Fogo surpreende pescadores no Pantanal

Com recorde histórico de queimadas, região já perdeu 10% de seu território no ano

fogo 1Imagem registrada por grupo de pescadores em Cáceres (MT)

Um grupo que praticava pesca profissional na margem direita do rio Paraguai foi surpreendido por um incêndio de grandes proporções na mata em região próxima à cidade de Cáceres (MT). A queimada registrada em vídeo ainda não está na conta dos 4,2 mil focos de incêndio contabilizados de janeiro a julho deste ano pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Este é o maior número desde 1998, quando a série histórica foi criada. Segundo o instituto, os incêndios na zona pantaneira saltaram 240% este ano, e o bioma já perdeu cerca de 10% de sua área.

“Foi muito triste e desesperador ver tudo isso. Estou sem chão ainda. Só quem está vendo de perto para ter noção”, conta a pescadora Enilza Silva, que estava presente quando o fogo se alastrou no sábado (15/8). “Me trouxeram agora a pouco para cidade porque meu psicológico não está legal. Os bichos desesperados sem saber pra onde ir, outros já mortos. É desesperador.”

O grupo que desenvolvia a atividade na região é experiente e usa uma base de apoio localizada em um rancho nas proximidades. Acampados, eles chegam a pescar durante 5 a 7 dias ou até atingir a cota máxima permitida, que é de 125 kg de peixes por pessoa, por semana. Os pescadores relatam que ultimamente não estão conseguindo atingir essa cota.

“O rio já está quase atingindo a maior baixa dos últimos 50 anos. E no mês de fevereiro ocorreu um fenômeno chamado decoada exatamente porque o rio não encheu o suficiente, o que causa a decomposição de matéria orgânica, como folhas e galhos. Isso tira o oxigênio da água, matando muitos peixes no rio. E ainda tem o assoreamento”, explica Joari Costa de Arruda, professor da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). Ele é especialista em biodiversidade e biotecnologia e atua no projeto “Corredor ecológico, econômico e cultural do Rio Paraguai” junto a pescadores e comunidades ribeirinhas da região. “Este ano não está favorável para o rio e para quem depende dele para tirar o sustento da família”, lamenta o pesquisador.

Mensageiro sem verbas

Segundo notícia do jornal Folha de S. Paulo, o INPE, que monitora por satélites os desmatamentos e as queimadas no território brasileiro, ficará sem verba em 2021. Com a decisão, os pesquisadores da instituição serão mantidos, mas não terão condição de desenvolver seus trabalhos.

A medida é mais um desdobramento da crise institucional entre o órgão e o governo federal, desencadeada em 2019, após a divulgação dos números recordes de desmatamento. Na ocasião, a fumaça das queimadas nas regiões amazônica e pantaneira escureceram o céu de cidades localizadas no Sudeste do país, gerando comoção dentro e fora do Brasil. O cientista Ricardo Galvão foi exonerado da diretoria do INPE na sequência das divulgações, e em seu lugar foi efetivado o coronel da Aeronáutica Darcton Damião.

A região Amazônica continua queimando no Brasil, um mês após a proibição pelo governo Bolsonaro

A floresta tropical no Brasil ainda está em situação de crise. Mesmo um mês após a proibição de corte e queima, a região Amazônica está em chamas.

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Um mês após a proibição das queimadas , a Amazônia brasileira ainda registra um alto número de incêndios ilegais. “Os números mostram que a estratégia do governo não é eficaz para conter a destruição da floresta com a maior biodiversidade do planeta”, disse Christiane Mazzetti, porta-voz da campanha do Greenpeace Brasil na Amazônia.

feuer 1Homem passando de motocicleta por uma área de floresta devastada pelo fogo. AP

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que avalia dados de satélite , detectou 20.473 incêndios entre 16 de julho e 15 de agosto . Só nos primeiros 15 dias de agosto, ocorreram mais de 15.000 incêndios .

Esta é uma redução mínima de 8% em comparação com o mesmo período de 2019. No entanto, nesta época do ano passado não houve proibição de queima, nem o governo enviou militares para combater as chamas.

