O “TsuLama” provocado pela Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) vem servindo como base para uma disputa cada vez mais evidente sobre a escala da catástrofe e o tempo que levará para que o Rio Doce recupere a sua capacidade de carreamento mínima, podendo assim retomar parte da dinâmica que prevalecia antes do dia 05 de Novembro. Mas para mim fica cada vez mais claro que as avaliações que têm sido feitas parecem estar dependendo do grau de alinhamento que o pesquisador que é ouvido.
Vou citar o exemplo da entrevista que Paulo César Rosman, professor de Engenharia Costeira da COPPE/UFRJ e autor de um estudo encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) para avaliar os impactos e a extensão da chegada dos rejeitos da Samarco no oceano Atlântico (Aqui!). Antes que eu me detenha em alguns aspectos da entrevista em si, tenho que lembrar que o Prof. Rosman é o mesmo especialista que ofereceu um parecer que isentou o Porto do Açu de qualquer responsabilidade do processo erosivo que hoje corrói a Praia do Açu, ameaçando levar consigo a localidade de Barra do Açu.
Mas indo ao conteúdo da entrevista em si, eu selecionei alguns pontos que me parecem ser mais relevantes, e os enumero abaixo;
1. O Professor Paulo César Rosman é graduado em Engenharia Civil, ênfase Obras Hidráulicas e Saneamento, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; M.Sc. em Engenharia Oceânica pela COPPE/UFRJ, e possui um Ph.D. em Engenharia Costeira – pelo Massachusetts Institute of Technology. Isto, entretanto, não o impede de fazer previsões muito além da sua área de especialização como, por exemplo, o retorno da população de peixes ao Rio Doce em cinco meses!
2. Ainda sobre os peixes, o Prof. Rosman compara um número hipotético que foi citado por diferentes fontes (aquele que diz que apenas 8 toneladas de peixe teriam morrido em função do “TsuLama” da Samarco), para então minimizar o impacto ao comparar com os valores da mortandade de peixes na Lagoa Rodrigo de Freitas, um ecossistema totalmente estressado pelo lançamento de esgotos sem tratamento e outros tipos de contaminantes. Aqui um primeiro problema é de que ninguém pode atestar efetivamente qual foi o montante de peixes que morreram, já que inexiste a infraestrutura para retirar todos os peixes mortos debaixo da lama para pesá-los, chegando assim ao número real. Além disso, comparar o estado atual do Rio Doce à Lagoa Rodrigo de Freitas, é como comparar maças e peras. Em outras palavras, não serve para nada. Aliás, serve sim. Serve para isentar a Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) das suas responsabilidades sobre as consequências da sua ação negligente em Mariana.
3. Um aspecto que já deve (ou deveria) estar sendo repensado pelo Prof. Rosman tem a ver com a toxidade da lama que foi lançada no Rio Doce. É que como já comentei aqui, a própria Vale já reconheceu (apesar de ter recusado a maternidade já que filho feio não tem mãe nem pai) que existem metais pesados e outros elementos químicos potencialmente tóxicos acima dos seus valores máximos históricos nos sedimentos. Mas ouvindo um especialista na área de toxicologia ambiental, ele me lembrou que “independente do caráter de mobilidade dos elementos dentro do rejeito, trata-se o material do TsuLama como tóxico porque as concentrações de coloides e material em suspensão desempenham este papel de toxidez bloqueando o sistema respiratório de peixes e soterrando, em muitos casos, os organismos bentônicos.” Pois bem, esse aspecto da toxicologia passou ao largo da análise do Prof. Rosman, e é até compreensível em função da sua especialização, mas desabilita sua capacidade preditivas acerca da “ressurreição” do Rio Doce em cinco meses. Além disso, como orientei um estudo sobre os efeitos do incidente da Cataguazes Papel na piscosidade do Rio Paraíba do Sul, já verifiquei que a “ressurreição” que ocorreu foi, quando muito, parcial, e causou profundas alterações na subsistência econômica dos pescadores que viram as populações das espécies com maior valor comercial simplesmente encolherem. Assim, considerando que o Prof. Rosman é engenheiro hidraúlico e de saneamento, considero lamentável que ele tente usar o descaso histórico com a proteção da Lagoa Rodrigo de Freitas com o que está se passando no Rio Doce.
4. Repetindo o que já havia dito no caso do Porto do Açu onde associou o impacto da erosão sobre os moradores da Barra do Açu ao fato de que teriam construído em local impróprio, nessa entrevista à BBC, o Prof. Rosman indicou sua crença de que “o poder público não poderia permitir a instalação de povoados em áreas de passagem de eventos como esse que ocorreu” e que “atualmente é inaceitável e injustificável ter povoados em rotas de avalanche de barragens, ninguém poderia morar nestes locais.” Mas curiosamente no caso de Bento Rodrigues, o que ocorreu foi justamente o contrário, pois a criação da comunidade antecedeu à instalação da barragem! E o mesmo vale para outras comunidades que foram duramente atingidas pela invasão do “TsuLama“. Então, se isto é verdade e seguindo o raciocínio do Prof. Rosman, por que se permitiu a instalação da barragem da Samarco em um ponto acima e não abaixo de Bento Rodrigues, fato que se repete ao longo de centenas de barragens de rejeitos em Minas Gerais? Afinal, pau bate em Chico tem que bater em Francisco, não é?
