Quando Karl Marx formulou o conceito de luta de classes e associou a ele a ideia de que ela seria o motor que faz girar a história, quase certamente não pensou no Brasil. É que toda a experiência histórica que levou Marx a estabelecer os canones de sua dialética materialista estavam fortemente ancorados na Europa e na Revolução Industrial que ali se consolidava.
Mas nos últimos tempos, especialmente após a onda conservadora que foi formada para tirar Dilma Rousseff da presidência da república, vejo pessoas sinceramente surpresas com o tipo de virulência que as pessoas de direita são capazes de mostrar e escrever. Os alvos costumeiros da ira da direita são os pobres, nordestinos, gays, negros e pessoas de esquerda. Em função disso temos não apenas lido, mas assistido ao que pensam e fazem segmentos da população brasileira que deixam as pessoas médias completamente embasbacadas.
Temos como resultado desse embasbacamento pedidos para que as pessoas se respeitem nas redes sociais e evitem romper amizades por causa das diferenças ideológicas. Muitos dizem que é preciso evitar a conflagração e o espírito de “um time contra o outro”.
Pessoalmente acho que quaisquer pedidos para que as pessoas se comportem civilizadamente é inócuo. É que a sociedade brasileira contém elementos que são completamente incivilizados, e que são fruto de sua construção ancorada na escravidão negra e na exploração colonial de nossas riquezas naturais. Assim, enquanto não houver uma superação do legado histórico que carregamos, qualquer chamado à civilização óu é cínico ou é ingênuo (ou talvez uma mistura dos dois).
Além disso, dada a volúpia com que as forças políticas que ocupam o poder em Brasília a partir do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff atacam direitos sociais e as estruturas do Estado brasileiro, qualquer perspectiva que aponte para necessidades de pacificação é inócuo. É que essas forças não hesitarão em usar o aparato repressivo contra quem se insurgir contra o processo de recolonização do Brasil que elas estão colocando em marcha. E está cada vez mais claro para mim (é só ver os graves ataques em curso contra o SUS e as universidades públicas) que a opção dessas forças é pelo confronto com a maioria da população que rejeitos suas políticas nas últimas quatro eleições presidenciais.
Em outras palavras, estamos num período em que a luta de classes vai se aprofundar no Brasil. E é preciso ter isto claro, pois, do contrário, os planos de desmanche do Brasil serão aplicados sem dó nem piedade. Afinal, se alguém tinha ilusão de que a burguesia nacionalestava minimamente disposta a ver uma melhora mínima nas condições de vida da maioria pobres do Brasil, a realidade tratou de enterrá-la.
Enquanto isso, Karl Marx manda lembranças de lá do cemitério de Highgate no norte de Londres.