Uenf: flertando com o perigo (2)

A insistência em se forçar o retorno das aulas na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) merece até um estudo antropológico. É que as mesmas figuras que defendem o reinício das aulas sem condições mínimas de segurança (daqui a pouco falo sobre isso) são as mesmas que antes de cair a noite saem rapidamente do campus Leonel Brizola para entrarem em condomínios fechados onde só se entra após a permissão ser dada a partir de um portal que separa suas casas da “cidade real”.  Em suma, aceitam a insegurança como inevitável no público, enquanto se encerram em muros e paliçadas no privado.

Mas deixemos de lado essa dualidade público-privado para irmos ao essencial. A questão da segurança (ou seria insegurança ?) do campus universitário é mais uma das coisas que estão sendo trivializadas em nome de uma suposta volta à “normalidade”. É que a Uenf hoje funciona literalmente aos trancos e barrancos.  As contas relacionadas ao fornecimento de luz, água, telefone, rações para animais, insumos para laboratórios, e serviços terrceirizados estão atrasadas há pelo menos 8 meses. Além disso, se alguém visitar o almoxarifado da instituição vai encontrar basicamente paredes cercando o vazio.

Diante desse quadro, por que essa urgência de se voltar ás aulas, ainda por cima sem garantias de segurança para a comunidade universitária? Para mim, esse é um processo que mistura baixa cultura política, subserviência ao (des) governo Pezão, e mesmo falta de solidariedade com os trabalhadores da segurança e limpeza que estão trabalhando sem que a legislação trabalhista seja cumprida. No caso dos seguranças, os salários não são pagos há quatro meses e se está completando o quinto mês de atraso.

Ainda que esse quadro não seja restrito à Uenf e reflete uma política clara de desconstrução do serviço público fluminense, o caso da universidade criada por Darcy Ribeiro é emblemático porque atinge uma instituição jovem que alcançou altos niveis de qualificação em apenas 23 anos. Ao se impor esta asfixia financeira à Uenf, o (des) governo Pezão/Dornelles manda uma mensagem clara de que não possui qualquer compromisso com o futuro. Aliás, isto tem sido bem demonstrado por isenções fiscais de até 50 anos cujo encerramento muitos dos que a concederam não estarão mais vivos para ver o resultado delas.  Uma espécie de assassinato do futuro com certeza de impunidade.

No plano imediato, eu reafirmo que é moralmente equivocado e objetivamente arriscado fazer o retorno às aulas na Uenf com menos de 30 seguranças (que poderão rapidamente chegar a Zero) presentes. Uma porque eles estarão lá sem seus salários, o que configura uma flagrante humilhação a esses profissionais. E duas porque se sabe que com esse contingente não há como sequer monitorar quem entra e sai do campus da Uenf.  E terceira, porque enquanto se flerta com o perigo na Uenf, o (des) governo Pezão ficará livre para avançar sua política de destruição.  Além disso, no caso de alguma ocorrência grave, sempre se poderá alegar que a decisão das voltas às aulas foi da reitoria da Uenf que usou a sua autonomia administrativa para tanto. 

Finalmente, quero ver onde estarão os que defendem a volta das aulas a qualquer custo se algo de ruim acontecer dentro do campus desprotegido. Provavelmente escondidos atrás dos muros e paliçadas dos condomínios fechados onde escolheram viver para se proteger dos riscos a que nós simples mortais estamos expostos na cidade real.

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