5. Também considerei para lá de otimista a previsão de que a próxima estação de (fortes) chuvas “lavarão” o Rio Doce. É que a primeira incerteza se refere às “fortes chuvas” já que nos últimos anos, elas não ocorreram. O segundo problema que eu considero particularmente importante é de que não foi mencionado o fato de que o Rio Doce já se encontrava numa condição de forte estresse hídrico antes do “Tsulama” que cobriu ou entupiu muitas nascentes. Então olhar para a passagem dos sedimentos pela calha, seja em que velocidade for, e desprezar o estresse hídrico a que o Rio Doce está submetido, torna no mínimo precária a previsão de que as chuvas “lavarão” o material do “TsuLama”. Ainda há que se notar que se pelo menos ele tivesse fornecido as variáveis que usou na modelagem que fez para chegar a essa previsão, poderíamos verificar as chances de sua previsão se confirmar.
Após estas considerações, e eu teria outras, eu fico imaginando se o Prof. Rosman desta vez visitou toda a área atingida pelo “TsuLama“, ao contrário do que ocorreu na erosão do Porto do Açu quando ele reconheceu em audiência pública na Câmara Municipal de São João da Barra que nunca foi à área mas, mesmo assim, produziu um documento isentando o empreendimento.
Finalmente, dada a notoriedade do Prof. Rosman em sua área de especialização, creio que as suas declarações devam servir como base para os estudos que serão feitos nas diversas áreas acadêmicas em que ele ofereceu suas previsões. É como em ciência podemos até nos arvorar a fazer previsões, mas a sua sustentação só ocorrerá se houver verificação empírica. E como sei que muitos artigos científicos ainda serão produzidos sobre os efeitos sociais e ambientais do “TsuLama” da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton), vamos ver qual é a “verdade” que sobreviverá ao crivo rigoroso do exame científico.

Olá, professor Marcos Pedolowski
Gostaria de parabenizá-lo pelas críticas às declarações do professor Rosman à BBC.
Sou professora da área de Comunicação Social e um dos problemas, em situações como aquela da tragédia em Mariana, está relacionado com a falta de informações prévias para que um leigo possa avaliar a qualidade em um enorme volume de informações aparentemente técnicas.
Todas as pessoas passam a ter acesso ao evento através das entrevistas e notícias, de um modo geral. A figura dos peritos no assunto é crucial para que a opinião pública passe a ter um mínimo de familiaridade sobre as questões que envolvem eventos repentinos e complexos. Desse modo, passamos a conhecer não apenas aspectos mas, também, um conjunto de peritos que deveriam prestar um papel que pode ser chamado de pedagógico.
Os estudiosos ouvidos deveriam estar compenetrados da responsabilidade junto à opinião pública, à sociedade. Entretanto, quando o assunto envolve interesses de grande peso, infelizmente, há possibilidade de uso, eticamente condenável, de peritos que passam a corresponder à posição de porta-voz dos interesses de algum dos lados envolvidos. Em tal situação, em vez de atuar como especialista do assunto, ele usa este predicado para proceder como se estivesse realizando a análise de modo independente, criando-se, assim, uma ampla possibilidade de tornar credível a posição do lado por ele favorecido em seu “parecer”.
Se ninguém chamar a atenção de modo a evidenciar que “o rei está nu”, os ânimos sociais tendem a ceder às previsões dos “doutos”, arrefecendo-se as pressões sociais e, sobretudo, abrindo-se espaço outras questões que passam a concorrer com aquela que se apresentava como gravíssima mas que, com as laudos dos peritos, passou à condição de processo incorporável à vida diária.
Peço desculpas pela enormidade de texto.
Obrigada
Taniarfcordeiro
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Tânia, este blog foi criado para oferecer um espaço para determinadas visões que não são privilegiadas pela mídia corporativa. Nesse caso, eu acho que o blog cumpriu bem esse papel, principalmente com a entrevista do Prof. Carlos Rezende. Obrigado por seu comentário.
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Marcos, em seu blog está escrito que é professor, mas não diz qual é sua especialidade e se você possui competência técnica para falar mal da competência do engenheiro Rosman. Cliquei em perfil completo e não vi nem de quê que você dá aulas. Abraço.
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Alexandre, primeiro um engano seu, Eu não falei mal do Prof. Rosman, apenas questionei suas previsões que eu considero infundadas e naturalizantes do maior desastre ambiental da mineração no Brasil. Em relação ao meu perfil acadêmico, creio que o melhor caminho é você verificar o meu CV na base Lattes do CNPq. Mas posso te adiantar que além da minha formação disciplinar, sou professor de Metodologia da Pesquisa há quase 20 anos e uso sempre esse fato para analisar os argumentos que são apresentados sob a capa de ciência. Foi isso que fiz para analisar as previsões contidas na entrevista do Prof. Rosman a quem encontrei apenas uma vez na vida, e contra quem pessoalmente não tenho nada.
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