“Haverá mais mutações (do coronavírus) no Brasil”

Primeiro Manaus, agora todo o Brasil: por trás do aumento maciço de pessoas mortas e infectadas por corona no Brasil estão provavelmente outras variantes do Sars-CoV-2

nzz 1Um coveiro cava sepulturas para vítimas de COVID-19 em Manaus. Bruno Kelly / Reuters

Por Alexander Busch, em Salvador, para o Neue Zürcher Zeitung

Primeiro, foi a metrópole amazônica de Manaus que registrou um aumento maciço de pessoas infectadas e mortas em janeiro. Exatamente como há um ano. Mas agora todo o Brasil se tornou uma área de desastre da COVID-19. Com mais de 12 milhões de infectados, o Brasil é o país com o maior número de portadores de COVID-19 no mundo, depois dos EUA. Com 354 infectados por milhão de habitantes, menos pessoas estão infectadas atualmente no Brasil do que na Itália. Mas o sistema de saúde do país amazônico está chegando ao limite. As unidades de terapia intensiva estão sobrecarregadas em quase todo o Brasil. Mais de 3.200 pessoas morrem atualmente de Covid-19 todos os dias. A estimativa do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Estado do Rio de Janeiro, não pode ser descartada entre 4 mil e 5 mil mortes por dia.

“A capacidade de mutação e a velocidade do coronavírus são extremamente altas”, disse em entrevista Marilda Mendonça Siqueira, chefe do laboratório de vírus respiratórios e sarampo da Fiocruz. Em uma sociedade como a brasileira, que desenvolveu poucos anticorpos fora dos hot spots como Manaus e quase não é vacinada, o vírus se espalha mais rápido e inevitavelmente desenvolve novas mutações. “Isso significa que o clima no Brasil para o desenvolvimento de novas variantes do Sars CoV-2 continua favorável”, diz ela.

Novas variantes com defesa imunológica mais fraca?

A nova variante Sars-CoV-2 chamada P.1, que só foi descoberta em novembro, agora dominaria em muitos estados brasileiros. Mas também uma nova variante P.2 agora pode ser comprovada com cada vez mais frequência. Uma nova variante foi descoberta na semana passada, até agora denominada provisoriamente de N9 no instituto. É uma mutação da mutação E484K, que também ocorre na variante do vírus britânico (B.1.1.7) e no P.1, que foi descoberto pela primeira vez em Manaus. Esta mutação E484K provavelmente enfraquece o sistema imunológico humano porque torna os anticorpos menos responsivos.

nzz2Técnico de laboratório se prepara para fabricar a vacina AstraZeneca no Brasil.  Wagner Meier / Getty

O instituto de pesquisas com sede no Rio tem grande reputação internacional e uma longa tradição no combate a vírus e no desenvolvimento de vacinas nos trópicos: foi fundado em 1900 para combater a epidemia de peste. Em sua história, o instituto desenvolveu vacinas próprias contra febre amarela e varíola. A Fiocruz agora também está produzindo uma vacina para brasileiros em colaboração com a Oxford /AstraZeneca. Junto com o Instituto Butantan de São Paulo, que também produz suas próprias vacinas em conjunto com a chinesa Sinopharm, o Brasil é um dos pouco menos de uma dezena de países do mundo que podem produzir eles próprios vacinas contra o coronavírus.

O Brasil já podia vacinar muito mais há muito tempo. Mas no ano passado o presidente Jair Bolsonaro boicotou tanto a compra de soros quanto as ofertas de empresas farmacêuticas internacionais para trabalhar com os dois laboratórios. Só depois que o número de casos explodiu novamente é que o governo Bolsonaro cedeu no final de janeiro e não mais obstruiu ativamente a produção de vacinas no Brasil.

O farmacologista e bioquímico Siqueira hesita em explicar o aumento explosivo do número de infecções no Brasil com as novas mutações. “Ainda não temos séries de números homogêneas e confiáveis ​​para que possamos estabelecer uma relação causal entre P.1 ou P.2 e o curso da infecção.”

Um grupo de pesquisa brasileiro-britânico (Cadde) afirmou recentemente que o P.1 de Manaus é transmitido mais facilmente por um fator de 1,4 a 2,2 do que as variantes convencionais do vírus. Por isso, apesar da suspeita de imunidade de rebanho ali, após o alto número de infecções há um ano, houve novamente um aumento maciço de infecções em Manaus. De acordo com um estudo de anticorpos, dois terços das pessoas na metrópole isolada de Manaus foram infectadas em abril e maio do ano passado e, portanto, devem estar imunes.

Siqueira, por outro lado, explica o alto número de infecções e mortes em Manaus dizendo que o governo cortou as capacidades adicionais de tratamento e análise lá em um estágio inicial. Além disso, grande parte da população negligenciou quase completamente o distanciamento social mêses atrás. Essa combinação é fatídica e se aplica a todo o Brasil.

nzz3Apesar da pandemia, as pessoas estão se divertindo na praia do Rio de Janeiro.  Pilar Olivares / Reuters

Siqueira também não quer confirmar a suposição de que as novas variantes do vírus estão infectando mais jovens. É difícil comparar a primeira fase da infecção com a atual: “Há um ano tivemos um bloqueio extremamente difícil por mais de três meses”, explica Siqueira. Agora as pessoas voltariam a viajar, as escolas estavam parcialmente abertas. “Aqui no Rio de Janeiro os bares ficam lotados até as seis da tarde.” Portanto, todas as informações sobre maiores taxas de infecção e transferibilidade com imunidade anterior são bastante especulativas, diz Siqueira. “As condições são completamente diferentes hoje.” Mesmo que se possa presumir uma taxa de infecção mais alta, isso é difícil de provar. “Simplesmente não temos uma série homogênea e confiável de números sobre o curso das várias mutações do vírus.”

Na verdade, comparativamente poucas amostras de pessoas infectadas são sequenciadas no Brasil. Isso deixa uma imagem incompleta de quantas novas variantes do vírus estão se espalhando. As amostras foram enviadas para sequenciamento em apenas 0,03% dos casos da COVID-19, de acordo com a Gisaid, uma plataforma com dados sobre genomas de coronavírus. Em outros países, como o Reino Unido, essa taxa chega a 5%. A variante P.1 circulando na Amazônia também foi detectada pela primeira vez no Japão.

No entanto, Siqueira rejeita as críticas à insuficiência de pesquisas no Brasil – mesmo que ela mesma aponte para a falta de séries de dados. No Brasil, por exemplo, a variante do vírus P.2 foi descoberta pela primeira vez e agora o N9. Além disso, poucos países são tão transparentes em suas pesquisas quanto o Instituto Fiocruz estadual, que atualiza constantemente seus dados e os torna públicos.

