargo desde 11 de março. promessas de renovar a saúde e a educação, combater a corrupção e a pobreza e proteger os direitos dos trabalhadores, muitos ainda não produziram mudanças substanciais. Como Boric e Petro diferem está na inclusão de proteção climática e sustentabilidade, proteção dos direitos das mulheres e inclusão política de minorias étnicas em seus manifestos.

Pela primeira vez na história do Chile, a maior parte do gabinete e metade dos ministros são mulheres. A vice-presidente é Francia Márquez, ativista ambiental e de direitos humanos afro-colombiana. Boric tem uma forte agenda ambiental com um claro entendimento de que os combustíveis fósseis pertencem ao passado, uma espécie de exceção em uma região onde muitos governos ainda apoiam as exportações de mineração e petróleo. Em 4 de setembro, os chilenos votarão em um referendo sobre uma nova constituição, que inclui o direito ao aborto eletivo e afirma que o sistema nacional de saúde é universal. A Petro se comprometeu a combater a desigualdade fornecendo educação universitária gratuita, reformas previdenciárias e altos impostos sobre terras improdutivas. Os desafios são enormes,

A região também precisa de uma organização de saúde forte e líder para apoiar os Estados membros em seus esforços para melhorar a saúde e o bem-estar de suas populações. Um novo diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) será escolhido em votação secreta na 30ª Conferência Sanitária Pan-Americana de 26 a 30 de setembro. Brasil, Colômbia, México, Panamá, Haiti e Uruguai têm todos os candidatos indicados e o novo diretor começará um mandato de 5 anos em 1º de fevereiro de 2023. A estabilidade financeira está no topo da agenda dos candidatos, pois a OPAS estava perto da insolvência em 2020 , durante o primeiro ano da pandemia de COVID-19, com os estados membros atrasando os pagamentos e os EUA sob o presidente Trump interrompendo seu apoio à OMS. Mas a OPAS também precisa de uma agenda claramente priorizada, mais urgentemente, para examinar as lições aprendidas e as mudanças necessárias para a região após a pandemia.

Há uma chance sem precedentes de novos começos na América Latina; uma oportunidade de fazer mudanças positivas para aliviar a profunda negligência, desigualdade e violência. Esperemos que o Brasil escolha aproveitar esta oportunidade.

Para mais informações sobre a pobreza alimentar no Brasil, consulte https://olheparaafome.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Relatorio-II-VIGISAN-2022.pdf

Para saber mais sobre como os cientistas e a ciência brasileiros foram prejudicados, veja Correspondence Lancet 2021; 397: 373–74 e Correspondência Lancet 2022; 399: 23-24

Para saber mais sobre o programa tributário da Columbia, consulte https://www.ft.com/content/35d3eae3-5166-42f6-b0b0-a66c6c709116

Para mais informações sobre os candidatos a Diretor da OPAS, consulte World Report Lancet 2022 399: 2337–38

Para acessar o arquivo pdf deste artigo basta clicar Aqui!


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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista “The Lancet” [Aqui! ].

Prankster assume site de Bolsonaro e transforma presidente em ‘mentiroso de língua de cobra’

Opositor anônimo comanda domínio bolsonaro.com.br e destrincha líder de extrema-direita

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O desenho com uma cobra saindo das mandíbulas manchadas de sangue de Bolsonaro. Fotografia: bolsonaro.com.br

Por Tom Philips no Rio de Janeiro para o “The Guardian”

Um pregador de peças da internet sequestrou um site usado há muito tempo para glorificar o presidente de extrema direita do Brasil e o transformou em uma escoriação on-line devastadora do governo “palhaço” e “neofascista” de Jair Bolsonaro.

Bolsonaro e seus três filhos políticos teriam usado o domínio bolsonaro.com.br como porta-voz oficial desde o início dos anos 2000.

Mas no início deste mês um objetor brasileiro com menos afeição pelo clã populista conseguiu comandar a URL, aparentemente depois que os Bolsonaros não pagaram por sua renovação.

O resultado foi um fiasco de relações públicas para o agitador sul-americano, já que o ex-meio de propaganda de Bolsonaro começou a retratá-lo como um mentiroso cretino, subserviente, incompetente, duplicidade, corrupto e tirânico cheio de ódio.

Uma caricatura mostra uma cobra emergindo das mandíbulas manchadas de sangue do presidente brasileiro ao lado de um trecho do Salmo 140: “Salva-me, ó Senhor, dos homens maus… o veneno das víboras está em seus lábios”.

Uma das charges do site de Bolsonaro.

Uma das charges do site de Bolsonaro. Fotografia: bolsonaro.com.br

Uma segunda paródia mostra Bolsonaro atrás das grades, onde muitos eleitores irritados acreditam que ele pertence por causa de sua resposta condenada internacionalmente a um surto de Covid que matou mais de 680.000 brasileiros.

“Bolsonaro é fraco e patético”, proclama um texto no site dissidente denunciando o servilismo do líder brasileiro para com seu aliado dos EUA, Donald Trump.

“Bolsonaro é um bobo da corte”, anuncia outra crítica contundente ao lado de uma caricatura em que o líder brasileiro de 67 anos aparece como um palhaço de babados no pescoço.

Em outras partes do site, Bolsonaro é comparado a uma leiteira, o Ceifador, um fauno mitológico, uma galinha emplumada, Satanás e Adolf Hitler.

“Este site não é administrado nem pertence à família Bolsonaro”, diz um aviso ao pé da página.

