O Brasil de Bolsonaro segue em ritmo de “agro-suicídio”

bolso amazoniaAs ações de desmanche da governança ambiental e dos instrumentos de comando e controle pelo governo Bolsonaro colocam o Brasil em um ritmo de “agro-suicídio” que custará muito caro aos interesses nacionais

Emprestei o título desta postagem de um trecho de um tweet do professor Raoni Rajão em que ele comenta a mudança de postura da chanceler alemã Angela Merkel em relação à ratificação do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul em função, principalmente, da condição de “wild wild west” que o governo Bolsonaro instalou na Amazônia com o desmanche promovido nos mecanismos de governança e de comando e controle.

Mas eu diria que a condição de “agro-suicídio em marcha” que acomete o Brasil neste momento é construída por muitas outras coisas que cedo ou tarde, já venho avisando isso há antes, colocaram as exportações de commodities brasileiras em uma espécie de “lista negra”, levando a nossa economia a um estado de completa anomia, visto a dependência proeminente da balança comercial brasileira em relação à exportação de produtos primários.

Uma faceta que apareceu repetidas vezes é o alto teor de resíduos de agrotóxicos que as principais commodities brasileiras, a começar pela soja, estão levando daqui de volta aos países que produzem e mantém proibidos em suas próprias fronteiras os venenos agrícolas que aqui são usados com sofreguidão.

boicote bolsonaroCampanha de boicote aos produtos brasileiros promovida por ONG alemã já ultrapassou 400 mil signatários

O primeiro importante anúncio que foi dado e solenemente ignorado pelas autoridades brasileiras foi o anúncio do Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária da Rússia (Rosselkhoznadzor) de que poderia proibir as importações de soja brasileira, caso não fosse tomadas providências para diminuir a quantidade de resíduos de Glifosato presente na principal commodity agrícola brasileira. Depois disso foi a Nestlé que anunciou restrições sobre a importação de café brasileiro pelo mesmo motivo.  

Mas um fator que está acelerando a disposição de se impor um banimento das commodities brasileiras é, sem dúvida, a situação explosiva no desmatamento na Amazônia que, sob o governo Bolsonaro, está claramente fora de controle. Além de redes de supermercado no Reino Unido e Alemanha que estão ameaçando suspender a importação de carne brasileira produzida em áreas de desmatamento ilegal, a gigante norueguesa da produção de salmão em cativeiro, Intrafish, foi mais além e baniu a Cargill da sua lista de fornecedores de soja por causa da suposta indisposição da corporação estadunidense de combater a derrubada das florestas amazônicas.

Mas um elemento que contribui para a péssima imagem e as nuvens carregadas que pairam no horizonte das commodities agrícolas brasileiras é sem dúvida nenhuma o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, cuja imagem está mais tostada do que churrasquinho esquecido no fogo. Ricardo Salles, autor da máxima “passar a boiada, de baciada” é visto em muitos círculos internacionais, e com justa razão, como o principal responsável pelo que está acontecendo na Amazônia.

garimpeirosAvião da FAB foi usado para levar garimpeiros ilegais do PA para reunião com ministro Ricardo Salles em Brasília

Uma última estrepulia de Salles, a qual deverá piorar ainda mais a péssima imagem brasileira, foi a constatação que ele usou um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para transportar garimpeiros de ouro que operam clandestinamente na Terra Indígena Munduruku para reunião no Ministério do Meio Ambiente, sob a alegação de que estes eram representantes dos Munduruku, fato esse negado por lideranças deste povo indígena.

Mesmo que Salles se arrisque aqui, quando muito, a tomar um tapinha nas mãos, a circulação dessa informação deverá deteriorar ainda mais sua capacidade de negociar qualquer coisa em reuniões multilaterais, reforçando mais o seu perfil de “culpado inútil” que usa as estruturas do Estado brasileiro para promover interesses não republicanos.

