Sérgio Moro voltou à cena do crime para mostrar o que sempre foi, um personagem obscuro da extrema-direita

Até o debate presidencial de ontem havia ainda gente que preferia se enganar com o real papel cumprido na cena política brasileira pelo ex-juiz federal Sérgio Moro e senador eleito pelo União Brasil pelo estado do Paraná.  Segundo a imagem construída pela mídia corporativa, Sérgio Moro era uma espécie de paladino contra a corrupção e os desvios da classe política brasileira.

moro bolsoA la Padre Kelmon, o ex-juiz Sérgio Moro cumpre o papel de papagaio de pirata de Jair Bolsonaro ao final do debate presidencial de ontem

Ao aparecer ao lado de Jair Bolsonaro após cumprir o papel de conselheiro na condução do debate, Sérgio Moro rasgou a fantasia de paladino contra a corrupção, e se deixou mostrar pelo que realmente é, um personagem sombrio da extrema-direita brasileira para quem corrupção é apenas uma bandeira de ocasião, pois esta ainda comove os segmentos mais reacionários da população brasileira, ou ainda aquelas pessoas desinformadas que caem numa conversa mole que já elegeu muito direitista corrupto ao longo da história da república brasileira.

A tirada de máscara foi tão óbvia que até um apoiador renhido da Lava Jato, Merval Pereira, teve de reconhecer que a ida de Sérgio Moro serviu para acabar com qualquer dúvida sobre sua parcialidade no tratamento das questões judiciais envolvendo o ex-presidente Lula. Como ouvi Merval reconhecendo isso ao vivo, pude ver como as palavras saiam de sua boca como se ele quisesse prendê-las na boca (ver vídeo abaixo). 

A verdade é que a ida de Sérgio Moro ao debate coloca por terra até a justificativa para sua saída do governo Bolsonaro que se deu sob a denúncia de que Jair Bolsonaro estava exercendo pressões para impedir o trabalho independente da Polícia Federal. Ainda que verdadeira a denúncia, o que se vê agora é que a saída de Moro provavelmente se deu por diferenças de interesses que nada tiveram com o alegado oficialmente (ver vídeo abaixo onde Moro não responde a uma questão direta sobre a questão da interferência de Bolsonaro na Polícia Federal).

Para quem ainda se enganava com Sérgio Moro de forma sincera, espero que essa “volta à cena do crime” sirva para que toda ilusão cesse. É que depois dessa, quem ainda cair na conversa fiada de Sérgio Moro não é vítima, mas cúmplice do crime.

A enrascada de Jair Bolsonaro: pedófilo ou mentiroso?

peixe

Há um velho ditado/conselho ´popular que diz que “o peixe morre pela boca” e que repetidamente é desconsiderado pelo atual ocupante da cadeira de presidente do Brasil, o senhor Jair Bolsonaro. Provavelmente movido pela certeza de que pode sempre falar o que bem entende, Bolsonaro soltou uma daquelas declarações de efeito em um podcast realizado na última 6a. feira na qual ele narrou uma estranha história envolvendo o encontro com meninas de 14 ou 15 anos, supostamente venezuelanas, em uma comunidade pobre de Brasília, reconhecendo ainda que teria “pintado um clima” forte o suficiente para levá-lo para o interior da residência das meninas (ver vídeo abaixo).

O que o presidente do Brasil não contava é que suas palavras (emitidas de livre e espontânea vontade) seriam tomadas ao pé da letra, levando a uma onda de condenações pelo evidente tom descabido que a narrativa dele ensejou. Na prática, Bolsonaro armou uma tsunami midiática contra ele mesmo, e que veio em uma péssima hora para quem corre atrás do prejuízo.