Vacina chinesa eficaz contra o vírus de Manaus

Por exemplo, a Fiocruz publicou dados de pesquisa no site no final da semana passada indicando que a vacina AstraZeneca/Oxford protege contra a variante brasileira P.1 do novo coronavírus, semelhante à cepa britânica (B.1.1.7). Em outro estudo, a Fiocruz já havia verificado que a vacina Coronavac da China, amplamente utilizada no Brasil, é eficaz contra a variante P.1.

A eficácia das vacinas para as variantes brasileiras também dá esperança: embora o presidente Jair Bolsonaro tenha negado a pandemia como uma “gripe inofensiva” por meses e boicotado o trabalho das autoridades de saúde, o Brasil agora foi capaz de aumentar as vacinações com uma rapidez surpreendente. As campanhas de vacinação só começaram em meados de janeiro. Apesar disso, já foram distribuídas cerca de 16 milhões de doses de vacinas. Isso corresponde a cerca de 7% da população adulta. Siqueira destaca que as vacinações que já foram concluídas para os brasileiros mais velhos (acima de 70 anos) podem ter levado a um aumento comparativamente maior nos infectados mais jovens.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo Neue Zürcher Zeitung [Aqui!].

Carta aberta de banqueiros e economistas cobra ação urgente para conter o avanço da pandemia da COVID-19 no Brasil

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Um documento assinado por vários expoentes do pensamento econômico neoliberal e do empresariado brasileiro deverá aumentar o grau de nervosismo nos meios palacianos em Brasília, já que o receituário oferecido para conter a crise sanitária e funerária que o assola o Brasil neste momento em função da situação de completo descontrole em que se encontra a pandemia da COVID-19.

Entre os nomes mais conhecidos dos signatários desta carta estão os ex-ministros da Fazenda Marcílio Marques Moreira, Pedro Malan, Mailson da Nóbrega e Rubem Ricupero, além de ex-presidentes do Banco Central, como Afonso Celso Pastore, Arminio Fraga, Gustavo Loyola, Ilan Goldfajn e Pérsio Arida.  

A principal consequência desse documento será provavelmente o aumento da pressão sobre o governo Bolsonaro e, principalmente, para o presidente Jair Bolsonaro a quem são destinados vários adjetivos nada lisonjeiros, principalmente nos parágrafos finais da “carta aberta”.

O teor desta “carta aberta”, que segue em sua íntegra, pode ser também ser lido em formato pdf  [Aqui! ], o que permitirá o conhecimento dos nomes de todos os seus signatários.

O País Exige Respeito; a Vida Necessita da Ciência e do Bom Governo

Carta Aberta à Sociedade Referente a Medidas de Combate à Pandemia

O Brasil é hoje o epicentro mundial da COVID-19, com a maior média móvel de novos casos. Enquanto caminhamos para atingir a marca tétrica de 3 mil mortes por dia e um total de mortes acumuladas de 300 mil ainda esse mês, o quadro fica ainda mais alarmante com o esgotamento dos recursos de saúde na grande maioria de estados, com insuficiente número de leitos de UTI, respiradores e profissionais de saúde. Essa situação tem levado a mortes de pacientes na espera pelo atendimento, contribuindo para uma maior letalidade da doença.

A situação econômica e social é desoladora. O PIB encolheu 4,1% em 2020 e provavelmente observaremos uma contração no nível de atividade no primeiro trimestre deste ano.

A taxa de desemprego, por volta de 14%, é a mais elevada da série histórica, e subestima o aumento do desemprego, pois a pandemia fez com que muitos trabalhadores deixassem de procurar emprego, levando a uma queda da força de trabalho entre fevereiro e dezembro de 5,5 milhões de pessoas. A contração da economia afetou desproporcionalmente trabalhadores mais pobres e vulneráveis, com uma queda de 10,5% no número de trabalhadores informais empregados, aproximadamente duas vezes a queda proporcional no número de trabalhadores formais empregados. Esta recessão, assim como suas consequências sociais nefastas, foi causada pela pandemia e não será superada enquanto a pandemia não for controlada por uma atuação competente do governo federal. Este subutiliza ou utiliza mal os recursos de que dispõe, inclusive por ignorar ou negligenciar a evidência científica no desenho das ações para lidar com a pandemia.

Sabemos que a saída definitiva da crise requer a vacinação em massa da população. Infelizmente, estamos atrasados. Em torno de 5% da população recebeu ao menos uma dose de vacina, o que nos coloca na 45a posição no ranking mundial de doses aplicadas por habitante. O ritmo de vacinação no país é insuficiente para vacinar os grupos prioritários do Plano Nacional de Imunização (PNI) no 1o semestre de 2021, o que amplia o horizonte de vacinação para toda a população para meados de 2022. As consequências são inomináveis.

No momento, o Brasil passa por escassez de doses de vacina, com recorrentes atrasos no calendário de entregas e revisões para baixo na previsão de disponibilidade de doses a cada mês. Na semana iniciada em 8 de março foram aplicadas, em média, apenas 177 mil doses por dia. No ritmo atual, levaríamos mais de 3 anos para vacinar toda a população. O surgimento de novas cepas no país (em especial a P.1) comprovadamente mais transmissíveis e potencialmente mais agressivas, torna a vacinação ainda mais urgente. A disseminação em larga escala do vírus, além de magnificar o número de doentes e mortos, aumenta a probabilidade de surgirem novas variantes com potencial de diminuir a eficácia das vacinas atuais. Vacinas são relativamente baratas face ao custo que a pandemia impõe à sociedade. Os recursos federais para compra de vacinas somam R$ 22 bilhões, uma pequena fração dos R$ 327 bilhões desembolsados nos programas de auxílio emergencial e manutenção do emprego no ano de 2020. Vacinas têm um benefício privado e social elevado, e um custo total comparativamente baixo.

Poderíamos estar em melhor situação, o Brasil tem infraestrutura para isso. Em 1992, conseguimos vacinar 48 milhões de crianças contra o sarampo em apenas um mês.10 Na campanha contra a COVID-19, se estivéssemos vacinando tão rápido quanto a Turquia, teríamos alcançado uma proporção da população duas vezes maior, e se tanto quanto o Chile, dez vezes maior. A falta de vacinas é o principal gargalo. Impressiona a negligência com as aquisições, dado que, desde o início da pandemia, foram desembolsados R$ 528,3 bilhões em medidas de combate à pandemia, incluindo os custos adicionais de saúde e gastos para mitigação da deteriorada situação econômica. A redução do nível da atividade nos custou uma perda de arrecadação tributária apenas no âmbito federal de 6,9%, aproximadamente R$ 58 bilhões, e o atraso na vacinação irá custar em termos de produto ou renda não gerada nada menos do que estimados R$ 131,4 bilhões em 2021, supondo uma recuperação retardatária em 2 trimestres. Nesta perspectiva, a relação benefício custo da vacina é da ordem de seis vezes para cada real gasto na sua aquisição e aplicação. A insuficiente oferta de vacinas no país não se deve ao seu elevado custo, nem à falta de recursos orçamentários, mas à falta de prioridade atribuída à vacinação.

