Vitória das universidades estaduais contra CPI mostra isolamento do PSL de Jair Bolsonaro na Alerj

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Alexandre Knoploch e Rodrigo Amorim, ambos do PSL de Jair Bolsonaro, foram derrotados hoje na sua pretensão de instalar uma CPI das universidades estaduais

Ao contrário da Assembleia Legislativa de São Paulo onde os partidos da direita conseguiram emplacar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para supostamente apurar irregularidades cometidas no interior das universidades estaduais, os deputados do PSL do presidente Jair Bolsonaro foram hoje fragorosamente derrotados no plenário da Alerj que rejeitou por 31 a 17 a proposta levantada pelo deputado Alexandre Knoploch (PSL) que queria instaurar uma comissão de mesma natureza no parlamento fluminense (ver reprodução de matéria que acaba de ser publicada pelo jornal “EXTRA“).

CPI ALERJ

O interessante é que após mais de cinco meses em que estão de posse dos seus mandatos, os deputados do PSL que queriam “investigar” as universidades estaduais não se deram ao trabalho de visitar os dois campi que a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) possui nas cidades de Campos dos Goytacazes e Macaé. Se tivessem feito isso, eles poderiam não apenas constatar os efeitos danosos da asfixia financeira continuada que a Uenf sofre desde 2015. Mas eles poderiam também observar como a universidade idealizada por Darcy Ribeiro e construída por Leonel Brizola continua realizando a missão estratégica que lhe foi dada quando começou a funcionar em 1993.

Agora que ficou evidente que não há espaço para essa CPI que não quer investigar nada, mas sim tolher e impedir a autonomia universitária que é uma garantia constitucional, os nobres deputados estaduais do PSL certamente irão fazer o que não fizeram até agora, qual seja, trabalhar para ajudar o Rio de Janeiro do buraco onde Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão nos meteram. 

Em relação às universidades estaduais, os nobres deputados que apoiaram esta CPI mequetrefe muito farão se não atrapalharem.

Governador Witzel e o desejo incontido de violar a autonomia das universidades estaduais do Rio de Janeiro

wilson witzel

Seguindo o “modelo Bolsonaro”, o governador Wilson Witzel asfixia financeiramente as universidades estaduais do Rio de Janeiro e tenta interferir na autonomia universitária que é uma garantia constitucional.

A imagem abaixo mostra uma matéria publicada pelo jornal “O GLOBO” mostrando a insistência do governador Wilson Witzel, o mesmo que acaba de ser flagrado com uma inserção não corroborada pela realidade de um título de doutor na Harvard University em seu CV Lattes, em interferir no sistema democrático de escolha dos reitores das universidades estaduais do Rio de Janeiro.

eleições witzel

Segundo o governador Witzel, a atual forma de eleição (que consta da Constituição do Estado do Rio de Janeiro) seria uma forma de “ditadura” porque a partir dela apenas se “chancela decisão da comunidade acadêmica”. 

Permita-me o governador corrigi-lo, mas o nome disso que ele chama de “ditadura” é, na verdade, democracia.  Ainda que uma forma de democracia ainda precária, já que no caso da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), o sistema de ponderação dos votos dá aos docentes o peso de 70% na ponderação final do valor dos votos, o que considero um tratamento injusto à participação de servidores e estudantes. Apesar de muitos alegarem que esta é uma decisão da LDB, considero que dada a autonomia garantida tanto na Constituição Federal como na Estadual, haveria que, pelo menos, se dar um peso paritário na ponderação dos votos.

Mas essa tentativa de alterar a forma de escolha de reitores não é o primeiro ataque desenvolvido pelo governo Witzel contra as universidades estaduais, pois um dos primeiros atos do governador foi cortar 30% do orçamento das chamadas “despesas operacionais“. Ainda que posteriormente tenha sido dito que o corte não mais ocorreria, a Uenf continua até hoje recebendo uma fração irrisória do orçamento aprovado pela Alerj para 2019.

E mais recentemente, graças ao jornalista Ancelmo Gois, soubemos que desde meados de março, as universidades estão sob um processo de censura velada, pois foi determinado aos reitores das três instituições existentes no Rio de Janeiro (Uenf, Uerj e Uezo) que ” obrigatoriamente que todas as solicitações da mídia sejam compartilhadas com a Secretaria de Ciência e Tecnologia”, “antes de serem apresentadas à imprensa“.

censura ies rj

Em minha opinião todos esses movimentos explicitam uma vontade incontida de asfixiar a democracia interna das universidades estaduais do Rio de Janeiro, ao controlar não apenas o tipo de informação que pode ser compartilhado, mas, principalmente, por tentar interferir em processos democráticos que até o presente momento não resultaram em nada muito diferente do que se espera deles, qual seja, eleger e fazer colocar na cadeira de reitor os escolhidos pela comunidade universitária.

A liberdade de expressão e de escolha de dirigentes não é nenhum favor que se faz às universidades, mas condição “sine qua non” para que elas melhor executem suas tarefas estratégicas em prol do desenvolvimento científico e tecnológico do Rio de Janeiro. Nesse sentido, melhor faria o governador Witzel se determinasse ao seu secretário estadual de Fazenda para que entregasse sem maiores embaraços o orçamento aprovado pela Alerj às direções democraticamente eleitas nas nossas 3 universidades. É que todas elas vem demonstrando que dinheiro investido em ensino superior público sempre traz ganhos multiplicadores. Ao tentar interferir na autonomia das universidades, lamentavelmente, o sinal que se dá é o exatamente oposto ao que se deveria dar, especialmente em um momento em que o Rio de Janeiro tanto precisa de saídas criativas para a crise estrutural que abala a sua economia.

