O solta/prende o Lula e os inevitáveis impactos sobre o processo político

Este domingo prometia ser sem emoções após a eliminação do Brasil da Copa FIFA 2018 pelo time de grandalhões da Bélgica, mas não foi isso o que aconteceu. Mas emoções não faltaram no dia de hoje depois que o desembargador plantonista Rogério Favreto decidiu conceder um habeas corpus e colocar em liberdade o ex-presidente Lula (ler decisão na íntegra [Aqui!].

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A decisão do desembargador Rogério Favreto colocou em marcha uma sequência de eventos que não estão dentro das normas praticadas pela justiça brasileira. É que desde Portugal, onde goza suas férias, o juiz Sérgio Moro decidiu interferir de um juiz lotado em instância superior e, digamos, “desdecidiu” o que havia sido decidido pelo desambargador Favreto. Aqui duas esquisitices próprias dos tempos da Lava Jato. A primeira é que um servidor público em gozo de suas férias não realizo atos próprios de sua função, por estar, exatamente!, de férias. A segunda é que o juiz Sérgio Moro é a primeira instância do processo em que o ex-presidente Lula foi condenado e não pode embargar decisões de um desembargador colocado em instância superior.

Para tentar encobrir esses dois fatos do cotidiano judicial, o juiz Sérgio Moro acionou o desembargador João Pedro Gebran Neto. relator do caso do triplex do Guarujá, para invalidar a decisão de Rogério Favreto sob a alegação de que seu colega teria sido enganado pelos advogados de Lula.

Quem achava que a coisa terminaria por aí, eis que Rogério Favreto não apenas ordenou novamente a soltura de Lula, mas como também denunciou Sérgio Moro ao Conselho Nacional de Justiça e à Corregedoria do Tribunal Regional Federal 4 (TRF 4) por causa de sua interferência indevida na sua decisão de conceder um habeas corpus a Lula (ver decisão na íntegra [Aqui!].

Mas a coisa não parou por aí porque um coletivo de advogados (Advogadas e advogados pela Democracia) resolveu impetrar no TRF-4 um pedido de prisão contra o juiz Sérgio e contra o delegado da Polícia Federal Roberval Drax por suas interferências no sobrestamento da aplicação do habeas corpus concedido em favor do ex-presidente Lula [ver pedido de prisão [Aqui!].

A estas alturas do campeonato (que não é a Copa FIFA), o que menos importa é se o ex-presidente Lula será solto hoje ou não. É que todo este imbróglio serviu para expor ainda mais o caráter discricionário das decisões tomadas pelo juiz Sérgio Moro e seus colegas no TRF-4.  Esta exposição poderá ser chave nos próximos passos da campanha presidencial que sequer foi iniciada.  É que muito provavelmente toda esta chicana legal para impedir a soltura de Lula servirá para energizar a militância do PT, coisa que poderá ter um forte impacto em todo o processo de alianças que está sendo alinhavado. A ver!

Caso Chequinho: não gostou da mensagem? Atire no mensageiro

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As revelações trazidas pelo SBT Rio têm trazido algumas repercussões curiosas no plano da mídia corporativa de Campos dos Goytacazes. Como não se pode mais manter intacta a narrativa construída para dar sustentação à perseguição midiática-jurídica-policial, agora estou vendo tentativas de descaracterizar a capacidade dos jornalistas do SBT Rio de produzirem jornalismo de boa qualidade, em que pesem estar trabalhando na emissora comandada pela família Abravanel.

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Esse procedimento é clássico por parte daqueles que não têm como desconstruir (ou seria destruir?) a mensagem passam a atacar o mensageiro. O problema é que nesse caso o mensageiro tem mais público e mais capacidade de continuar produzindo matérias que definitivamente tirarão o embate existente no plano paroquial para o nacional. É que certamente as idas e vindas da Operação Chequinho ainda vão parar no jornalismo nacional do SBT. E quem pode culpar os produtores dos programas jornalísticos da tv do Silvio Santos se o material sendo levantado é, digamos, deveras importante?

