A greve dos garis e os argumentos de ocasião para justificar a repressão

leminski

O primeiro deles é a questão da oportunidade temporal da greve, já que a mesma ocorreu durante o Carnaval quando a cidade se torna mais suja por causa do lançamento quase ilimitado de restos da folia pelos seus participantes. Ai me desculpem os puristas, não há momento melhor do que esse para demonstrar a essencialidade de uma categoria que , convenhamos, é tratada de forma invisível pela imensa maioria das pessoas.

O segundo argumento tem a ver com a saúde pública que seria ameaçada pelo acúmulo de lixo. Ora, e a saúde dos trabalhadores que retiram esse lixo diariamente a troco de salários miseráveis não conta? Se não fosse o território fluminense palco de isenções bilionárias para grandes corporações econômicas, eu até me deixaria comover com tanta preocupação com a saúde coletiva. Enquanto esse cenário se mantiver, prefiro me preocupar com a saúde dos garis.

Um terceiro argumento é que essa greve está sendo manipulada pelos partidos aos quais estão ligados os deputados Marcelo Freixo e Anthony Garotinho. Isso daria então um caráter partidário ao movimento. Sem sequer levantar em conta que o sindicato dos garis da cidade do Rio de Janeiro é controlado pelo PTB, partido que está na base do governo Eduardo Paes, eu diria que se for verdade que o PR e o PSOL estão apoiando o movimento dos garis, estes partidos não fazem mais nada do que a sua obrigação.  Mas como existem outros partidos apoiando o movimento, a escolha seletiva do PR e do PSOL tem apenas o objetivo óbvio de desqualificar um movimento que possui amplo apoio na população carioca.

Para encerrar não há qualquer explicação financeira para o uso da Polícia Militar para “escoltar” garis que estão supostamente desejando trabalhar. Essa manobra representa um claro aprofundamento da criminalização da luta dos trabalhadores, e reflete uma visão autoritária de resolver pela força as justas demandas que emergem dos setores explorados da sociedade brasileira.  O problema é que esse uso contínuo da PM para ações que se assemelham à operações de contra-insurgência ainda poderá render frutos muito amargos para todos nós. Mas o que esperar de (des) governantes como Eduardo Paes e Sérgio Cabral se não o pior do pior? Mas o problema começa mesmo a ficar verdadeiramente grave quando pessoas que se pretendem de esquerda começam apoiar esse tipo de fórmula repressiva. Depois não venham chorar sobre o leite derramado. E não custa lembrar: em 24 dias teremos mais um aniversário do Golpe Militar de 1964.

latuff gari

Um comentário sobre “A greve dos garis e os argumentos de ocasião para justificar a repressão

  1. Precisa análise. Só tenho a acrescentar que o golpe de Estado de 1º de abril foi civil-militar; a alta burguesia nacional e estrangeira financiou as ações, inclusive corrompendo militares para assumirem o argumento que o davam (o golpe) contra a corrupção.
    Um abraço e parabéns.

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