A quem interessa a destruição das Ciências Humanas no Brasil ?

pensamento

Por Luciane Soares da Silva*

É muito comum enquanto ando pelos corredores da Universidade Estadual do Norte Fluminense, Darcy Ribeiro, lembrar da frase de Antônio Nóvoa[1] ao fim de sua palestra aqui em 2017 : “ a Universidade é o melhor lugar do mundo”. Oriunda da Federal do Rio Grande do Sul , tenho mais tempo de vida dentro da Universidade do que fora. E tenho acompanhado deputados atacando as Universidades do Rio de Janeiro na tentativa de  criminalizá-las. Tenho vivido anos de destruição da Universidade com a não realização de concursos. Tenho acompanhado a intervenção federal na autonomia universitária, cujo caso da Unirio, em sua eleição para reitor, exemplifica muito bem o ataque a democracia conquistada com luta pela comunidade acadêmica.

No ano de 2018, as Universidades brasileiras foram alvo de fiscalizações acompanhadas de truculência e ilegalidade. No Rio, a Universidade Federal Fluminense (assim como a UENF e outras) foi semanalmente visitada por fiscais após “denúncias”. Por trás destes movimentos, há a  tentativa de cerceamento da liberdade de expressão de posições em desacordo com os rumos da política nacional e estadual. Vivemos a experiência concreta da aplicação de exceção na qual cada autoridade pôde estabelecer a escala de democracia que deveria ser aplicada a cada momento do processo eleitoral.

E contra Luiz Carlos Cancellier, ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, nunca nada foi provado. Após ser exposto, preso, proibido de entrar no local onde trabalhara anos de sua vida, a operação Ouvidos Moucos da Polícia Federal não sabe dizer o que aconteceu. Aconteceu que ao acusar um homem inocente de participação em desvio milionário de verbas da educação, este mesmo homem público, não suportou o fardo e cometeu suicídio em 2 de outubro de 2017.

É neste cenário que o atual presidente Jair Bolsonaro, amparado em seu ministro da educação Abraham Weintraub , declara ser preciso “ focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte como veterinária, engenharia e medicina”. 

Quando olhamos o Brasil pós democratização e os indicadores de desigualdade, violência e racismo, devemos nos perguntar, como um país tão rico, permanece tão desigual. Quando olhamos o resultado das formas de urbanização que produziram áreas conflagradas, sem saneamento, devemos nos perguntar como um país com tantos recursos e terras permanece tão inacessível aos seus cidadãos. Quando olhamos as mortes no campo e os indicadores que mostram uma educação ainda precária e incapaz de motivar inovação em regiões como Campos dos Goytacazes, devemos nos perguntar como a política municipal não melhora a vida do homem do campo e de sua família. Quando vemos os jovens ingressando tão cedo em instituições como DEGASI e posteriormente engrossando a massa penitenciária que transcende os limites aceitáveis da dignidade humana, devemos nos perguntar como a Justiça permite tantos abusos aos direitos humanos. Quanto o sistema de saúde pratica violência obstétrica, permite que se naturalize o péssimo atendimento público, aceita o descaso e as pequenas corrupções como forma de fracionar o acesso à saúde, devemos nos perguntar por que programas de prevenção e cuidados básicos não foram implementados em nosso país, em pequenas cidades, investindo em melhor alimentação, tratando questões ligadas a saúde mental da população. Quando o Estado mata pessoas com 80 tiros, confunde furadeiras e sombrinhas com fuzis, atira em crianças de 10 anos e tenta justificar envolvimento no tráfico, devemos nos perguntar por que este mesmo Estado segue aplicando políticas de extermínio contra a população negra e pobre.  Quando ele desapropria com celeridade, agricultores para entregar suas terras e águas na mão de empresários inconsequentes, devemos perguntar que matriz de desenvolvimento é esta que não interessa ao bem comum.

Nós fazemos estas perguntas, realizamos estas pesquisas e mostramos os interesses que destroem um país rico em recursos humanos e naturais. Mostramos opções menos poluidoras, mostramos possibilidades para alfabetização de crianças e adultos, expomos com outras áreas de conhecimento, as mazelas do sistema carcerário, educacional, de saúde. Discutimos a relação entre desenvolvimento e ecologia. Pensamos as formas pelas quais o racismo ainda permanece em nosso país como uma questão estrutural. Discutimos o feminicídio e as formas ampliadas da família contemporânea brasileira. Enfrentamos temas como aborto, depressão e suicídio.  As ciências humanas não são uma ilha isolada e não há a menor possibilidade de vivermos em um mundo globalizado sem discutir como as decisões políticas afetam as mínimas instâncias de nossas vidas. Da água que bebemos as nossas escolhas religiosas e afetivas.

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 Sabemos o quanto este governo tem se esforçado diariamente para  “apequenar” um país moderno, para vendê-lo mais barato, humilhado, destroçado  pela ignorância assombrosa de seus representantes. Mas sabemos que é na defesa do acesso á Universidade Pública, gratuita e socialmente referenciada que encontraremos nosso caminho de volta ao um país melhor, menos desigual.

