Vacina contra o coronavírus fabricada na China está no centro do confronto político no Brasil

 Choque em curso entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo sobre a vacina Sinovac ameaça implantação de imunização.  Desentendimentos sobre quais vacinas fornecer à população brasileira vêm fermentando desde outubro

mascaraMulher usando máscara protetora no Brasil, o segundo país mais atingido pela pandemia de coronavírus depois dos Estados Unidos. Foto: Reuters

Por Eduardo Baptista para o South China Morning Post

O Brasil se tornou um campo de batalha à medida que facções políticas disputam sobre qual vacina contra a Covid-19  vai  usada para imunizar 212 milhões de cidadãos – uma decisão que terá implicações para toda a região da América Latina.

O presidente do Brasil Jair Bolsonaro emitiu um decreto em agosto para reservar US $ 356 milhões para comprar e eventualmente produzir 100 milhões de doses da vacina desenvolvida em conjunto pela Universidade de Oxford e a empresa farmacêutica AstraZeneca.

Enquanto isso, João Doria, governador do estado mais rico do Brasil, tem pressionado ativamente  pelo uso da CoronaVac, uma vacina desenvolvida pela Sinovac Biotech, sediada em Pequim, no que os especialistas dizem ser um movimento inicial para a candidatura presidencial de 2022.

Um confronto está se preparando desde outubro, quando Bolsonaro vetou um acordo entre o ministério da saúde e o governo paulista de Doria para a compra de 46 milhões de doses do CoronaVac. Ele passou a igualar isso a “morte e invalidez” e disse que não o incluiria no programa nacional de imunização do país.

As primeiras doses da vacina CoronaVac Covid-19 da China chegam ao Brasil

Conhecido como o “Trump dos Trópicos”, Bolsonaro também se recusou a ser vacina contra a COVID-19 e minimizou a gravidade da epidemia.

Ao mesmo tempo, o Instituto Butantan, com sede em São Paulo, quase concluiu os testes de Fase 3 da vacina chinesa e cooperou com Doria para construir a infraestrutura necessária para a produção em massa.

A crise da Covid-19 no Brasil foi de mal a pior. O país está enfrentando o segundo surto mais mortal depois dos Estados Unidos, com mais de 6,7 milhões de casos e 179.000 mortes. Vários governadores estaduais, incluindo Doria, criticaram o plano federal de imunização por não garantir um suprimento diversificado de vacinas.

A pressão sobre Bolsonaro também está aumentando à medida que outros países da região tentam aumentar seus próprios suprimentos de vacinas. Dimas Covas, chefe do Instituto Butantan, disse em agosto que estava em negociações com Argentina, Colômbia e a Organização Pan-Americana da Saúde para fornecer o CoronaVac.

Na quinta-feira, Covas disse que o número de países interessados ​​cresceu e inclui Peru, Uruguai, Paraguai e Honduras. Falando na mesma conferência, Doria disse que 11 estados brasileiros entraram em contato com o Butantan em busca do CoronaVac.

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, ajusta sua máscara facial durante uma entrevista coletiva em março.  A pressão sobre Bolsonaro está aumentando à medida que outros países da região tentam aumentar seus suprimentos de vacinas.  Foto: ReutersO presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, ajusta sua máscara facial durante uma entrevista coletiva em março. A pressão sobre Bolsonaro está aumentando à medida que outros países da região tentam aumentar seus suprimentos de vacinas. Foto: Reuters

Doria disse na segunda-feira que a implantação da vacina em todo o estado começaria em 25 de janeiro, com 18 milhões de doses a serem distribuídas no total. Os primeiros a receber a vacina serão grupos vulneráveis, como profissionais de saúde e povos indígenas, seguidos por qualquer pessoa com mais de 60 anos.

Nada disso será possível, porém, sem a aprovação do órgão regulador de saúde do Brasil, a Anvisa. Poucas horas após o anúncio de Doria, a Anvisa expressou surpresa e preocupação com o fato de a data escolhida invalidar o andamento da avaliação da vacina.