Como a estação de queimadas na Amazônia ainda está longe de chegar ao seu auge em 2020,  o mais provável é que ainda vejamos cenas ainda mais dramáticas do que aquelas vistas em 2019, quando manifestações importantes já ocorreram em diversas partes do mundo contra o Brasil, servindo depois como combustível para diversas campanhas de boicote aos produtos brasileiros.

O governo Bolsonaro e seus aliados no latifúndio agro-exportador continuam ignorando olimpicamente todas as ameaças que pairam sobre as commodities brasileiras por causa dos malfeitos na área ambiental, especialmente na Amazônia.  Eles parecem contar com a fome mundial em torno das commodities brasileiras para continuar levando a vida na base da motosserra e do trator de esteira. Na prática, eles se acham mais inteligentes que o resto do mundo, e continuam com seu comportamento de colonizado altivo como se houvesse a possibilidade de um tratamento de igualdade entre forças tão díspares no cenário geopolítico existente.

Mas a verdade é que essa é uma estimativa equivocada e os ponteiros do relógio continuam avançando para um confronto entre as necessidades de comprar soja e a de manter algum tipo de controle sobre as mudanças climáticas. Por isso é que, na prática, o Brasil está cometendo o que Raoni Rajão corretamente chama de “agro-suicídio brasileiro”. Depois que a vaca for para o brejo que ninguém finja surpresa, pois os sinais de fumaça são muitos.

Steve Bannon e seus amigos no Brasil: que será o primeiro a dizer “eu mal conheço o cara”?

Agora que Steve Bannon foi preso por supostas fraudes relacionadas à doações feitas por incautos estadunidenses para ajudar a construção de um muro na fronteira com o México, pode ser que seus bons amigos brasileiros tenham amnésia e digam que “mal conheciam o cara”. 

Mas como mostram as fotos abaixo, um que não poderá negar a proximidade e amizade com Bannon é o deputado federal Eduardo Bolsonaro que chegou a ser apontado como o líder do movimento de Steve Bannon no Brasil. 

Ou será que vai acontecer mais um caso de amnésia na família do presidente Bolsonaro? A ver!

 

Bannon, pai intelectual de Trump e Bolsonaro, é preso por fraudar campanha de doações para construção do muro na fronteira com o México

O esforço online de arrecadação de fundos arrecadou US $ 25 milhões, disseram as autoridades.

bannonCrédito: Calla Kessler / The New York Times

De Alan Feuer e 

Stephen K. Bannon, ex-conselheiro do presidente Trump, foi acusado na quinta-feira em Nova York de fraude por seu papel em um esquema relacionado a “We Build the Wall”, um esforço online de arrecadação de fundos que arrecadou mais de US $ 25 milhões para o presidente muito elogiado plano para erguer uma barreira na fronteira mexicana, disseram as autoridades.

Bannon e três outros réus “fraudaram centenas de milhares de doadores, capitalizando seu interesse em financiar um muro de fronteira para levantar milhões de dólares, sob o falso pretexto de que todo esse dinheiro seria gasto na construção”, Audrey Strauss, a procurador dos Estados Unidos em exercício em Manhattan, disse em comunicado na quinta-feira.

Bannon foi preso na quinta-feira em uma acusação de duas acusações não selada no Tribunal Federal do Distrito em Manhattan. Ele deve comparecer perante um juiz magistrado dos EUA em Nova York no final do dia.

De acordo com as autoridades federais, Bannon, amplamente considerado o arquiteto da campanha presidencial de Trump em 2016, arquitetou o complô para fraudar os doadores para a campanha de construção do muro com três outros homens: Brian Kolfage, 38, um veterano da Força Aérea de Praia de Miramar, Flórida; Andrew Badolato, 56, um financista de Sarasota, Flórida; e Timothy Shea, 49, de Castle Rock, Colorado.

Como fundador da “We Build the Wall”, o Sr. Kolfage prometeu a seus doadores que “não aceitaria um centavo em salário ou compensação” e que todo o dinheiro que arrecadasse seria usado “na execução de nossa missão e propósito ”, Disseram os promotores.