Em um reconhecimento óbvio de que propiciou armamento contra si mesmo, Jair Bolsonaro realizou uma “live” na madrugada deste domingo para atacar o Partido dos Trabalhadores (PT) por supostamente usar contra ele, algo que lembremos foi dito por ele mesmo de forma pública.  A coisa tomou um tom bizarro, na medida em que um dos que saiu para prestar solidariedade a Bolsonaro foi o ex-vereador da cidade do Rio de Janeiro que teve seu mandato cassado por filmar e distribuir cenas de sexo, pasmem, com uma menor de idade (ver imagem abaixo).

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A essas alturas do campeonato em que mais de 30 milhões de brasileiros passam fome é realmente difícil entender o que realmente Jair Bolsonaro pretendia com essa confissão bizarra. Acontece que a narrativa dele já se provou mentirosa em várias outras vezes, mas neste caso ganha ares grotescos. É que o site UOL publica uma reportagem neste domingo indicando que, na verdade, no local citado como possível prostíbulo de menores venezuelanas ocorria uma ação social promovida por uma estudante brasileira de estética que fora ali simplesmente para treinar suas habilidades com voluntárias. 

Disto resulta que o presidente Jair Bolsonaro se utilizou de uma situação para mais uma vez atacar o governo de Nicolas Maduro (as meninas segundo ele seriam todas venezuelanas, lembram?), mas acabou enveredando por um caminho muito estranho em que a ele pode ser sim atribuída a pecha de pedófilo ou de mentiroso (aliás, escolher um caminho que mistura as duas coisas não é impossível).

Como não tenho a expectativa de que Jair Bolsonaro vá reverter suas práticas, o mais provável é que venha emitir outras “pérolas” até o dia do segundo turno. A ver!

Aparecida: O Falso Messias e os falsos cristãos

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Apoiadores de Jair Bolsonaro hostilzaram a imprensa e vaiaram o arcebispo de Aparecida do Norte durante as celebrações da Padroeira do Brasil

Por João Batistiolle*

A religião é uma forma da consciência, a mais antiga, a mais bela, e a mais equivocada.

O que quer a religião cristã? Amor ao próximo, justiça social, paz na comunidade como fruto da justiça. O filósofo alemão Feuerbach, século XIX, viu no cristianismo a expressão (Entäusserung) dos desejos mais secretos e mais sublimes do coração humano: o cristianismo é a mais profunda declaração de amor ao ser humano. Esta é a essência verdadeira do cristianismo, segundo o filósofo. Declaração de um filósofo insuspeito: Feuerbach era conhecido pelo seu ateismo, titulo que ele achava equivocado. 

Mas há também a essência falsa. A religião pode ser também uma coisa dos demônios. Uma coisa tão boa pode também ser pervertida e se transformar no seu contrário. Um dito filosófico antigo dizia: “A corrupção das melhores coisas produz as piores coisas”. É o que acontece com a religião.

Foi o que vimos em Aparecida, dia 12, e antes disso em Belém, no Cirio de Nazaré: Um candidato a presidente, cuja vida é o contrário de tudo o que prega o cristianismo, tentando corromper as mais legitimas manifestações religiosas populares para vender uma imagem de cristão e ganhar votos. Nada mais mesquinho, nada mais ridículo, nada mais nojento. Felizmente, os bispos souberam ser firmes e deram um “chega prá lá” no falso messias. O bispo de Aparecida chamou tais práticas de “dragões do ódio e da mentira” que devem ser vencidos com a ajuda da Mãe Aparecida. Que assim seja! Mãe que é mãe não haverá de negar um pedido desses. Toda ajuda é bem-vinda neste momento trágico.

Não menos falsos são aqueles que se dizem cristãos, sejam católicos ou evangélicos. Como podem se deixar enganar e apoiar um candidato que semeia mentiras e falsidades, que odeia os pobres, os negros, os indígenas, as mulheres; que serve aos ricos e ao grande capital como uma prostituta de luxo, prega a violência e as armas, nega remédio e oxigênio às vitimas da pandemia, debocha sobre os cadáveres, tripudia sobre a morte evitável de 700 mil pessoas; apropria-se (Deus sabe como!) de 107 imóveis, 51 deles pagos com dinheiro em espécie!