O quadro atual ainda poderá deteriorar-se muito se não houver esforços efetivos de coordenação nacional no apoio a governadores e prefeitos para limitação de mobilidade. Enquanto se busca encurtar os tempos e aumentar o número de doses de vacina disponíveis, é urgente o reforço de medidas de distanciamento social. Da mesma forma é essencial a introdução de incentivos e políticas públicas para uso de máscaras mais eficientes, em linha com os esforços observados na União Europeia e nos Estados Unidos.

A controvérsia em torno dos impactos econômicos do distanciamento social reflete o falso dilema entre salvar vidas e garantir o sustento da população vulnerável. Na realidade, dados preliminares de óbitos e desempenho econômico sugerem que os países com pior desempenho econômico tiveram mais óbitos de COVID-19. A experiência mostrou que mesmo países que optaram inicialmente por evitar o lockdown terminaram por adotá-lo, em formas variadas, diante do agravamento da pandemia – é o caso do Reino Unido, por exemplo. Estudos mostraram que diante da aceleração de novos casos, a população responde ficando mais avessa ao risco sanitário, aumentando o isolamento voluntário e levando à queda no consumo das famílias, mesmo antes ou sem que medidas restritivas formais sejam adotadas. A recuperação econômica, por sua vez, é lenta e depende da retomada de confiança e maior previsibilidade da situação de saúde no país. Logo, não é razoável esperar a recuperação da atividade econômica em uma epidemia descontrolada.

O efeito devastador da pandemia sobre a economia tornou evidente a precariedade do nosso sistema de proteção social. Em particular, os trabalhadores informais, que constituem mais de 40% da força de trabalho, não têm proteção contra o desemprego. No ano passado, o auxílio emergencial foi fundamental para assistir esses trabalhadores mais vulneráveis que perderam seus empregos, e levou a uma redução da pobreza, evidenciando a necessidade de melhoria do nosso sistema de proteção social. Enquanto a pandemia perdurar, medidas que apoiem os mais vulneráveis, como o auxílio emergencial, se fazem necessárias. Em paralelo, não devemos adiar mais o encaminhamento de uma reforma no sistema de proteção social, visando aprimorar a atual rede de assistência social e prover seguro aos informais. Uma proposta nesses moldes é o programa de Responsabilidade Social, patrocinado pelo Centro de Debate de Políticas Públicas, encaminhado para o Congresso no final do ano passado.

Outras medidas de apoio às pequenas e médias empresas também se fazem necessárias. A experiência internacional com programas de aval público para financiamento privado voltado para pequenos empreendedores durante um choque negativo foi bem-sucedida na manutenção de emprego, gerando um benefício líquido positivo à sociedade. O aumento em 34,7% do endividamento dos pequenos negócios durante a pandemia amplifica essa necessidade. A retomada de linhas avalizadas pelo Fundo Garantidor para Investimentos e Fundo de Garantia de Operações é uma medida importante de transição entre a segunda onda e o pós-crise.

Estamos no limiar de uma fase explosiva da pandemia e é fundamental que a partir de agora as políticas públicas sejam alicerçadas em dados, informações confiáveis e evidência científica. Não há mais tempo para perder em debates estéreis e notícias falsas. Precisamos nos guiar pelas experiências bem-sucedidas, por ações de baixo custo e alto impacto, por iniciativas que possam reverter de fato a situação sem precedentes que o país vive.

Medidas indispensáveis de combate à pandemia: a vacinação em massa é condição sine quanon para a recuperação econômica e redução dos óbitos.

  1. Acelerar o ritmo da vacinação. O maior gargalo para aumentar o ritmo da vacinação é a escassez de vacinas disponíveis. Deve-se, portanto, aumentar a oferta de vacinas de forma urgente. A estratégia de depender da capacidade de produção local limitou a disponibilidade de doses ante a alternativa de pré-contratar doses prontas, como fez o Chile e outros países. Perdeu-se um tempo precioso e a assinatura de novos contratos agora não garante oferta de vacinas em prazo curto. É imperativo negociar com todos os laboratórios que dispõem de vacinas já aprovadas por agências de vigilância internacionais relevantes e buscar antecipação de entrega do maior número possível de doses. Tendo em vista a escassez de oferta no mercado internacional, é fundamental usara política externa – desidratada de ideologia ou alinhamentos automáticos – para apoiar a obtenção de vacinas, seja nos grandes países produtores seja nos países que têm ou terão excedentes em breve.

A vacinação é uma corrida contra o surgimento de novas variantes que podem escapar da imunidade de infecções passadas e de vacinas antigas. As novas variantes surgidas no Brasil tornam o controle da pandemia mais desafiador, dada a maior transmissibilidade. Com o descontrole da pandemia é questão de tempo até emergirem novas variantes.  O Brasil precisa ampliar suas capacidades de sequenciamento genômico em tempo real, de compartilhar dados com a comunidade internacional e de testar a eficácia das vacinas contra outras variantes com máxima agilidade. Falhas e atrasos nesse processo podem colocar em risco toda a população brasileira, e também de outros países

  1. Incentivar o uso de máscaras tanto com distribuição gratuita quanto com orientação educativa. Economistas estimaram que se os Estados Unidos tivessem adotado regras de uso de máscaras no início da pandemia poderiam ter reduzido de forma expressiva o número de óbitos. Mesmo se um usuário de máscara for infectado pelo vírus, a máscara pode reduzir a gravidade dos sintomas, pois reduz a carga viral inicial que o usuário é exposto. 22 Países da União Europeia e os Estados Unidos passaram a recomendar o uso de máscaras mais eficientes – máscaras cirúrgicas e padrão PFF2/N95 – como resposta às novas variantes. O Brasil poderia pode reduzir a gravidade dos sintomas, pois reduz a carga viral inicial que o usuário é fazer o mesmo, distribuindo máscaras melhores à população de baixa renda, explicando a importância do seu uso na prevenção da transmissão da Covid.

Máscaras com filtragem adequada têm preços a partir de R$ 3 a unidade. A distribuição gratuita direcionada para pessoas sem condições de comprá-las, acompanhada de instrução correta de reuso, teria um baixo custo frente aos benefícios de contenção da COVID-1923. Considerando o público do auxílio emergencial, de 68 milhões de pessoas, por exemplo, e cinco reusos da máscara, tal como recomenda o Center for Disease Control do EUA, chegaríamos a um custo mensal de R$ 1 bilhão. Isto é, 2% do gasto estimado mensal com o auxílio emergencial. Embora leis de uso de máscara ajudem, informar corretamente a população e as lideranças darem o exemplo também é importante, e tem impacto na trajetória da epidemia. Inversamente, estudos mostram que mensagens contrárias às medidas de prevenção afetam a sua adoção pela população, levando ao aumento do contágio.

