A seca no sudeste brasileiro e o desmatamento na Amazônia e no cerrado

O meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Antonio Nobre, está causando furor internacional com seu alerta de que o desmatamento na bacia Amazônica é responsável pela falta de chuvas que castiga atualmente partes do Brasil (Aqui! e Aqui!). A tese de Nobre, a qual ele defende já faz algum tempo e tem bases científicas que é a da “savanização da Amazônia”, estipula, entre outras coisas, que o desmatamento diminui a taxa de umidade que chega ao centro sul do Brasil e contribui para a ocorrência de chuvas.

Como venho estudando as mudanças da cobertura vegetal na Amazônia há mais de duas décadas, acredito que Nobre está parcialmente correto e, na prática, não está afirmando nada que a ciência já não tenha prognosticado. A novidade real é que Nobre está colocando em xeque a versão idílica que foi propagada nos últimos três governos, com a ajuda preciosa de “cientistas amigos”, de que o problema do desmatamento estaria controlado na parte brasileira da Amazônia.  O fato é que não está, e as ações estruturantes no âmbito do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) acabaram contribuindo para o aumento da remoção da cobertura vegetal a partir de projetos hidrelétricos, ferrovias e estradas.

Essa separação entre programas de fortalecimento da infra-estrutura e a proteção ambiental foi iniciada de forma mais objetiva no primeiro mandato do ex-presidente Lula, sob a batuta do “ecologismo de resultados” de Marina da Silva, e ganhou aceleração após a entrada de Carlos Minc e Izabella Teixeira no comando do Ministério do Meio Ambiente. Esses dois passaram de uma versão mais pragmática para outra de concessão escancarada de licenças ambientais e de falta de controle sobre os diferentes agentes que causam o aumento da perda da floresta amazônica.

Agora com as declarações de Nobre é provável que ele caia em desgraça dentro do governo Dilma Rousseff, onde ocupou cargos importantes. Por outro lado, é provável que a pressão (cínica é preciso dizer) dos países ricos para que o Brasil faça alguma coisa para conter o processo de desmatamento, visto que as repercussões climáticas da perda da floresta amazônica ultrapassam os limites nacionais, impactando até parte do hemisfério norte. É esse aumento da pressão que talvez, eu disse talvez, causem algum tipo de tratamento sério do problema. Do contrário, a soma de projetos do PAC com a ação descontrolada do agronegócio vão causar ainda mais perda de floresta nativa na Amazônia.

Um problema que parece ter sido esquecido por Antonio Nobre, ou omitido pela imprensa, é que outros biomas importantes estão sendo alvo do avanço do desmatamento, principalmente o cerrado e a caatinga. Esses dois biomas são igualmente importantes para a regulação climática e para o equilíbrio hídrico, mas são convenientemente tratados como secundários, coisa que não são. E aqui, novamente, há que se lembrar dos diversos projetos do governo federal que contribuem para a perda de áreas desses biomas, e que são apresentados sob a capa protetora do “desenvolvimento econômico”. 

Finalmente, a seriedade da questão deveria ser objeto de uma discussão prática e responsável por parte das autoridades federais que seguram boa parte da estrutura logística que poderia ser usada para começar a atacar o problema. Contudo, com os anúncios de que Kátia Abreu, dublê de latifundiária e senadora, poderá ser a próxima ministra da Agricultura não me deixa muito otimista sobre a capacidade do governo Dilma mudar o seu curso de comportamento. A reação se vier terá que vir da sociedade brasileira e dos movimentos sociais organizados. Ai é que mora a chave do problema: quem é que vai ousar atacar a esfinge?

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