A URL expropriada chega em um momento delicado para Bolsonaro, que pesquisas sugerem que não conseguirá a reeleição quando 156 milhões de brasileiros escolherem seu próximo líder em pouco mais de um mês.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva atualmente lidera as pesquisas por uma margem de 12 pontos e detém o controle do site que leva seu nome .

No domingo, Bolsonaro perdeu a calma durante um debate presidencial televisionado, atacando uma proeminente jornalista que ele chamou de “uma vergonha para o jornalismo brasileiro”.

Na quarta-feira, o constrangimento foi de Bolsonaro, pois relatos de que seu site havia sido capturado provocaram um tsunami de risadinhas e desprezo.

“Quero ver mais pessoas enfrentando o fascista”, escreveu o ativista supostamente responsável pela façanha no Twitter. “Agora não é hora de ficar calado.”


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Infertilidade e aborto espontâneo: como a exposição a agrotóxicos afeta jovens agricultores

Pesquisas brasileiras mostram que a exposição aos agrotóxicos pode atingir tanto a saúde reprodutiva dos homens que atuam nas lavouras quanto das suas companheiras, que acabam sendo contaminadas pela convivência  

Reproductive Health | Pesticide Action Network

Schirlei Alves, especial para O Joio e O Trigo e De Olho nos Ruralistas

Rachel*, 32 anos, mora em uma região de grande produção agrícola no interior do Mato Grosso. O marido é agrônomo e tem contato direto com a lavoura. A identidade deles será preservada para evitar represálias. O casal sonha em ter filhos, mas as gestações não vinham sendo bem-sucedidas. A mulher passou por três abortos espontâneos de repetição, ou seja, interrupções gestacionais que ocorrem antes dos três meses, em um período de três anos. Até então não havia nenhuma causa aparente que justificasse a dificuldade em levar a gestação adiante. Na quarta tentativa, inundada de frustrações, a obstetra a encaminhou para a nutricionista clínica Gabrieli Comachio, que atua em outro município da região, Sorriso, conhecido como a Capital Nacional do Agronegócio.

Atenta à realidade da população local, a nutricionista solicitou exames para verificar o grau de exposição a produtos tóxicos. O teste laboratorial de colinesterase é um deles. Se o nível da enzima, que é responsável por controlar os impulsos nervosos para os músculos, estiver alterado, indica possível exposição prolongada a agrotóxicos, uma vez que as substâncias químicas podem inibir a atividade dessa enzima. De acordo com a nutricionista, como os níveis basais de colinesterase sofrem variação de uma pessoa para outra, recomenda-se o uso de um valor de referência da atividade enzimática, obtido de uma população não exposta.

Exames adicionais também são recomendados para investigar a relação com outros fatores de saúde. Comachio afirma que encontra resistência de pacientes em se submeter ao exame. Muitos, porém, se surpreendem com os resultados. A falta de orientação e consciência sobre o uso de equipamentos de proteção é uma realidade observada na sua prática clínica.

“Desde 2019, quando direcionei meus atendimentos para a área materno-infantil, tenho presenciado um número muito grande de abortos de repetição, de casais jovens com problemas de fertilidade e que precisam de um tratamento específico para melhorar os seus exames de saúde. Tenho como praxe, desde que participei do Fórum Mato Grossense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos na Saúde, solicitar alguns exames, principalmente o de colinesterase”, contou Comachio.

Os resultados dos exames de Rachel e do seu marido apresentaram alterações expressivas. Embora não tivesse contato direto com a aplicação dos produtos químicos na lavoura, a mulher costumava caminhar no meio da plantação e lavar as roupas contaminadas do marido. Comachio sugeriu que os dois fizessem algumas alterações nos hábitos de vida e alimentares. O homem foi orientado a usar todos os equipamentos de proteção durante o seu trabalho de campo, como luvas e máscaras. Rachel foi instruída a evitar contato com a plantação e a fazer uso dos equipamentos de segurança ao lavar as roupas contaminadas. Além disso, a nutricionista recomendou o uso de alguns suplementos alimentares, a prática de exercícios físicos e o consumo de alimentos preferencialmente orgânicos (sem uso de agrotóxicos).

Rachel já chegou ao terceiro trimestre da gestação sem nenhum problema de saúde. Os exames indicam que ela e o bebê estão saudáveis e fora de perigo. “A paciente me contou que não havia tomado todos esses cuidados nas gestações anteriores. Então, pode ter havido impacto [com os novos hábitos]. Agora que ela está prestando mais atenção no que está comendo e cuidando com essa questão de não se expor tanto, a gente acredita que essas mudanças podem ter sido de muita valia para os resultados de sucesso na quarta gestação”, avaliou a nutricionista.

Taxa de abortos no Mato Grosso está acima da média nacional

Um estudo publicado no livro Desastres Sócio-Sanitário-Ambientais do Agronegócio e Resistências Agroecológicas no Brasil, produzido por pesquisadores do Núcleo de Estudos Ambientais, em Saúde e Trabalho, da Universidade Federal do Mato Grosso (Neast/UFMT), identificou, com base em dados públicos, que nas regiões com maior uso de agrotóxicos e área plantada, as taxas de internação por aborto espontâneo são maiores.

Uma das pesquisadoras, Mariana Soares, que é sanitarista e mestre em saúde coletiva, explica que esse é um estudo epidemiológico, do tipo ecológico, que analisa um grupo de indivíduos de determinadas áreas geográficas. “Pelo fato de ela [a personagem de nossa história] residir nesse local, com um dos maiores índices de exposição a agrotóxicos; e pelo fato de a literatura demonstrar que os agrotóxicos são mutagênicos e teratogênicos, o que possibilita alterar o óvulo e o espermatozóide; a exposição pode ser um fator associado ao abortamento espontâneo”, avalia a pesquisadora.