  1. Implementar medidas de distanciamento social no âmbito local com coordenação nacional. O termo “distanciamento social” abriga uma série de medidas distintas, que incluem a proibição de aglomeração em locais públicos, o estímulo ao trabalho a distância, o fechamento de estabelecimentos comerciais, esportivos, entre outros, e – no limite – escolas e creches. Cada uma dessas medidas tem impactos sociais e setoriais distintos. A melhor combinação é aquela que maximize os benefícios em termos de redução da transmissão do vírus e minimize seus efeitos econômicos, e depende das características da geografia e da economia de cada região ou cidade. Isso sugere que as decisões quanto a essas medidas devem ser de responsabilidade das autoridades locais.

Com o agravamento da pandemia e esgotamento dos recursos de saúde, muitos estados não tiveram alternativa senão adotar medidas mais drásticas, como fechamento de todas as atividades não-essenciais e o toque de recolher à noite. Os gestores estaduais e municipais têm enfrentado campanhas contrárias por parte do governo federal e dos seus apoiadores. Para maximizar a efetividade das medidas tomadas, é indispensável que elas sejam apoiadas, em especial pelos órgãos federais. Em particular, é imprescindível uma coordenação em âmbito nacional que permita a adoção de medidas de caráter nacional, regional ou estadual, caso se avalie que é necessário cercear a mobilidade entre as cidades e/ou estados ou mesmo a entrada de estrangeiros no país. A necessidade de adotar um lockdown nacional ou regional deveria ser avaliado. É urgente que os diferentes níveis de governo estejam preparados para implementar um lockdown emergencial, definindo critérios para a sua adoção em termos de escopo, abrangência das atividades cobertas, cronograma de implementação e duração. Ademais, é necessário levar em consideração que o acréscimo de adesão ao distanciamento social entre os mais vulneráveis depende crucialmente do auxílio emergencial. Há sólida evidência de que programas de amparo socioeconômico durante a pandemia aumentaram o respeito às regras de isolamento social dos beneficiários. É, portanto, não só mais justo como mais eficiente focalizar a assistência nas populações de baixa renda, que são mais expostas nas suas atividades de trabalho e mais vulneráveis financeiramente. Dentre a combinação de medidas possíveis, a questão do funcionamento das escolas merece atenção especial. Há estudos mostrando que não há correlação entre aumento de casos de infecção e reabertura de escolas no mundo26. Há também informações sobre o nível relativamente reduzido de contágio nas escolas de São Paulo após sua abertura.

As funções da escola, principalmente nos anos do ensino fundamental, vão além da transmissão do conhecimento, incluindo cuidados e acesso à alimentação de crianças, liberando os pais – principalmente as mães – para o trabalho. O fechamento de escolas no Brasil atingiu de forma mais dura as crianças mais pobres e suas mães. A evidência mostra que alunos de baixa renda, com menor acesso às ferramentas digitais, enfrentam maiores dificuldade de completar as atividades educativas, ampliando a desigualdade da formação de capital humano entre os estudantes. Portanto, as escolas devem ser as últimas a fechar e as primeiras a reabrir em um esquema de distanciamento social. Há aqui um papel fundamental para o Ministério da Educação em cooperação com o Ministério da Saúde na definição e comunicação de procedimentos que contribuam para a minimização dos riscos de contágio nas escolas, além do uso de ferramentas comportamentais para retenção da evasão escolar, como o uso de mensagens de celular como estímulo para motivar os estudantes, conforme adotado em São Paulo e Goiás.

  1. Criar mecanismo de coordenação do combate à pandemia em âmbito nacional –preferencialmente pelo Ministério da Saúde e, na sua ausência, por consórcio de governadores – orientada por uma comissão de cientistas e especialistas, se tornou urgente. Diretrizes nacionais são ainda mais necessárias com a escassez de vacinas e logo a necessidade de definição de grupos prioritários; com as tentativas e erros no distanciamento social; a limitada compreensão por muitos dos pilares da prevenção, particularmente da importância do uso de máscara, e outras medidas no âmbito do relacionamento social. Na ausência de coordenação federal, é essencial a concertação entre os entes subnacionais, consórcio para a compra de vacinas e para a adoção de medidas de supressão.

O papel de liderança: Apesar do negacionismo de alguns poucos, praticamente todos os líderes da comunidade internacional tomaram a frente no combate ao COVID-19 desde março de 2020, quando a OMS declarou o caráter pandêmico da crise sanitária. Informando, notando a gravidade de uma crise sem precedentes em 100 anos, guiando a ação dos indivíduos e influenciado o comportamento social. Líderes políticos, com acesso à mídia e às redes, recursos de Estado, e comandando atenção, fazem a diferença: para o bem e para o mal. O desdenho à ciência, o apelo a tratamentos sem evidência de eficácia, o estímulo à aglomeração, e o flerte com o movimento antivacina, caracterizou a liderança política maior no país. Essa postura reforça normas antissociais, dificulta a adesão da população a comportamentos responsáveis, amplia o número de infectados e de óbitos, aumenta custos que o país incorre.

O país pode se sair melhor se perseguimos uma agenda responsável. O país tem pressa; o país quer seriedade com a coisa pública; o país está cansado de ideias fora do lugar, palavras inconsequentes, ações erradas ou tardias. O Brasil exige respeito.

Brasil, a nação que se tornou uma ameaça global

Sem vacinas, sem liderança, sem fim à vista. Como o Brasil se tornou uma ameaça global

Por  Matt Rivers para a CNN

Rio de Janeiro, Brasil (CNN)A temperatura marcava 95 graus Fahrenheit na terça-feira, mas a umidade fez com que parecesse pior. Em meio ao calor sufocante do final do verão no Rio de Janeiro, Silvia Silva Santos acalmou sua mãe de 77 anos enquanto caminhavam em direção ao portão da clínica.

“Já viemos aqui duas vezes, mas ela não conseguiu vacinar-se”, disse Silva Santos. “Ela apenas fica na fila e então não há mais vacinas e temos que ir embora.”

No portão, Silva Santos perguntou à guarda se ela poderia vacinar a mãe. Consciente das câmeras da CNN assistindo, ele rapidamente a conduziu para dentro.

Cerca de cinco minutos depois, a dupla voltou com más notícias escritas em seus rostos. “Acho isso muito errado”, disse Silva Santos, claramente irritada e frustrada. “Agora teremos que descobrir novamente quando eles terão as vacinas e nunca se sabe quando.”

Essa frustração percorreu a multidão de idosos à medida que pessoa após pessoa foi negada a primeira dose de uma vacina, depois que o estado do Rio de Janeiro suspendeu sua campanha de vacinação porque havia acabado o estoque de vacina.

“Isso é um desastre, um desastre total”, disse uma mulher à CNN após ter sua vacina negada. “Quem é o culpado por tudo isso? Acho que nossos líderes, nossos políticos são uma merda.”

equipe

Equipe médica transporta um paciente em uma maca em um hospital de campanha enquanto os casos de coronavírus aumentam em 11 de março de 2021 em Santo André, Brasil.