Mas essas promessas eram falsas, disseram os promotores. Em vez disso, eles disseram, Kolfage secretamente recebeu mais de US $ 350.000 em doações para seu uso pessoal. Bannon, por meio de uma organização sem fins lucrativos não identificada, recebeu mais de US $ 1 milhão de “Nós Construímos o Muro”, disseram os promotores, alguns dos quais ele usou para pagar centenas de milhares de dólares em despesas pessoais.

Para ocultar o fluxo ilícito de dinheiro, disseram os promotores, os quatro homens encaminharam os pagamentos da “We Build the Wall” não apenas por meio do grupo sem fins lucrativos de Bannon, mas também por meio de uma empresa de fachada controlada por Shea.

Os promotores sugeriram que eles estavam de posse de uma mensagem de texto na qual Kolfage diz a Badolato que o esquema de pagamento é “confidencial” e deve ser mantido com base na “necessidade de saber”.

Um porta-voz da Casa Branca não quis comentar as acusações. 

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Alan Feuer cobre tribunais e justiça criminal para a mesa do Metro. Ele escreveu sobre mafiosos, prisões, má conduta policial, condenações injustas, corrupção governamental e El Chapo, o chefe do cartel de drogas de Sinaloa preso. Ele ingressou no The Times em 1999.@Alanfeuer

William K. Rashbaum é redator sênior da seção Metro, onde cobre corrupção política e municipal, tribunais, terrorismo e tópicos mais amplos de aplicação da lei. Ele fez parte da equipe que recebeu o Prêmio Pulitzer de 2009 pelas notícias de última hora.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “The New York Times [Aqui! ].

Quando a manchete esconde a notícia

Datafolha apurou que a maioria dos brasileiros critica Bolsonaro pela atuação na covid-19, opinião partilhada até por 35% dos eleitores bolsonaristas, mas a Folha deixou essas informações em segundo plano, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

bolsonaro tosseJair Bolsonaro tosse durante ato em favor do golpe militar, no dia 19 de abrilImagem: Foto: Sérgio Lima/AFP

Por Paulo Moreira Leite

Um dos ensinamentos básicos da comunicação é simples: a manchete vale mais que o título, o título vale mais do que o texto e às vezes a foto vale mais do tudo. Estamos falando de comunicação, é bom esclarecer.

Jornalismo é outra atividade. Muitas vezes, por incompetência ou alguma motivação obscura, a notícia — a informação mais importante — está na última linha do texto. Pode parar na nota de rodapé. Ou mesmo desaparecer.

Num momento dramático da vida do país, a manchete de hoje Folha de S. Paulo é uma demonstração definitiva de uma inversão dessas noções elementares do jornalismo — atividade cuja legitimidade reside na capacidade de oferecer informações fidedignas para orientar leitores e, através deles, a população de um país.

Como não era difícil imaginar, a pesquisa mais recente do Datafolha apurou que 52% dos brasileiros consideram que Bolsonaro teve um papel negativo no combate à pandemia. Alguns acreditam que ele é totalmente responsável. Outros, que é parcialmente responsável.

Em qualquer caso, 52% da população não tem receio receio de afirmar que Bolsonaro tem responsabilidades numa tragédia destinada a permanecer para sempre na memória do país.

A Folha também apurou que, para 47% dos entrevistados, Bolsonaro “não tem culpa nenhuma”. Um número respeitável, sem dúvida.

A notícia, no entanto, é que 52% apontam a responsabilidade de Bolsonaro no episódio, com ênfase maior ou menor. Estamos falando da opinião da maioria de brasileiros e brasileiras, um dado essencial para o país debater a pandemia, as responsabilidades e as providências que devem ser tomadas no próximo período.

O destaque a esse número permite valorizar a necessidade de correção de rumo e definir responsabilidades. Sob governos democráticos, as pesquisas de opinião podem funcionar como filtros que auxiliam na tomada de decisões com apoio da maioria.

