As pesquisas de opinião pró-Bolsonaro passariam em testes de validade e reprodutibilidade?

bolsonaro emaO presidente Jair Bolsonaro conversa no celular na parte externa do Palácio da Alvorada em Brasília – AFP

Em que pese a situação crítica da economia e o avanço mortal da pandemia da COVID-19, institutos de opinião estão liberando resultados de pesquisas de opinião que mostram uma incrível melhora nos índices de aprovação do presidente Jair Bolsonaro e seu governo ultraneoliberal. Como resultado disso, há muita gente embarcando em esforços analíticos que se caracterizam por um estado de profunda estupefação, já que o oposto seria de esperar para a condição de popularidade do presidente e de um governo que nos leva como bêbados trôpegos por um dos momentos mais críticos da história recente do Brasil.

Uma coisa que me deixa surpreso é que, a estas alturas do campeonato, não apareçam vozes sensatas para questionar algo básico: essas pesquisas atendem aos critérios de validade e reprodutibilidade científica, a ponto de serem usadas para tecer análises que apontam, por exemplo, para a inevitabilidade da reeleição de Jair Bolsonaro no distante ano de 2022.  Interessantemente, joga-se sobre as costas dos mais pobres a  culpa pela suposta melhora nos índices de popularidade de um presidente que sequer conseguiu levar a cabo a criação de um novo partido político para onde migrariam os segmentos mais duros da sua base de apoio eleitoral. E  Jair Bolsonaro que de bobo nada tem, tenta compensar isso com a repetição de estratégias de produção de uma realidade alternativa, como foi o caso de sua recente visita a Belém (ver vídeo abaixo).

Como professor de Metodologia de Pesquisa por quase duas décadas, me ocorre a necessidade de lembrar que no método científico existem duas medidas de robustez de um dado experimento científico, que são a validade e a reprodutibilidade.  Essas medidas vivem em constante tensão, pois o aumento de uma tende a diminuir a outra. Mas, inobstante, esta tensão elas normalmente são usadas para determinar se um determinado experimento mediu o fenômeno que pretendia medir, e se o instrumento usado foi utilizado de forma correta e funcionando com a devida sensibilidade de aferir o fenômeno sendo estudado.

Dois problemas básicos de validade e reprodutibilidade são, por exemplo, a correção da escolha do instrumento de medição e, por outro lado, a forma pela qual o mesmo é “calibrado” para medir. É que um dos problemas clássicos de reprodutibilidade, denominada de reprodutibilidade Quixotesca, ocorre quando o instrumento está “quebrado” e sempre obtém a mesma resposta, independente das condições que prevalecem.

Pois bem, voltando ao caso das pesquisas de opiniões sendo realizadas no Brasil, há pouquíssima informação sobre como os questionários estão montados e de como as questões estão sendo apresentadas, e em que ordem, para respondentes que supostamente estão conectados aos seus telefones no momento em que são acessados pela equipe de pesquisadores.  Todas essas são questões que podem comprometer diretamente a validade e a reprodutibilidade da pesquisa. Por isso, dadas as condições sociais da aplicação dessas pesquisas, é que vejo como precoce a internalização de seus resultados como sendo válidas e reprodutíveis ou, em outras palavras, que sejam cientificamente testadas.

Não discuto aqui o fato de que a pressão política sobre Jair Bolsonaro é muito menor do que deveria ser, dados todos os erros e equívocos que marcam o governo desastroso. Mas isso não se dá porque há apoio ao que ele está fazendo ou deixando de fazer. O que está claro é que a maioria das forças políticas de direita embarcaram em uma operação de salvação de um governo que se mostra muito aquém das tarefas históricas postas neste momento, enquanto a chamada esquerda institucional marcha placidamente, mais preocupada em amealhar prefeituras e vereadores nas eleições municipais que deverão ocorrer em novembro. 

Vejo ainda neste cenário que na chamada esquerda institucional inexiste, salvo o caso do PSOL cuja força para mudar a concertação esquerda-direita vigente no Brasil é nenhuma, a disposição de formular um real programa de mudança que se contraponha ao anti-projeto nacional ensejado por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Basta ver as reformas estaduais da previdência que muitos governadores ditos de oposição aplicaram em  seus estados, os quais conseguiram ser ainda mais regressivos do que o aprovado pelo congresso nacional.

Voltando às pesquisas de opinião, o fato é que já faz muito tempo que no Brasil elas são mais instrumentos de produzir opinião pública do que aferi-la corretamente. Por isso, a aceitação tão fácil em todos os espectros políticos de pesquisas que deveriam ser, no mínimo, olhadas com desconfiança acerca de sua robustez científica.  É que, de certa forma, ter Jair Bolsonaro com bons índices de popularidade é bom para todos os lados do ponto de vista eleitoral.

Agora, como a dinâmica da História nunca é perfeitamente controlável, o que temos diante de nós é o risco de que uma simples faísca crie um estouro social que irá surpreender a todos os que estão hoje aceitando passivamente os índices mostrados nessas pesquisas sociais. É que a situação política, econômica e social do Brasil beira o completo desastre, já que em meio a uma pandemia letal, temos um governo que insiste em uma agenda ultraneoliberal que não possui mais aderência ao que está sendo feito em boa parte do mundo. Some-se a isso o quadro dantesco em que a América Latina está sendo posta, e veremos que as atuais pesquisas, quando muito, mostram um quadro contaminado pela sua própria insustentabilidade.

Por isso, mais energia deveria estar sendo gasta para apoiar os milhares focos de resistência pontual que já estão ocorrendo do que incorrer em análises que estão desde a sua gênese contaminadas pela falta de sustentação científica dos números em que elas se baseiam.

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