Uenf: de Darcy Ribeiro a Regina Duarte?

Muitos ainda devem ser lembrar daquela propaganda feita pelo então candidato José Serra mostrando a atriz global e latifundiária Regina Duarte dizendo que estava com medo pelo futuro do Brasil caso Lula ganhasse as eleições presidenciais. Pois bem, mais de uma década depois daquela peça ter sido levada ao ar, eu tenho ouvido repetidas manifestações dentro do campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) que me transportam ao mundo previsto por Regina.É que, invariavelmente, muitos que criticam a situação em que a UENF foi colocada se declaram estar “com medo” de vir a público para proferir algo que seria básico em uma instituição universitária: uma simples opinião.

Uma das explicações para essa situação de medo é estrutural. É que apesar do ciclo autoritário ter sido oficialmente encerrado em 1985, os impactos da ditadura militar de 1964 têm sido duradouros sobre a sociedade brasileira, onde as universidades estão inseridas. Assim, se a herança autoritária da ditadura está permeada nas relações gerais da sociedade brasileira, não haveria por que não estar dentro das universidades.

Mas existem outras explicações mais simples do que a herança da ditadura. A carta-ameaça do reitor Silvério Freitas ao signatários do “Manifesto em Defesa da UENF” é um exemplo prático de como muitos, especialmente entre os professores, foram levados ao estado “Regina Duarte” de ser e vivenciar o cotidiano da instituição. Afinal, fica patente que a universidade é dirigida por um grupo que não tolera a crítica, e não hesita em lançar mão de instrumentos administrativos para tentar coagir quem ousa fazer aquela coisa básica que é emitir uma opinião crítica.

Por outro lado, não é possível deixar de notar que o homem que idealizou o projeto UENF não entrou na história por ter medo. Aliás, muito pelo contrário. Darcy Ribeiro, com todas as suas contradições e ambivalências políticas, pode ser chamado de qualquer coisa, menos de medroso. Darcy viveu na sua plenitude e desafiou por anos a fio a sentença de morte ditada por um câncer, e morreu sem medo.

Assim, me parece no mínimo contraditório que a sua última obra, a UENF, seja dominada pelo espírito de Regina Duarte e não de Darcy Ribeiro. Se for para ser assim, que se mude o nome da universidade para “Uenf Regina Duarte”.  Pelo menos ficaria mais fidedigno e correto com Darcy.

De minha parte, prefiro continuar construindo a instituição sonhada por Darcy Ribeiro, onde o medo não tenha espaço e, tampouco, a mediocridade.

O espectro de uma nova greve ronda a UENF. Adivinhe quem são os culpados!

greve

Após passarem o ano de 2013 numa penosa e infrutífera negociação com a Secretaria de Planejamento e Gestão do (des) governo Sérgio Cabral, em assembléia realizada no dia de hoje (16/01) os professores da UENF demonstram um certo cansaço com essa forma “paz e amor” de cobrar seus direitos.  Como resultado foi aprovada uma proposta que indica para o início de uma nova de professores que deverá impedir o início do primeiro período de 2014.

À primeira vista, os culpados pela greve serão os professores, afinal eles o estarão fazendo. Mas um olhar mais profundo identificará que existem dois grandes culpados pela possível instauração dessa greve: a reitoria da UENF e o 9des) governo Cabral. Afinal, esses dois setores vem atuando de forma coordenada para minar a justa demanda de que o pagamento do Adicional de Dedicação Exclusiva dos professores da UENF não seja usado como um instrumento para desmantelar o modelo institucional criado por Darcy Ribeiro. 

Aliás, a proposta do (des) governo Cabral é tão ruim que propõe oferecer 35% de Adicional de Dedicação Exclusiva (enquanto que na UERJ o valor pago é 65%) para, em troca, quebrar a espinha dorsal do modelo institucional da UENF que é ancorada num quadro docente exclusivamente formado por doutores que se dedicam com exclusividade às suas tarefas acadêmicas dentro da instituição.