A longo prazo, é óbvio que essa avaliação– e a forma pela qual foi retratada –terá um efeito sobre a conjuntura política, inclusive na campanha presidencial de 2022.

Não cabe, aqui, questionar a qualidade técnica do levantamento do Datafolha. O instituto tem reputação comprovada pelo trabalho. A questão é outra.

Ao colocar a opinião minoritária na manchete, repetindo o destaque nas páginas internas, os editores do jornal fizeram uma opção questionável, quando se recorda que vivemos numa sociedade dividida, com maiorias difíceis.

Também deram pouco destaque a um dado importante que o próprio Datafolha apurou: a crítica a atuação do presidente atinge uma dimensão tamanha que já envolve uma parte significativa do eleitorado que lhe deu o voto em 2018.

Perdido na página B1, um gráfico mostra que 30% dos eleitores de Bozolonaro no segundo turno de 2018 apontam o presidente como “um dos culpados” pela pandemia. No mesmo gráfico, descobre-se que 5% cravam na opção “principal culpado”. Conclusão: 35% dos brasileiros e brasileiras que voltaram em Bolsonaro têm uma visão negativa de seu papel na luta contra a covid-19.

Isso explica porque 52% tem uma visão negativa do papel de Bolsonaro. É fácil saber onde estava a notícia.

Alguma dúvida?

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Este texto foi originalmente publicado pelo site “Brasil 247” [Aqui!].

As pesquisas de opinião pró-Bolsonaro passariam em testes de validade e reprodutibilidade?

bolsonaro emaO presidente Jair Bolsonaro conversa no celular na parte externa do Palácio da Alvorada em Brasília – AFP

Em que pese a situação crítica da economia e o avanço mortal da pandemia da COVID-19, institutos de opinião estão liberando resultados de pesquisas de opinião que mostram uma incrível melhora nos índices de aprovação do presidente Jair Bolsonaro e seu governo ultraneoliberal. Como resultado disso, há muita gente embarcando em esforços analíticos que se caracterizam por um estado de profunda estupefação, já que o oposto seria de esperar para a condição de popularidade do presidente e de um governo que nos leva como bêbados trôpegos por um dos momentos mais críticos da história recente do Brasil.

Uma coisa que me deixa surpreso é que, a estas alturas do campeonato, não apareçam vozes sensatas para questionar algo básico: essas pesquisas atendem aos critérios de validade e reprodutibilidade científica, a ponto de serem usadas para tecer análises que apontam, por exemplo, para a inevitabilidade da reeleição de Jair Bolsonaro no distante ano de 2022.  Interessantemente, joga-se sobre as costas dos mais pobres a  culpa pela suposta melhora nos índices de popularidade de um presidente que sequer conseguiu levar a cabo a criação de um novo partido político para onde migrariam os segmentos mais duros da sua base de apoio eleitoral. E  Jair Bolsonaro que de bobo nada tem, tenta compensar isso com a repetição de estratégias de produção de uma realidade alternativa, como foi o caso de sua recente visita a Belém (ver vídeo abaixo).

Como professor de Metodologia de Pesquisa por quase duas décadas, me ocorre a necessidade de lembrar que no método científico existem duas medidas de robustez de um dado experimento científico, que são a validade e a reprodutibilidade.  Essas medidas vivem em constante tensão, pois o aumento de uma tende a diminuir a outra. Mas, inobstante, esta tensão elas normalmente são usadas para determinar se um determinado experimento mediu o fenômeno que pretendia medir, e se o instrumento usado foi utilizado de forma correta e funcionando com a devida sensibilidade de aferir o fenômeno sendo estudado.

Dois problemas básicos de validade e reprodutibilidade são, por exemplo, a correção da escolha do instrumento de medição e, por outro lado, a forma pela qual o mesmo é “calibrado” para medir. É que um dos problemas clássicos de reprodutibilidade, denominada de reprodutibilidade Quixotesca, ocorre quando o instrumento está “quebrado” e sempre obtém a mesma resposta, independente das condições que prevalecem.