Por último, eu tenho a impressão que se forem estabelecidas as devidas conexões entre o que aconteceu e está acontecendo em Campos dos Goytacazes com o grupo político do ex-governador Anthony Garotinho com o que está se passando no plano nacional com o ex-presidente Lula, vamos poder assistir ao desabamento de um castelo de cartas muito maior do que os produtores do jornalismo do SBT Rio imaginaram que iriam tocar num primeiro momento. É que tudo está muito parecido para ser apenas acidente. 

O irônico é perceber que os destinos de Anthony Garotinho e Lula, que faz tempo não são lá grandes amigos, se encontrarem de forma tão curiosa já que os ingridientes da saga em que suas vidas se transformaram parecem ser basicamente os mesmos.

Decisão do STF sinaliza que muralha de Sérgio Moro começar a vazar

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A decisão do dia de ontem em que a 2a. turma do Supremo Tribunal Federal (STF) retirou das mãos do juiz Sérgio Moro o caso do sítio do Atibaia, de suposta propriedade oculta do ex-presidente Lula, revela muito mais do que um simples movimento de colocar nas mãos de um juiz natural o andamento de um dado processo [1].

Para mim o que está sendo posto em movimento é a fritura de Sérgio Moro por causa do fiasco em que está se transformando a condenação do ex-presidente por também ser o dono oculto de um tríplex no Guarujá. É que as revelações que começaram a aparecer em cascata após a ocupação realizada no imóvel pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), a situação ficou muito periclitante para Sérgio Moro e a turma da Lava Jato de Curitiba. 

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É que, além de se mostrar de forma objetiva que o tal tríplex é muito mixuruca, a ocupação feita pelo MTST revelou a farsa das tais reformas milionárias cujas notas fiscais foram emitidas por empresas localizadas na cidade de Curitiba onde, pasmemos todos, a proprietária de uma delas é filiada ao PSDB (ver ilustração abaixo).

É muita lambança junta! Mas quem conhece, digamos, as práticas judiciais do juiz Sérgio Moro sabe que lambança é uma coisa que o acompanha desde que o bilionário caso do Banestado foi jogado fora por uma série de erros processuais pelo meritíssimo que foi alçado aos píncaros da glória pelas Organizações Globo. O detalhe é que naquele processo havia muito tucano de plumagem real envolvido, e nenhum deles acabou preso.

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Mas então como explicar esse repentino movimento da 2a. turma do STF de retirar o caso do sítio de Atibaia das mãos de Sérgio Moro e, por extensão, do TRF 4? A resposta parece simples: conter a lambança, de modo a evitar que o próprio STF seja arrastada correnteza abaixo se o caso do tríplex do Guarujá trouxer ainda mais revelações ruins sobre as entranhas do sistema judiciário brasileiro.

Eu só fico imaginando se Guilherme Boulos e o MTST sabiam o tamanho da bomba que iriam explodir quando decidiram ocupar o tríplex do Guarujá.


[1] http://painel.blogfolha.uol.com.br/2018/04/25/decisao-do-stf-pode-tirar-lula-das-maos-de-moro-e-tambem-das-do-trf-4/

O “Triplex do Lula” visto por dentro: mais escadas do que área plana

Graças à ocupação realizada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) na manhã desta 3a feira (16/04), agora podemos ver o interior do famigerado “Triplex do Lula” que foi usado pelo juiz Sérgio Moro para colocar na prisão o ex-presidente Lula (ver vídeo abaixo).

O que chama a atenção não é apenas a simplicidade do imóvel e as múltiplas escadas, mas a ausência das fantásticas e milionárias reformas que teriam sido feitas pela empreiteira OAS em troca de favores especiais por parte do ex-presidente Lula.

O que me causa espécie é o fato de não ter sido o PT ou os advogados de Lula os primeiros a veicular um vídeo que mostrasse o interior do famoso triplex. É quase certo que se essas imagens tivessem sido mostradas antes, o ex-presidente Lula não estaria preso neste momento. É que, convenhamos, esse triplex é muito mequetrefe e, acima de tudo, impraticável para pessoas da idade de Lula.

 

Chico Pinheiro, voz dissonante da Rede Globo. Por quanto tempo?