Como podem ser tão cegos?

Lula, ao contrário, vive sua religiosidade em silêncio, como convém a um bom cristão; vai às missas com a família, comunga; participa desde os anos 80 da pastoral operária no ABC; é amado pelos bispos e teólogos da Teologia da Libertação, recebido de braços abertos como um irmão pelo Papa Francisco e por líderes do mundo inteiro.

Entre nós, todavia, é alvo de vergonhosa humilhação de muitos “dragões” e falsos cristãos: suportou acusações indevidas e uma condenação sem provas que mais tarde foi anulada; viveu o Calvário de 580 dias preso injustamente, a perda da mulher, do irmão e do netinho de 4 anos, aos quais foi impedido de velar dignamente. 

Reconheçamos: é preciso ter muita fé e dignidade para suportar isso. A maiora de nós não tem. Certo?

Como presidente por 8 anos mostrou a coerência da sua fé e da sua política: sua opção preferencial pelos pobres, pelo meio ambiente, pelas novas gerações foi e é a pedra fundamental de seu projeto político traduzido em centenas de políticas públicas.

Como podem pessoas que se dizem cristãs enxergar esses dois candidatos de modo invertido, onde o que é bom aparece a eles como mau, e o que mau aparece como bom?

Conclusão: Este é o mal da religião, a sua falsidade: o de representar uma consciência invertida da realidade! Invertida pela contaminação pelo ódio e pelas mentiras, fake-news produzidas de dentro do palácio do planalto pelo gabinete do ódio do falso messias.

Este é o “dragão” do ódio e da mentira que nos desafia a todos, dramaticamente, e que deve ser combatido. Dia 30. 

Hoje é 13. 13.10.2022


João Batistiolle é professor universitário, com Graduação e Mestrado em Filosofia e Doutorado em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva. 

Apoiadores de Jair Bolsonaro vaiaram arcebispo de Aparecida por homília contra o ódio e a fome no Brasil

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Em sua homília no dia de Nossa Aparecida, o arcebispo Dom Orland Brandes falou contra o ódio e a fome. Por causa disso foi vaiado pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro presentes no lado externo da antiga basílica

No dia de um das maiores celebrações dos católicos brasileiros que é o dia de Nossa Aparecida, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro foram até a cidade de Aparecida (SP) para apoiá-lo, mas acabaram se envolvendo em uma série de confusões, promovendo cenas lamentáveis que incluíram ameaças à profissionais da imprensa, incluindo membros de uma equipe da própria TV Aparecida.

Mas um dos episódios mais lamentáveis ocorreu durante o pronunciamento do Arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes, que durante sua homília se pronunciou contra o ódio e a fome no Brasil. Foi o que bastou para que os apoiadores de Jair Bolsonaro reunidos na antiga basílica começassem uma vaia estrepitosa contra Dom Orlando (ver vídeo abaixo).

A situação que ocorreu hoje em Aparecida certamente terá consequências eleitorais, na medida em que apesar dos católicos serem menos monolíticos do que os evangélicos, o comportamento dos bolsonaristas certamente trará reações dentro do catolicismo brasileiro, dado o dia e o local em que estes fatos lamentáveis ocorreram.

Finalmente, considero particularmente curioso que a homília de Dom Orlando Brandes tenha gerado tanta irritação, na medida em que ele apenas dirigiu sua fala a tópicos que deveriam ser de aceitação geral, mas não foi o que se viu entre os bolsonaristas presentes que, aparentemente, associaram a fala a um apoiado velado à candidatura do ex-presidente Lula.