A crescente tempestade perfeita

A crise da COVID-19 no Brasil nunca esteve tão ruim. Quase todos os estados brasileiros têm uma ocupação de UTI de 80% ou mais, de acordo com uma análise de dados estaduais feita pela CNN. Na sexta-feira (19/03), 16 dos 26 estados estavam em 90% ou mais de taxa de ocupação, o que significa que esses sistemas de saúde entraram em colapso ou estão em risco iminente de fazê-lo.

As médias de sete dias de novos casos e novas mortes são mais altas do que nunca.

Nos últimos 10 dias, cerca de um quarto de todas as mortes por coronavírus no mundo foram registradas no Brasil, de acordo com análises da CNN.

“São sinais claros de que estamos em uma fase de aceleração muito crítica da epidemia e sem precedentes”, disse Jesem Orellana, epidemiologista brasileiro.

Se as vacinas são a melhor saída para essa pandemia global, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer para superar isso.

Até sexta-feira, menos de 10 milhões de pessoas no país de cerca de 220 milhões haviam recebido pelo menos uma dose, de acordo com dados federais de saúde. Apenas 1,57% da população foi totalmente vacinada.

Isso é o resultado de um programa de implementação lentoque tem sido afetado por seguidos atrasos. Durante o anúncio de seu plano de distribuição no início de fevereiro, o governo prometeu que cerca de 46 milhões de doses de vacina estariam disponíveis em março. Ele foi repetidamente forçado a diminuir esse número, agora estimando apenas 26 milhões no final do mês.

A produção nacional do que os governos dizem que acabará por ser centenas de milhões de doses da vacina Oxford-AstraZeneca  acaba de decolar. As primeiras 500.000 doses foram entregues e comemoradas por altos funcionários do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro esta semana, apesar de estar com meses de atraso.

“[Não há] vacinas em uma quantidade que realmente causaria um impacto no momento”, disse Natalia Pasternak, uma microbiologista brasileira, que disse que não vai demorar até o segundo semestre do ano antes que vacinas suficientes estejam disponíveis para ter um impacto significativo na epidemia.

Em face da possibilidade que as vacinas continuarão escassas no futuro próximo, as únicas formas de controlar o crescimento exponencial da epidemia no Brasil são os métodos que o mundo ouviu ad nauseam – distanciamento social,  ausência de multidões, movimentos restritos e boa higiene.

Mas em muitos lugares do Brasil, isso simplesmente não está acontecendo. No movimentado Rio de Janeiro, é fácil encontrar multidões sem máscara andando pelas ruas, conversando de perto.

Embora as famosas praias da cidade estejam fechadas neste fim de semana, os restaurantes e bares ainda podem estar abertos até as 21h, muitos provavelmente lotados.

Muitos estados impuseram restrições muito mais duras, incluindo toques de recolher noturnos, mas os líderes locais estão lutando contra a liderança federal, ou a falta dela, determinados a manter as coisas abertas.

O presidente Jair Bolsonaro , um cético daCOVID-19 que zombou da eficácia das vacinas e não as tomou publicamente, anunciou na quinta-feira que entraria com uma ação judicial contra certos estados na Suprema Corte do país, reivindicando a única pessoa que pode decretar toque de recolher é ele – algo que ele prometeu nunca fazer.

Apesar de milhares de pessoas morrendo por causa do vírus a cada dia, ele afirma que a verdadeira ameaça vem dos danos econômicos que as restrições provocadas pelo vírus podem impor.

Milhões de seus apoiadores estão seguindo seu exemplo, desrespeitando abertamente os regulamentos locais de distanciamento social e o uso de máscaras.

Tudo isso por si só já seria preocupante, mas é exacerbado por uma realidade profundamente preocupante – a disseminação das variantes da COVID-19.

‘As pessoas não percebem o quão pior  a P.1 é’

A variante P.1 foi descoberta pela primeira vez no Japão. As autoridades de saúde detectaram a mutação viral em vários viajantes que retornavam do estado do Amazonas, uma região isolada no norte do Brasil repleta de floresta tropical.

A CNN noticiou da região no final de janeiro, onde uma segunda onda brutal de COVID-19 dizimava a cidade de Manaus.

Quase dois meses depois, mais e mais pesquisas apontam para a variante P.1 como um fator crucial não apenas no surto de Manaus, mas na crise nacional que o Brasil enfrenta hoje.

Um estudo da principal fundação de pesquisa médica do Brasil, a Fiocruz, do início de março descobriu que, dos oito estados brasileiros estudados, as variantes do COVID-19, incluindo P.1, eram prevalentes em pelo menos 50% dos novos casos.

A variante é amplamente aceita como sendo mais facilmente transmissível, até 2,2 vezes mais, de acordo com um estudo recente . Isso é mais transmissível do que a variante B.1.1.7 amplamente discutida identificada pela primeira vez no Reino Unido, que é até 1,7 vezes mais transmissível, de acordo com um estudo de dezembro.

Esse mesmo estudo também descobriu que as pessoas têm 25% a 65% mais probabilidade de escapar da imunidade protetora existente de infecções anteriores não P.1.

Finalmente, ainda existem preocupações de que as diferentes vacinas possam não ser tão eficazes contra a variante P.1. Embora um estudo recente do Reino Unido tenha descoberto que “as vacinas existentes podem proteger contra a variante do coronavírus brasileiro”, a CNN conversou com vários epidemiologistas que continuam preocupados.

“O mundo não despertou a terrível realidade potencial que a variante P1 pode representar”, disse o Dr. Eric Feigl-Ding, epidemiologista. “As pessoas não percebem o quanto a P1 é pior.”

O Brasil está se tornando um perigo global

Em meio à disseminação não mitigada do vírus no Brasil, existem duas ameaças adicionais distintas.

Um, a exportação mais fácil da variante P.1 existente para o exterior. Já está em pelo menos duas dezenas de países e contando e as viagens internacionais de e para o Brasil ainda estão abertas para a maioria dos países.

Dois, se a variante P.1 foi criada aqui, outras também podem.

“O fato de a pandemia estar fora de controle no Brasil causou a variante”, disse Pasternak, a microbiologista brasileira. “E vai causar mais variantes. Vai causar mais mutações porque é o que acontece quando você deixa o vírus se replicar livremente.”

De acordo com as leis da evolução viral, novas variantes são criadas para tentar permitir que o vírus se espalhe mais facilmente. Ao longo do caminho, interações mais perigosas podem ser criadas.

“Mais variantes significam que há uma probabilidade maior de que uma dessas variantes possa realmente escapar de todas as vacinas, por exemplo”, disse Pasternak. “É raro, mas pode acontecer.”