Pois bem, voltando ao caso das pesquisas de opiniões sendo realizadas no Brasil, há pouquíssima informação sobre como os questionários estão montados e de como as questões estão sendo apresentadas, e em que ordem, para respondentes que supostamente estão conectados aos seus telefones no momento em que são acessados pela equipe de pesquisadores.  Todas essas são questões que podem comprometer diretamente a validade e a reprodutibilidade da pesquisa. Por isso, dadas as condições sociais da aplicação dessas pesquisas, é que vejo como precoce a internalização de seus resultados como sendo válidas e reprodutíveis ou, em outras palavras, que sejam cientificamente testadas.

Não discuto aqui o fato de que a pressão política sobre Jair Bolsonaro é muito menor do que deveria ser, dados todos os erros e equívocos que marcam o governo desastroso. Mas isso não se dá porque há apoio ao que ele está fazendo ou deixando de fazer. O que está claro é que a maioria das forças políticas de direita embarcaram em uma operação de salvação de um governo que se mostra muito aquém das tarefas históricas postas neste momento, enquanto a chamada esquerda institucional marcha placidamente, mais preocupada em amealhar prefeituras e vereadores nas eleições municipais que deverão ocorrer em novembro. 

Vejo ainda neste cenário que na chamada esquerda institucional inexiste, salvo o caso do PSOL cuja força para mudar a concertação esquerda-direita vigente no Brasil é nenhuma, a disposição de formular um real programa de mudança que se contraponha ao anti-projeto nacional ensejado por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Basta ver as reformas estaduais da previdência que muitos governadores ditos de oposição aplicaram em  seus estados, os quais conseguiram ser ainda mais regressivos do que o aprovado pelo congresso nacional.

Voltando às pesquisas de opinião, o fato é que já faz muito tempo que no Brasil elas são mais instrumentos de produzir opinião pública do que aferi-la corretamente. Por isso, a aceitação tão fácil em todos os espectros políticos de pesquisas que deveriam ser, no mínimo, olhadas com desconfiança acerca de sua robustez científica.  É que, de certa forma, ter Jair Bolsonaro com bons índices de popularidade é bom para todos os lados do ponto de vista eleitoral.

Agora, como a dinâmica da História nunca é perfeitamente controlável, o que temos diante de nós é o risco de que uma simples faísca crie um estouro social que irá surpreender a todos os que estão hoje aceitando passivamente os índices mostrados nessas pesquisas sociais. É que a situação política, econômica e social do Brasil beira o completo desastre, já que em meio a uma pandemia letal, temos um governo que insiste em uma agenda ultraneoliberal que não possui mais aderência ao que está sendo feito em boa parte do mundo. Some-se a isso o quadro dantesco em que a América Latina está sendo posta, e veremos que as atuais pesquisas, quando muito, mostram um quadro contaminado pela sua própria insustentabilidade.

Por isso, mais energia deveria estar sendo gasta para apoiar os milhares focos de resistência pontual que já estão ocorrendo do que incorrer em análises que estão desde a sua gênese contaminadas pela falta de sustentação científica dos números em que elas se baseiam.

Bolsonaro ignora dados do próprio governo e diz que queimadas na Amazônia são “uma mentira”

Bolsonaro-ignora

Bolsonaro parece viver em um universo paralelo: pelo menos, esse é o tom da fala feita pelo presidente brasileiro durante a 2ª Cúpula Presidencial do Pacto de Letícia pela Amazônia, realizado ontem (11/8) por videoconferência. De acordo com Bolsonaro, “não há nenhum foco de incêndio, nem um quarto de hectare desmatado” na Floresta. “É uma mentira essa história de que a Amazônia arde em fogo”, disse o presidente. “Sabemos o quanto somos criticados de maneira injusta por muitos países. Nós, com perseverança, com determinação e com verdade, devemos insistir”.