Bolsonaro defende exploração da Amazônia

Em 16 de julho, o governo brasileiro proibiu a queima de áreas na região amazônica e no Pantanal, maior mangue do mundo, por 120 dias. No entanto, era questionável se o Brasil realmente intensificaria seus esforços contra os incêndios. O presidente Jair Bolsonaro é um defensor da exploração econômica da Amazônia.

feuer 2Uma área de queima de floresta em Nova Maringa, Brasil. – dpa

Seu governo planeja posicionar as forças armadas do país na região amazônica até 2022 . Segundo ambientalistas, as Forças Armadas que estão em cena desde maio podem conter a destruição ilegal da floresta por pouco tempo, mas não podem substituir o trabalho das autoridades ambientais enfraquecidas pelo Bolsonaro.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo portal de notícias suiço “Nau” [Aqui!].

Tragédia anunciada: Amazônia continua ardendo

A Amazônia brasileira continua sofrendo com o descaso das autoridades públicas, enfrentando novos grandes focos de incêndio que consomem a floresta, símbolo da diversidade da natureza do país.

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Em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro, se observa um grande aumento das queimadas na ampla floresta amazônica, atraindo fortes críticas da comunidade internacional.

O fogo tem afetado também reservas indígenas, como a do Xingu, na bacia do rio Amazonas, preocupando populações indígenas e ribeirinhas enquanto bombeiros tentam conter o fogo.

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Este material foi iniciado publicado pela Sputnik Brasil [Aqui!].

Bolsonaro ignora dados do próprio governo e diz que queimadas na Amazônia são “uma mentira”

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Bolsonaro parece viver em um universo paralelo: pelo menos, esse é o tom da fala feita pelo presidente brasileiro durante a 2ª Cúpula Presidencial do Pacto de Letícia pela Amazônia, realizado ontem (11/8) por videoconferência. De acordo com Bolsonaro, “não há nenhum foco de incêndio, nem um quarto de hectare desmatado” na Floresta. “É uma mentira essa história de que a Amazônia arde em fogo”, disse o presidente. “Sabemos o quanto somos criticados de maneira injusta por muitos países. Nós, com perseverança, com determinação e com verdade, devemos insistir”.

Se a verdade for uma aliada de Bolsonaro nessa tarefa, ela não depõe em seu favor. Como o próprio governo reconhece, o desmatamento na Amazônia cresceu mais de 34% nos últimos 12 meses. O ritmo de desmate em julho passado foi menor que o registrado no mesmo mês em 2019, mas ainda assim foi muito superior à média histórica desse período.

O presidente desafiou embaixadores estrangeiros a sobrevoar o trecho entre Boa Vista (RR) e Manaus (AM) e disse que eles “não acharão nenhum foco de incêndio ou corte de hectare desmatado”. Ele acusou também aqueles que criticam o Brasil de serem motivados por interesses comerciais ou, no caso dos críticos internos, antipatrióticos. “Afinal de contas, o Brasil é uma potência no agronegócio, ameaças existem sobre nós o tempo todo e, lamentavelmente, alguns poucos brasileiros trabalham contra nós nessa questão”. Sobre os criminosos ambientais que promovem a destruição e prejudicam a imagem do Brasil no exterior, Bolsonaro não teceu nenhum comentário.

O vice-presidente Mourão também participou da conferência e, na mesma linha de Bolsonaro, acusou de “neocolonialistas” os países que criticam o Brasil. “Pior ainda foi a postura de alguns [líderes mundiais] que se aproveitaram da crise para avançar interesses protecionistas e atitudes neocolonialistas”, disse o vice. Em seu discurso, ele defendeu que “o protagonista do desenvolvimento sustentável na Amazônia será o setor privado, não o Estado” e destacou a importância de incentivar a bioeconomia como forma de desenvolver e preservar a Floresta.

As falas de Bolsonaro e Mourão foram destacadas pelos FolhaEstadãoO GloboG1Valor Exame, entre outros.

ClimaInfo, 12 de agosto de 2020.