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O jornalista Chico Pinheiro, um dos mais respeitados da Rede Globo, aparentemente resolveu quebrar o “coro dos contentes” que vigora entre os principais nomes do canal da família Marinho e fez vazar uma contundente declaração sobre os significados da prisão do ex-presidente Lula (ver vídeo abaixo que contém o áudio completo da declaração)

Entre as principais críticas contidas no áudio, uma vai diretamente contra a casa ondele (ainda) trabalho. Pode se ouvir claramente quando Chico Pinheiro afirma “Olha aqui a legenda da Globonews agora: ‘sem Lula, PT precisa traçar novas estratégias’. Ora, quem tem que traçar novas estratégias agora são eles, vão fazer o quê agora?”

Chico Pinheiro encerra o áudio com um comentário sobre a apresentação que fez, no Jornal Nacional da véspera, da notícia da prisão de Lula, em que, nitidamente, se emocionou, com os olhos lacrimejantes.

“Um beijo no coração de vocês que me representaram quando eu tinha que apresentar aquele jornal de ontem. Mas está tudo bem. A história é um carro alegre, cheia de um povo contente, que atropela indiferente todo aquele que a negue”, disse.

Segundo informações do site “Diário do Centro do Mundo”, O áudio foi gravado para um grupo fechado de WhatsApp, do qual participam dezenas de pessoas, entre intelectuais, jornalistas, artistas e pessoas ligadas a partidos políticos, mas não só do PT [1].

Dada a atual conjuntura de polarizações, é bem provável que Chico Pinheiro seja em breve “desconvidado” pela família Marinho de pertences aos quadros profissionais da Rede Globo. A ver!


[1] https://www.diariodocentrodomundo.com.br/em-audio-vazado-chico-pinheiro-critica-moro-e-globonews-diz-que-os-coxinhas-estao-perdidos-e-deseja-paz-e-sabedoria-a-lula/

Lula indo do jeito que quer para as masmorras de Sérgio Moro

Possuo grandes diferenças com a linha política que o ex-presidente Lula aplica no plano estratégico, mas não tenho como negar seu brilhantismo tático. Nesse aspecto, Lula é um gênio sem par na política mundial.

Ao ter determinada a sua prisão, o que faz Lula? Ignora a oferta supostamente gentil de seu algoz e se abriga no sindicato onde começou sua ascensão política. Ali, em São Bernardo, Lula dá mais uma lição aos seus amigos e inimigos sobre sua incrível capacidade de responder às adversidades.

No vídeo abaixo, a síntese dessa capacidade com Lula sendo carregado nos ombros pela militância. Alguém já tinha visto alguém se preparar para ser preso dessa forma?

Discordo daqueles que veem no dia de hoje, um momento de derrota de Lula e da esquerda. É que Lula se introjetou de vez nas eleições de 2018 e continuará sendo um elemento capital, mesmo estando incomunicável nas masmorras de Sérgio Moro. Além disso, ao levantar os braços de Guilherme Boulos (PSOL) e de Manuela D´Ávila no ato desta manhã em São Bernardo do Campo, Lula já sinalizou que o seu apoio político poderá ir para além do PT, no que significaria uma restauração de uma ampla aliança da esquerda brasileira.

Agora, se Lula for solto da prisão em poucos meses, é muito provável que saia das masmorras de Sérgio Moro com o capital político intacto e potencialmente aumentado. Caso isto se confirme, é muito provável que ele ainda consiga votos suficientes para ser eleito para presidir o Brasil mais uma vez. A ver!

Sérgio Moro, o apressadinho que ameaça incendiar o Brasil

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Que a prisão de Lula era uma questão de tempo já se sabia desde que o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) negou por 6 votos contra 5 o habeas corpus apresentado pela equipe de advogados do ex-presidente.  Agora, o que ninguém previa era a velocidade com que o juiz Sérgio Moro decretaria a prisão, passando, inclusive, por cima de procedimentos a que a defesa de Lula ainda teria direito de fazer para protelar (legalmente é preciso que se diga) sua prisão.

Essa “pressa” pegou de calças curtas até a Polícia Federal que estará encarregada de encarcerar Lula. É que não tendo ocorrido a devida coordenação entre Sérgio Moro e a Superintendência da Polícia Federal está restando aos delegados responsáveis pela prisão e encarceramento de Lula recorrer ao improviso. É como se a primeira prisão de um ex-presidente da república, que ainda reúne amplo apoio popular, estivesse sendo feita ao sabor do improviso.  Na verdade, o condicional ficou por minha conta, pois a prisão se dará sob profunda improvisação e risco de caos político.