Patrões da mídia corporativa são antes de tudo ávidos rentistas que amam Jair Bolsonaro e sua política de fome

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Neste domingo dois grandes veículos de mídia (O Globo e Folha de São Paulo) fizeram editoriais cobrando clareza nos planos econômicos do ex-presidente Lula. O primeiro fincando a demanda nos planos de reindustrialização e o segundo veio com uma manchete tirada do estrategista de Bill Clinton,  James Carville Jr., que cunhou o engenhoso mote “É a economia, estúpido”, que a Folha sacanamente substituiu por Lula.

E as perguntas a serem feitas por Jair Bolsonaro? Para esse nem editorial, nem uma matéria que questiona suas políticas econômicas centradas na desindustrialização que Lula promete reverter.  Mas um analista minimamente informado dos investimentos feitos pelas famílias Marinho e Frias vai logo saber porque seus veículos de mídia não perguntam para Bolsonaro. É que eles estão muito felizes com as altas taxas de juros que propiciam uma renda muito maior do que sua atividade formal que é o da comunicação.

Aliás, se estendermos a teia analítica para outros veículos, a Band TV por exemplo, encontraremos representantes do agronegócio que vem se refastelando com as políticas de desmanche ambiental do governo Bolsonaro.

Assim sendo, muito se fala das redes invisíveis de “fake news” do Bolsonarismo, que são reais e que distribuem uma ampla gama de mentiras, mas se olharmos mais perto, veremos que os grandes veículos de mídia também distorcem a realidade a partir de suas notícias para continuarem propriciando a seus donos as rendas milionárias que o rentismo impulsionado por Jair Bolsonaro lhes oferece.

Ainda sobre os resultados eleitorais: se Bolsonaro foi derrotado, por que dizer o contrário?

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Uma das questões que mais me intrigam no pós-primeiro turno é a insistência de muitos, inclusive de apoiadores do ex-presidente Lula, em ignorar uma evidência: Jair Bolsonaro perdeu feio o primeiro turno, apesar da “pequena” desvantagem que ele obteve nas urnas.  

Mas vamos lá aos fatos: em uma situação muito peculiar de financiamento extra campanha, principalmente via o Auxílio Brasil e o chamado “orçamento secreto”, as forças que apoiam Jair Bolsonaro investiram bilhões de reais para vencerem em primeiro turno as eleições presidenciais. A certeza de vitória era tanta que, desafiando as pesquisas eleitorais, Bolsonaro dizia que venceria em primeiro turno. A coisa era considerada delírio, quando se tratava apenas de um cálculo mal feito.

Algumas análises já mostraram que o voto de Jair Bolsonaro se interiorizou, de forma a compensar o recuo de votos em grandes cidades, especialmente naquelas onde o desemprego avançou mais. Essa tendência, convenhamos, é mais do que normal, pois não foi nas capitais que o governo Bolsonaro enfiou mais dinheiro, mas sim nas regiões mais interiores, principalmente das regiões norte e centro-oeste.

Por outro lado, as análises que enfatizam (e eu cito apenas aquelas que não são feitas para turbinar a candidatura de Jair Bolsonaro) um aspecto derrotista dos resultados desprezam o fato óbvio de que Lula, desafiando a máquina eleitoral do governo federal, venceu em cidades importantes, não se restringindo a derrotar Bolsonaro no Nordeste.  Se fosse assim, o destino eleitoral de Bolsonaro teria sido aquele que ele propalava em seus comícios e não aquele que as urnas entregaram.

O Brasil sempre foi dividido, qual é a novidade?

Outras análises de teor derrotista tendem a enfatizar, e lamentar, o fato de que o Brasil saiu dividido das urnas. Ora, quem diz isso parece desconhecer a história brasileira. A verdade é que sempre fomos divididos, e os resultados eleitorais só mostraram isso mais claramente porque certas forças da direita tenderam ao desaparecimento, com os seus votos coalescendo em torno de Jair Bolsonaro.  Um exemplo disso foi o PSDB que de partido dominante de eleições passadas passou a ser minoritário até em São Paulo.