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Este texto foi originalmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Amazônia: alta do desmatamento não é inépcia; é projeto

Alertas de devastação em 2020 têm novo pico, de 9.205 km2, mesmo com Exército na Amazônia; Jair Bolsonaro poderá ser primeiro presidente da história com dois anos seguidos de aumento recorde no corte da floresta

queimadasGrandes queimadas começam a aparecer em Rondônia. Na imagem de satélite da NASA registrada ontem, pode-se ver grandes focos circundando áreas indígenas, como a Karipuna e Uru-Eu-Wau-WAu. São focos de grilagem.

NOTA DO OBSERVATÓRIO DO CLIMA

Somente alguém que tenha chegado ontem de um outro planeta poderia se surpreender com a nova alta nos alertas de desmatamento na Amazônia, que atingiram imorais 9.205 quilômetros quadrados em 2020. A elevação de 34% na velocidade da devastação neste ano, medida pelo sistema Deter, do Inpe, tem dois agravantes: ela vem após um ano que já havia tido o maior desmatamento desde 2008. E ocorreu mesmo após três meses de presença das Forças Armadas na floresta – em tese para combater o desmatamento.

Desde a campanha eleitoral que levou Jair Bolsonaro à Presidência da República, a área de alertas de desmatamento dobrou na Amazônia. Os alertas do Deter são uma subestimativa; a taxa oficial de devastação, dada pelo sistema Prodes, mais preciso, será conhecida apenas no fim do ano. No entanto, se a variação entre os dados do Deter e os do Prodes ficar na média histórica, poderemos ter cerca de 13.000 quilômetros quadrados de desmatamento, a maior taxa desde 2006 e três vezes mais do que a meta da Política Nacional de Mudança do Clima para 2020. Será também a primeira vez na história que o desmatamento na Amazônia tem duas altas seguidas na casa dos 30%.

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Acabam de sair dados para o mês de julho do sistema Deter do INPE. Está confirmado: o desmatamento na Amazônia cresce sem controle, mesmo durante a pandemia. Nos últimos 12 meses, o crescimento é de 34% comparado com o mesmo período do ano passado. Foram derrubados 9,2 mil km²

Isso não acontece por incompetência do governo no combate à devastação; acontece porque a agenda do governo Bolsonaro é promover ativamente a devastação. Não é inépcia; é projeto.

Desde o início do governo um amplo grupo de atores – que vai de cientistas a povos indígenas, passando por ex-ministros, organizações ambientalistas, servidores federais e Ministério Público – vem denunciando o desmonte sistemático da governança ambiental brasileira: o fechamento branco do Ministério do Meio Ambiente, o enterro dos planos de combate ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado, a banana dada ao Acordo de Paris, a perseguição a fiscais e a omissão ideológica e ilegal em investir no combate a ilícitos ambientais mesmo tendo quase R$ 2 bilhões em caixa.

Tal conjunto de ações e omissões, que o ministro do Meio Ambiente tão bem sintetizou na infame expressão “passar a boiada”, é o responsável direto pelo descontrole do desmatamento, que transforma o Brasil em pária internacional e ameaça levar embora investimentos no momento em que eles são mais necessários, o de recuperação econômica no pós-pandemia.

Declarações de integrantes do Observatório do Clima

“A explosão do desmatamento na Amazônia tem como causa importante o discurso do Presidente da República, que deslegitima a fiscalização ambiental ao mesmo tempo em que estimula a ocupação da região em modelo predatório. O Ministro do Meio Ambiente segue as ordens de seu patrão. Quem lucra com isso é o desmatador ilegal, o grileiro, o investidor no garimpo sem controle que explora trabalho escravo. Se quisesse controlar o desmatamento, e essa realmente não parece ser a intenção, o governo retomaria o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia e reforçaria a atuação do Ibama e outros órgãos ambientais, no lugar de gastar dinheiro com a atuação teatral das Forças Armadas.” – Suely Araújo, especialista-sênior em Políticas Públicas do OC

