Sobre injustiça e morte: a perseguição aos bailes funk

paraisopolisMoradores de Paraisópolis protestam contra ação da PM de São Paulo que resultou na morte de nove jovens por pisoteamento em baile funk.  Marlene Bergamo/FolhaPress

Por Luciane Soares da Silva*

O caso de Paraisópolis não pode ser visto isoladamente. As nove mortes no baile funk, fruto da deliberada ação com intenção de matar da Polícia Militar de São Paulo, unem-se as ações que já vitimaram mais de 9 crianças no Rio de Janeiro. Todas moradoras de periferia. Muitas delas, negras. Crianças mortas diretamente pela política que sugere “mirar na cabecinha”. A política de João Dória acompanha a de Wilson Witzel com foco no mesmo público.

As versões dos policiais nunca apresentam uma prova material do ataque a que dizem ter enfrentado e respondido. Já as imagens de pessoas encurraladas, apanhando sem a menor possibilidade de defesa, estão aí e não podem ser desconsideradas. Lamento que estes homens tenham de ter seu trabalho tão rebaixado no ofício de prover segurança. São o braço ativo de um governador covarde. Que encena como em dezenas de vezes … indignação e pedido de apuração dos fatos.

Iniciei minhas pesquisas com favelas no Rio de Janeiro em 2005 e perdi a conta do número de assassinatos, chacinas, comoções e injustiças vividas nestes anos. Dentre as situações mais insustentáveis da relação entre Estado e periferia, a proibição dos bailes funk sempre me pareceu estar entre as mais injustificáveis. Acompanhei a preparação dos bailes na Rocinha, Maré e Acari. E nunca foi razoável a justificativa de que estes eram espaços de consumo de drogas e de ação do tráfico. Em primeiro lugar, o consumo de drogas não precisa da realização dos bailes para existir e já faz algum tempo que sua forma de venda migrou para um formato muito mais capilarizado e discreto. Além disto, o baile funk não é realizado sob domínio do tráfico como os jornais de grande circulação gostariam de fazer crer.

Conheci evangélicos que vendiam balas na porta dos bailes. Conheci artistas que aferiam renda com as letras gravadas pela Furacão 2000, conheci dançarinas que sustentavam suas famílias com mais de cinco apresentações em fim de semana. A economia da favela sempre lidou muito bem com os bailes. A certamente os 174 milhões movimentados em 2008, segundo a FGV, mostravam a centralidade do fenômeno nestes locais. Não é uma questão de gosto…

Aqueles que em sua ignorância acusam estes moradores de “falta de vontade para empreender” não fazem a menor ideia das formas criadas na favela para complemento de renda. Os bailes nunca precisaram de patrocínio do Estado para existirem. Pelo contrário, cresceram de costas para o poder público que em seu punitivismo tacanho, apresenta exigência de banheiros químicos e segurança em territórios que se autogovernaram em muitos destes quesitos, sem a presença do Estado. O baile incomoda? Mas a falta de saneamento não. A falta de transporte não, nem de creches ou escolas. O baile incomoda? Mas crianças com os corpos no chão em busca de proteção contra os helicópteros do Estado não. O baile incomoda? Já o sumiço de Amarildo…

Na sessão da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) que discutiu o funk como patrimônio cultural, vi muitos deputados escondendo os relógios e rindo uns para os outros, enquanto guardavam as carteiras, apontando para uma plenária cheia de meninos com camisetas do Flamengo, tênis velhos, bonés e bermudas. Os deputados riam como se estivessem olhando um circo.

Os bailes funk são a única forma de lazer de territórios sem teatros, bibliotecas ou cinemas. Mas já faz uma quase duas décadas que este é o único segmento cultural perseguido pelo Estado. O problema dos comandantes e secretários de segurança, não é ritmo. Já tentaram justificar que o baile funk é a falência da segurança pública durante a curta vida das Unidades de Polícia Pacificadora. Já tentaram proibir o baile por alegar que ali se fazia apologia ao tráfico. Mas nada disto sustenta a ação policial em Paraisópolis.

A intensificação destas ações de extermínio sugere que atingimos o ápice de uma política sempre presente nas favelas: a das execuções sem julgamento.

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* Luciane Soares da Silva é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe Laboratório de Estudos sobre Sociedade Social e do Estado (Lesce), e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

Mudanças climáticas e seus padrões extremos de precipitação encontram um Brasil despreparado e nas mãos de governantes ineptos

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As chuvas torrenciais que estão causando inundações e quedas de barreiras na cidade de São Paulo e em toda a sua região metropolitana não surpreendem quem acompanha a evolução das mudanças climáticas e dos chamados eventos atmosféricos extremos que são parte do padrão que as acompanha (ver gráfico abaixo por Marengo e colaboradores, 2013 que mostra a variação das chuvas extremas em São Paulo entre 1930 e 2010).

EVENTOS EXTREMOS

Entretanto, no plano dos governos, esse padrão que combina grandes volumes de precipitação em pequenos períodos de tempo tem sido literalmente ignorado, como mostram os dados do desinvestimento promovido por Bruno Covas e João Dória, ambos do PSDB, como mostra reportagem da Rede Brasil Atual, onde se gastou um terço da verba de combate a enchentes em 2017 e 2018. Esta política de imprevidência frente às mudanças climáticas causou, entre outras coisas, a paralisação das obras de piscinões. O resultado dessa postura negacionista estão sendo vistos por toda a cidade de São Paulo, que acumula 601 pontos de inundação.