A lógica que guia a pressa de Sérgio Moro é ainda nebulosa, pois ele poderia proceder com mais cautela, mas optou por não fazê-lo. Com isso, pode-se especular muita coisa sobre os fatores que estão impondo a pressa de Sérgio Moro. Mas como pressa é inimiga da perfeição, Lula terá em Sérgio Moro o maior interessado em que sua integridade física seja mantida no momento da prisão e pelo período que ela durar.

E o detalhe da duração da prisão de Lula é outro aspecto curioso. É que até o joão-de-barro que mora em frente do STF sabe que a prisão de Lula tem tudo para ser curto, na medida em que a suprema corte deverá rever a questão da prisão sem que se faça o trânsito em julgado determinado pela Constituição Federal.  Assim, talvez se explique a pressa em se ter Lula na prisão, nem que seja por uns poucos visando sua desmoralização junto ao eleitorado.

O risco aqui é que Lula soube aproveitar muito bem o período anterior e construiu a quase inafastável imagem de mártir que está sendo perseguido por defender os pobres. Assim, a ida para a prisão (e essa não seria a primeira vez em que Lula será colocado no cárcere) deverá reafirmar o enredo que foi sendo construído ao longo do esquisito processo de julgamento comandado pelo juiz apressadinho em Curitiba.

Finalmente, com a prisão de Lula está sendo dificultada a reedição de um novo governo de coalizão. Isto sinaliza que o próximo período deverá ser marcado pela radicalização e não pelo acalmar de ânimos. E, pior, se decidirem prender Lula por mais tempo do que se planeja inicialmente, é provável que o principal bombeiro que a política brasileira dispõe decida ficar sentado na sua cela esperando o circo pegar fogo.

E tudo o que vier pela frente será colocado nas costas de Sérgio Moro, o apressadinho. Mas como Sérgio Moro já deu vários sinais que pretende imigrar para os EUA, ele acabará sobrevivendo ao peso da história. Já os pobres brasileiros, esses não terão a possibilidade de sair do Brasil na classe executiva.

A iminente prisão de Lula e a dialética da dependência

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A iminente prisão do ex-presidente Lula após a negação de um habeas corpus pelo mesmo Supremo Tribunal Federal (STF) que concedeu salvo conduto a Aécio Neves ocorre no momento em que estou lendo a obra “Dialética da dependência” de Ruy Mauro Marini [1].  E essa é uma feliz coincidência, pois a interpretação do significado da decisão do STF pode ser feita minimamente criteriosa se levarmos em conta as elaborações de Marini.

É que somente numa variação da reprodução do Capitalismo que Marini chamou de “sui generis”  podemos entender as nuances e as flagrantes contradições que cercam a negação do HC pleiteado pelos advogados de Lula. É que, por um lado, essa negação se reveste de caráter inconstitucional, enquanto que, por outro, se encaixa perfeitamente na decisão das elites brasileiras de aprofundar um processo de subordinação aos países centrais na forma de trocas desiguais que estão fazendo com que o Brasil retorne à condição de uma neocolônia. 

Na prática ao se prender Lula, o que as elites estarão fazendo é se livrar do único interlocutor capaz de impedir uma ampla conflagração social que resultará no encurtamento do já limitado padrão de inserção da maioria dos brasileiros nos circuitos de consumo. Essa situação que pode parecer paradoxal em uma primeira análise faz totalmente sentido se aceitarmos a tese geral que Ruy Mauro Marini expôs no “Dialética da Dependência” que era a de que a inserção dependente do Brasil se dava mormente pela dependência no comércio de commodities agrícolas e minerais e na superexploração do trabalho. Nesse contexto, até a incipiente industrialização que o Brasil alcançou serviria para atender o consumo da parcela mais afluente da nossa sociedade, o que explicaria o desinteresse em melhorar as condições gerais da maioria pobre, inclusive na esfera do consumo.

Trocando em miúdos o que Marini formulou, a prisão de Lula, a qual arrisca incendiar o Brasil não pelo fato em si mas pelo vácuo político que criará num momento de extrema crise, não é tratada como um risco, mas como uma possibilidade aprofundar a já flagrante desigualdade que existe na sociedade brasileira a partir ainda maior dependência aos interesses ao países hegemônicos do Capitalismo, principalmente os dos EUA.  O que interessa às elites nacionais e ao estado bonapartista que elas criaram é simplesmente manter os muitos privilégios que o modelo dependente de inserção na economia mundial lhes garante.