No tocante ao (des) governo Cabral, a tentativa de sucateamento da UENF não aparece apenas na proposta de precarizar o regime de trabalho dos docentes. A coisa está cada vez pior na questão orçamentária, sendo que o orçamento de 2014 é menor do que o de 2013 que, aliás, já havia sido menor que o de 2012. Nesse caso, a combinação de orçamentos curtos e corpo funcional precarizado é apenas uma consequência da opção de precarizar a educação superior nos mesmos moldes que já se precarizou a escola pública até o ensino médio. 

Assim, antes que se reclame dos professores, os que eventualmente se sentirem incomodados pelo espectro de uma nova greve tem mais é que cobrar que o (des) governador Sérgio Cabral ofereça as condições mínimas de funcionamento para uma universidade que é considerada pelo MEC como a melhor do Rio de Janeiro e a décima-quinta do Brasil.  Do contrário, a UENF ainda vai seguir o mesmo destino trágica da Universidade Gama Filho e da UNIVERCIDADE. Pode demorar um pouco, mas vai acontecer.

Propedêutica na UENF, já!

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Lá em 1998 quando cheguei na UENF, um dos cursos mais movimentados do Ciclo Básico Comum (CBC) era o de Propedêutica. Ali, entre outras coisas, os calouros da UENF eram apresentados à ferramentas para a análise e compreensão crítica de textos. Agora, não sei porque a carta do reitor solicitando explicações individuais de um manifesto coletivo me faz pensar que essa disciplina deveria ser reinserida como obrigatória, principalmente para os ocupantes de cargos comissionados. Afinal, vai muito mal uma instituição que não consegue entender o que vem a ser um “manifesto” ou, tampouco, a diferença entre genérico e específico.

 Aliás, há algo mais específico do que declarar que “Embora o COLEX, pelo Regimento Geral, deva funcionar apenas como um órgão estritamente operacional e não deliberativo, vem extrapolando suas funções regimentais, ignorando e ultrapassando as decisões dos Colegiados Superiores, tais como o Conselho Universitário e o Colegiado Acadêmico – principais instâncias responsáveis por decidir e deliberar sobre assuntos acadêmicos e administrativos”?

 Propedêutica já!

Em resposta a um manifesto político, a reitoria da UENF acena com a judicialização

Como os leitores deste blog já devem saber, eu e mais 62 docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) assinamos e divulgamos um manifesto político em defesa da universidade no dia 07/01/2014 (Aqui!) . Pois bem, após uma semana de silêncio, o reitor da UENF, Silvério de Paiva Freitas,  acaba de me enviar a “simpática” correspondência que mostro abaixo.
carta reitoria manifesto

Como o manifesto é de natureza coletiva,  tratarei com os atuais e futuros signatários a resposta a ser dada a este documento da reitoria. No entanto, não posso deixar de notar que a reitoria da UENF, na figura do seu reitor, em vez de escolher o caminho do debate democrático que deve caracterizar a vida dentro de comunidades universitárias, acena com processos administrativos e judiciais para os signatários deste manifesto.  Mas longe de me surpreender com esta atitude, eu vejo apenas a repetição de um padrão de uso de medidas administrativas (e agora provavelmente judiciais) para sufocar o debate.  Vamos ver se nesse caso o feitiço não se vira contra o feiticeiro.

Em tempo: os apoiadores deste manifesto lançaram um blog cujo endereço é “manifestouenf.blogspot.com“.  E para mim está mais claro do que nunca de que defender o projeto institucional e pedagógico criado por Darcy Ribeiro é uma tarefa que não se resume aos que estão dentro dos muros da universidade. Afinal de contas, a UENF é um patrimônio público, especialmente dos habitantes da região norte fluminense.

Docentes da UENF criam blog para divulgar luta em defesa da universidade

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Os organizadores do “Manifesto em Defesa da UENF” acabam de lançar um blog para disseminar todas as informações relativas a essa ação política em prol da universidade. Para quem quiser ter mais informações sobre as razões desse movimento que está ganhando ampla adesão entre os docentes da universidade criada por Darcy Ribeiro e Leonel Brizola na cidade de Campos dos Goytacazes, o endereço do blog é o seguinte http://manifestouenf.blogspot.com.br/.