Assim, o que assistimos foi uma unificação das forças de direita em torno de Jair Bolsonaro, o que atende a interesses diversos até do atual presidente.  Como já vimos isso em outros períodos históricos, qualquer análise que aponte uma suposta “fascitização” atual do Brasil, despreza o fato de que nunca fomos um país efetivamente democrático. Quando muito, somos um simulacro de democracia onde direitos fundamentais só são concedidos às elites, enquanto a maioria da população fica relegada ao descaso e à violência do Estado brasileiro.

Quem despreza o fato de que nossa economia dependente é baseada na opressão e na violência é que acaba caindo nesse tipo de lamento. Quem entende minimamente a nossa formação capitalista dependente deveria se concentrar em organizar a maioria que votou em candidatos opostos a Jair Bolsonaro, em vez de perder tempo com análises que só servem para desmobilizar a classe trabalhadora e a juventude.

A  verdade é que já éramos divididos e continuaremos divididos depois do segundo turno, independente de quem ganhar as eleições.  É que eleições são apenas momentos muito específicos da luta de classe que ocorrem em um terreno muito hostil aos que precisam ter uma mudança radical na realidade em que estamos imersos.

Mas no momento, a tarefa posta é aumentar a votação do ex-presidente Lula para derrotar Bolsonaro nas urnas. Derrotar o seu projeto econômico e social vai ser algo que deverá transpor, e muito, o marco restrito das eleições.

Jair Bolsonaro é uma farsa: um entreguista antipobre travestido de nacionalista anti-sistema

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Jair Bolsonaro, o “nacionalista” que adora bater continência para a bandeira dos EUA, enquanto implementa políticas anti-pobres

Já li “n” análises do dito fenômeno “Jair Bolsonaro”, mas a maioria parece passar ao largo da sua principal contradição. É que apesar de se apresentar como um nacionalista ferrenho, na prática ele é um entreguista antipobre que ainda parece viver a ilusão de que o paraíso na Terra se encontra materializado nos Estados Unidos da América.

Se olharmos o que o ministro “Caco Antibes”, Paulo Guedes, fez com o patrimônio público que chegou em suas mãos, pode se ver um desastre completo com setores inteiros agora operados por estatais estrangeiras, inclusive com papel nada desprezível para as estatais chinesas.

Além disso, o governo Bolsonaro promoveu um desmanche completo de setores inteiros das políticas sociais destinadas a amenizar as grandes injustiças sociais existentes no Brasil (ver depoimento contundente abaixo sobre o que foi feito contra as políticas de inclusão educacional), a partir de uma visão pública de que os pobres só servem mesmo para votar (de preferência nele).

Entretanto, após ter cometido todo tipo de ataque contra os pobres, Jair Bolsonaro conseguiu emplacar mais de 50 milhões de votos no primeiro turno, deixando muita gente de boca aberta com sua capacidade de atrair votos também entre os pobres.

Para quem conversa com as pessoas em semáforos, ruas e praças enquanto elas lutam pela sua sobrevivência, minha visão é de que Bolsonaro continua forte não apenas por causa do extensivo uso da máquina pública que qualquer governante brasileiro faz enquanto “segura a caneta”, mas também porque a esquerda institucional adotou um cardápio econômico muito próximo do aplicado por Jair Bolsonaro, apenas com uma tintura mais social (daí o termo social liberalismo).

Para que o bolsonarismo seja derrotado (e não apenas Jair Bolsonaro),  a esquerda (aqui eu falo explicitamente do PT) terá que buscar outra forma de governar que não seja o modelo do Consenso de Washington. Se não fizer isso, o discurso farsesco de Jair Bolsonaro continuará atraindo mais gente com seu papo mequetrefe de que é um nacionalista anti-sistema quando, na prática, não passa de um entreguista contumaz.