Uma última observação é que o julgamento do HC pelo STF evidencia quão orientada está a justiça brasileira pela defesa da propriedade e dos seus detentores. Aos pobres que estão celebrando a iminente prisão de Lula é preciso lembrar que o aniquilamento da presunção da inocência até que todas as instâncias judiciais sejam exauridas servirá para mandar e na manter na prisão milhões de brasileiras que não dispõe de um milionésimo da assessoria juridica que o ex-presidente Lula dispõe.   Ainda que essa jurisprudência tenha existido historicamente de maneira informal contra os pobres, agora teremos isso como regra formal, o que certamente contribuirá para um aumento ainda maior da população carcerária. E tudo isso dentro dos limites da dialética da dependência formulada por Ruy Mauro Marini.

Finalmente, a única saída para resolver os impasses localizados e estratégicos criados pela inserção dependente do Brasil será a partir dos enfrentamentos políticos liderados pela classe trabalhadora que é quem tem mais a perder com tudo o que está sendo realizado pelo governo “de facto” de Michel Temer e seus aliados dentro do aparelho de estado (estejam eles no judiciário, no legislativo ou nas forças armadas).


[1] https://expressaopopular.com.br/loja/produto/ruy-mauro-marini-vida-e-obra/

A candidatura Boulos é o ocaso do PSOL

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Acompanho os caminhos e descaminhos do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) desde a sua criação em 2004. Ao longo dos anos dei aos candidatos do PSOL a maioria dos meus votos por ver neles elementos fundamerntais para ter no parlamento e nos governos de diferentes níveis gente comprometida com a luta política necessária para avançar os direitos da maioria pobre da nossa população.  

Ao contrário do que muitos pensam, nunca fui militante ou sequer filiado do PSOL. A razão para isto era e continua sendo simples: nunca vi no PSOL a capacidade de formulação para fazer avançar no Brasil um projeto de transformação estrutural que efetivamente armasse politicamente a classe operária, o campesinato e a juventude brasileira. É que perdido em escolhas identitárias, aproximações com artistas famosos e concessões para cooptar parlamentares saídos de várias agremiações (a começar pelo PT), o PSOL acabou se tornando uma espécie de “Viuva Porcina” da esquerda brasileira, aquela personagem da novela “Roque Santeiro” que deixou de ser, sem nunca ter sido [1].

Agora, premida pela necessidade de se viabilizar eleitoralmente e garantir as benesses facultadas financeiras apenas aos partidos que logram angariar mais votos nas eleições burguesas no Brasil, a maioria da direção do PSOL acaba sacrificando qualquer possibilidade de sair do papel de eterna Viuva Porcina em nome da candidatura do líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, que está se filiando ao partido prioritariamente para viabilizar sua candidatura presidencial.

Ao fazer este movimento eleitoral, a maioria da direção do PSOL não apenas abandona a tarefa de  desenvolver uma linha política que arme o partido para além das questões identitárias particularistas, como também impõe uma subordinação da ação política do partido a alguém que efetivamente não participou de sua construção.  E como Guilherme Boulos não esconde sua admiração pelo ex-presidente Lula, há ainda o fato inescapável de que o PSOL efetivamente se ajusta a um papel de linha auxiliar do PT para um eventual segundo turno das eleições presidenciais de 2018.  É que na ocorrência de um segundo turno nas eleições presidenciais, a possibilidade de um dos participantes ser Boulos é bem próxima de zero, numa situação diametralmente oposta à uma eventual candidatura de Lula ou de algum “poste” indicado por ele.

Querendo ou não, o que a maioria da direção está fazendo é encerrar precocemente o ciclo de partido autônomo e democrático do PSOL em troca de viabilidade eleitoral. Como eleições no Brasil não passam de um teatro mal ensaiado, ao fazer esta opção a direção do PSOL está conscientemente aniquilando o partido enquanto um instrumento efetivo de luta da classe operária brasileira. Quando muito o PSOL será um canal por onde pautas identitárias, e por isso limitadas em seu alcance político, serão veiculadas. E isso no atual contexto histórico, convenhamos, é muito pouco ou quase nada.