Glifosato está entre os produtos analisados nos estudos. (Foto: Mike Mozart/Flickr)

Quando Soares fala que o agrotóxico tem potencial mutagênico e teratogênico, significa que o produto químico é um agente capaz de causar dano ao DNA e provocar doenças como o câncer ou afetar o desenvolvimento pré-natal.

Segundo o estudo, baseado em dados populacionais do IBGE, internações por aborto do SUS e de produção agrícola do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), o Mato Grosso registrou 10.073 internações hospitalares por aborto, sendo 2.700 por abortos espontâneos, com média anual de 900 abortos. Quase metade das mulheres que foram internadas por sofrerem aborto espontâneo (47,5%) tinha entre 20 a 29 anos. A taxa média de aborto variou de 0,8 a 36,2 abortos/10.000 mulheres em idade fértil, com a maior taxa correspondente ao município de Nova Lacerda. A coleta das informações ocorreu entre 2016 e 2018.

Os dados mostram que houve aumento de 5,3% entre o primeiro e último ano da análise, sendo que em 2018, a taxa foi de 9,4 a cada 10 mil mulheres. Os números poderiam ser maiores se todos os casos fossem notificados ao sistema de saúde.

“Nós temos um coeficiente bastante alto [para o Mato Grosso]. Se no Brasil a taxa de abortos espontâneos é de 4 ou 5 [a cada 10 mil mulheres], no Mato Grosso é 9. E ainda há locais no estado que chegam a 36, então, estamos falando que a nossa taxa é duas vezes [maior] do que a do Brasil e, em algumas regiões, quatro vezes maior”, avaliou o médico especialista em saúde pública e pesquisador Wanderlei Pignati.

A pesquisa também apresenta o contexto em que essas mulheres estão inseridas e levanta os dados sobre o uso de agrotóxicos nas regiões de estudo. Levando em conta as 21 culturas analisadas, os pesquisadores identificaram que a média de área plantada foi de 15,1 milhões de hectares e o consumo de agrotóxicos foi de aproximadamente 220,6 milhões de litros.

Os dez municípios com os maiores coeficientes de aborto foram: Nova Lacerda, Nova Olímpia, Pontes e Lacerda, Alto Taquari, Campo Verde, Nova Santa Helena, Alta Floresta, Barra do Garças, Rondonópolis e Matupá. Apenas Alta Floresta não é considerado um município de grande produção agrícola.

Outro estudo publicado em 2016 pelo Neast/UFMT apontou que a exposição paterna a agrotóxicos, principalmente quando associada à baixa escolaridade materna, pode estar relacionada a maiores taxas de malformação fetal em Mato Grosso. A explicação para a relação com a baixa escolaridade está na falta de orientação sobre os cuidados na hora de lavar a roupa contaminada, como ocorreu com Rachel*. O estudo de caso-controle foi feito a partir de prontuários de todos os hospitais de referência públicos, privados e planos de saúde que atendem gestantes em Cuiabá. Os dados foram coletados entre março e outubro de 2011. A base de casos foi formada por crianças menores de 5 anos com malformações congênitas, e o grupo “controle” foi formado por crianças da mesma faixa etária, sem malformações.

As pesquisas levam em conta o contexto social, possíveis variáveis de interferência, como hábitos alimentares e consumo de álcool e drogas e o meio ambiente. No livro, por exemplo, os pesquisadores destacam que os resíduos dos agrotóxicos têm como destino a contaminação do ar, das águas das chuvas, dos rios, mananciais e solo. “Os alimentos de consumo imediato também são afetados, como demonstram as pesquisas anteriores realizadas no estado, onde foram detectados agrotóxicos nos exames de sangue e urina de trabalhadores e no leite materno”, destaca o artigo.

Glifosato preocupa pesquisadores

O glifosato é apontado no estudo sobre abortos espontâneos como um dos agrotóxicos mais usados nas lavouras de Mato Grosso. Não por coincidência, a substância ocupa a primeira posição no ranking dos ingredientes ativos mais vendidos no país. O levantamento consta no último boletim anual publicado pelo Ibama, de 2020, quando foram vendidas mais de 246 toneladas do produto. O boletim revela ainda que Mato Grosso foi o estado que mais comercializou agrotóxicos naquele ano. A venda foi de 133.291 toneladas. O boletim de Produção, Importação, Exportação e Vendas de Agrotóxicos no Brasil, publicado pelo Ibama, é elaborado a partir de documentos autodeclaratórios preenchidos pelas empresas importadoras, exportadoras, produtoras e formuladores dos agrotóxicos.

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A primeira resolução da Anvisa que cita o glifosato é de setembro de 2010, segundo histórico de documentos da agência, disponíveis desde 2008. Hoje, há cinco ingredientes ativos de glifosato liberados para uso como herbicidas em 67 culturas diferentes, entre elas arroz, feijão, café, banana e batata-doce. A substância já foi apontada como provavelmente cancerígena pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC).

A Anvisa, no entanto, defende que as evidências científicas disponíveis até o momento “não indicam que o glifosato cause efeitos à saúde humana que sejam considerados proibitivos” para manter seu registro no Brasil. O processo de reavaliação da substância, segundo a Anvisa, contou com 19 pareceres técnicos do órgão, três pareceres externos e duas notas técnicas. Apesar do posicionamento, a Anvisa admitiu que “o ingrediente apresenta maior risco para os trabalhadores que atuam nas lavouras” e para pessoas “que vivem próximas a estas áreas”. Como solução para amenizar os problemas de saúde das pessoas mais expostas, a Anvisa propôs “medidas voltadas para o manejo do produto durante a sua aplicação e a sua dispersão”, o que inclui “ajustes e definições de limites de exposição dietética e ocupacional”.

