A importância de se poder identificar e coibir a publicação em revistas de “ciência trash”

Não faz muito tempo, a inundação da minha caixa de e-mails por convites vindas de revistas obscuras não passava de um  incômodo que eu resolvia com o simples uso da tecla “Delete”.  Lamentavelmente com o passar do tempo, fui  tomando consciência que aquele atitude não era nem perto suficiente. É que uma simples verificação de uma amostra de aleatória do currículos da base Lattes me mostrou que a possibilidade do crescimento rápido da lista de publicações havia fisgado muitos pesquisadores brasileiros, indo desde os mais jovens até alguns figurões da ciência nacional.

Nesse sentido, as recentes reverberações contra a lista compilada pelo professor e bibliotecário da Colorado University-Denver, Jeffrey Beall, (Aqui!) continuam sendo para mim uma distração oportuna dos graves problemas com que a ciência brasileira está se deparando neste momento. É que tomados pelos padrões produtivistas impulsionados pelos principais órgãos de fomento (i.e., CNPq e Capes), aqueles que caíram no canto da sereia do “trash science” fogem da “Lista de Beall” como o diabo foge da cruz.

Uma das acusações mais cínicas que eu já li é de que a “Lista de Beall” é produto de uma e só opinião, o que desqualifica todo o trabalho que Jeffrey Beall fez em prol de uma produção científica minimamente rigorosa. Além disso, a outra preferida, e ai também oferecida sem nenhuma prova empírica, é de que Jeffrey Beall está a serviço das grandes corporações de edição de material científico.  

Entretanto, quem é que já se deu ao trabalho de, após receber um dos encantadores e-mails oferecendo publicação rápida e barata em alguma revista científica obscura, de ir até a página da “Lista de Beall” para verificar se a mesma está inclusa? Pois bem, eu me dei a esse trabalho que, sem a referida lista, seria impossível, diga-se de passagem. 

Vejamos, então a sequência que começa com um e-mail que chegou na minha caixa de correio eletrônico institucional na Universidade Estadual do Norte Fluminense.

trashMensagem oferecendo publicação no “Academia Journal of Environmental Research”

A partir dai, me dirigi à página onde está a “Lista de Beall” e procurei o nome do editor da dita revista e, voilá, vejam o que eu encontrei!

trash 2

Editor da “Academia Journal of Environmental Research” é identificado como predatório (trash) por Jeffrey Beall

Os mais céticos poderiam me perguntar como posso ter certeza que Jeffrey Beall “acertou” na colocação” desse editor como predatório ou não. Eu diria que a maioria dos pesquisadores já sabe a resposta, mas vou usar os critérios que o próprio Jeffrey Beall já ofereceu numa entrevista a este blog (Aqui!  ):

“Mas eu analiso as editoras e as revistas em termos de sua ética e suas normas de publicação. Eu olho para o uso de mentiras, falta de transparência, e desvio dos padrões acadêmicos que prevalecem no ramo das publicações científicas. Eu uso critérios documentados que me guiam na análise dos periódicos.”

Pois bem, quem é que utilizando os mesmos critérios iria negar que o e-mail que eu recebi é com alta chance oriunda de uma editora produtora de trash science? E esse me parece ser o elemento crucial neste debate. É que todos sabem com algum grau de confiança quando estão de uma revista “trash”, seja ela de acesso aberto ou não.  E se isto for mesmo verdade, por que ainda temos pesquisadores e, mais importante ainda, a Capes e o CNPq oferecendo tanta demora em reagir ao problema que as publicações “trash” representam para a produção científica de qualidade por parte da comunidade científica brasileira?

A resposta ao enigma acima não parece ter uma só resposta. De toda forma, creio que se demorarmos ainda mais a reconhecer a existência do problema causado pelo invasão de revistas predatórias e que se manifesta de forma aberta (e eu acrescentaria descarada) em um número nada desprezível de currículos da Base Lattes, estaremos fadados a uma condição catastrófica de periferização ainda maior da nossa produção acadêmica.  

Agora, o que eu espero é que aqueles que criticam a Lista de Beall por ser o produto de uma só mente, apareçam com mecanismos institucionalizados de banir o lixo científico e impedir que os seus praticantes continuem a ser beneficiados com as cobiçadas bolsas de produtividade do CNPq e a dominância em editais das nossas agências de fomento. Em outras palavras, se a “Lista de Beall” não é suficiente ou confiável, que se faça um esforço institucionalizado para produzir listas mais confiáveis.  É que como diz o velho ditado “ajoelhou, tem que rezar”.  

 

Deixe um comentário