Resposta de uma Educadora ao Jornalista Juca Kfouri

“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.” (Bertolt Brecht)

Por Vera Nepomuceno

Ontem, após mais uma manifestação dos profissionais da educação, o jornalista Juca Kfouri, apresentou uma nota onde procurou estabelecer nexos irreais acerca do nosso protesto. Gostaria na qualidade de educadora responder algumas questões, pois como bom jornalista que é, Kfouri esqueceu de levantar as verdadeiras questões que nos levaram a protestar na chegada da Seleção Brasileira de Futebol. Tentarei apresentar alguns elementos para reflexão.

Kifouri, não temos a pretensão de fazer respingar na seleção nossas querelas, queremos apenas mostrar ao mundo em que condições a educação pública no Brasil e em especial no Estado e na cidade do Rio de Janeiro passam.

Queremos mostrar que o nosso problema não é falta de dinheiro, pois não é segredo para ninguém os gastos bilionários com os estádios de futebol e o estado de inanição da nossa educação. Não temos a Seleção como objeto de nossas pautas, mas seria uma grande demonstração de solidariedade ao povo brasileiro, se os nossos jogadores defendessem conosco uma educação melhor, até porque muitos deles sabem o que é estudar em uma escola pública, pois passaram por nossas mãos.

Kfouri, não fazemos demagogia quando falamos que “um educador vale mais do que o Neymar”. Sabemos da qualidade de craque deste rapaz. Mas quem está comparando o incomparável é você quando diz que Neymar leva cem mil pessoas ao Estádio e que nunca viu nenhum professor, nem mesmo os da Suécia conseguirem tal proeza. E não veria mesmo. Primeiro porque o salário e as condições dos educadores suecos, nunca os colocaram na situação humilhante de ter que ir para as ruas em manifestações para ser ouvido, ou como você diz “aparecer”. Depois nossa profissão não é um jogo, nem tão pouco espetáculo. Educar é processo, exige tempo, condições, dedicação, recursos e toda uma vida. Você quase acerta quando afirma que nunca levamos cem mil a um estádio, mas inteligente como é, deveria lembrar que em função dos nossos baixos salários, que nos obrigam trabalhar em três, quatro ou mais escolas, e da superlotação das nossas turmas, certamente passam por nós algumas centenas de vidas! E não somente por 90 minutos.

E por último, lamentável de sua parte, com a história que tem, procurar nos chamar a razão sem tocar nos verdadeiros motivos que nos levaram a uma greve que iniciou desde o dia 12 de maio e que até hoje, não há grandes esforços para resolver o impasse por parte dos governantes. Nossa pauta é absurda? Estamos falando de situações fantasiosas? Pedimos o impossível. Não, só que queremos ser atendidos e abrir um processo de negociação com o governador Pesão e com o prefeito Paes.

Estamos gritando nas ruas o que o governo finge não existir, uma greve. E queremos avançar com salários, escolas e creches melhores. Pedimos 20% de aumento, o cumprimento da lei de 1/3 da carga horária de planejamento extraclasse, 30 horas para os funcionários, reconhecimento para nossas cozinheiras escolar, equiparação salarial para nossos professores de educação infantil, quantitativo de alunos por sala e berçários, exequível a uma boa educação.

Esperava que pelo menos no final da sua fala, você responsabilizaria o governador Pesão e o prefeito Paes, pelo vexame que nos obrigou a passar, todos nós, educadores e seleção! Mas infelizmente você preferiu puxar a orelha dos educadores. Espero que essa carta chegue em suas mãos, pois gostaria de ouvir o velho e bom Kfouri dando sua bronca a quem, nesse caso, merece ouvir: nossos governantes!

Vera Nepomuceno (professora de História da rede municipal de Duque de Caxias e da rede Estadual do Rio de Janeiro, pós graduada em políticas públicas na UFRJ e mestranda da UERJ)

2 comentários sobre “Resposta de uma Educadora ao Jornalista Juca Kfouri

  1. kfouri, seria bom que vc tivesse uma aula com outro jornalista,chamado Kajuru, à respeito de nossa greve.Ele lhe explicaria direitinho. A propósito Kfouri,o seu filho que é jornalista passou pela escola pública (não falo universidade pública e sim escola fundamental pública),ou vc optou por uma escola privada?
    Luis Carlos Tavares,professor de Matemática com 44 anos de magistério, sendo 38 na rede municipal do RJ.

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  2. Esse nojento é um hipócrita,quando lhe convém ele é um ótimo crítico, mas como todos os sem moral elitista, uma hora ele tem que cagar pela boca. Só assisto a espn, mas com caras como esse lá, fico muito puto em não ter opção. Até o kajuru tem mais sensatez que ele!

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