O procurador do Ministério Público do Trabalho, Leomar Daroncho, que atuou entre 2012 e 2015 no Mato Grosso e colaborou com a criação do Fórum Mato Grossense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, pondera que as orientações da Anvisa não são suficientes para proteger os agricultores, seus familiares e moradores das regiões onde há intensa produção agrícola.

“Dados do governo do Mato Grosso indicavam que o analfabetismo funcional no meio rural chegava a 80%. No Brasil, quando a Anvisa reavaliou o glifosato, o relatório registrou que 60% dos trabalhadores do campo não têm o ensino fundamental completo. Daí ela faz uma recomendação que alerta para os riscos aos trabalhadores que manuseiam as substâncias tóxicas e que deveria ser melhorada a capacitação e a conscientização, enquanto ela mesma admitiu que quem manuseia isso tem um nível muito baixo [de escolaridade]”, advertiu o procurador, que hoje está lotado no Distrito Federal.

Para Daroncho, outro fator que agrava a situação é a complexidade que envolve o uso de equipamentos de segurança e roupas impermeáveis, por vezes quentes e pesadas para agricultores que trabalham debaixo de temperaturas elevadas. Além disso, as exigências climáticas para aplicação dos produtos, descritas nas embalagens, também são complicadas: elas vão desde a temperatura adequada, até a velocidade do vento e a umidade do ar. “Na prática, essas orientações são improváveis de serem cumpridas, como a temperatura máxima de 28ºC para o glifosato. Existem regiões no Brasil que só terão essa temperatura durante a madrugada”, alertou ele.

Segundo o procurador, o Fórum, que também envolve o Ministério Público Estadual e o Ministério Público Federal, além de entidades da sociedade civil, foi criado para possibilitar o desenvolvimento de pesquisas e, a partir daí, obter e compartilhar informações e discutir possíveis ações de combate aos impactos danosos dos agrotóxicos, tanto para a saúde quanto para o meio ambiente.

Um dos desdobramentos, por exemplo, foi uma ação movida pelo MPF em 2014 contra o Estado de Mato Grosso e o Instituto de Defesa Agropecuária (Indea) para impedir o uso de agrotóxicos que contenham a substância benzoato de emamectina em sua composição. Na época, o MPF afirmou que a própria Anvisa não indicava o uso da substância por ser “altamente tóxica à saúde humana”.

Na ocasião, o Indea havia recebido pedidos para utilização de 63 toneladas do produto em lavouras mato-grossenses. O ingrediente foi suspenso pela Justiça. Três anos depois, porém, durante o governo de Michel Temer, a substância foi liberada e hoje é usada nas culturas de amendoim, algodão, café, ervilha, quatro tipos de feijão, grão de bico, lentilha, milho, soja e tomate. 


Exposição a agrotóxicos afeta trabalhadores e suas famílias no Mato Grosso. (Foto: Reprodução)

Exposição a Agrotóxicos pode afetar qualidade do esperma

Um estudo transversal realizado com homens jovens, de 18 a 23 anos, em Farroupilha, no Rio Grande do Sul, apontou que os homens rurais têm morfologia espermática mais pobre em relação aos indivíduos urbanos. O artigo foi publicado em 2017, na Revista Científica Reproductive Toxicology, cujo foco é o sistema reprodutivo. Os pesquisadores são ligados à Escola Nacional de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz; Universidade da Serra Gaúcha; Universidade de Caxias do Sul; Universidade Estadual do Rio de Janeiro; Universidade de Granada e Rede de Centros de Pesquisa Biomédica para Epidemiologia e Saúde Pública (Ciberesp), ambas na Espanha.

As informações sobre o uso de agrotóxicos e a prática da atividade agrícola, demografia, ocupação, estilo de vida e histórico médico foram obtidas por meio de questionário e amostras de sangue e sêmen foram coletadas para as análises laboratoriais. Ao menos 99 homens da área rural e 36 da área urbana participaram da pesquisa. Os participantes foram escolhidos aleatoriamente. A coleta de informações e de material genético ocorreu entre 2012 e 2013.

“Considerando uma população de cerca de 800 homens na faixa etária de 18 a 23 anos residentes na zona rural de Farroupilha, uma prevalência de exposição intensa a agrotóxicos na população rural de 7%, um nível de confiança de 95%, e uma margem de erro de 5%, o tamanho mínimo da amostra para o estudo foi estimado em 90 homens jovens do setor rural”, diz o estudo.

Um dos pesquisadores, que hoje é professor da Universidade Federal da Bahia, Cleber Cremonese, explicou que os jovens da área rural tiveram produção média de espermatozóide até maior do que os jovens da área urbana, mas com pior mobilidade e formação. “Não adianta produzir espermatozóides se eles não são móveis e bem formados. O espermatozóide tem que sair com o flagelo dele se movimentando até chegar nas trompas e encontrar o óvulo. Essa é a função”, explicou Cremonese. 

Sociedade brasileira luta contra os impactos dos agrotóxicos. (Foto: Campanha Contra os Agrotóxicos)

A conclusão foi de que os agrotóxicos possivelmente não interferem na produção de espermatozóides, mas podem interferir na parte genética, uma vez que os jovens do campo apresentaram pior qualidade do esperma. “A motilidade média foi de 56% em homens da área rural, comparado a 64% naqueles avaliados da área urbana”, detalhou o pesquisador.