Aos setores do PSOL que querem ir além das vitórias e derrotas eleitorais para investir na construção de um partido que seja efetivamente útil para a luta política em prol de transformações estruturais na sociedade brasileira, o caminho parece bem pedregoso. Ou se ajustam a uma candidatura alienígena ditada por interesses meramente eleitorais, ou poderão ter o mesmo destino que muitos já enfrentaram antes no PT.   Melhor que escolham o segundo caminho, pois talvez assim ainda possamos ter a oportunidade de começar a construir um partido que se oriente por valores universais e orientado pelo conteúdo de classe de suas ações.


[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Roque_Santeiro

 

 

A condenação de Lula finalmente acabará com as manifestações alegóricas que paralisam a classe trabalhadora e a juventude?

Ricardo Stuckert

Como um observador privilegiado da situação política brasileira desde 2003 já que vivo e trabalho no Rio de Janeiro (estado que concentrou todos os males e graças do Neodesenvolvimentismo lulista), vi o paulatino abandono das táticas tradicionais de luta da classe trabalhadora e da juventude e o aparecimento do que venho chamando de “manifestações alegóricas”.  Tais manifestações não passam de showmícios onde oradores ou cantores (dependendo da ocasião) se revezam para estabelecer um ambiente de completa esterilização da disposição de luta.

Vimos bem os efeitos dessas alegorias nas seguidas derrotas que foram impostas aos trabalhadores brasileiros nos últimos anos.  Casos exemplares das manifestações alegóricas que resultaram fragorosas foram o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a aprovação da malfadada reforma trabalhista. Em ambos os casos,  trabalhadores e jovens responderam ao chamado para a luta apenas para serem transformados em “sitting ducks” para as forças reacionárias do congresso nacional passaram por cima do estado democrático e dos direitos dos trabalhadores.

Eu atribuo a essa forma de manifestação até a condenação por unanimidade do ex-presidente Lula pelos desembargadores do TRF4. Mais uma vez, viu-se a aceitação pacífica de um jogo de cartas marcadas que visa apenas e unicamente aplicar um golpe de exceção na candidatura de Lula para as eleições de 2018. Um dos resultados mais lamentáveis dessas derrotas auto aplicadas é a desmoralização dos militantes e a sua transformação em vítimas da violência estatal.

Agora com a condenação de Lula e determinação de que ele seja preso, a minha expectativa é de que, finalmente, sindicatos e movimentos sociais desistam de fingir que estão enfrentando a agenda ultraneoliberal que está sendo aplicada no Brasil sem que haja qualquer reação próxima daquela que está acontecendo em outros países, a começar pela Argentina.  Neste sentido, é inaceitável que até o momento as principais sindicais brasileiras não tenham movido uma palha para realizar uma ampla greve geral que impeça que o presidente “de facto” Michel Temer passe seu trator neoliberal sobre o direitos previdenciários dos brasileiros.

E antes que alguma liderança destes movimentos e sindicatos alegóricos apareça para dizer que estamos diante de um refluxo de massas no mundo inteiro, quero lembrar que no pequeno Nepal o Partido Comunista e seus aliados venceram as eleições parlamentares e provinciais, alcançando uma maioria de quase dois terços [1]. E o caso do Nepal não é único, pois existem focos de enfrentamento em diversos países que tentam enfrentar medidas semelhantes às que foram impostas por Michel Temer, a começar pela França.

A questão a ser encarada de frente é que as grandes corporações financeiras que hoje controlam a economia mundial estão impondo um sistema que deixará pouco mais do que migalhas para os trabalhadores do campo e da cidade. Continuar fingindo que tudo se resolverá com uma eleição presidencial que se dará num clima de exceção política será um erro histórico que terá graves proporções.

Por isso é que digo:  que as manifestações alegóricas extintas e que a classe trabalhadora e a juventude brasileira assumam o grau de proeminência que nunca deveriam ter deixado de ter.  E o quanto antes isto ocorrer, menos derrotas ocorrerão. 


[1] https://pcb.org.br/portal2/18221/comunistas-vencem-as-eleicoes-gerais-no-nepal