A pressão para publicar está asfixiando a comunidade acadêmica

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Peter Higgs, um dos dois vencedores do Prêmio Nobel de Física em 2013.

Por Peter Vale e Steven Karataglidis*

O clima frio do hemisfério sul é um de um sinal certo de que a temporada de conferências científicas de inverno chegou.  Nas próximas semanas acadêmicos de muitas disciplinas vão passar noites geladas em dormitórios de estudantes e dias trocando fofocas disciplinares sobre a situação das universidades, e sobre o que é novo em seu campo de estudo.

Mas, depois de problemas de síntese, a única conversa mais importante entre eles será a forma de negociar o regime de publicação que permeia a vida acadêmica contemporânea não só na África do Sul, mas em todo o mundo.

A obrigação de que as pessoas do mundo acadêmico devem publicar é invariavelmente apresentada como uma coisa virtuosa. É certo e apropriado para os acadêmicos expandir e estender as fronteiras de suas disciplina, respectivamente, através da publicação em revistas científicas após os trabalhos serem aprovados pelos seus pares.

Mais ainda, um público que muitas vezes é cético quanto à utilidade das universidades é muitas vezes informado que cientistas publicam em nome do “bem comum”.

Mas se a publicação acadêmica é tão significativa na profissão, por que é que os mais jovens e talentosos no mundo acadêmico cada vez mais resistem a ela, chamando-estereotipada, na melhor das hipóteses, e, na pior das hipóteses, um sweatshop (i.e., fábrica de suor)? E por que pesquisadores experientes simplesmente não estão mais interessados em contribuir para o sistema de peer-review que está no coração do sistema de validação científica, e sem o qual a indústria de publicações científicas pode entrar em colapso?

As agências de financiamento

Por um lado, há um lado escuro e manipulativo na pressão incessante para publicar.  As agências de financiamento usam registros de publicações para distribuir dinheiro ou para ranquear os cientistas. Enquanto isso, gestores acadêmicos usam o registro de publicação como um meio de colocar as pessoas na linha.

Por outro lado, o atual sistema privilegia a publicação em artigos sobre o de livros. Isto é muito prejudicial para as Humanidades.

Se essa realidade reflete preocupações acadêmicas, há também muitas questões econômicas. Os custos de acesso revistas – mesmo em formato electrónico – punem os orçamentos universitários, na medida em que reforçam a linha de base das editoras. A desvalorização do Rand sul africano, por exemplo, face às principais moedas só fez aumentar o custo.

Mas o escândalo mais profundo – infelizmente, não há outra palavra para isso – é que, em média, um trabalho publicado não deve ser lido ou citado no curto prazo. Muitas vezes pode levar anos antes que um trabalho seja reconhecida na comunidade acadêmica global.

Mas a política sul africana não é muito útil também.

Considere o subsídio estatal para publicações: o Departamento do Ensino Superior e Formação devem ser convencido que uma dada publicação é “credenciada” (a palavra código para aceitável) por critérios, por vezes, arbitrários.

Isto leva a uma grande confusão. Será que a publicação está qualificada para se beneficiar do subsídio? Quem pode dizer ao certo? Alguns resultados são confusos. Por isso, é bizarro quando uma universidade hesite em apresentar um livro escrito pelo acadêmico líder do país porque ele pode não ser “acreditado”. Ou, pior, se a provável contratação por uma universidade pode ser recusada pelos motivos fizeram eventuais publicações deste pesquisador não atrairiam a tal acreditação.

Em circunstâncias de síntese, não é de estranhar que existem chamados para uma reflexão, não só para se repensar a indústria como um todo, mas a própria síndrome do “publicar ou perecer” que atualmente parece inescapável.

A importância da “pesquisa lenta”

Um começo útil será reconhecer que “a pesquisa lenta” é tão importante como é necessária. Este entendimento vai exigir um reconhecimento de que a pesquisa lenta, especialmente, mas não exclusivamente nas Humanidades – requer o que teórico estratégico Albert Wohlstetter uma vez chamou de alto pensamento em relação às publicações.

Então, entendimentos globais e locais destas questões exigem alinhamento.

 Nesta questão em particular, vamos considerar o exemplo admitidamente extremo vindo das ciências puras: os artigos em que a descoberta do Bosón de Higgs foi anunciado tiveram mais de 3.000 autores, tal foi o tamanho da participação no maior experimento científico realizado no mundo, e foram publicados nos principais jornais científicos existentes.

De fato, o Prêmio Nobel de 2013 foi concedido de forma conjunta a Peter Higgs e François Englert, que tomaram parte no esforço teórico no meio da década de 1960 para postular a existência da partícula que leva o nome de Higgs.  Com pouquíssimas exceções, Higgs não foi o autor nem foi citado nestes artigos, ainda que seu nome seja usado em todo o lugar na pesquisa.  

Mas por causa do peso inverso dado ao número de publicações por autores, estes artigos inovadores na ciência, que efetivamente tiveram participação de pesquisadores sul africanos, tiveram uma nota zero, e não são considerados como produção científica no contexto local.

 Vamos ser claros: pesquisa e publicação são o oxigênio da vida acadêmica.  Mas os regimes que controlam os mecanismos contemporâneos de publicação estão asfixiando a criatividade e, com isto, a ciência.

* Peter Vale é professor de Humanidades e diretor do Johannesburg Institute for Advanced Study (JIAS), e  Steven Karataglidis é professor de Física, ambos na Universidade de Johannesburgo, África do Sul.

Este artigo apareceu originalmente em inglês no site “The Conversation” no dia 06/07/2016 (Aqui!) e a versão em português é de minha responsabildiade. 

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