O certo é que nós cientistas sociais, permaneceremos aqui, pesquisando, lecionando, realizando projetos de extensão. Seguindo aqueles que antes de nós pensaram o pais: Darcy, Florestan , Sérgio Buarque, Caio Prado Júnior, Lélia Gonzalez, Ruth Cardoso e centenas de outros. Pensar não o país do futuro, mas o Brasil possível do presente. Tudo que já se falou sobre os perigos de um país sem memória se atualiza hoje, quando vemos a tragédia repetir-se nas ações do atual governo. Mas as formas de resistência também se atualizam com base nos saberes que produzimos ao longo destas décadas.

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*Luciane Soares da Silva é professora associada do Laboratório de Estudo da Sociedade Civil e do Estado (Lesce) do Centro de Ciências do Homem da Uenf, e também presidente da Associação de Docentes da Uenf (ADUENF).

Uenf sem recursos de custeio sobrevive da teimosia obstinada de sua comunidade universitária

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O ritmo aparentemente tranquilo dos corredores e alamedas do campus Leonel Brizola da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) esconde uma trágica realidade: em 2019 ainda não foram aportados os recursos de custeio que a instituição necessita para fazer funcionar com algum resquício de normalidade.

Enquanto não se tem notícia de que, apesar da grave crise financeira por que passa o estado do Rio de Janeiro, o governo Witzel tenha suspendido o aporte de recursos para os fundos abutres que hoje controlam o RioPrevidência desde suas mesas de operação em Nova York, a Uenf hoje sobrevive literalmente sobrevive da teimosia de sua comunidade universitária, a começar pelos seus docentes que voltaram a usar o seus salários congelados desde o longínquo ano de 2014 para pagar por despesas básicas dentro de seus laboratórios de pesquisa, e também as atividades de ensino.

Essa asfixia financeira ocorre em que pese a existência da chamada lei dos duodécimos que foi aprovada em dezembro de 2017, mas que continua a ser oportunamente desconsiderada na parte do custeio O governo Witzel está pagando os salários em dia, o que ultrapassaria o limite mínimo estipulado na emenda à constituição estadual que a Alerj aprovou e foi sancionada pelo ex (des) governador Luiz Fernando Pezão.

Na prática ao indicar que paga salários e esquece da verba de manutenção das atividades essenciais, o governo Witzel indica que quem está bancando o funcionamento da Uenf são seus servidores que usam uma fração dos seus salários para tocar o barco em ritmo crítico. Pessoalmente apenas em dois meses de 2019 gastei aproximadamente quase R$ 1 mil com o conserto de diversos equipamentos, já que inexistem dentro da instituição recursos para isto. Aí entre a cessão das atividades e o sacrifício de meu salário congelado, tenho ainda optado pela sua segunda opção.

No caso dos professores, a categoria que é a única a possuir e cumprir o chamado Regime de Dedicação Exclusiva entre os mais de 200 mil servidores estaduais que o Rio de Janeiro, há ainda um pacote de maldades sendo executado a partir do congelamento ou não pagamento de adicionais e do não pagamento de enquadramentos e progressões. Há na Uenf profissionais que tiveram seus enquadramentos e progressões aprovados em Dezembro de 2016, e até hoje continuam sem receber seus direitos legalmente garantidos.

Interessante notar que dentro do quadro de servidores, os professores da Uenf são a rara exceção nesse quesito, já que milhares de servidores tiveram seus salários majorados em função de garantias legais dos seus planos de cargos e vencimentos, os quais não são obstados pelos termos dos acordos assinados com o governo federal sobre a rubrica de “regime de recuperação fiscal”. O resultado é que dentro apenas da Secretaria de Ciência e Tecnologia, os professores da Uenf são os únicos que foram deixados para trás e com salários cada vez mais corroídos.

Uma pessoa mais curiosa irá se perguntar se o fato de inexistirem verbas de custeio não atrapalha as atividades de ensino, pesquisa e extensão que a Uenf possui. A resposta é um óbvio SIM, o que implica ainda na corrosão dos índices de qualidade e competência acadêmica que sempre caracterizaram o funcionamento da universidade criada por Darcy Ribeiro.  

O pior é que diante deste grave quadro de deterioração institucional, a base do governador Wilson Witzel ainda garantiu a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar supostos desvios financeiros e práticas de doutrinação ideológica dentro das três universidades estaduais.Melhor fariam os deputados que apoiaram essa CPI esdrúxula se comparecessem em Campos dos Goytacazes e Macaé (cidade onde a Uenf possui dois campi) para ver como é trabalhar em condições cada vez mais precárias e expostas a riscos de periculosidade e insalubridade, sem que isso se reverta nas compensações estabelecidas em lei.

Certamente haverá quem diga que as universidades estaduais não são as únicas a sofrerem com a crise financeira do estado do Rio de Janeiro. A resposta para isso é simples:  se o estado parasse de beneficiar corporações multinacionais e empresas com polpudas isenções fiscais que não geram nada palpável e investisse em suas universidades é bem provável que o ganho fosse substancial, já que no caso da Uenf os retornos têm sido, ao contrário dos beneficiados pela farra fiscal, consistentemente positivos.

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Finalmente, que ninguém se iluda com a aparente calma que reina na Uenf e, por extensão, na Uerj e na Uezo. Essa calma é daquele tipo que normalmente antecede fortes tempestades. Mas que ninguém culpe os servidores das universidades se o caos latente acabar emergindo e despindo a política de abandono explícito a que estão submetidas neste momento. É que para tudo há um limite, inclusive para a paciência dos que hoje levam as universidades nas costas., enquanto o governador  Wilson Witzel tenta transformar o Rio de Janeiro em uma espécie de faroeste caboclo.

A Uenf continua sendo asfixiada financeiramente no governo Witzel. Até quando resistirá?

Presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia da Alerj,  Waldeck Carneiro (PT), em visita à  a Seção de Anatomia Animal, Fonte: ASCOM/UENF 

A visita da Comissão de Ciência e Tecnologia  da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro ( Alerj) ao campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf) na última 6ª. feira (05/04) serviu para que seu presidente, o deputado estadual Waldeck Carneiro (PT), testemunhasse os efeitos devastadores da continua falta de verbas de custeio que a instituição continua sofrendo quase 4 meses após o início do governo Witzel. 

É que apesar da aprovação da chamada PEC 47 em dezembro de 2017, a Uenf continua  ainda sem receber suas verbas de custeio, o que implica na incapacidade de honrar compromissos com seus fornecedores, a começar pelos  serviços essenciais de água, eletricidade, limpeza e segurança.  A inexistência de verbas de custeio está inviabilizando o funcionamento de equipamentos de variados usos para as atividades essenciais dentro da Uenf, e ameaça ainda a paralisação completa das atividades que ocorrem diariamente dentro da instituição, incluindo importantes pesquisas que poderiam e deveriam ser prioridade para o novo governador, mas aparente e estranhamente não o são.

SOS UENF

SOS UENF: com verbas de custeio congeladas desde o início do governo Pezão, a universidade criada por Leonel Brizola e Darcy Ribeiro sofre com problemas que ameaçam sua existência.

A falta de verbas de custeio causa ainda a repetição de um esquema pernicioso onde os professores e servidores acabam tendo que usar seus próprios salários para impedir que a Uenf chegue a um estado de completa insolvência.  A guisa de exemplo pessoal, apenas na semana passada usou recursos pessoais,  advindos da minha única fonte de renda que é o meu salário, para consertar dois equipamentos de estabilização de corrente elétrica que haviam queimado. A isso se soma a colocação de uma nova porta da sala em que meu grupo de pesquisas procura continuar exercendo suas atividades.  Mas também já compro há vários anos a água consumida e os produtos de limpeza que são usados na sala que ocupo. Em todos esses casos, a decisão era a de deixar ficar quebrado e sujo ou gastar dinheiro próprio para manter as coisas funcionando dentro de um ambiente de trabalho decente.  Acabei optando por usar meu salário para fazer o “show continuar”. Entretanto, fico pensando até quando poderei continuar cometendo este tipo de “luxo”, na medida em que meus salários estão sem correção desde 2014, apesar do Regime de Recuperação Fiscal assinado pelo (des) governador Pezão indicar a possibilidade da reposição das perdas inflacionárias anuais.

Para agravar a situação, a base partidária do governo Witzel está tentando levar à frente uma indecorosa Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que sob a desculpa esfarrapada de apurar desvios ideológicos nas universidades estaduais busca instaurar um clima de terror persecutório  em ambientes onde deveria predominar a autonomia universitária.  Aliás, falando em autonomia, o próprio governador Witzel está dando sua contribuição para interferir na vida das universidades ao enviar na calada da noite um projeto de lei que visa interferir na escolha dos reitores das universidades, indo de encontro ao que está estabelecido na Constituição Estadual.  Em outras palavras, além da asfixia financeira as universidades estaduais do Rio de Janeiro estão convivendo com um clima de perseguição política e tentativas de subordinação política por parte do governo do estado.

A situação da Uenf é um capítulo à parte para mim, pois vejo todos os dias os esforços que são realizados para gerar conhecimento científico de excelência em seus vários centros de pesquisa. Ao longo de pouco mais de um quarto de século, a Uenf já desenvolveu muita coisa interessante, a começar por sementes adaptadas ao clima regional. Além disso, há entre seus professores e estudantes pessoal altamente qualificado e que têm contribuído para que a universidade seja reconhecida dentro e fora do Brasil como uma experiência de sucesso na formação de recursos humanos qualificados.

Diz-se que o governador Wilson Witzel já expressou pretensões de ser candidato nas eleições presidenciais de 2022 e que para isso irá tentar se diferenciar do presidente Jair Bolsonaro. Pois bem, uma boa área para ele se diferenciar é exatamente a da ciência e tecnologia, aonde o governo federal vem cortando verbas a passos largos e ameaçando destruir o antes emergente sistema nacional de ciência e tecnologia.  Para tanto, o governador Witzel deveria priorizar as universidades estaduais que, apesar de todo o ataque sofrido durante os anos de Sérgio Cabral e Luís Fernando Pezão, continua sendo classificadas entre as melhores do Brasil e da América Latina.  E tomando a Uenf como exemplo, nem precisa gastar fortunas para que o resultado apareça, apenas que libere o mirrado orçamento aprovado pela Alerj para o ano de 2019. Aliás, há que se frisar que a Uenf não está pedindo muito, apenas que se cumpra pelo menos o orçamento a que tem direito.

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Diz-se que o governador Wilson Witzel quer ser candidato a presidente em 2022 e tentará se diferenciar de Jair Bolsonaro para isso acontecer. Vai ser diferente nos investimentos em ciência e tecnologia?

A decisão com que o governador Wilson Witzel está defrontado é muito simples: vai investir nas universidades e em nosso sistema estadual de ciência e tecnologia ou vai continuar o ataque impiedoso que foi começado pro Sérgio Cabral e Pezão?  Da resposta que for dada pelo governador dependem não apenas as universidades e institutos de pesquisa, mas a possibilidade de um futuro menos sofrível para o povo do Rio de Janeiro. È que a coisa é muito simples: para sair do atoleiro em que nos encontramos será fundamental superar o atraso tecnológico em que a economia fluminense está imersa. Para superar essa atraso a receita é simples e direta: investir em desenvolvimento científico.