Isso, diz ela, torna o Brasil um perigo global, não apenas para os países vizinhos, mas para outros ao redor do mundo.

“Tudo isso junto deve aumentar o alarme em todos os países do mundo de que devemos ajudar o Brasil a conter P1, para que não soframos o mesmo destino do colapso do sistema hospitalar brasileiro”, disse o Dr. Feigl-Ding.

Com a falta de vacinas e um governo relutante em tomar as medidas necessárias para evitar que isso aconteça, não está claro como as coisas vão melhorar no Brasil tão cedo.

O jornalista Eduardo Duwe contribuiu para esta reportagem.

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Este texto foi escrito inicialmente em inglês e publicado pela rede CNN [Aqui! ].

Minta, minta, minta de novo

A fuga para a frente de Jair Bolsonaro

bolsonaro mascara

Por Peter Steiniger para o Neues Deutschland

Lula deu-lhe uma facada: no primeiro discurso depois de recuperar seus direitos políticos na semana passada, o ex-presidente do Brasil leu o ato de motim contra Jair Bolsonaro. Ele exortou as pessoas a não seguirem as “decisões tolas” de Bolsonaro na crise causada pelo coronavírus e a se vacinarem contra a COVID-19. Não importa de que país venha a vacina. Com esse ataque ao demagogo de direita, Lula afetou muitos brasileiros diante de uma política de saúde catastrófica e de um alto número de mortes causadas pela COVID-19. Bolsonaro sabe muito bem que não se compara ao excepcional político que Lula é, e teme a continuidade da grande popularidade do ex-presidente de esquerda do Partido dos Trabalhadores. Pode haver um grande duelo nas eleições de 2022.

O Brasil se tornou o foco mundial da pandemia da COVID-19. Tendo em vista os milhões  que vivem em condições miseráveis de trabalho e de vida no Brasil, grande parte da população está em maior risco desde o início do que no “Primeiro Mundo”. Isto sem falar nos indígenas. O preço que o Brasil está pagando pelo caos das vacinas que foi causado pela política ultraliberal é ainda mais amargo. Primeiro o país jogou dinheiro pela janela comprando a hidroxicloroquina que se mostrou inadequada para combater a COVID-19. Depois Bolsonaro rotulou a Coronavac como uma “vacina da China”. Depois da forte atuação de Lula, o clã Bolsonaro de repente ganha uma nota diferente: a vacinação é ótima e ajuda a economia.

O presidente Jair Bolsonaro agora declara que nunca foi contra a vacinação. E que ele nunca considerou a COVID-19 uma “gripezinha”. Mentir está em seu sangue.  Uma prova que o Lula funciona.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo “Neues Deutschland” [Aqui!].

Dualidade das máscaras desvela a natureza do governo Bolsonaro: no Brasil sem, em Israel com

Uma comitiva representando o governo do Brasil, composta por membros de ministérios e parlamentares saiu em direção a Israel com missão pouco clara. Entretanto, as imagens deixam claríssima a situação esdrúxula que o nosso país vive nesse momento.

brasil e israel

Como pode ser ver, enquanto no Brasil nenhum dos membros da comitiva portava uma máscara facial, ao chegar em Israel todos a portavam, obviamente sob demanda das autoridades israelenses que colocaram aquele país na condição de primeiro lugar em termos de vacinação contra a COVID-19 entre todas as nações do planeta.

Mas vexame mesmo passou o ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, Ernesto Araújo, que foi obrigado a colocar uma máscara ao se aproximar do chanceler israelense Gabi Ashkenazi, em Jerusalém, no momento das fotografias protocolares.

Por essas e outras é que o Brasil está nesse momento em completo descrédito internacional, e cada vez mais isolado em um momento crucial da nossa história. E, pior, os que não portam máscaras e incentivam outras a não usá-las em território brasileiro são os mesmos que mansamente fazem isso no exterior.

Finalmente, não é coincidência nenhuma que Israel já esteja próximo de debelar a pandemia da COVID-19, enquanto o Brasil acumula novos casos de infecção e empilha cadáveres em containers nas portas de seus hospitais colapsados.

Governo Bolsonaro comete “pedalada sanitária” e isola Brasil no mundo

pedalada

A derrubada da primeira presidente da história do Brasil se deu com base em sua culpabilização em função da realização de uma nebulosa “pedalada fiscal”.  Agora, nos vemos diante de uma pedalada do governo Brasil que é de natureza sanitária. É que ao procrastinar e até sabotar o processo de vacinação em massa, o presidente Jair Bolsonaro coloca em risco a saúde de toda a população brasileira. Mas onde está esta pedalada sanitária?  Ela está não apenas no crescimento exponencial de novas infecções pelo novo coronavírus e dos mortos pela COVID-19, mas também, e principalmente, no andamento pífio do processo de vacinação.

O gráfico abaixo mostra que o Brasil, provavelmente o único país que possui um sistema de saúde unificado nos padrões requeridos pela pandemia da COVID-19, ocupa hoje o mirrado 40o. lugar mundial em termos de vacinas aplicadas em doses por 100 habitantes, atrás de países como Marrocos e Romênia, perdendo de longe para o Chile que ocupa hoje o 7o. lugar em nível mundial.

vacina ranking

Sem a Coronavac, a situação da vacinação contra a COVID-19 estaria ainda pior

CoronaVac: os quatro países além do Brasil que planejam usar a vacina  contra Covid-19 | Vacina | G1

A posição brasileira seria ainda pior se não fosse pela utilização da vacina “Coronavac” produzida pela “Sinovac” que move o Brasil de uma posição ainda mais constrangedora (62o.), demonstrando o acerto da estratégia utilizada pelo governador de São Paulo, João Dória (PSDB), que apostou firme na parceria do Instituto Butantã com a empresa chinesa.

Mas como o que está ruim sempre pode piorar, o Ministério da Saúde, anunciou ontem que reduzirá a disponibilidade de vacinas para o mês de março de 37,4 milhões para 30 milhões em função da falta de autorização para uso da vacina Covaxin, fabricada pela empresa indiana Baharat Biontech. Note-se que nesse lote esperado de 30 milhões de doses, 77,7% será composto por doses da vacina Coronavac.

Diante desse quadro, configurada a pedalada sanitária realizada pelo governo federal, sob a batuta do presidente Jair Bolsonaro e do ministro da Saúde, o general de logística Eduardo Pazuello, fica a pergunta sobre quando haverá a devida responsabilização pelo que está sendo feito contra a saúde da maioria da população brasileira. Seria natural que todos aqueles que no dia do impeachment de Dilma Rousseff apareceram para declarar amor pelas suas famílias, voltassem suas atenções para seus entes queridos e saíssem da inércia letal em que se encontram. É que do jeito que a crise sanitária está evoluindo no Brasil, cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde), não haveria família que não tenha sido tocada pela catástrofe que se apresenta diante de nossos olhos.