Para avançar nos estudos, porém, seria necessário um grande investimento, inacessível para pesquisadores brasileiros. “Eu teria que pegar o espermatozóide e avaliar a cadeia genética. Tem outros estudos no mundo que fazem isso, que têm milhões de reais para poder fazer. A gente só conseguiu avaliar características microscópicas [concentração, motilidade e morfologia], e custou muito caro mesmo assim”, completou.

Com relação à morfologia, o professor explica que a Organização Mundial da Saúde preconiza que a cada 100 espermatozóides produzidos por um homem saudável, cerca de 4% sejam bem estruturados. O estudo constatou que a morfologia dos jovens da área rural foi de 1%, enquanto que a dos jovens da área urbana foi de 2,5%.

A pesquisa também serviu de base para a tese de doutorado de Cremonese na Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. Os resultados foram apresentados aos agricultores de Farroupilha em um evento em 2014, organizado em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde.

*O nome da personagem, cuja identidade foi preservada, é fictício e foi escolhido em referência à bióloga e escritora Rachel Louise Carson. O seu livro Primavera Silenciosa, lançado em 1962, descreveu como os inseticidas alteravam os processos celulares das plantas, animais e seres humanos. O título é uma referência ao silêncio dos pássaros mortos pela contaminação.

Imagem em destaque (Denise Matsumoto): projeto Brasil Sem Veneno mapeia resistências contra os agrotóxicos em todo o país


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Este texto foi inicialmente publicado pelo “De olho nos ruralistas” [Aqui!].

Apesar dos 33 milhões de famintos brasileiros, para Jair Bolsonaro não há “fome para valer” no Brasil

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Foto: Agência Brasil

Durante uma participação no podcast “Ironberg” que uma parcela significativa da população brasileira “passe fome para valer” e que os números indicando que em torno de 33 milhões de brasileiros estão passando fome neste momento são exagerados”. O tira-teima estatístico feito por Jair Bolsonaro se baseia no fato de que ao ir na padaria, não se vê ninguém pedindo pão.

Eu desconheço a padaria em que o presidente da república vai buscar o seu pão quando não está sendo servido pelos garçons do Palácio do Planalto nos lautos cafés oferecidos aos frequentadores daquele símbolo do poder. Mas nas padarias que eu frequento há sim gente pedindo pão. Aliás, nas esquinas do Brasil o que não falta é brasileiro pedindo o que os outros puderem dar para comprar pão, café, leite, e por aí vai.  Nesse sentido, a fome é visível para quem quer ver, o que não parece ser o caso de Jair Bolsonaro.

Que o presidente da república não é uma pessoa antenada com a realidade dos brasileiros pobres isto já está evidente desde que saiu corrido do exército para se tornar um deputado inexpressivo, mas que logrou acumular um patrimônio que permite que ele more, quando não está em Brasília, em um condomínio fechado de alto padrão.

Mas e os eleitores de Jair Bolsonaro que se dizem cristãos e, por isso, tomados pelas noções de caridade e fraternidade que se atribui a Jesus Cristo? Para esses cristãos eleitores de Jair Bolsonaro não incomoda que despreze a fome evidente de milhões de brasileiros? Aparentemente não.

Por outro lado, por que a mídia corporativa parece ter engolido mais essa declaração do presidente Jair Bolsonaro sem colocar mais esse negacionismo nas manchetes diárias, desmascarando com dados estatísticos mais essa afirmação esdrúxula?  A grande possibilidade é que os donos desses veículos, a maioria ganhando fortunas com o rentismo de Paulo Guedes, não querem contribuir para a queda do seu bezerro de ouro.

Enquanto isso, a fome e a destruição ambiental avançam em todos os cantos do Brasil.

Lula em estilo professoral deixa clara sua superioridade sobre Jair Bolsonaro

Lula JN

Como muitos brasileiros fizeram ontem, assisti à entrevista dada pelo ex-presidente Luís Inácio da Silva no “Jornal Nacional” da TV Globo.  Em termos gerais, como outros comentaristas já fizeram, ficou evidente  a capacidade do ex-presidente Lula em responder de forma rápida e confiante à maioria das perguntas vocalizadas por William Bonner e Renata Vasconcelos. 

Aliás, o que ficou também evidente é que a Rede Globo não está com redatoristas afiados o suficiente para deslocar os candidatos do seu prumo, fato que se repetiu nas três entrevistas já realizadas.  Por isso, por exemplo, a ênfase em centrar a arguição na questão da corrupção (o que, aliás, era esperado) rendeu a Lula a possibilidade de dar algumas das suas melhores respostas. Aliás, a ausência de perguntas sobre elementos cruciais da realidade como a fome e o desemprego mostra que quem preparou o roteiro da entrevista optou por tentar empurrar Lula para fora da realidade.

Porém, usando o espaço como melhor lhe favorecesse, eu diria que Lula nadou de braçada em várias partes da entrevista. Uma que eu citaria é aquele induz o telespectador a comparar os volumes de recursos no chamado “Mensalão” com o que está ocorrendo agora com o chamado “Orçamento Secreto” que segundo Lula reduziu o presidente Jair Bolsonaro ao papel de “bobo da corte”. Esses dois pontos foram, me permitam dizer, brilhantes.

Além disso, a própria ignorância dos dois entrevistadores, principalmente no tópico do agronegócio, possibilitou a Lula a possibilidade de apresentar sua visão, a la o presidente estadunidense no filme “Mars attack!, de que é possível que vivamos (ricos e pobres) como amigos, independente de ser sem terra ou um mega latifundiário como o ex-governador do Mato Grosso Blairo Maggi.