A partir do lançamento deste manifesto uma coisa é certa: as coisas vão estar muito interessantes na UENF em 2014!

Bandejão da UENF: por fora, amianto; por dentro, comida que é bom, nada!

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A obra do restaurante universitário (bandejão) da UENF é o mais flagrante símbolo de uma forma de dirigir que se encontra em processo falimentar.  Iniciada no final de 2008, a obra já consumiu alguns milhões, sem que se tenha a mínima noção de quando e como começará a funcionar.

Entretanto, afora a demora e o alto custo que marcam a vida dessa que promete entrar no livro de recordes do Guiness no quesito longevidade possui um problema ambiental que poderia ter sido evitado, especialmente quando se considera o custo estimado da mesma (algo em torno de 3 milhões de reais): o uso de placas de amianto no revestimento da fachada e no telhado (como indicado pela seta na imagem abaixo).

amianto

O amianto que está sendo banido na maioria dos países do mundo é uma opção barata, mas que não deveria ter sido incluída já que os efeitos sobre a saúde humana são cada vez mais conhecidos.

Mas como o que está ruim sempre pode piorar, o orçamento da UENF enviado pelo (des) governo de Sérgio Cabral e aprovado pela ALERJ não possui a dotação necessária para a finalização da obra, incluindo-se ai o mobiliário necessário para o pleno funcionamento. Dai é que se nada mudar, o que continuaremos tendo é uma obra inacabada e não continuará servindo a um propósito fundamental que é o de garantir comida barata e de qualidade aos membros da comunidade universitária.

Enquanto isso, a direção da UENF continua se refugiando nos rankings do MEC e da CAPES para negar o óbvio que é a sua falência política e administrativa. E o problema só tenderá a aumentar ao longo de 2014.

Salários corroídos e prédios com goteiras: esse é o retorno que o (des) governo Cabral dá ao sucesso da UENF

A imagem abaixo não é de uma das muitas ruas que se encontram alagadas na cidade de Campos dos Goytacazes neste momento em função do alto volume de chuvas que estão se abatendo na região. A imagem, a despeito dos barquinhos que imitam o Rio Paraíba do Sul, é de uma das salas existentes no Centro de Ciências Tecnológicas (CCT) da UENF que ficou alagada por causa de vazamentos existentes no telhado do prédio. Como essa não é a única sala que está com este problema no momento, é de se esperar que vários equipamentos valiosos estejam sendo protegidos contra goteiras no dia de hoje.

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E isso tudo na melhor universidade do Rio de Janeiro pelo índice Geral de Cursos (IGC) do MEC e naquela onde a pós-graduação acaba de ser bem avaliada pela CAPES,  sediando inclusive um programa que atingiu nível de qualidade internacional.

Esse sucateamento, além dos piores salários do Brasil, é o reconhecimento que o (des) governo de Sérgio Cabral dá ao esforço que é realizado todos os dias pela comunidade universitária da UENF. E o pior é que o orçamento do ano que vem promete ser ainda menor. Assim, desculpem-me o trocadilho, mas esse (des) governo não dá mesmo Pé(zão) em 2014!

UENF: sucesso na pós-graduação, salários corroídos

A divulgação dos resultados da avaliação trienal que a CAPES promoveu dos cursos de pós-graduação existentes no Brasil mereceu uma ligeira nota de celebração por parte da reitoria da UENF (Aqui!). Mas como já era de se esperar primeiro puxou a sardinha para a sua brasa, para depois lembrar dos que realmente constroem a pós-graduação no seu duro cotidiano de crescente sucateamento por parte do (des) governo de Sérgio Cabral.