Pior ainda tem sido a postura do ainda ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que vem trabalhando de forma decisiva para tornar o Brasil ainda mais despreparado para reagir aos crescentes desafios trazidos pelos novos padrões de precipitação associados às mudanças climáticas. É de Ricardo Salles, a frase pérola de que “a discussão de mudança climática deve ser feita pela academia. Temos questões mais prementes a resolver“.

eventos extremos 1

O problema agora é que não apenas o número de mortos e desabrigados em São Paulo vem aumentando ao minuto, mas como ainda estão previstas chuvas fortes para as próximas 48 horas, o que poderá aumentar ainda mais o rastro de destruição em face da rápida elevação das águas nas áreas já afetadas (ver abaixo vídeo com imagens estarrecedoras com a chegada das águas da chuva em uma residência).

A única forma de não ficarmos assistindo repetidas catástrofes causadas pela combinação de padrões extremos de precipitação e governantes ineptos será uma ampla mobilização social que force o desenvolvimento de novas formas de gestão urbana no Brasil. Ainda que a conjuntura política atual pareça adversa, a comunidade científica e a sociedade civil organizada terão de cumprir um claro papel de organizar as demandas sociais para que o atual modelo calcado num modelo de forte segregação sócio-espacial que isola pobres e ricos dentro de nossas cidades seja superado o quanto antes.  Do contrário, continuaremos contabilizando prejuízos e, pior, contando o número de mortos.

E que ninguém se deixe enganar por Ricardo Salles, não há questão mais premente na atualidade do que as mudanças climáticas. E nos preparar para isso será fundamental, a despeito dos Covas, Dòrias e Salles que lamentavelmente estão em postos chaves do Estado brasileiro.

Resultados eleitorais trazem os ventos do confronto social

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Os resultados das eleições de ontem trazem uma notícia que vai ser provavelmente ignorada pelos vitoriosos e derrotados: em muitos colégios eleitorais os vencedores perderam para a soma das abstenções, brancos e nulos.  A situação de descrédito do sistema político é tão grande que em 9 capitais (incluindo São Paulo) a soma de abstenções, brancos e nulos venceriam as eleições (Aqui!).

A razão mais óbvia para esse crescimento da negação em apertar a tecla da urna eletrônica para beneficiar este ou aquele candidato nasce da profunda separação que existe entre a maioria da população e seus governantes. Esse processo, inclusive, tenderá a aumentar para 2018 porque os resultados que saíram das urnas tendem a privilegiar agendas de privatização e de precarização do Estado em nome de um suposto ganho econômico. Tal ganho econômico, já se sabe, vai privilegiar aquele segmento composto por algo em torno de 1% da população brasileira que poderá assim gastar mais em suas viagens a Miami e Paris.

Entretanto, essa eleição também incorporam elementos adicionais para contribuir para o descrédito do sistema político. É que os partidos majoritários optaram em muitos casos em rebaixar o debate e lançar candidatos que não possuem a menor condição de responderem aos problemas reais que terão de enfrentar. Sob a pecha de recusar o político, esses candidatos se travestiram da antipolítica da pior espécie, contribuindo para desacreditar ainda mais o que muitos já não acreditam para começo de conversa. Exemplos disso não faltam, mas a eleição do lobista tucano João “Dólar” Dória em São Paulo salta aos olhos como a aposta em algo que não tem como dar certo. 

No espectro dito de esquerda, o recolhimento do PT a cidades pequenas e médias e derrotas acachapantes em cidades que historicamente o partido controlava é a demonstração de que não se pode abandonar as raízes de forma impune. Mas, além disso, essas derrotas têm que se creditadas à direção do PT que a partir de 2002 trabalhou duro para deseducar as suas bases políticas.  O fortalecimento do Psol, um partido que nasceu a partir do rompimento de frações petistas que foram expurgadas por discordarem do giro à direita que a direção nacional do PT realizou, é mais uma prova de que não é preciso ir longe para enxergar as responsabilidades por detrás desta derrota eleitoral.

Finalmente, não tenho dúvidas de que assistiremos um profundo ataque aos direitos sociais nas prefeituras que elegeram partidos que deram sustentação ao golpe parlamentar contra Dilma Rousseff. É que o golpe não foi dado senão para facilitar o desmonte do Estado e para aumentar o grau de vampirismo que as classes ricas consideram ser necessário para se manterem seus muitos privilégios. Agora, resta saber como vão reagir aqueles que terão negado o pouco que foi conquistado nas úiltimas décadas. Para mim, o que os ventos sinalizam é a abetura de um período de agudos confrontos no Brasil. 

PSDB, uma nau de vestais nada vestais

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A iminência de que o impechment (pode chamar de golpe parlamentar) da presidente Dilma Rousseff é quase uma certeza, vemos novos escândalos envolvendo o PSDB (principal parceiro do PMDB na empreitada de impor um presidente pela via indireta).

A mais nova revelação de tucano enfiado em coisas esquisitas é o do Sr. João Dória, candidato tucano à prefeitura de São Paulo, que foi pego com uma conta offshore no escândalo conhecido como “Panama Papers” (Aqui!). Mas em São Paulo temos ainda o escândalo da máfia das merendas cuja comissão parlamentar de inquérito (CPI) continua paralisada na Alesp.

O elemento mais singular de todo esse suposto processo de combate à corrupção que foi utilizado como argumento para desgastar o PT e a presidente Dilma Rousseff foi de que o partido era corrupto e ela era, no mínimo, cúmplice.

Quando o caso é com o caso é com o PSDB, os meios que esperneiam contra o PT se calam ou, pior, continuam jogando a culpa em Lula et caterva.  A impressão que fica é que as elites e a classe média não sou contra a corrupção como um todo. Elas são apenas contra a corrupção que foi cometida por outros, já que a delas parece ser um direito divino.