O interessante é que mesmo sob pressão, Lula não precisou recorrer a tantas mentiras como Jair Bolsonaro teve que fazer, como mostra o site “Aos fatos” que comparou as duas entrevistas. Aliás, para achar “mentiras” no que Lula falou, os checadores do “Aos fatos” precisaram apertar muito bem a lupa, o que revela o grau de conforto e conhecimento de conteúdo que o ex-presidente teve na formulação das suas respostas, ao contrário do que aconteceu com Jair Bolsonaro que sempre pareceu desconfortável ao dar suas respostas.

Nem tudo foi um mar de rosas, entretanto

Da minha posição de não eleitor de Lula, algumas de suas falas apaziguadoras (vamos chamar assim), não me surpreenderam. Desde a concessão de supostos erros, passando pelo quase endeusamento de Geraldo Alckmin, e chegando em uma defesa esdrúxula em prol alternância do poder, Lula mostrou que está mais disposto a ser ainda mais acomodador com as elites do que já foi em seus dois primeiros mandatos.

O problema aqui é menos eleitoral e mais político, pois muito do que tivemos desde 2016 foi fruto de uma desmobilização da base social que historicamente esteve ao lado do PT em prol de mudanças políticas no Brasil. E uma conjuntura interna e externa tão difícil, esperar que o simples chamado à união nacional em prol dos pobres seja atendido por aqueles que estão se beneficiando das políticas monetárias de Paulo Guedes (e é disso que se trata) beira a irresponsabilidade.

Compreendo que muita gente está apostando em Lula para retornar o Brasil a um mínimo de equilíbrio, em que pesem seus eventuais defeitos. Acredito que isto seja mais do que compreensível em vista do que esta acontecendo neste momento. Entretanto, como não sou nem eleitor de Lula ou militante do PT, o que me preocupa é o que vamos ter de fazer para recuperar todo o pouco espaço que foi ocupado antes do golpe parlamentar de 2016.

 

Pitacos sobre o que poderá vir após as ações policiais contra o grupo de empresários bolsonaristas

empresarios bolsonaristas

Em seu livro publicado em 1995 “Democracia contra Capitalismo“, a já falecida Ellen Meiksins Wood postulava que a ideia  de que a  democracia ocidental é de alguma forma herdeira daquela praticada na Grécia antiga é equivocada, na medida em que o Capitalismo não toleraria um governo realmente orientado pela vontade do povo. A decorrência disso para Meiksins Wood é, que sob o capitalismo, seria impossível que viesse a ter a democracia em sua forma plena, tal como aquela em que viviam os cidadãos da Atenas da Antiguidade.

Pensei em Meisksins Wood ao ler algumas notícias que estão pululando na mídia alternativa e até na corporativa sobre as descobertas já feitas nos telefones dos “empresários bolsonaristas” que sofreram uma batida policial no dia de ontem, e que deverá ter muitos desdobramentos políticos e jurídicos nos próximos dias e semanas.

O que já surgiu de informação vai no sentido de que o seleto grupo de milionários bolsonaristas não estava, digamos, apenas regurgitando ideias perigosas sem finalidades práticas, mas envolvidos na captação (em alguns casos forçada) de recursos para financiar a propaganda eleitoral do presidente Jair Bolsonaro (um desses sendo o sócio majoritário da rede de restaurantes Coco Bambu, o sr. Afrânio Barreira Filho).  Esse dinheiro captado extra-oficialmente muito provavelmente não desembarcaria na campanha oficial, mas em uma outra que já está correndo pelos subterrâneos do Whatsapps e Telegrams da vida.

Assim, tudo indica que esse segmento das elites brasileiras estavam planejando reeditar campanhas que foram efetivas em 2018 como a “mamadeira de piroca” que fez tantos estragos na campanha de Fernando Haddad. Aliás, a sinalização de que a campanha subterrânea já estava azeitada e em curso foi a mirabolante história de que o ex-presidente Lula iria fechar as igrejas evangélicas em caso de vitória. Mirabolante, mas que forçou a que a campanha de Lula gastasse tempo para responder a uma questão que os ex-aliados da IURD sabem que não há qualquer fundo de verdade.

A ação contra os empresários Bolsonaristas pode secar a fonte dos recursos extra-oficiais da campanha de Jair Bolsonaro?

Há muita gente neste momento se perguntando qual será o efeito prático, se algum, da ação determinada pelo ministro Alexandre Moraes. Os indícios iniciais por quem vem acompanhando o grupo de Whatsapp onde os empresários bolsonaristas articulavam sua campanha pró-Bolsonaro é que o primeiro efeito prático foi um processo de fuga de parcela dos membros, a maioria receosa de sofrer o mesmo destino dos que tiveram seus bens congelados e telefones apreendidos no dia de ontem. Afinal de contas, sabe-se lá o que pode ser encontrado no telefone desse pessoal.

A segunda consequência que já deve estar ocorrendo é a diminuição do fluxo de recursos financeiros para as contas que estavam custeando determinadas ações, incluindo as antecipadas mobilizações pró-golpe no dia 7 de Setembro.  É que até o mais ingênuo dos brasileiros já deve ter notado que a apreensão dos telefones dos empresários bolsonaristas já rendeu revelações bombásticas nas últimas 24 horas. Com o passar do tempo é possível que mais coisa venha à superfície, tornando a situação ainda mais complicada para alguns personagens.

Se essas duas coisas realmente acontecerem, podemos esperar um arrefecimento na propagação das chamadas fakes news de cunho eleitoral, o que, por sua vez, gerará complicações para um candidato à reeleição que não possui nada muito positivo para oferecer como prova do trabalho realizado desde que ocupou a cadeira de presidente em janeiro de 2019. Como diriam os jovens, “pode ter dado ruim”.