“Os números mostram, mais uma vez, a verdade que o governo trabalha para esconder. Combate ao desmatamento se faz com transparência, ciência, áreas protegidas, órgãos especializados eficientes e controle social. Tudo o que Bolsonaro odeia. A política de destruição promovida pelo governo empodera os que lucram com a floresta no chão e ameaça os que lutam para mantê-la em pé, arrastando o Brasil para o atraso. Ao ignorar a importância de conservar nossas riquezas naturais, o governo Bolsonaro impacta de forma negativa os brasileiros, a economia do país e o clima global.” – Mariana Mota, coordenadora de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil

“Será difícil conter o desmatamento se o governo continuar a intenção de alterar a legislação fundiária para legalizar áreas desmatadas e invadidas ilegalmente. A grilagem de terras públicas é um vetor do desmatamento, que é estimulado com a expectativa de anistia e legalização” – Brenda Brito, pesquisadora-associada do Imazon

“Os dados do Inpe indicam que o Brasil fracassou no cumprimento de sua lei de clima, cuja meta para 2020 era limitar o desmatamento na Amazônia a no máximo 3.925 km2. Isso também nos desvia da rota do Acordo de Paris, o que criará uma série de dificuldades comerciais para o Brasil no período crítico de recuperação econômica no pós-pandemia. O crime tomou conta da Amazônia, incentivado pelo próprio governo Bolsonaro.” – Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima

“A alta nos alertas de desmatamento entre o ano da eleição e este ano é de 101%. Como lembrou um amigo meu, a ex-presidente Dilma Rousseff dizia que quanto atingisse a meta dobraria a meta. Jair Bolsonaro acabou com a meta e dobrou o desmatamento.” – Caetano Scannavino Filho, coordenador do Projeto Saúde e Alegria

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Este texto foi inicialmente publicado pelo Observatório do Clima [Aqui!].

IPAM: incêndios na Amazônia não se concentram em áreas já exploradas

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O governo tem tentado minimizar a dimensão das queimadas usando alguns agentes da Embrapa que afirmam que 90% dos focos de calor registrados na Floresta Amazônica em 2019 ocorreram em áreas já desmatadas, o que dissociaria essas ocorrências da derrubada de novas áreas no mesmo período. O IPAM mostrou que esse número não se sustenta.

Segundo relata André Borges no Estadão, uma nota técnica do IPAM mostra que, em 2019, 30% dos focos registrados na Amazônia foram incêndios em áreas protegidas, e 34% estiveram associados a desmatamentos recentes. A maior parte (36%) esteve de fato relacionada com manejo agropecuário, mas em uma proporção muito abaixo da apontada pela Embrapa. “Pode-se observar pouca variação proporcional entre 2016 e 2018 (média de 42%), mas a taxa cai em 2019, para 36%, devido ao aumento do fogo em área de desmatamento recente”, afirmaram os pesquisadores responsáveis pela nota à reportagem.

O argumento levantado pelo governo ressalta o principal problema enfrentado por Mourão e equipe na atual crise Amazônica: enquanto o desafio das queimadas e do desmatamento exige ação concertada, planejada e efetiva, Brasília oferece respostas improvisadas e dissociadas de experiências passadas bem-sucedidas.

No Valor, Daniela Chiaretti destacou as impressões de Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e atualmente no Observatório do Clima (OC), que defende que o governo retome o Plano de Combate ao Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), a “principal ferramenta” que permitiu ao Brasil controlar as taxas de desmatamento em gestões passadas. Ela apontou também que a solução dessa questão passa pela “reversão do discurso governamental do presidente Bolsonaro, do ministro Ricardo Salles e de outras autoridades, de falar contra a fiscalização ambiental, deslegitimar os fiscais e as sanções ambientais”.

Em tempo: A alta das queimadas na Amazônia registrada em julho foi destaque na imprensa internacional nos últimos dias. Veículos como BBC News, The TimesReutersDeutsche WelleAssociated PressPhysAFP e Al-Jazeera, entre outros, repercutiram essa informação no exterior.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

BBC faz sobrevoo e mostra escala das destruição da Amazônia brasileira por queimadas

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A rede BBC publicou ontem uma matéria sobre o aumento explosivo das queimadas na Amazônia brasileira que deverão ocorrer em número recorde em 2020.  A rede inglesa mostrou, usando dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que ao longo do mês de julho, o número de queimadas na Amazônia atingiu o estratosférico número de 6.803 focos de incêndio, o que representou um aumento de 28% em relação ao ocorrido em 2019.

bbc amazonia

Como os principais meses para a realização de queimadas ainda estão por vir, o mais provável é que outros recordes irão ser batidos em termos de queimadas e de desmatamento, em uma clara demonstração de que a política do “passa boiada” do governo federal, encabeçada pelo improbo Ricardo Salles, está funcionando muito bem para a alegria de aliados paroquiais do presidente Jair Bolsonaro.