Estudo da UENF revela que água consumida em assentamento no Norte Fluminense apresenta contaminação

Coliformes fecais e totais, nitrogênio e, principalmente, altas concentrações de resíduos de agrotóxicos, foram encontrados

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Marcos Pedlowski alerta para o resultado apresentado (Foto: reprodução de Facebook)

Por Cláudia Freitas para o Portal Eu,Rio!

A revista científica Heliyon publicou nesta quinta-feira (7/3) um estudo feito por pesquisadores do Centro de Ciências do Homem, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (CCH/UENF), que avalia a qualidade da água consumida por moradores do Assentamento Zumbi dos Palmares, localizado a cerca de 10 km do Centro de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense. Os resultados são alarmantes e revelam que em todos os parâmetros adotados as amostras apresentam índices elevados de contaminação por coliformes fecais e totais, nitrogênio e, principalmente, altas concentrações de resíduos de agrotóxicos, inclusive nitrato, em comparação com os padrões internacionais. Para os cientistas, a água na região deve ser classificada como inadequada para o consumo humano.

A novidade da pesquisa está na metodologia aplicada pelos cientistas da UENF. Eles desenvolveram o trabalho integrando fatores que normalmente não são avaliados e com critérios integrados. Utilizando os parâmetros físico-químicos (PH, condutividade, turbidez), os pesquisadores conseguiram identificar diversificados elementos de contaminação. “O que mais nos preocupa é a constatação de que as amostras são semelhantes às de várias áreas rurais do Brasil, ou seja, o problema deve estar afetando muitas populações, mais do que estamos imaginando”, afirma o professor Marcos Pedlowski, que integra o grupo de estudo.

O conteúdo da pesquisa destaca: “os resultados de nossas análises de poços rasos no assentamento Zumbi dos Palmares mostraram que várias amostras apresentavam valores além dos limites estipulados pela legislação brasileira que regula a qualidade da água utilizada para a água potável. Além disso, também observamos relações significativas entre diferentes variáveis apontando para um processo de contaminação da água causado por fontes provocadas pelo homem”. Para Pedlowski, apesar de não existir limites determinados na legislação brasileira, pelo menos dois dos agrotóxicos analisados estavam com concentrações acima do que é tolerado em outras partes do mundo, como o caso do herbicida Atrazina.

Em outro trecho, os autores enfatizam que as amostras de concentração de nitrato apresentaram valores elevados, em dois casos ultrapassando o limite estabelecido na Portaria 2914/2011 e fora dos padrões recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para água potável. Os professores acreditam que a contaminação deve estar relacionada à lixiviação dos fertilizantes do solo, pois a maior concentração foi encontrada em períodos de chuva.

“Lembro que o estudo foi feito num assentamento de reforma agrária onde o uso de agrotóxicos não é elevado quando comparado com grandes áreas de monoculturas.  Os assentados são uma espécie de canário das minas de carvão.  Se o problema está se manifestando em áreas de agricultura familiar, imagina o que não está acontecendo em áreas hegemonizadas pela soja e pela cana-de-açúcar”, destaca o professor.

Na conclusão do trabalho, os autores sugerem que a qualidade da água consumida em áreas rurais de países em desenvolvimento tenha como referência outros parâmetros além da base no nível de contaminação biológica, passando a acrescentar, por exemplo, os níveis de nitrogênio associados ao uso de fertilizantes sintéticos e de agrotóxicos.

Pedlowski conta que as amostras de água analisadas foram coletadas em 2014, mesmo ano que o estudo foi finalizado. No entanto, os resultados só foram divulgados nesta quinta (7). Nos cinco últimos anos, outros trabalhos associados foram iniciados, mas ainda estão em andamento. De agosto de 2018 a fevereiro deste ano, Pedlowski esteve no Centro de Ecologia, Evolução e Alteração Ambiental da Universidade de Lisboa, em Portugal, participando de uma pesquisa sobre biorremediação de agrotóxicos. O estudo tem como uma das suas bases a pesquisa realizada pelos profissionais da UENF.

“A contaminação biológica é, talvez, de solução mais fácil. Mas a contaminação causada por fertilizantes sintéticos e agrotóxicos demanda uma mudança de paradigma no processo que é tradicionalmente utilizado para descontaminação de água para consumo humano. No caso dos agrotóxicos, o primeiro passo [em direção a uma bioerremediação] seria adotar padrões mais restritivos para a tolerância de resíduos na água, tal qual tem feito a União Europeia, por exemplo. Outra medida seria obrigar as empresas concessionárias de água e esgoto a aperfeiçoar seus sistemas de tratamento. Do contrário o problema só vai se agravar”, destaca Pedlowski.

O médico Décio Lerner, chefe do setor de Oncologia do Hospital São Vicente de Paulo (RJ), esclarece que esses tipos de agrotóxicos podem causar dano no DNA, elemento que está em todas as células e carrega toda a informação genética do indivíduo. Segundo ele, os agrotóxicos podem funcionar como fator desencadeante do câncer ao provocar esta modificação no DNA. O médico enfatiza também que não há estudos conclusivos sobre qual a quantidade e o tempo de exposição para causar prejuízos ao organismo humano.

Lerner diz ainda que alguns agrotóxicos estão implicados com lesão na medula óssea, órgão que fica dentro dos ossos e é responsável pela produção dos elementos sanguíneos. Nesse caso a “fábrica” do sangue pode simplesmente parar ou funcionar irregularmente, necessitando, assim, de um transplante de medula óssea.