Mas e a democracia brasileira como fica nesse rolo todo? Certamente sua saúde dependerá do que se fizer contra aquele impoluto grupo de senhores que usavam o Whatsapp para sonhar com a imposição de uma nova ditadura no Brasil.

A tentativa de golpe: senilidade do empresariado brasileiro

empresários

POR LUCIANE SOARES DA SILVA*

O empresário Luciano Hang, conhecido por ser um tipo de cover do Louro José, usou um grupo de Whatsaap para tramar um golpe de Estado caso o atual presidente Jair Bolsonaro perca as eleições. O grupo conta com Afrânio Barreira Filho, Luiz André Tissot, Marco Aurelio Raymundo, José Isaac Peres Ivan Wrobel, José Koury e Meyer Joseph Nigri.

Eu ousaria pensar nesta estratégia como um poderoso indicador de desespero. Não apenas pela irracionalidade e imbecilidade explicitadas na proposta, mas principalmente pela “saída “ na qual eles parecem acreditar. Ou seja, melhor implodir de vez uma economia já em farrapos e manter nossos lucros. Mas isto já é assunto superado. Ninguém desconhece que esta sempre foi a opção de nossa elite.

Ontem ao passar pela praça observei o Data Toalha em uma banca de jornal após tomar café em uma padaria central na qual um pastor tentava ganhar o voto de um cidadão “anti política” para Bolsonaro. De voz mansa e sorriso largo, estava ali o instrumento divino da eleição de 2018.

Do outro lado da rua, mulheres em trabalho mais que precarizado gritavam com aquela voz aguda e estridente “empréstimo, empréstimo com o auxílio Brasil”. Oito da manhã de uma segunda de agosto. Provavelmente a população das periferias Brasil afora, acordava com um único objetivo: garantir o mínimo para alimentação do dia. Com o auxílio e vivendo um período de desemprego que se manteve após a pandemia. O centro cheio de lojas fechadas não é privilégio de pequenas cidades. Olhem hoje o centro do Rio de Janeiro. 

Uma elite com saudades da Ditadura e em alguns casos, do Império (sofre coração), não tem qualquer ambição em relação ao quadro geral do país. Se o golpe for um atalho para manter trabalho análogo a escravidão, ainda melhor. Vocês percebem? Não é uma questão de competição capitalista sustentada na mão autoritária do regime. É mais profunda. O desejo, pode parecer um misto de sadismo, suicídio e estupidez, é retroceder o trabalhador à condições tão precárias, que mesmo um dono de usina gritaria: “alimente  este escravo porque ele trabalha por dois”. Como não é mais necessário um “escravo” que trabalhe por dois, a questão não é apenas ética ou jurídica (talvez nem seja o caso). É (também) estética: “não tolero esta gente na Universidade”. É de dominação patriarcal: “não consigo mais quem trabalhe e durma na minha casa”. É de desprezo e desconsideração: “vamos dar um prêmio perto das eleições aos funcionários” (traduza-se por compra de voto, prática ilegal). É a luta de classes banhada no racismo mais atroz das Américas. Aquele no qual só poderá existir uma elite se forem mantidas as condições de humilhação dos trabalhadores.

Hoje é aniversário do meu pai. Ele trabalhou desde os seus 18 anos, serviu quartel, carregou de tudo. Até peça de usina hidrelétrica. Nunca desejou ter o que seu patrão tinha. Nunca foi dedo duro de colegas. Meu pai tem uma consciência de classe intuitiva. Desconfia muito das posições sociais de ostentação. Por uma razão simples: ele sabe que cada bloco de mármore dos donos de shopping golpista, foi carregado por gente como ele. Que vive na zona norte de Porto Alegre ou em centenas de bairros de trabalhadores país afora.

O problema desta eleição é que tem muita gente como ele pouco interessada em trocar o auxílio, o prêmio ou a ameaça por voto em Bolsonaro. E sabem que momento é este ? É aquele momento assustador e que o trabalhador, empregado ou não, nada tem a perder. Não é um momento revolucionário. Mas é o suficiente para colocar esta elite em desespero.

E eu ? Como digo com frequência, acho é pouco.

*Luciane Soares da Silva é é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce)

“Bolsonaro é um assassino e deveria ser preso”, diz líder sobre recordes de violência contra indígenas

Relatório do Cimi divulgado nesta quarta-feira (17) mostra que etnias tiveram 176 homicídios em 2021; número de invasões de aldeias triplicou; organizadores relacionam ataques a medidas do governo que favorecem a exploração e a apropriação privada de territórios

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Por Mariana para a “De olho nos ruralistas”

“Vocês querem ser seres humanos como nós?”, pergunta Neusa Kunha Takua Martine, a uma plateia lotada. “Podemos ensinar vocês”. Líder Guarani-Nhandeva do Rio de Janeiro, ela discursava sobre os números do relatório “Violência contra os Povos Indígenas do Brasil, que mostram aumento em quinze das dezenove categorias sistematizadas.

O lançamento aconteceu nesta quarta-feira (17), no auditório da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília, e contou com transmissão on line. Autor da publicação, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) registrou 176 assassinatos em 2021 e 305 casos de invasões possessórias, exploração ilegal de recursos e danos ao patrimônio, espalhados por 226 Terras Indígenas (TIs) de 22 estados.

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Publicação foi lançada em evento na CNBB. (Imagem: Divulgação)

Em 28 delas havia presença de povos isolados, o que coloca a própria existência desses grupos em risco. No ano anterior, 263 situações de invasão haviam afetado 201 TIs em dezenove estados. E a quantidade triplicou em relação a 2018, quando aconteceram 109 casos do tipo.