Se a verdade for uma aliada de Bolsonaro nessa tarefa, ela não depõe em seu favor. Como o próprio governo reconhece, o desmatamento na Amazônia cresceu mais de 34% nos últimos 12 meses. O ritmo de desmate em julho passado foi menor que o registrado no mesmo mês em 2019, mas ainda assim foi muito superior à média histórica desse período.

O presidente desafiou embaixadores estrangeiros a sobrevoar o trecho entre Boa Vista (RR) e Manaus (AM) e disse que eles “não acharão nenhum foco de incêndio ou corte de hectare desmatado”. Ele acusou também aqueles que criticam o Brasil de serem motivados por interesses comerciais ou, no caso dos críticos internos, antipatrióticos. “Afinal de contas, o Brasil é uma potência no agronegócio, ameaças existem sobre nós o tempo todo e, lamentavelmente, alguns poucos brasileiros trabalham contra nós nessa questão”. Sobre os criminosos ambientais que promovem a destruição e prejudicam a imagem do Brasil no exterior, Bolsonaro não teceu nenhum comentário.

O vice-presidente Mourão também participou da conferência e, na mesma linha de Bolsonaro, acusou de “neocolonialistas” os países que criticam o Brasil. “Pior ainda foi a postura de alguns [líderes mundiais] que se aproveitaram da crise para avançar interesses protecionistas e atitudes neocolonialistas”, disse o vice. Em seu discurso, ele defendeu que “o protagonista do desenvolvimento sustentável na Amazônia será o setor privado, não o Estado” e destacou a importância de incentivar a bioeconomia como forma de desenvolver e preservar a Floresta.

As falas de Bolsonaro e Mourão foram destacadas pelos FolhaEstadãoO GloboG1Valor Exame, entre outros.

ClimaInfo, 12 de agosto de 2020.

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Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Em meio ao deboche do governo Bolsonaro, o Brasil atingiu a incrível marca de 100 mil mortos pela COVID-19

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Ao final deste sábado (08/08), o Brasil ultrapassará a marca (a oficial porque a extra-oficial deve ser bem maior) de 100 mil mortos pela COVID-19, colocando-se por várias semanas como o país onde ocorrem mais mortes pela infecção causada pelo coronavírus.  A despeito disso, a maioria dos governantes de plantão, desde o presidente até os prefeitos, literalmente debocham em cima dos mortos e da dor que vivem suas famílias e amigos.  O vídeo abaixo que mostra o vídeo abaixo, mostrando um diálogo entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro interino da Saúde, o general Eduardo Pazuelo, onde as centenas de milhares de mortos são descontadas a partir de argumentos que, no mínimo, desafiam até o senso comum.

O diálogo é sintetizado com a máxima “Vamos tocar a vida” que, na prática, implica no sacrifício de um número ainda maior de vidas em nome da continuação de uma política econômica ultraneoliberal centrada no precarização de direitos sociais e trabalhistas e na entrega das riquezas nacionais ao grande capital internacional.

Tenho acompanhado a publicação de pesquisas de opinião que sugerem um aumento nos índices de popularidade do presidente Jair Bolsonaro e da sua necropolítica. Esses índices são, quando muito, circunstanciais, e são provavelmente um reflexo da forma de aplicação dos instrumentos de pesquisa do que do real humor da população.  Uma prova disso é o vídeo abaixo que mostra um protesto realizado na região central da cidade de São Paulo para demonstrar a insatisfação contra a forma do governo Bolsonaro de gerir a pandemia da COVID-19.

Ainda que esse tipo de protesto não seja o suficiente para pressionar o governo federal a mudar o rumo de sua gestão pavorosa da pandemia da COVID-19, o que fica claro é que o período pós-pandemia será marcado por grandes tensões sociais no Brasil. Isto ocorrerá não apenas porque a indignação com o número total de mortos irá inevitavelmente crescer (a Fiocruz estima que esse total poderá alcançar fantásticos 200 mil mortos por COVID-19), mas porque o governo Bolsonaro se mostra incapaz de abandonar os pressupostos ultraneoliberais que abraçou desde o seu primeiro dia de existência.