O problema é que o sucesso interno já suscitou uma série de reações negativas no plano externo, incluindo os anúncios do megafundo de investimentos Nordea e a da gigante chinesa  Cofco International Ltd que estão cobrando uma mudança de rumo no controle do desmatamento e já anunciaram uma série de medidas que deverão atingir em cheio a combalida economia brasileira.

Essas reações deverão ser aumentadas quando imagens como as mostradas no vídeo abaixo, incluída na matéria da BBC, atingir não apenas os segmentos compostos por ecologistas e ambientalistas, mas também os acionistas de grandes fundos de investimento que estão, como o Nordea, cobrando uma ação mais diligente do governo Bolsonaro para conter a destruição em curso na Amazônia.

Eu fico me perguntando porque foi preciso que o correspondente de uma rede estrangeira fazer um sobrevoo no norte de Rondônia para mostrar o que está em curso na Amazônia neste momento. A única razão para essa omissão de informar a população brasileira se deve ao fato de que os donos da mídia brasileira são fiadores da política de destruição ambiental comandada por Ricardo Salles e Jair Bolsonaro.

Nunca é demais avisar que a consolidação da imagem de pária ambiental do Brasil será desastrosa. Mas parece que isso não sensibiliza o presidente Jair Bolsonaro ou quem quer que seja dentro do seu governo. O que parece existir é uma aposta arriscada de que a dependência global das commodities brasileiras irá fazer com que os discursos de preocupação na passe de discurso de fachada.  Os dados dessa aposta estão rodando na mesa. Resta-nos esperar para ver se quem pressiona o Brasil para mudar o seu rumo está apenas blefando.

Amazônia registra recordes de focos de calor em julho

Com falta de fiscalização e inteligência no combate aos danos ambientais, queimadas em Terras Indígenas registraram aumento de 76%

unnamed (6)Imagem de satélite do estado do MT mostrando queimada ocorrendo no dia 30 de julho

Manaus, 01 de agosto de 2020 – No dia 30 de julho, a Amazônia registrou mais um triste recorde: 1.007 focos de calor em um único dia. Esse é o número mais alto registrado no mês de julho desde 2005. Neste mesmo dia, no ano passado, foram 406 focos. Agora, dados consolidados de julho mostram um aumento expressivo nos focos de calor.

“O fato de ter mais de mil focos de calor em um único dia, recorde dos últimos 15 anos para o mês de julho, mostra que a estratégia do governo de fazer operações midiáticas não é eficaz no chão da floresta. Somente em julho, foram registrados 6.804 focos de calor na Amazônia, um aumento de 21,8% quando comparado ao mesmo mês do ano passado. A moratória, que proíbe no papel as queimadas, não funciona se não houver também uma resposta no campo, com mais fiscalizações. Afinal, criminoso não é conhecido por seguir leis. Assim como a GLO aplicada sem estratégia e sem conhecimento de como se combate as queimadas, também não traz os resultados que a Amazônia precisa”, comenta Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace.

Um levantamento feito pelo Greenpeace Brasil aponta que dos focos de calor registrados em julho, 539 foram dentro de Terras Indígenas, um aumento de 76,72% em relação ao ano passado, quando foram mapeados 305 focos. Além disso, 1.018 atingiram Unidades de Conservação, um aumento de 49,92% em relação ao mesmo período do ano passado.

Deforestation and Fire Monitoring in the Amazon in July, 2020
Monitoramento de Desmatamento e Queimadas na Amazônia em Julho de 2020

Hotspot próximo a uma área desmatada registrada pelo Prodes (Projeto Brasileiro de Monitoramento de Satélites na Amazônia), em Nova Maringá, Mato Grosso.