Agora o que a reitoria da UENF “esqueceu” de explicar em sua nota é porque está tentando desmanchar o modelo acadêmico que continua dando tanto exemplo de vitalidade, mesmo numa condição em que os docentes da instituição recebem os piores salários do Brasil. Como já foi informado aqui neste blog, a reitoria da UENF está tentando, junto com o (des) governo estadual, desmanchar o modelo acadêmico quebrando o regime de Dedicação Exclusiva e, de quebra, criando a estapafúrdia figura do professor titular 20 horas.

Chega a ser patético ver uma nota que celebra o sucesso de um esforço mal remunerado sem que haja qualquer cobrança junto ao (des) governo de Sérgio Cabral para que pague salários melhores para professores e servidores, e sem mexer no regime de Dedicação Exclusiva que é pedra basilar sobre a qual se apoiam os programas de graduação e pós-graduação para os quais a reitoria tanto gosta de mostrar orgulho.

Mas que ninguém se engane. Os professores da UENF estão com sua paciência chegando ao limite frente a tanto descaso e desrespeito por parte do (des) governo de Sérgio Cabral que paga com descaso todo o sucesso que a UENF mostra avaliação após avaliação. Assim não será surpresa se 2014 começar com mais uma greve na instituição. E a culpa será de Cabral e seus aliados dentro da reitoria da UENF.

A reitoria da UENF celebra aquilo que quer desmanchar

Os atuais ocupantes da reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) parecem viver num eterno “Alice no País das Maravilhas”. É que só isso explica a celebração que estão promovendo da manutenção da UENF no Índice Geral de Cursos (IGC) do MEC como sendo a melhor universidade do Rio de Janeiro e a décima-segunda do Brasil.

Para quem não entendeu eu explico. É que em julho de 2013, a reitoria da UENF fez aprovar de forma açodada a minuta de um projeto de lei que visa desmantelar o regime de Dedicação Exclusiva que atualmente todos os professores cumprem desde a criação da instituição em 1993. De quebra, os “iluminados” gestores da UENF criaram uma estapafúrdia categoria de professores titulares horistas que inexiste no Brasil, mesmo nas instituições particulares.

O problema é que um dos fatores incluídos no cálculo do IGC é justamente o regime de trabalho no qual a UENF obtém atualmente o grau máximo, coisa que mudaria imediatamente se a UENF passasse a precarizar o seu quadro docente. Os únicos que parecem não ter entendido esse impacto negativo foram os ocupantes da reitoria.

Assim, mais do que nunca, urge pressionar o (des) governo de Sérgio Cabral para que não encaminhe essa proposta descabida para a aprovação da ALERJ.

UENF: com quantos milhões se faz um bandejão?

bandejão

A imagem acima representa o que eu considero um dos maiores ícones do mau uso de dinheiro público . A obra do restaurante universitário (bandejão) foi iniciada no final de 2008 (!) e chega ao final de 2013 sem que tenhamos a mínima ideia de quando a comunidade universitária da UENF vai poder começar a usar a sua estrutura para o fim idealizado: alimentação!

Mas os mais otimistas diriam que agora estamos próximos da linha de chegada e que só faltam detalhes mínimos, pois até a fachada ficou pronta. Ai eu digo que essa talvez seja exatamente a impressão de quem mandou ornamentar uma entrada que acima de tudo é feia.

E por que eu digo isso? Basta olhar no orçamento que foi enviado pelo (des) governo de Sérgio Cabral para a ALERJ, onde estão ausentes os recursos que poderão permitir a conclusão da obra e, pior, o fornecimento dos subsídios necessários para que o mesmo funcione nos moldes de outros bandejões existentes em universidades públicas distribuídas pelos quatro cantos do Brasil.

Como a reitoria da UENF tem em mente um modelo privado de funcionamento, o que podemos acabar tendo é uma unidade onde os maiores necessitados não vão ter como se alimentar todos os dias, visto que os preços deverão seguir a lógica do lucro.

Assim, caso não se queira que estas minhas previsões se confirmem, os usuários, principalmente os estudantes, terão que se movimentar. Do contrário, todo o gasto feito na obra terá sido em vão. Aliás, como perguntar não deveria ofender, qual é o custo atual dessa obra?