Science: desmatamento ilegal no Brasil sobe em clima de impunidade

'Like a bomb going off': why Brazil's largest reserve is facing destruction. Gold prospectors are ravaging the Yanomami indigenous reserve. So why does President Bolsonaro want to make them legal?

As ruínas de um local ilegal de mineração de ouro em uma reserva Yanomami no norte da Amazônia. O desmatamento no Brasil está aumentando mesmo em áreas protegidas legalmente e em terras indígenas, onde os criminosos raramente se aventuravam no passado. GUARDIÃO / EYEVINE / REDUX

Por Herton Escobar para a Science

O desmatamento na Amazônia brasileira aumentou bastante no ano passado – novamente. Estimativas previsto para ser lançado esta semana pelo Instituto Nacional  de Pesquisas Espaciais (INPE) irá mostrar clareiras têm aumentado em pelo menos 28% durante o monitoramento atual ano, que vai de agosto a julho, em comparação com o ano anterior.

É a segunda subida íngreme durante o governo do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que cumpriu sua promessa de campanha de afrouxar a aplicação da lei ambiental e acelerar o desenvolvimento na Amazônia.

Os números vêm do Brasil Sistema de Detecção de Desmatamento em tempo real (DETER), que utiliza imagens de satélite de baixa resolução para identificar rapidamente novas clareiras florestais e autoridades de alerta para possível desmatamento ilegal. Mais de 8700 Km2  de cobertura florestal primária já desapareceram das imagens desde agosto de 2019, de acordo com dados atualizados até 23 de julho , em comparação com 6800 km 2 nos 12 meses anteriores. (Os dados da semana final serão divulgados em 7 de agosto; como julho é o período nobre para o desmatamento na maior parte da Amazônia, é provável que o número suba um pouco mais.)

Embora o sistema não identifique as causas do desmatamento, outros estudos mostram que a grande maioria é ilegal, levada a cabo por fazendeiros, madeireiros, garimpeiros e grileiros que procuram lucrar com a ocupação e exploração das terras florestais públicas.

O desmatamento vem aumentando lentamente no Brasil desde 2013, mas as ações e palavras de Bolsonaro deram um grande impulso. “O desmatamento é uma empresa de alto risco, profundamente conectada às decisões políticas e à retórica que influenciam a percepção desse risco”, diz Raoni Rajão , pesquisador de políticas ambientais da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. Os desmatadores agora sentem uma sensação de impunidade, diz Rajão. As clareiras estão aumentando em áreas protegidas legalmente e em terras indígenas, onde os criminosos raramente se aventuravam no passado. Enquanto isso, as operações policiais estão fora do ar e os agentes de campo que combatem os mineradores ilegais foram repreendidos publicamente e submetidos a investigações internas por suas próprias agências.

O DETER é um sistema de alerta e não é otimizado para medições precisas de área, mas os cientistas dizem que ainda é um bom termômetro de desmatamento. No ano passado, no entanto, Bolsonaro chamou as estimativas igualmente preocupantes do DETER de “mentira e demitiu o diretor do INPE , Ricardo Galvão. Números divulgados mais tarde pelo Projeto de Monitoramento por Satélite do Desmatamento na Amazônia, um sistema de resolução mais elevada também operado pelo INPE que produz Brasil dados oficiais de desmatamento, mostrou resultado ainda piores. Eles mostraram que 10.100 Km2 de floresta foram derrubados entre agosto de 2018 e julho de 2019 – um aumento de 34% em relação ao ano anterior .