“O desmatamento precisa ser combatido durante todo o ano, principalmente considerando que as queimadas na Amazônia não são resultado de um fenômeno natural, mas da ação humana. O fogo é uma das principais ferramentas utilizadas para o desmatamento, especialmente por grileiros e agricultores, que o usam para limpar áreas para uso agropecuária ou especulação. A prática se tornou ainda mais comum com a falta de fiscalização e o desmantelamento dos órgãos ambientais. Estamos observando uma tendência de alta nas queimadas neste ano. Além da ameaça do coronavírus, com a temporada de fogo, os povos indígenas estarão ainda mais vulneráveis, pois a fumaça e a fuligem das queimadas prejudicam ainda mais sua saúde”, completa Rômulo.

Acesse imagens de queimadas da Amazônia em 2020 aqui

Assessoria de imprensa do Greenpeace Brasil:

Rebecca Cesar, (11) 95640-0443, rebecca.cesar@greenpeace.org

Sentindo o caldo entornar, grandes corporações demandam que o governo Bolsonaro faça mudança de rumos na área ambiental

amazoniaO avanço do desgaste da imagem do Brasil por causa da aceleração do desmatamento na Amazônia provoca carta inédita de representantes do grande capital ao governo Bolsonaro

Sentindo que as labaredas que brevemente vão arder na Amazônia brasileira têm o potencial de, desculpem-me a metáfora, queimar a sua picanha, dirigente de 38 empresas e quatro entidades setoriais (ver lista na imagem abaixo) fizeram publicar uma carta no jornal Valor Econômico onde pedem providências inéditas ao governo Bolsonaro, na figura do vice-presidente e general da reserva Hamilton Mourão, para impedir o avanço do desmatamento na Amazônia brasileira.

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A carta deixa clara a preocupação com o iminente isolamento do Brasil em face da política de “passada boiada” que está instalada na área ambiental, onde o improbo ministro (ou seria anti-ministro?) Ricardo Salles vem realizando um amplo desmanche da governança ambiental criada a partir da criação de Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema) pelo governo de outro general, no caso Emílio Garrastazu Médici, bem como das estruturas de comando e controle que impediam o avanço acelerado do desmatamento e outras formas de degradação na Amazônia brasileira.

Em termos de propostas objetivas, o documento apresenta linhas bastante coerentes com aquilo que já foi explicitado em conferências multilaterais e até em documentos oficiais firmados por outras administrações federais brasileiras (ver imagem abaixo).

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O problema é que a não ser que haja uma mudança radical na forma de governar de Jair Bolsonaro (o que me parece difícil), não bastará cortar a cabeça (metaforicamente dizer) de Ricardo Salles para que as propostas apresentadas pelos representantes do grande capital brasileiro e internacional sejam transformadas em políticas públicas. 

A verdade é que afora as visões ultrapassadas em termos de equilíbrio entre desenvolvimento econômico e conservação da natureza que são compartilhadas por várias cabeças estreladas do governo Bolsonaro,  existem as alianças políticas paroquiais entre o presidente Jair Bolsonaro e vários segmentos que estão hoje na linha de frente do saque de recursos madeireiros e de minérios (principalmente o ouro) na Amazônia brasileira.

Como alguém que estuda a Amazônia há quase três décadas e tem uma longa quilometragem nas estradas empoeiradas e esburacadas em Rondônia, não creio que haja a possibilidade de qualquer mudança dentro do governo Bolsonaro até que as ameaças que estão sendo feitas pelos grandes fundos de investimento globais e grandes corporações que atuam na produção de carne sejam transformadas em ações concretas.

Entretanto, a carta publicada hoje pelo Valor Econômico certamente terá o efeito de acelerar a fritura de Ricardo Salles. Até que ponto isto resultará na adoção das propostas feitas pelo representantes do grande capital é que fica a ser observado. 