A Anvisa também observou que ainda havia dois bloqueios de estradas antes que a vacina pudesse ser aprovada para uso emergencial. Uma revisão da fábrica na China onde a vacina será feita ainda estava em andamento e os resultados finais dos testes de Fase 3 do Instituto Butantan ainda não haviam sido apresentados.

O ministro da Saúde e aliado do Bolsonaro, Eduardo Pazuello, disse nesta terça-feira – durante reunião com governadores de estados brasileiros – que a Anvisa precisava de cerca de 60 dias para aprovar uma vacina e que a primeira da fila era a da AstraZeneca. Isso tornaria a data anunciada de Doria inatingível.

Doria criticou as declarações de Pazuello, dizendo que o governo federal tinha uma oposição ideológica e política ao CoronaVac. Em resposta, Pazuello garantiu aos governadores que o governo federal compraria qualquer vacina aprovada pela Anvisa a preços razoáveis.

Ativistas da organização não governamental “Rio de Paz” erguem barracos simulados, que representam a vida de famílias de favelas de baixa renda no Brasil, para protestar contra a decisão do governo Bolsonaro de suspender a ajuda às pessoas mais afetadas pela pandemia.  Foto: AFPAtivistas da organização não governamental “Rio de Paz” erguem barracos simulados, que representam a vida de famílias de favelas de baixa renda no Brasil, para protestar contra a decisão do governo Bolsonaro de suspender a ajuda às pessoas mais afetadas pela pandemia. Foto: AFP

Em entrevista à CNN Brasil no dia seguinte, Pazuello disse que se o governo federal fechar um acordo com a farmacêutica norte-americana Pfizer, o uso emergencial de sua vacina pode começar já em dezembro.

Milhares de pessoas receberam a vacina CoronaVac na China, onde a vacina tem autorização de uso emergencial.

Doria disse que os dados finais dos ensaios clínicos da Fase 3 serão apresentados na terça-feira, e que a Anvisa havia prometido uma decisão em 30 dias.

Ao longo da disputa entre Doria e Bolsonaro, a Anvisa reafirmou seu compromisso de avaliar vacinas com base em critérios científicos e não políticos.

Doria já questionou várias vezes a independência da Anvisa, afirmando nesta quarta-feira que a agência não deve ser refém de interesses do governo federal, da presidência ou de uma ideologia.

Bolsonaro, um ex-capitão do Exército, indicou o tenente-coronel aposentado Jorge Kormann para o conselho da Anvisa no mês passado. Se a indicação for aprovada no Senado, três dos cinco diretores da Anvisa serão aliados do Bolsonaro, aumentando as chances de boicote da CoronaVac.

Kormann, atualmente trabalhando no ministério da saúde de Pazuello, não tem experiência anterior em medicamentos ou vacinas, mas deve liderar a unidade da agência responsável pela aprovação de vacinas. Sua indicação foi contestada pelo sindicato dos trabalhadores da Anvisa.

O Brasil, que tem a quinta maior população do mundo, precisa de mais de 400 milhões de doses para que o governo cumpra sua promessa de vacinar toda a população até o final do ano que vem

Pazuello disse na terça-feira que a AstraZeneca forneceria 260,4 milhões de doses – 100,4 milhões no primeiro semestre de 2021 e 160 milhões no segundo semestre. Setenta milhões de doses viriam da Pfizer e de um consórcio liderado pela Organização Mundial da Saúde, o Consórcio Covax , que forneceria 42,5 milhões de doses.

Na quinta-feira (10/12), o segundo funcionário mais graduado do Ministério da Saúde, Elcio Franco, disse que a Pfizer e a CoronaVac estavam “no mesmo nível” e aguardando a aprovação da Anvisa. No entanto, o ministério ainda não disse quantas doses de CoronaVac serão lançadas.

Este artigo foi inicialmente escrito em inglês e publicado por South China Morning Post [Aqui].

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