Este artigo foi originalmente publicado pelo Portal Eu,Rio! [Aqui!]

Pesquisadores da Uenf verificam a presença de agrotóxicos na água consumida por assentados da reforma agrária

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Uma pesquisa realizada na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) avaliou a qualidade da água consumida por agricultores familiares do Assentamento Zumbi dos Palmares a partir da integração de  parâmetros que tradicionalmente são avaliados separadamente.

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Os resultados desta pesquisa acabam de ser publicados pela revista “open access” Heliyon, e trazem como principal diferencial metodológico a combinação de diferentes técnicas de avaliação da qualidade da água  usada para o consumo humano.  O estudo avaliou amostras de água coletadas em poços rasos usados pelos assentados do Zumbi dos Palmares, incluindo parâmetros físico-químicos (pH, condutividade, turbidez),  a presença de coliformes fecais e totais,  a quantidade de nitrogênio, e as concentrações de resíduos de agrotóxicos.

Uma das principais constatações do estudo é que a qualidade das amostras utilizadas estava inadequada para consumo em cada um dos parâmetros analisados. O problema assim seria mais grave do que normalmente se considera, pois todos os parâmetros considerados apresentaram problemas, o que agravaria o comprometimento da qualidade da água consumida em áreas rurais no Brasil.

Outro aspecto notável foi a constatação de que no tocante à contaminação por resíduos de agrotóxicos foi verificado que, apesar de não existir limites determinados na legislação brasileira, pelo menos dois dos agrotóxicos analisados estavam com concentrações acima do que é tolerado em outras partes do mundo. No caso do herbicida Atrazina, este composto é conhecido por ser um disruptor endócrino e tem sido associado à redução na qualidade do esperma humano, além de também ser considerado como potencial causador de diferentes tipos de câncer.

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Em função dos resultados obtidos, os autores do estudo consideram que a avaliação da qualidade da água consumida em áreas rurais de países em desenvolvimento deixe de ser feita apenas com base no nível de contaminação biológica para incluir também outros fatores como os níveis de nitrogênio (associados principalmente ao uso de fertilizantes sintéticos) e de agrotóxicos.

Os resultados deste estudo são ainda mais significativos quando se considera que o nível de uso  de insumos agrícolas na agricultura familiar é consideravelmente menor do que nas grandes propriedades onde a aplicação de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos atinge escalas ainda mais significativas dada a dependência das monoculturas em relação a estes compostos.

Quem desejar obter o artigo intitulado “An integrated assessment of water quality in a land reform settlement in northern Rio de Janeiro state, Brazil “, basta clicar [Aqui!]

Campos dos Goytacazes vivenciou o padrão atmosférico extremo das mudanças climáticas e mostrou o seu despreparo

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Se existe uma certeza no mundo científico nos tempos atuais é que o clima da Terra está passando por um forte padrão de mudança causado pela emissão de gases poluentes, mais popularmente conhecido como mudanças climáticas.
Esse padrão é responsável por alterar o ritmo e a intensidade dos eventos atmosféricos que passarão a ser extremos. Lamentavelmente, pouca atenção tem sido dada à necessidade de serem produzidos ajustes na forma de organização das cidades, de forma a preparar seus habitantes para o que parece inevitável a estas alturas do campeonato.
Esse preâmbulo é apenas para dizer que o que aconteceu ontem em Campos dos Goytacazes com ventos médios de 80 km/h e chuva intensa por algo em torno de 30 minutos, mas que serviu para criar um rastro de destruição por toda a cidade, é apenas um aperitivo do que pode estar por vir nas próximas décadas.


Imagens de destruição na cidade de Campos dos Goytacazes são o prenúncio do que virá com as mudanças climáticas. Fonte: Isaías Fernandes, Folha da Manhã.
Frente a esse cenário é forçoso reconhecer que a atual administração municipal comandada pelo jovem prefeito Rafael Diniz conseguiu piorar uma área que nunca foi, digamos, muito lustrosa que é a do meio ambiente.
Venho falando, por exemplo, dos problemas que temos na área da arborização urbana desde que cheguei na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) em 1998, mas parece que minha mensagem sempre cai em ouvidos mocos. Entretanto, entre uma administração e outra tivemos alguns lapsos de melhoria e até algumas sinalizações de que teríamos um plano diretor de arborização. Entretanto, passados mais de dois anos da atual gestão, desconhece-se qualquer ação nesse sentido. E, pior, o que venho assistindo é a paulatina destruição do pouco que foi construído.
A queda de árvores no padrão de ventos intensos que predominaram ontem é devido ao fato de terem sido plantadas espécies de rápido crescimento (mormente leguminosas) mas que possuem raízes emergentes. Se houvesse um mínimo de cuidado e atenção com que a ciência climática vem alertando, a cidade de Campos dos Goytacazes não só estaria plantando mais árvores, mas como também estaria optando por espécies que possuam raízes profundas. E há que se lembrar que no mundo das mundaças climáticas, as árvores serão nossas grandes aliadas.
A minha expectativa é que o episódio de ontem sirva de alerta para a chegada do mundo novo das mudanças climáticas onde eventos atmosféricos extremos serão a sua principal marca. E que o jovem prefeito Rafael Diniz saia da seu eterno discurso (de fachada) de que buscará expertise científica nas universidades que atuam em Campos dos Goytacazes para estabelecer mecanismos que nos preparem para a repetição do que atingiu a nossa cidade no dia de ontem. E que ninguém se iluda, o que se viu ontem é apenas o começo deste novo tempo que as mudanças climáticas causarão. A inércia representará a certeza de grandes perdas econômicas e humanas.

