Greve de policiais: de quê realmente tem medo a classe média?

A greve dos policiais militares do Espírito Santo e a mobilização em curso no Rio de Janeiro para deflagar um movimento similar parecem ter despertado um alarme entre os brasileiros, principalmente os que pertencem à chamada classe média.

Esse é um fenômeno do medo generalizado pela ausência da polícia militar das ruas ainda merecerá muitas análises mais capacitadas do que a que vou expor aqui, mas mesmo assim vou compartilhar algumas impressões sobre essa onda de medo que fechou escolas e isolou famílias inteiras dentro de suas residências.

O primeiro aspecto é que a possibilidade de que o Brasil pudesse entrar em um forte ciclo de convulsões sociais já estava mais do que prevista. Afinal, com um número inédito de desempregados e sem qualquer tipo de perspectiva de que o país saia num período próximo da profunda recessão em que foi colocado já apontava para essa possibilidade. Somando-se a isso as medidas draconianas que estão sendo impostas sobre o serviço público em geral e sobre as políticas sociais também aumentaram consideravelmente as chances de conflitos graves.

Entretanto, tudo parecia andar como dantes no Quartel de Abrantes. Os célebres paneleiros com a camisa da CBF haviam sumido, e o governo de “facto” de Michel Temer seguia cortando na carne dos brasileiros sem que houvesse uma reação razoável nas ruas. Parecia que as demandas da volta da “estabilidade social” tinham sido plenamente cumpridas.

Mas bastou a greve dos políciais capixabas para que essa paz se estraçalhasse em incontáveis fragmentos e que a violência latente explodisse com toda potência no Espírito Santo. Isso, por sua vez, espalhou a onda de medo que está espalhada na cara das pessoas, especialmente as que moram nas regiões mais ricas das cidades brasileiras. É que para os pobres, as coisas já estão ruim faz algum tempo e a violência extrema é um dado corriqueiro, seja pela mão das forças policiais ou das diferentes bandas criminais que operam nos interstícios deixados vagos pela ampliação das políticas neoliberais,

Agora, a questão toda me parece ser da raiz desse medo e de quem realmente se têm medo. A explicação mais rápida é que o medo seria da ação de criminosos que ocupem o vácuo deixado pela ausência de policiamento nas ruas. Mas será isso mesmo? Em minha opinião o medo que está exposto é de uma natureza mais sistêmica e espelha um reconhecimento explicito da natureza profundamente desigual da sociedade brasileira.

Em outras palavras, as classes médias tem medo mesmo é de que os mais pobres e marginalizados se aproveitem do vácuo de repressão para pegar aquilo que lhes está sendo negado há mais de 500 anos, nem que para isso tenham que cometer atos de violência extrema. É essa a raíz do medo agudo que repentinamente se viu espalhado nas redes sociais e nas telas de TV.

O pior é que passado os movimentos de protesto dos policiais os mesmos que hoje morrem de medo deverão voltar às suas rotinas alienadas, esquecendo-se do medo de hoje.  E isso deverá perdurar até que uma nova onda mais forte de convulsão se manifeste. Daí poderá ser o tempo de correr para as colinas, tal como aconselhou  uma capitã da PMERJ que está presa por supostamente insuflar seus colegas a entrarem em greve.

Um pensamento sobre “Greve de policiais: de quê realmente tem medo a classe média?

  1. Luiz Müller disse:

    Republicou isso em Luíz Müller Blog.

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