Brasil vive seu pior momento na pandemia e vira líder mundial de mortes e novas infecções nas últimas 24 h

cemitérios

Neste momento,  o Brasil está arcando com as consequências das políticas negacionistas do governo Bolsonaro, que vão desde a procrastinação na compra de vacinas até as ações de pura sabotagem para medidas de proteção que envolvem o uso de máscaras faciais e o isolamento social.

Com mais 1.498 mortos e 67.477 novas contaminações nas últimas 24 horas, o Brasil se tornou o líder mundial nesses dois quesitos, superando até os EUA que lideravam esta corrida macabra desde o início de 2020.

Há ainda que se lembrar que apenas na última semana o Brasil somou 10 mil mortos pela COVID-19, chegando a um total de 264.446 oficiais. Nesse ritmo, e dada a completa lotação de UTIs em todo o território nacional, não será nenhuma surpresa se o Brasil chegar a 300 mil mortos pela COVID-19 antes do final de março.

Coronavírus: variante de Manaus é mais contagiosa, mais perigosa e menos sensível a anticorpos

manaus cemitérioEm janeiro, Manaus experimentou uma grande onda de coronavírus, com uma média de mais de 1.000 mortes por dia. Na foto, um cemitério com pessoas infectadas com Sars-CoV-2 que morreram em janeiro. Raphael Alves / EPA

Por Stephanie Lahrtz para o Neue Zürcher Zeitung

Tem sido confundido desde janeiro se uma nova variante Sars-CoV-2 chamada P.1 ou uma imunidade já em declínio é responsável pelo aumento maciço de pessoas infectadas por coronavírus e mortes na cidade brasileira de Manaus. Epidemiologistas e residentes também esperavam que Manaus não tivesse mais que sofrer uma segunda onda digna de nota. De acordo com um estudo de anticorpos, dois terços das pessoas foram infectadas em abril e maio e, portanto, deveriam estar imunes.

Uma equipe de pesquisa brasileiro-britânica agora tem certeza de que a variante do vírus P.1 tem um papel significativo na brutal segunda onda na metrópole amazônica. Isso pode transformar o caso de Manaus em um sinal do que novas variantes do vírus podem fazer, mesmo em uma população com alta imunidade.

Variante dominante em Manaus

Por um lado, de acordo com os pesquisadores, a sequência temporal fala por uma clara influência de P.1. Pelas análises genéticas, a variante foi criada em Manaus no início de novembro. A segunda onda atingiu a cidade a partir de meados de dezembro. Em apenas sete semanas, P.1 assumiu o controle de Manaus, por assim dizer: quase 90% de todas as pessoas infectadas lá agora o usam.

Por outro lado, devido às 17 alterações genéticas acumuladas, o vírus tornou-se mais contagioso em comparação com as variantes do Sars-CoV-2 que circulavam anteriormente em Manaus e no Brasil. Os cientistas escreveram que P.1 é mais fácil de transferir por um fator de 1,4 a 2,2. Isso o torna um pouco mais contagioso do que a variante britânica. Ainda não é possível dizer se as pessoas infectadas com P.1 têm uma carga viral mais alta ou são infecciosas por mais tempo – ou se ambas são verdadeiras.

Além disso, o risco de um resultado fatal de uma infecção P.1 pode ser aumentado. No entanto, ainda não está claro se o aumento que agora foi calculado é exclusivamente uma consequência das novas propriedades de P.1, enfatizam os pesquisadores. Como os hospitais de Manaus ficaram completamente sobrecarregados em janeiro, parte do aumento da mortalidade na segunda onda também pode ser devido a isso.

Os anticorpos se ligam mal a P.1

As mutações dão a P.1 outra propriedade preocupante. Esta variante corona pode levar a uma infecção renovada em 25 a 61 por cento das pessoas que se recuperaram em Manaus. Atualmente não há dados sobre se as reinfecções são mais brandas. No entanto, a alta proporção de infecções graves e mortes desde dezembro sugere que nem sempre é esse o caso.

Também é possível que a resposta imune desencadeada por uma vacinação contra P.1 seja mais fraca do que contra outras variantes do vírus. Vários experimentos de neutralização sugerem isso. Os soros de pessoas vacinadas são misturados na cultura de células com células que carregam Sars-CoV-2 em sua superfície. Você testa se os anticorpos contidos no soro se ligam aos vírus e assim os neutraliza. Se as pessoas do teste foram vacinadas com a vacina chinesa Coronavac , amplamente utilizada no Brasil, cinco meses após a vacinação quase não havia anticorpos eficazes contra o P.1. Os soros de pessoas vacinadas com vacinas Biontech / Pfizer mostraram uma neutralização reduzida em de duas vezes .

Variantes de Sars-CoV-2

As três variantes questionáveis ​​compartilham mutações diferentes, duas das quais estão particularmente em foco: o N501Y aparentemente aumenta a transferibilidade do vírus; E484K permite que ele evite alguns anticorpos.
Variantes de Sars-CoV-2 - As três variantes questionáveis ​​compartilham mutações diferentes, duas das quais estão especificamente em foco: o N501Y aparentemente aumenta a transferibilidade do vírus;  E484K permite que ele evite alguns anticorpos.

Comparações com a variante do vírus chamada B.1.351, que foi descoberta na África do Sul e atualmente domina lá, também sugerem que as vacinas disponíveis na Europa e nos EUA contra a variante do vírus brasileiro oferecem menos proteção. Porque algumas das mutações contidas em P.1 também ocorrem em B.1.351 e levam ao fato de que os anticorpos se ligam mais fracamente aos vírus.

Em experiências de neutralização, os soros de indivíduos vacinados que receberam as vacinas Biontech / Pfizer e Moderna foram seis a dez vezes menos eficazes contra B.1.351 do que contra variantes de vírus “antigas”. E em estudos clínicos, as vacinas da AstraZeneca, Johnson & Johnson e Novavax ofereceram menos proteção contra a variante sul-africana.

Como as outras novas variantes de vírus, P.1 não é apenas um problema local. P.1 também está se espalhando pelo globo. De acordo com a base de dados Gisaid, na qual especialistas de todo o mundo publicam dados do genoma do Sars-CoV-2, foram encontrados mais de 450 casos de P.1 em 19 países. Já na Suíça foram registrados 15 casos de P.1. Esta variante do vírus ainda não foi encontrada na Alemanha.

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Este texto foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo Neue Zürcher Zeitung [Aqui!].