Dois pontos a mais: 1) a pressão que agora está se tornando evidente por parte dos representantes do grande capital nacional e global não é nada perto do que acontecerá quando começarem os grandes incêndios que ocorreram em poucas semanas na Amazônia, e 2) estudos que certamente estão em fase de finalização para publicação por grandes revistas científicas vão mostrar um quadro ainda mais grave do que o normalmente aceito em termos de alterações ambientais na Amazônia brasileira. Quando estes artigos começarem a ser publicados, haverá um aumento ainda maior das pressões por ações objetivas por parte do governo Bolsonaro.

Por isso tudo, é só uma questão de tempo até que as commodities agrícolas, florestais e minerais do Brasil passem a sofrer duras barreiras comerciais, especialmente na União Europeia. E aqui não se trata de futurologia, mas de uma previsão científica amparada naquilo que já estabelecido na literatura e pelo que eu sei do que brevemente será publicado.  Assim, é muito provável que a carta de hoje seja a primeira de uma lista.

Desmatamento sob Bolsonaro afasta investidores e ameaça acordo Mercosul-União Europeia

Diplomatas afirmam que alerta feito por fundos internacionais deve ser levado em conta, se Brasil quiser se aliar com bloco europeu. Em alta, desmatamento na Amazônia bateu recordemadeiraMadeira sendo transportada pelo rio Xingu, na região de Porto de Moz, no Pará.LILO CLARETO

Por Afonso Benites para o El País

A ineficiência apresentada pelo Governo Jair Bolsonaro no combate ao desmatamento da Amazônia já começa a apresentar seus primeiros efeitos e, se os resultados práticos de redução dos índices não aparecerem rapidamente, pode botar em risco o acordo entre a União Europeia e o Mercosul. A avaliação foi feita por cinco de seis fontes diplomáticas europeias consultadas pelo EL PAÍS nesta quarta-feira. A que não concorda com as demais, entende que o acordo sairá independentemente de como o presidente brasileiro agirá. Todas elas concordam, contudo, que a decisão de alocar o vice-presidente Hamilton Mourão na coordenação do Conselho da Amazônia representa um sinal positivo, já que exclui o radical ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, da linha de frente desse processo.

No início de junho, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais constatou que, entre agosto de 2018 e julho de 2019 foram desmatados 10.129 km2 de floresta – a área equivale a quase nove vezes o município do Rio de Janeiro. É o maior índice desde 2008. O número representa um aumento de 34,4% do desmatamento na Amazônia, em comparação com o período entre agosto de 2017 e julho de 2018. Agora, em 2020, o desmatamento segue em alta e o período de seca e consequente temporada de incêndios amazônicos ainda nem começou.

“Queremos ajudar o Brasil. Temos participado de várias reuniões com o vice-presidente e com sua equipe do Conselho Amazônia. Demonstramos nossa preocupação. Agora, depende mais do governo daqui do que de nós para frear esse desmatamento”, afirmou um diplomata ouvido pela reportagem.

Um dos alertas mais contundentes de que o país pode começar a perder dinheiro foi dado nesta semana, quando fundos internacionais de investidores, que gerenciam ativos de cerca de 21 trilhões de reais (4 trilhões de dólares), cobrou maior efetividade do Brasil na área ambiental. Em uma carta aberta entregue em embaixadas do Brasil pela Europa, Ásia e América do Sul, os representantes dos fundos disseram estar preocupados com “o impacto financeiro do desmatamento, bem como as violações dos direitos dos povos indígenas” e que acreditam que, sem a mudança de rumo, seus clientes veem “potenciais consequências para os riscos de reputação, operacionais e regulatórios”.

A maior parte dos fundos que assinou a carta compõem o Investor Initiative for Sustainable Forests (Iniciativa de Investidores pelas Florestas Sustentáveis), da qual participam empresas expostas ao desmatamento por seus investimentos na pecuária bovina e na sojicultura. Entre esses fundos estão a francesa Comgest, a britânica LGPS Central e o KLP, o maior fundo de pensões norueguês.

“Agora, além dos prejuízos ambientais conhecidos, temos a provável perda de investimentos internacionais em todos os segmentos da economia, o que poderia afetar até o programa de privatização que a gestão Bolsonaro pretende implantar”, disse Virgílio Viana, superintendente geral da ONG Fundação Amazônia Sustentável. A organização trabalha com projetos de sustentabilidade e geração de renda na região amazônica.