Campos dos Goytacazes, a cidade onde o Bolsonarismo corre abraçado com a miséria e a fome

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Um observador astuto da política de Campos dos Goytacazes me enviou uma reportagem que mostrava que o nosso município foi um dos que deu mais votos proporcionalmente para Jair Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais de 2022 (impressionantes 58,01%).  Há ainda que se celebrar que no primeiro turno de 2018, Bolsonaro havia obtido 55,19% dos votos, o que mostra um notável padrão de consistência.

Para olhos menos atentos, esse resultado soa como surreal, já que temos aqui dados igualmente impressionantes no tocante à pobreza extrema e de famílias passando fome. Analisados pela ótica da necessidade em relação ao voto, os resultados deste ano aparecem como em contradição com a realidade objetiva, carecendo ainda algum tipo de explicação.

A primeira observação óbvia é que resultados eleitorais muitas vezes têm pouco a ver com a realidade das pessoas pobres. O que geralmente explica este tipo de resultado tem mais a ver com a capacidade de organização dos principais candidatos, o arco de alianças em plano local, e, não raramente, o uso de meios ilegais para captação de votos (um caso exemplar disso é a uma animada cerveja realizada em uma praça recém-reformada pela Prefeitura de Campos no Distrito de Travessão, em um ponto bem próximo das urnas eleitorais. Tudo isso enquanto os eleitores ainda estavam na fila  tentando votar).

Nesse aspecto, o fato de que as duas famílias que hoje dominam a cena política campista (i.e., os clãs Bacellar e Garotinho) apoiaram de forma vigorosa a candidatura de Jair Bolsonaro, deixando de lado as brigas locais para se concentrar no plano nacional, já serviria como parte da explicação. Por outro lado, há que se considerar o fato de que o Partido dos Trabalhadores (PT) vem no plano municipal se arrastando em estado de morbidez desde sempre. Para piorar a coisa, alguns dos quadros tradicionais do partido hoje não podem nem ocupar a mesma esquina da cidade sob pena de ocorrer algum estranhamento. Nesse sentido, os caciques municipais do petismo continuam fazendo exatamente o contrário do que os Bacellar e Garotinhos fizeram para juntos ajudar a Jair Bolsonaro a vencer de forma dominante.

Há ainda que se dizer que ao contrário dos Bacellar e Garotinhos que não são “bolsonaristas raiz”, a cidade de Campos dos Goytacazes tem uma história antiga de presença da extrema-direita, tendo sido um dos quartéis generais da famigerada Tradição, Família e Propriedade (TFP). Essa extrema-direita agora tem Jair Bolsonaro como uma espécie de farol para implantar seu projeto conservador de sociedade. Tanto isso é verdade que já estão espalhadas faixas anônimas cobrando o prefeito Wladimir Garotinho que deixe de ser uma espécie de “bolsonarista Nutella” para assumir uma face mais “raiz” (ver imagem abaixo).

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Mas no meio desse caos político, centenas de pessoas continuam labutando em semáforos e esquinas para obter algum tipo de “ganha pão” que minimize o profundo sofrimento a que são submetidas pelas políticas ultraneoliberais de Jair Bolsonaro, aquele mesmo que obteve os acachapantes 58% mencionados no primeiro parágrafo deste texto.  Esta realidade tão irracional na aparência apenas serve para mostrar que se nada for feito para alterar o equilíbrio de forças, candidatos como Jair Bolsonaro continuarão tendo votações expressivas em Campos. É que já está mais do que demonstrado que a miséria e fome não geram consciência política, mas apenas desprezo pelo processo político e submissão aos políticos que manipulam melhor o desespero alheio.

Felizmente, as eleições de 2022 trouxeram um raio de luz nessa escuridão toda por meio das votações expressivas de Zé Maria (PT) e Professora Natália Soares (PSOL). Com jeito distintos de fazer campanha e com propostas distintas, os dois mostraram que há sim espaço para a esquerda em Campos dos Goytacazes. O problema é que para haver alguma viabilidade eleitoral, a esquerda local vai ter que arregaçar as mangas e começar a trabalhar de forma tão diligente quanto fazem os Garotinhos e os Bacellar.