Aula Magna da UENF de 2019 será proferida por um dos seus fundadores, o Prof. Carlos Eduardo de Rezende

A ideia em torno do que se convenciona chamar de “Aula Magna” é de se ter uma personalidade com representatividade dentro de uma instituição para enviar uma mensagem aos alunos ingressantes.  Em função disso é que não tenho dúvida de afirmar que a escolha feita pela reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) para o ano letivo de 2019 não poderia ter sido melhor. 

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É que o encarregado de dar as boas vindas aos alunos ingressantes é um dos fundadores da instituição, o professor Carlos Eduardo de Rezende. Poucos sabem, mas ele participou do processo de formulação do projeto revolucionário que Darcy Ribeiro pensou para a Uenf nas reuniões que ocorreram Fundação de Apoio à Escola Pública (Faep) ao longo do ano de 1992.

O professor Rezende também estava no grupo de professores que escolheram viver em Campos dos Goytacazes já a partir de 1993 quando ocorreu a aula inaugural da Uenf. Desde então, ele estabeleceu uma carreira científica sólida, e que teve como ápice, ao menos  em minha opinião, ser um dos líderes da pesquisa que confirmou a existência de um complexo sistema de corais no delta do Rio Amazonas, descoberta que quebrou um paradigma no estudo deste tipo de organismo.

Mas além de ser um cientista rigoroso e possuidor de uma visão compreensiva do processo de desenvolvimento da ciência brasieira, ele é principalmente um apaixonado pela Uenf, e pelo que a instituição significa para o processo de desenvolvimento social do Norte e do Noroeste Fluminense. Por isso, em todos os grandes momentos de conquistas, mas também de crises, Carlos Eduardo de Rezende foi uma presença constante, fosse como dirigente institucional ou como líder da associação de docentes.  

Por estarmos em um momento em que a Uenf se ressente de um longo período de ataques que contribuíram para um inevitável processo de inquietação e desalento é que considero a escolha de um dos seus fundadores para proferir a Aula Magna de 2019 mais do que acertada. É que tenho certeza que ele colocará em primeiro plano o sonho que Darcy Ribeiro transformou em realidade, e das tarefas que o tempo presente apresenta para manter esse projeto vivo em sua forma pública e gratuita.

Estudo realizado por parceria UENF e UFRJ mostra impactos ampliados do Tsulama da Samarco

Enquanto a mídia corporativa brasileira já esqueceu o maior desastre da mineração mundial em mais de 300 anos, a comunidade científica continua produzindo estudos que revelam um alcance ainda maior dos impactos associados ao Tsulama da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton).

A matéria abaixo, produzida pela Assessoria de Imprensa da COPPE/UFRJ, mostra que mais de 3 anos após a ocorrência do Tsulama,  ainda existem impactos sobre o ambiente e à saúde humana, afetando a vida de dos 340 mil habitantes da região impactada pelo incidente causado pela ganância por lucros de duas das maiores mineradores do planeta, sobretudo na estação chuvosa.

O interessante é que a produção das evidências científicas do impacto continuado do Tsulama da Samarco (Vale+BHP Billiton) ocorre de forma simultânea à vitória das mineradoras na justiça mineira que concordou em recalcular os valores que deverão ser pagos a mais de 1.500 atingidos. Como se vê pelos resultados das pesquisas conjuntas da UFRJ e da UENF, estes valores deveriam ser é majorados.

Pesquisa desenvolvida na Coppe revela novos impactos do desastre ambiental de Mariana

Um projeto interdisciplinar de pesquisa derivado da dissertação de mestrado da aluna da Coppe/UFRJ Marcelle Cândido Cordeiro revelou que os rejeitos de mineração, levados ao rio Doce após o desastre de 2015, ainda causam impacto ambiental e risco à saúde dos 340 mil habitantes da região, sobretudo na estação chuvosa.  Sob a coordenação do professor Fabiano Thompson, do Programa de Engenharia de Produção (PEP) da Coppe, o estudo ganhou visibilidade internacional, com a publicação do artigo Insights on the fresh water microbiomes metabolic changes associated with the world’s largest mining disaster, no periódico Science of the Total Environment, no último mês de novembro [1].

A pesquisa aponta que a maior parte dos 45 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração que se depositou no leito e nas margens do rio Doce e afluentes da sua bacia hídrica, como os rios Carmo e Gualaxo do Norte, não é inerte. O rejeito é rico em nitrogênio e ferro. Este elemento favorece a multiplicação de bactérias nocivas à saúde, sobretudo no verão, quando as chuvas mais frequentes revolvem os sedimentos do leito dos rios.

O estudo é um dos produtos da dissertação de mestrado da aluna do PEP, Marcelle Cândido Cordeiro, intitulada “Qualidade das águas e diversidade microbiana do Rio Doce após o rompimento da barragem do Fundão”, sob a orientação dos professores Fabiano Thompson, da Coppe, e Gizele Duarte Garcia, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Conservação (PPG-CiAC) da UFRJ, sediado no polo de Macaé.