Especialista afirma que virus ficará mais perigoso se o SARS-CoV-2 se fundir com outro coronavírus

virusMembros de uma equipe da Sinovac Biotech, uma empresa biofarmacêutica chinesa, realizam uma nova inoculação simulada de coronavírus em uma zona de biossegurança de alto nível de uma oficina de solução de estoque a ser colocada em produção de vacinas inativadas COVID-19 em Pequim, capital da China, 15 de julho 2020. A Administração Nacional de Produtos Médicos da China concedeu na sexta-feira a aprovação condicional de mercado para CoronaVac, uma vacina COVID-19 inativada desenvolvida pela Sinovac Biotech, disse a empresa no sábado. (Xinhua / Zhang Yuwei)

Por Leng Shumei e Liu Caiyu para o Global Times

 Uma cepa recombinante do novo coronavírus provavelmente foi detectada nos EUA, o que levou especialistas chineses a alertar na quinta-feira que um vírus mais perigoso poderia surgir se o SARS-CoV-2 se recombinar com outro coronavírus.

Bette Korber, cientista do Laboratório Nacional de Los Alamos, disse no início deste mês que descobriu evidências da nova cepa, que foi uma recombinação das variantes detectadas no Reino Unido e na Califórnia, e que pode ser responsável por uma recente onda de casos em Los Angeles, de acordo com um relatório publicado na revista New Scientist de Londres na terça-feira.

A recombinação pode ser vista como uma variação maior do que as mutações descobertas anteriormente. Mas, enquanto ainda estiver limitado nas cepas SARS-CoV-2, não afetará amplamente a antigenicidade do vírus, disse um especialista em vacinas de Pequim ao Global Times na quinta-feira, sob condição de anonimato. 

No entanto, o especialista alertou que a situação seria pior se ocorrer uma recombinação entre o SARS-CoV-2 e outro coronavírus – por exemplo, o vírus SARS. 

A recombinação pode levar ao surgimento de variantes novas e ainda mais perigosas, embora não esteja claro o quanto de ameaça esta primeira recombinação pode representar, disse o relatório da revista New Scientist. 

Se confirmada, a recombinação seria a primeira a ser detectada nesta pandemia, enquanto as mutações contínuas e rápidas do SARS-CoV-2 trouxeram preocupações suficientes para o mundo sobre a doença mortal, já que algumas vacinas foram relatadas como menos potentes contra certas variantes.

“É certamente impossível para os humanos evitar a mutação do vírus. Diante das mudanças, temos que desenvolver vacinas multivalentes ou vacinas sazonais e aceitar inoculações para obter imunidade, assim como o que fazemos contra a gripe”, Jiang Chunlai, professor da Escola de Ciências da Vida da Universidade de Jilin, disse ao Global Times na quinta-feira. 

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, parceiro brasileiro da produtora chinesa de vacinas Sinovac Biotech, disse à mídia nesta quarta-feira que receberam bons resultados sobre a eficácia da vacina Sinovac contra as variantes detectadas no Reino Unido e na África do Sul, enquanto a BioNTech / As vacinas Pfizer e Oxford / AstraZeneca relataram desempenho insatisfatório em algumas cepas.

As vacinas inativadas da China contêm mais epítopos antigênicos do que a vacina de mRNA da BioNTech / Pfizer e a vacina de vetor adenoviral recombinante Oxford / AstraZeneca, portanto, podem lidar com mais mutações, explicou o especialista acima mencionado.

Covas, do Instituto Butantan, não deu dados específicos sobre a eficácia, mas disse que o instituto também está testando a vacina contra a variante detectada no Brasil, e acredita que resultados positivos sairão em breve, informou a Reuters. 

No mesmo dia, um relatório divulgado na quarta-feira no The New England Journal of Medicine disse que os pesquisadores descobriram que a vacina BioNTech/Pfizer é menos potente contra a variante do coronavírus detectada na África do Sul e produz apenas um terço dos anticorpos que produziu para o vírus original.

No início deste mês, as autoridades de saúde sul-africanas anunciaram uma suspensão no lançamento da vacina contra o coronavírus Oxford/AstraZeneca no país depois que um estudo mostrou que ela oferecia proteção reduzida contra a variante COVID-19 que lá foi identificada pela primeira vez.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo “Global Times” [Aqui!].

Brasil ultrapassa 240 mil mortes por COVID-19, enquanto Jair Bolsonaro curte férias em Santa Catarina

covid cemitériosBrasil superou a marca das 240 mil mortes provocadas pela COVID-19.  Foto de AMANDA PEROBELLI

No último dia de 2020, o Brasil registrava 194.949 mil mortos por COVID-19, o que já representava uma marca macabra que deixou enlutadas milhares de famílias brasileiras. Mas graças a uma combinação de ações que misturaram procastinação e descompromisso com as evidências cientíicas, esse número chegou nesta terça-feira de Carnaval a 240.940 mil mortes e a mais de 55 mil novos casos de infecção pelo SARS-Cov-2 Dada as aglomerações em praias e festas clandestinas que estão ocorrendo em diferentes partes do Brasil,  o número de óbitos pela COVID-19 deverá ter uma nova aceleração nos próximos dias e semanas.

Enquanto a curva de mortes e novas infecções continuam crescendo, outras duas coisas aconteceram de forma quase simultânea no Brasil. A primeira foi a suspensão em cidades importantes, a começar pelo Rio de Janeiro, da campanha de vacinação contra a COVID-19 por falta de vacinas.  Essa interrupção que deverá se estender a milhares de cidades brasileiras já que inexiste prazo concreto para a chegada de novos estoques, e com isso haverá campo fértil para novas infecções, especialmente pelas variantes cujo contagia é mais rápido do que o exibido pela cepa original.

A segunda coisa que está acontecendo são as férias estrepitosas que o presidente Jair Bolsonaro e membros de sua família estão gozando no litoral de Santa Catarina. Em meio a ataques à imprensa, mergulhos, pescarias e passeios de jet ski, o presidente brasileiro tem encontrado tempo para causar seguidas aglomerações nas praias catarinenses.  

Bolsonaro se prepara para mergulho no litoral catarinense nesta terça-feira de Carnaval. Reprodução Twitter

Nem o crescente caos sanitário e o aumento do número de mortos pela COVID-19 estão servindo para que o presidente Jair Bolsonaro mostre um mínimo de compromisso com os deveres que o cargo que ocupa demandam, a começar pelas responsabilidades com a segurança dos brasileiros.

Mas, convenhamos, não é possível esperar muito de diferente de Jair Bolsonaro, pois ele já deu seguidas demonstrações que são seus projetos são outros. O que me causa espanto é que ninguém nos diferentes níveis de governo, incluindo os dirigentes dos partidos que dizem fazer oposição a Bolsonaro, parece estar disposto a colocar as responsabilidades sobre seus ombros.

A questão aqui é que o resto do mundo, incluindo os dirigentes das grandes corporações que comandam a economia mundial, está olhando para o que está acontecendo por aqui. Que ninguém se surpreenda se mais empresas estrangeiras decidirem sair do Brasil nos próximos meses. É que apesar dos capitalistas não terem muito compromisso com a vida, também é verdade que ninguém gosta de ficar associado a governos que fazem o que o governo Bolsonaro está fazendo com o povo brasileiro. Digamos que é uma questão de imagem a se preservar. A ver!