Amazônia brasileira com escalada recorde de incêndios

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Por Washington Castilhos para a SciDev

As queimadas na Amazônia brasileira aumentam a cada mês, e o acumulado anual segue a mesma tendência. Somente em setembro de 2022, às vésperas das eleições presidenciais brasileiras realizadas em 2 de outubro, foram detectados 41.282 focos de incêndio no bioma, número 146% superior ao registrado no mesmo mês de 2021 (16.742 focos).

Esse é o pior índice desde 2010, quando foram registrados 43.933 focos no mesmo mês, segundo dados do Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Desde então, apenas três setembros (2017, 2020 e 2022) ultrapassaram 30 mil incêndios, dois desses meses foram durante anos de governo do atual presidente Jair Bolsonaro, agora candidato à reeleição.

Os incêndios acumulados em 2022 (89.285 focos até 5 de outubro) já superam o total registrado em 2021 (75.090). Agosto também foi o mês com o maior número de incêndios nos últimos 12 anos, com 41% mais focos do que no mesmo mês de 2021.

No ritmo atual, espera-se que os incêndios de 2022 ultrapassem a marca de 100.000 surtos em um ano. Apenas a primeira semana de setembro, com 18.374 focos, já havia superado o total de 2021.

Mapa mostrando a localização do “arco do desmatamento da Amazônia” no Brasil

Cientistas dizem que o aumento dos incêndios nos últimos meses está relacionado ao relaxamento das ações de controle no atual governo e também às expectativas sobre o resultado das eleições.

“Historicamente, na Amazônia durante os anos eleitorais há um aumento de incêndios devido à incerteza de como o próximo governo vai agir na frente ambiental”, disse Rômulo Batista, biólogo do Greenpeace Brasil , ao SciDev.Net .

Segundo o físico e ex-diretor do Inpe, Ricardo Galvão, isso se deve à relação direta entre queimadas e desmatamento. Nesse processo, as árvores são derrubadas e secas e, em seguida, o fogo é usado para “limpar” o local para pastagem e agricultura.

Galvão observa que quem desmata se sente pressionado com a possibilidade de mudar sua política, o que torna suas ações ainda mais poderosas. “Como a Amazônia é desmatada para queimar e limpar, tentamos desmatar o mais rápido possível”, disse Galvão, professor da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) . SciDev.Net .

Os pesquisadores ressaltam que, apesar de ser um período quente e sem chuva na Amazônia, não há espaço para argumentos de que o fogo seja espontâneo por conta do calor. Segundo o engenheiro ambiental Alberto Setzer, que desenvolveu o sistema de monitoramento de incêndios do Inpe, 99% dos incêndios são causados ​​por ação humana, sendo a maioria ações ilegais facilitadas pelo controle negligente.

“As imagens estão sendo feitas em tempo real, os satélites mostram quando e onde esses crimes ocorrem. Se continuam a acontecer, é porque deve haver interesses para que a situação continue”.

Alberto Setzer, Coordenação Geral de Ciências da Terra do Inpe

“De um lado está a legislação e de outro a falta de controle. O controle depende da vontade política”, disse Setzer ao SciDev.Net . “As imagens estão sendo feitas em tempo real, os satélites mostram quando e onde esses crimes ocorrem. Se continuarem acontecendo é porque deve haver interesses para que a situação continue”, acrescenta o pesquisador da Coordenação Geral de Ciências da Terra do Inpe.

A situação tem recebido atenção mundial. Em artigo publicado às vésperas das eleições brasileiras, a revista Nature observou como o atual governo “incentivou a mineração em toda a floresta amazônica ao mesmo tempo em que reduziu a fiscalização das leis ambientais, resultando em um aumento acentuado do desmatamento”.