O ressurgimento do desmatamento-de longe a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa do Brasil- é um desastre para a reputação internacional do Brasil ”, diz Luiz Aragão, chefe da Divisão de Sensoriamento Remoto do INPE. O país está sob crescente pressão de governos e investidores estrangeiros para proteger a floresta, juntamente com seu carbono e biodiversidade, ou enfrentar consequências diplomáticas e econômicas. Precisamos de mensagens claras e ações decisivas contra essas atividades ilegais”, diz Aragão.” O  Brasil precisa restabelecer sua ordem ambiental se tivermos ambições de crescer economicamente e participar como líder na discussão de questões globais”.

Jair Bolsonaro tomou algumas medidas para proteger a floresta. No início deste ano, ele recriou o Conselho da Amazônia – composto em grande parte por oficiais militares – para supervisionar o desenvolvimento sustentável da região e, em maio, ele autorizou o envio de forças armadas para combater crimes ambientais na região. Outro decreto de 15 de julho tornou ilegal o uso de fogo na Amazônia pelos próximos 4 meses.

A última medida pode de fato ajudar a reduzir o desmatamento, se for aplicada adequadamente. Depois que as árvores são derrubadas, os desenvolvedores precisam queimar a vegetação derrubada para limpar a terra para pastos ou terras agrícolas, diz Rajão. Ele também vê esperança no fato de que a quantidade de floresta derrubada nas primeiras 3 semanas de julho foi menor do que em julho de 2019, embora ainda seja muito maior do que no mesmo mês dos anos anteriores.  Isso pode ser um sinal positivo de que a taxa de desmatamento está diminuindo um pouco”, diz ele.  Mas temos que esperar e ver.”

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista Science [Aqui!].

A contragosto, Facebook tem que bloquear apoiadores de Jair Bolsonaro

Como se diz que eles distribuíram informações falsas durante a campanha eleitoral, os apoiadores do presidente brasileiro Bolsonaro não podem mais acessar suas contas do Facebook em função de uma proibição emitida pelo Supremo Tribunal Federal (STF)

Presidential candidate Jair Bolsonaro attends a news conference at a campaign office in Rio de JaneiroJair Bolsonaro: Facebook quer tomar medidas legais contra a decisão do STF. Foto: RICARDO MORAES / REUTERS

O Facebook fala de um ataque à liberdade de expressão: como se diz que os apoiadores do presidente brasileiro Jair Bolsonaro distribuíram informações falsas nas redes sociais, suas contas do Facebook foram bloqueadas. Um tribunal brasileiro ordenou a mudança.

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Este vídeo não existe

O Facebook criticou a decisão como extrema e a vê como uma ameaça à liberdade de expressão. No entanto, o grupo decidiu seguir as instruções do STF. No entanto, o Facebook irá recorrer da decisão judicial. Atualmente, não há alternativa ao bloqueio de certas contas porque os funcionários do Facebook no Brasil podem ser processados, disse corporação norte-americana.

Anteriormente, o STF havia condenado o Facebook a uma penalidade de cerca de 312.000 euros por espalhar “fake news” (notícias falsas). O STF considerou provado que o Facebook havia implementado a ordem judicial para bloquear certas contas no Brasil, mas não em todo o mundo. Os apoiadores de Bolsonaro são acusados ​​de ter deturpado a campanha eleitoral de 2018. (Leia mais sobre isso aqui.)

Depois dos Estados Unidos, o Brasil é atualmente um dos pontos focais da pandemia de coronavírus. Até agora, mais de 2,5 milhões de pessoas foram infectadas pelo vírus. Mais de 90.000 pacientes morreram  de COVID-19.

Segundo Bolsonaro, ele também ficou doente, mas agora é considerado recuperado. Ele sempre descartou a infecção como “gripezinha”. Desde então, ele procura o público e ignora as regras de distância . Nos últimos dias, houve grandes reuniões de pessoas. No Brasil, cerca de 69.000 pessoas recém-infectadas foram relatadas recentemente em um dia.

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Este texto foi escrito originalmente e publicado pela revista Die Spiegel [Aqui!].