Outra fonte diplomática ouvida pela reportagem afirmou que a carta dos fundos de investimentos pode gerar um resultado positivo, a médio prazo. “Esse despertador tocado pelos fundos de investimento é o resultado das informações nada animadoras que agora chegam do Brasil. Pode ser bom para seguir nessa linha que, finalmente, o governo começou a tomar, de mudar o rumo no combate ao desmatamento”, declarou o diplomata.

Se não bastassem os sinais que vêm de fora, internamente também houve quem reclamasse da política ambiental e de seu impacto na economia. A cúpula dos dois maiores bancos privados do país, Itaú Unibanco e Bradesco deram declarações nesse sentido nesta semana. “No momento em que a sociedade se percebe frágil, a gente deve olhar para outros perigos. As consequências ambientais podem até vir de uma maneira mais lenta do que as da saúde como a covid-19, mas são mais duradouras e difíceis de reverter”, afirmou o presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, em um debate promovido pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban).

“Todo mundo falava de sustentabilidade, de problema com o planeta, de aquecimento global, reflorestamento, derrubada, de qualidade do ar, da água. Todo mundo falava sobre isso, mas de fato nós temos de reconhecer que fizemos muito pouco em relação a isso”, ponderou o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior, no mesmo evento.

Se não bastassem as possíveis fugas de investimentos, o Brasil já abriu mão de receber recursos que costumava ter na área ambiental. Em 2019, o primeiro da gestão Bolsonaro, o Governo viu 2,2 bilhões de reais (cerca de 400 milhões de dólares) ficarem retidos por conta de uma decisão unilateral do Ministério do Meio Ambiente. No ano passado, outro grupo que representa 230 fundos de investimento já havia enviado alertas à gestão federal. Na ocasião, a cobrança era para que o Poder Executivo intensificasse o combate às queimadas, que devastaram boa parte do território amazônico.

Regras frouxas

Outros fatores que têm preocupado os investidores da área ambiental são propostas do Governo Bolsonaro e de seus aliados no Congresso que devem impactar diretamente no desmatamento. Uma delas prevê a redução de unidades de conservação, como parques nacionais e reservas extrativistas, para a construção de estradas, ferrovias e portos. Há ainda o projeto que pretende autorizar a exploração mineral em territórios indígenas, a medida provisória que faz a regularização fundiária sem muitos critérios e o afrouxamento nas regras de fiscalização de madeiras exportadas pelo Brasil.

Em março, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente decidiu relaxar a fiscalização de madeiras que são exportadas pelo Brasil. O presidente do órgão, Eduardo Bim, decidiu acabar com a necessidade de o órgão autorizar a exportação de madeiras retiradas de florestas brasileiras. A definição contrariou parecer assinado por cinco técnicos de carreira do instituto. E isso ocorre no período em que o país registrou aumento de 30% nas queimadas na Amazônia.

No governo Bolsonaro, os discursos são distintos. Quando indagado sobre a carta dos fundos de investimentos, o presidente disse que havia muita desinformação nessa área e reclamou que vários dos países que o criticam sequer conseguiram preservar suas matas ciliares. Nesta quarta-feira, o vice-presidente e coordenador do Conselho da Amazônia, tentou apaziguar os ânimos dizendo que a resposta será dada com trabalho. “O Brasil responderá com a verdade e com trabalho responsável em prol da proteção e preservação da Amazônia”, afirmou Mourão ao jornal O Estado de S. Paulo.

A corrida de Mourão agora é contra o relógio. Nesse mês, está sendo editado os termos do acordo do Mercosul com a União Europeia, no qual estão destacados os compromissos ambientais. O próximo passo é levar o texto para os parlamentos de todos os países envolvidos. Até agora, os Congressos da Áustria e da Holanda já aprovaram moções para que o bloco europeu rejeite o compromisso por conta do desmatamento amazônico. Ainda não é uma sentença de morte para o acordo, mas é uma sinalização de que ainda há muito a ser feito para que ele sobreviva.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo jornal El País [Aqui!].