
A contaminação de sal que foi causada pela construção pelo aterro hidráulico que circunda o Porto do Açu é furiosamente desmentida toda vez que se fala na persistência do problema que teve seu momento agudo em novembro de 2011. De lá para cá, já se ouviu tantos dos donos do Porto do Açu, atualmente a Prumo Logística, como dos técnicos do Instituto Estadual do Ambiente (INEA) que o incidente da salinização foi pontual, tanto temporal como espacialmente.
Como sou geógrafo e conhecido minimamente o funcionamento dos ecossistemas nunca acreditei nessa versão, mesmo porque tenho encontrado evidências de que o problema não foi pontual e que seus efeitos continuam persistindo nas áreas mais afetadas pela intrusão de água salina.
Mas tudo bem, as pessoas podem achar minha opinião suspeita já que sou visto como um crítico do Porto do Açu. Eis que agora um grupo de pesquisadores da UENF está atuando num projeto que os levou a encontrar na região da Barra do Açu famílias que estão reclamando e pedindo ajudando para que se verifique de forma mais apurada os impactos da salinização em suas propriedades já que de 2011 para cá muitas áreas se tornaram impróprias para a prática da agricultura. E como os sintomas que os agricultores estão apontando são similares aos causados por excesso de sal, não é preciso ser nenhum Einstein para formular a hipótese de que passamos da fase aguda do problema para a crônica. A questão é que seja rápida ou lentamente, o prejuízo econômico não cessou e continua se acumulando.
Um dos desafios da ciência é produzir evidências empíricas que resistam às tentativas de descrédito que normalmente ocorrem quando determinados resultados vão de encontro aos interesses das corporações e de seus aliados dentro do aparelho de Estado. Além disso, o tempo da ciência é sempre mais lento do que os dos afetados por este tipo de evento. Ai se cria a percepção de que a universidade não está preocupada ou antenada com os problemas da vida real, sendo quando muito uma torre de marfim que pouco retorno à sociedade.
No caso da salinização causada pelo aterro hidráulico do Porto do Açu essa percepção é até correta, pois noto que os esforços acadêmicos de documentar o problema têm ficado aquém das necessidades dos afetados. Mas com o tipo de evidência empírica que as famílias que continuam resistindo e praticando agricultura no V Distrito de São João da Barra, é bem provável que esta novela da salinização ainda venha a ter novos e emocionantes capítulos. E uma coisa é totalmente certa: a novela ainda não acabou!