Segundo os cientistas, os sucessivos cortes no orçamento do Ministério do Meio Ambiente do Brasil refletiram diretamente nas ações de seus órgãos de fiscalização e controle na Amazônia, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(Ibama).

E, segundo eles, com a recente eleição de um número significativo de senadores e deputados alinhados à política do atual governo, as perspectivas não são animadoras.

“Há projetos de lei extremamente prejudiciais ao meio ambiente e há pressão para que esses deputados e senadores eleitos aprovem esses projetos”, disse Galvão, que foi demitido da Diretoria do Inpe por Jair Bolsonaro em julho de 2019 por divulgar dados sobre desmatamento. pela agência.

“Existem, por exemplo, projetos de lei que buscam abrir terras indígenas para exploração por não indígenas e tentativas de flexibilização das licenças ambientais”, acrescentou Batista.

Cientistas concordam que a questão ambiental não foi debatida como deveria no primeiro turno das eleições presidenciais e esperam que no segundo turno, a ser realizado em 30 de outubro, as propostas ambientais dos dois candidatos —o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva e o atual presidente Bolsonaro – podem ser apresentados à população com maior clareza.

O problema, segundo especialistas, é que isso acontece porque ainda não há uma percepção pública clara dos malefícios das atuais políticas sobre o meio ambiente, o que fez com que a maioria das candidaturas comprometidas com as questões ambientais não fossem vitoriosas. “Essa mensagem não penetrou na população brasileira”, lamentou Galvão.

Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição da América Latina e Caribe do SciDev.Net [Aqui!].

O papel da mídia corporativa no debate eleitoral é ajudar a eleger Jair Bolsonaro

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Tendo lido notícias propaladas pelos maiores veículos da mídia corporativa acerca da ampliação (falsa) do arco de alianças em torno de Jair Bolsonaro só posso concluir, mais uma vez, que seus proprietários são condutores diretos da propaganda em prol de sua reeleição.

Fatos que comprovam isso? A repetição quase ad nauseum do suposto fortalecimento da candidatura de Jair Bolsonaro após as declarações de adesão dos governadores Cláudio Castro (RJ, Romeu Zema (MG) e Rodrigo Garcia (SP), e também do agora senador Sergio Moro e do recém eleito deputado federal Deltan Dallagnol. Ora, essas figuras todas não só apoiaram Jair Bolsonaro no primeiro turno, como também se apoiaram (com exceção de Rodrigo Garcia em São Paulo) nele para se elegerem.  

Então qual é a novidade desses apoios? Zero! Se é zero, por que então tantas manchetes dando luz a uma velha notícia? Nada mais, nada menos, do que um museu de velhas novidades. O problema é que isto sendo usado não apenas naturalizar Jair Bolsonaro como um candidato que não carrega nas costas quase 700 mil mortos e um empobrecimento brutal da maioria da população, mas também para ocultar a ampliação do arco de alianças que o ex-presidente Lula já conseguiu em menos de 48 horas, incluindo o PDT de Ciro Gomes.

Por isso é que não há dúvida de que os grandes veículos da mídia brasileira (incluindo as Organizações Globo) fazem parte do que o teórico da comunicação de massa, o filósofo canadense Marshall McLuhan, denominou como “agenda setting” que, trocando em míudos, é o estabelecimento de pautas para hegemonizar o debate (seja ele econômico, político ou cultural).

Mas por que os veículos da mídia corporativa cumprem esse papel nefasto? Porque seus donos estão nadando de braçadas no regime econômico estabelecido por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, e não querem que haja qualquer perturbação no sistema de acumulação gerado pelo rentismo.

Então, na próxima vez que alguém vier gritar pela liberdade de expressão desses veículos de mídia, pense duas vezes, É que na prática eles querem a liberdade apenas para naturalizar Jair Bolsonaro e seu governo de destruição nacional.