A organização, ligada à CNBB, atribui o contexto geral de ataques a uma série de medidas do governo Jair Bolsonaro e de sua base aliada no Congresso que favoreceram a exploração e a apropriação privada dos territórios.

Crianças e Adolescentes estão entre vítimas de crimes bárbaros

“Bolsonaro é um assassino e deveria ser preso”, afirma Neusa. “O presidente da Funai também deveria estar preso”, completa, sobre Marcelo Xavier, da Fundação Nacional do Índio (Funai). “Como seria para vocês ver um filho ser morto dentro de casa?”, questiona. “Conviver com uma arma apontada o tempo todo? As mãos de vocês estão vermelhas do sangue do meu povo”.

Entre os casos contabilizados pelo Cimi estão execuções de crianças e adolescentes praticadas com extrema crueldade e brutalidade. Raíssa Cabreira Guarani Kaiowá, de apenas 11 anos, e Daiane Griá Sales, do povo Kaingang, de 14 anos, foram estupradas e mortas em agosto do ano passado. Os crimes ocorreram em Dourados (MS) e Redentora (RS), respectivamente.

“A mesma violência que a gente sofre no Mato Grosso do Sul todos os povos indígenas sofrem”, diz a Guarani-Kaiowá Alenir Aquines Ximenes. “A gente não tem nem mais sangue para derramar”, acrescenta. “Só peço que todos os apoiadores dos povos indígenas se levantem com a gente”.

— Ser indígena é sentir a dor dos seus povos. É chorar junto, se abraçar junto no momento difícil. Ser indígena, mesmo com a dor na alma, é dar aquele sorriso lindo, aquele grito lindo. É ir atrás de um futuro melhor para seus filhos, seus anciãos, para todos. É salvar o ar que respiramos. Da aldeia, da terra retomada, não vai sair uma doença que mata milhões.

Líderes Guarani, Guarani-Kaiowá, Guarani-Nhandeva, Guarani-Mbya, Tupi Guarani e Pataxó durante o evento. (Foto: Marina Oliveira/Cimi)

Presidente cumpriu “promessa” de não demarcar territórios

O Conselho Indigenista identificou que, das 1.393 terras indígenas no Brasil, 871 (62%) continuam com pendências para a regularização. Destas, 598 são áreas reivindicadas pelos povos originários que não contam com nenhuma providência do Estado para dar início ao processo.

Uma das responsáveis pelo relatório, Lucia Helena Rangel lembrou que o presidente cumpriu sua “promessa de campanha” de não demarcar nenhum centímetro de terra para quilombolas ou indígenas, aprofundando as desigualdades e violações de direito. “Nunca tínhamos visto isso”, afirma. “São atos governamentais que nos assustam”.

De acordo com a pesquisadora, os dados não tratam de algo localizado. “Em todo território nacional essas invasões ocorrem e a violência está cada vez maior”, lamenta. “Invadem, não só desacatam, como entram atirando, botam fogo em casa de reza, em roçado, em residência, e entram destruindo. É um grau de violência cada vez maior”.

Cerca de oitenta líderes Guarani e do povo Pataxó do Sul e do Sudeste do país, presentes na cerimônia, devem continuar na capital federal até o fim de semana. A expectativa é que as delegações visitem a Defensoria Nacional de Direitos Humanos, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), o Ministério Público Federal (MPF), a Câmara e os Ministérios da Educação, da Justiça e da Saúde.

Indígenas deram depoimentos fortes na CNBB. (Foto: Mariana Franco Ramos)

Invasores tentam vender terras ilegalmente pelas redes sociais

O primeiro capítulo da publicação reúne um total de 1.294 casos de violência contra o patrimônio. Foram registrados: omissão e morosidade na regularização de terras (871 casos); conflitos relativos a direitos territoriais (118 casos); e invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio (305 casos).

Também se destacam, nesta categoria, a queima de Casas de Reza, espaços centrais para a espiritualidade de diversas comunidades. O Cimi contabilizou quatro casos no Mato Grosso do Sul, envolvendo os povos Guarani-Kaiowá, e um no Rio Grande do Sul, com o povo Guarani-Mbya.

Entre os conflitos por direitos territoriais estão diversos registros de sobreposição de Cadastros Ambientais Rurais (CAR) e de certificações de propriedades privadas sobre terras indígenas. O Conselho Indigenista informou que, em alguns casos, como nas TIs Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia, e Barra Velha, na Bahia, houve a tentativa de venda de “lotes” de terra por meio de redes sociais.

Em relação aos casos de “Violência contra a Pessoa”, sistematizados no segundo capítulo, foram registrados os seguintes dados: abuso de poder (33); ameaça de morte (19); ameaças várias (39); assassinatos (176); homicídio culposo (20); lesões corporais dolosas (21); racismo e discriminação étnico cultural (21); tentativa de assassinato (12); e violência sexual (14).

O número total, 355, é o maior desde 2013. Os estados que registraram mais assassinatos em 2021 são: Amazonas (38), Mato Grosso do Sul (35) e Roraima (32).

O Cimi divulgou, ainda, a ocorrência de 148 suicídios. E, apesar do início da vacinação, 847 indígenas morreram de Covid-19 em 2021. A Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), ligada à Funai, indicava a ocorrência de 315 óbitos no mesmo período.

“Essas populações enfrentaram a pandemia e morreram desassistidas e invisibilizadas em cidades, acampamentos e retomadas”, destacam os pesquisadores.

Mariana Franco Ramos é jornalista. |


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Este foi originalmente publicado no site “De olho nos ruralistas” [Aqui!].