Governo Temer engaveta dados que mostram avanço do desmatamento na Amazônia

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No final de 2015 eu fiz uma apresentação num encontro de especialistas sobre o uso da terra e seus impactos na mudança na cobertura vegetal que ocorreu no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Naquele encontro fiz algumas ponderações sobre a narrativa de que o desmatamento estava sob controle que aparentemente deixaram alguns dos presentes surpresos, a ponto de um deles me dizer que minha fala tinha sido, digamos, “forte”.

Agora quase um ano depois daquele encontro, eis que o jornalista Maurício Tuffani do blog “Direto da Ciência” nos informa que só não sabemos ainda o tamanho do estrago que está ocorrendo neste momento na Amazônia brasileira porque simplesmente o tal Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), comandado pelo inexpressivo Gilbert Kassab, ainda não liberou dados produzidos pelo Inpe desde maio de 2016.

A razão para ocultar os dados é simples: tudo indica que estamos experimentando taxas de desmatamento altíssimas que pode remontar ao que ocorria no início da década de 1980. Em mais, ao ocultar esses dados nos livramos de explicar as causas deste crescimento de desmatamento que estão mormente associadas ao avanço das monoculturas de soja e cana, bem como da fronteira da pecuária.

Um artigo do qual sou co-autor e que deverá ser publicado pela Acta Amazônica em 2017, por exemplo, demonstra que o cultivo da soja está avançando sobre áreas de floresta, o que quebra a versão de que esta monocultura apenas ocupa áreas previamente desmatadas para outros usos. Como este artigo está centrado empiricamente em Rondônia, não me admira que este estado esteja entre os campeões do desmatamento. Aliás, já recebi informações de que várias unidades de conservação rondonienses se encontram neste momento sob forte pressão, incluindo o importantíssimo Parque Estadual de Guajará-Mirim.

E se alguém conta com algum tipo de ação para impedir a devastação da Amazônia por parte do governo de facto de Michel Temer é melhor esquecer. É que a combinação de Blairo Maggi, o rei da soja, no Ministério da Agricultura com Zequinha Sarney no Ministério do Meio Ambiente já nos diz que o desmatamento vai avançar, já que a prioridade será sempre determinado pelas necessidades de aumentar a área em produção. Nem que isto signifique destruir as florestas da Amazônia.

De toda forma, abaixo segue a matéria completa assinada por Maurício Tuffani e que mostra o problema em torno do “engavetamento” dos dados sobre o desmatamento na Amazônia.

Governo segura desde junho estimativa maior de desmatamento da Amazônia

Por  Maurício Tuffani*,  Colaboração para o UOL, em São Paulo

5.out.2015 – Foto aérea mostra a floresta Amazônica (na parte superior) fazendo fronteira com terras desmatadas para o plantio de soja, em Mato Grosso. A foto foi tirada neste domingo (4) e divulgada hoje. O Brasil produzirá um recorde de 97,8 milhões de toneladas de soja em 2015/16, um aumento de 3,2% em comparação com 2014/15Imagem: Paulo Whitaker/ Reuters

Uma revisão do desmatamento da Amazônia entre 2014 e 2015 mostrou que o corte raso nas florestas da região alcançou 6.207 km², ou seja uma extensão 6,45% maior que os 5.831 km² divulgados no final do ano passado. Concluídos em maio pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), os dados estão retidos desde junho no MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações), aguardando o ministro Gilberto Kassab (PSD) liberar a divulgação.

A nova avaliação para o desmatamento de 2014 a 2015 traz uma segunda má notícia. Ela reajusta também de 16% para 24% o aumento da devastação na Amazônia em comparação com o período anterior, de 2013 a 2014, que foi de 5.012 km². Além disso, o número reforça a dificuldade de manter resultados positivos já alcançados. Em 2012, o governo Dilma anunciou 4.571 km², a menor taxa anual desde o início do monitoramento em 1988.

Embora a notícia seja desfavorável para o governo Dilma Roussef (PT), uma das principais preocupações da gestão de Michel Temer (PMDB) com sua divulgação é o aumento da devastação também de 2015 a 2016. O próximo período de monitoramento, que deverá ser anunciado ainda neste ano, começou em agosto de 2015, ainda sob a gestão petista, mas incluirá também maio, junho e julho de 2016, já sob o governo interino, e em plena estação seca, que agrava ainda mais a devastação.

Risco de tendência crescente

Prodes/Inpe/Divulgação

Composição de imagens de satélite do projeto Prodes, que mostra em verde as áreas preservadas de floresta; em amarelo, as áreas sob interferência urbana; e, em vermelho, áreas de agropecuária

O governo está preocupado também com o risco de uma tendência crescente da devastação neste ano desde agosto, quando começou o primeiro período anual de monitoramento dentro da atual gestão. A reportagem não conseguiu na noite desta sexta-feira (23) nenhum posicionamento do MCTIC, ao qual é subordinado o Inpe, que realiza o monitoramento dos desmatamentos, nem do MMA (Ministério do Meio Ambiente), que é responsável pelas ações de prevenção e combate ao desmatamento.

Enquanto Kassab não liberava os dados da revisão, o MMA, cujo titular é o deputado licenciado Sarney Filho (PV-MA), agendou um seminário técnico-científico em Brasília nos dia 5 e 6 de outubro para discutir a nova estimativa. No final das contas, o dado revisado e aumentado para 2014-2015 implicará um patamar de devastação mais elevado e, portanto, mais confortável para uma comparação com o período 2015-2016.

Além do monitoramento anual oficial do corte raso da floresta Amazônica pelo Inpe, em São José dos Campos (SP), também são realizadas estimativas preliminares mensais pela ONG Imazon (Instituto Homem e Meio Ambiente na Amazônia), sediada em Belém (PA). Desde março deste ano essas avaliações paralelas têm indicado aumento em relação ao ano passado não só da supressão completa da vegetação, mas também da degradação por meio da extração seletiva de madeiras e também por incêndios ocorridos anteriormente.

Devastação total acumulada

Assinada pelo engenheiro e físico teórico Leonel Perondi, que ocupou até quarta-feira (21) o cargo de diretor do Inpe, a nota técnica informa que a diferença entre as duas estimativas para 2014-2015 se deve ao uso de uma nova metodologia, que na revisão considerou 214 imagens do satélite Landsat 8, ao passo que anteriormente foram analisadas 96 imagens. Além do maior número de imagens, outra novidade foi o uso do satélite sino-brasileiro CBERS-4, mais moderno. As imagens detectam desmatamentos de áreas com mais de 6,25 hectares.

Os estados “campeões” da derrubada da floresta de 2014 a 2015 são Pará (2.153 km²), Mato Grosso (1.601 km²) e Rondônia (1.030 km²).Com base nessa revisão da mais recente estimativa anual, o desmatamento acumulado por corte raso, ou seja, a supressão completa de floresta na Amazônia brasileira em agosto de 2015 alcançou 770.414 km², uma área pouco maior que a da Bahia e equivalente a quase a metade da do estado do Amazonas.

Reprodução

 

Revisão do desmatamento feita em junho de 2016

FONTE: http://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2016/09/23/governo-segura-desde-junho-estimativa-maior-de-desmatamento-da-amazonia.htm

Um pensamento sobre “Governo Temer engaveta dados que mostram avanço do desmatamento na Amazônia

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