O estudo reuniu pesquisadores da Coppe, do Instituto de Biologia e do Instituto de Microbiologia da UFRJ, e também do Laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Para chegar a este resultado, os pesquisadores realizaram três expedições, recolhendo amostras em 16 pontos ao longo do rio Doce: Bento Rodrigues; Camargo Ponte Caída; rio Gualaxo; rio Carmo; rio Piranga; São José do Goiabal; Bom Jesus do Galho; Ipatinga; Governador Valadares; Tumiritinga; Resplendor; Aimorés; Baixo Guandu; Mascarenhas; Colatina; e Linhares. Estudos anteriores abordaram os impactos ambientais do desastre, mas este é o primeiro a avaliar os efeitos na diversidade microbiana ao longo do rio Doce.
 

Técnica inovadora para análise de amostras genéticas

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As coletas foram realizadas em novembro de 2015, logo após o desastre, em maio e em setembro de 2016. No Núcleo Professor Rogerio Valle de Produção Sustentável (Sage) da Coppe, o material recolhido passou pela análise físico-química e microbiológica, em especial por uma técnica inovadora denominada metagenômica, que permite estudar todos microrganismos presentes em uma amostra, utilizando fragmentos de DNA, sem a necessidade de cultivá-los.

“Por meio dessa análise de metagenômica conseguimos detectar a influência do rejeito na microbiota da água do Rio Doce. A lama não foi inerte, ao contrário do que se dizia, ela favoreceu alguns grupos microbianos. A técnica permite identificar os grupos taxonômicos e o potencial metabólico e funcional da amostra. Recuperamos onze genomas completos de micróbios, e verificamos os metabolismos que se encontravam em maior concentração. Conseguimos encontrar muitos genes relacionados ao metabolismo de ferro e ao de nitrogênio nestes genomas. Mais uma evidência da influência da lama na microbiota da região”, explica Marcelle Cordeiro, doutoranda do Programa de Engenharia de Produção.

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Marcelle Cândido Carneiro, aluna de doutorado da Coppe.

De acordo com Marcelle, também foram usados dados próprios das coletas feitas pelos pesquisadores envolvidos no projeto e também dados públicos do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), que monitoram o rio Doce desde 1997, no âmbito do projeto Águas de Minas. “Em dezembro de 2016, pelos dados secundários do Igam, houve um aumento de turbidez muito maior que a média histórica da região e também 67 vezes maior do que o determinado pelo Conselho Nacional do Meio-Ambiente (Conama). Embora haja leve melhora nos níveis de turbidez, em dezembro de 2017 os valores de turbidez ainda eram 15 vezes maiores do que o limite (100 NTU) preconizado pelo Conama. Usamos como referencial a resolução 357 do Conama que estabelece o padrão mínimo de qualidade da água de acordo com o uso preponderante da mesma”, esclarece.

Em 2018, não há dados disponíveis. “Mas o nível continua sendo muito acima do tolerável, e não há previsão de quando será atingido um patamar seguro para o consumo. Além disso, as chuvas revolvem o solo e o material que suspende aumenta a turbidez da água e há aumento significativo na concentração de cianobactérias, anterobactérias, nutrientes orgânicos, inorgânicos, metais. É uma ameaça à saúde humana”, avalia o professor Fabiano Thompson.

Segundo a aluna da Coppe, o rio Doce é considerado Classe 2 pelo Conama, o que permite o uso de suas águas para consumo após tratamento, fins recreativos, pesca, irrigação de hortaliças. “Mas encontramos concentrações muito acima do nível de turbidez, o que acarreta prejuízo de todas essas atividades. Outra coisa foi o aumento no número de genes relacionados à virulência, isso é indicativo do risco à saúde humana, causado pelo derramamento de lama após o rompimento da barragem em Mariana”, explica a pesquisadora.

A microbiota avaliada pelos pesquisadores indicou a forte presença de metabólitos de ferro e nitrogênio, o que, segundo Marcelle, sugere a presença de nitrogênio no rejeito. Os pesquisadores utilizaram como parâmetro para comparação o rio Paraguaçu, cujo bioma é similar ao rio Doce. “A concentração deste grupo microbiano no rio Paraguaçu é muito inferior, o que reforça a conclusão de que a proliferação destes microrganismos decorre da deposição de ferro e nitrogênio no leito e nas margens do rio, na enxurrada que seguiu ao rompimento da barragem”.

Ameaça à saúde humana

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Professor Fabiano Thompson, do Programa de Engenharia de Produção (PEP) da Coppe

Na opinião do professor da Coppe (foto acima, o monitoramento das águas é um passo fundamental para avaliar as medidas subsequentes, dentre as quais as alternativas para o tratamento avançado das águas do rio Doce. “O monitoramento permite também que se faça a análise comparativa com os cenários passados e a projeção do futuro, a partir deste ambiente doente para o ambiente saudável, biodiverso, que permita filtrar o material causador da turbidez”, explica.

O professor destaca ainda a importância do uso da metagenômica no estudo. “Se não tivéssemos feito a análise de metagenômica, não teríamos constatado a importância do nitrogênio, e a proliferação de genes ligados ao seu metabolismo. Ou seja, mesmo que haja escamoteamento do que foi, de fato, liberado na enxurrada de rejeitos de mineração, a metagenômica age como uma análise forense. Essa nova técnica faz com que o próprio Conama precise atualizar os seus parâmetros, que embora úteis, certamente não capturam a totalidade de interferências antropogênicas e industrais no ambientes. É preciso dar respostas ágeis, confiáveis e independentes para a recuperação do rio Doce”, avalia Thompson.

Segundo o professor, os relatos da população local sobre problemas de saúde variados, tanto agudos quanto crônicos, reforçam a percepção acerca dos problemas ambientais existentes.

Fonte: COPPE/UFRJ