“Trash science” surfa na crise da ciência brasileira

Por forças das circunstâncias tenho deixado de falar do grave representado pela disseminação de editoras predatórias que publicam o que chamo de “trash science“. Mas volto e meia me deparo com evidências cristalinas que o problema está cada vez maior, especialmente num contexto de encurtamento de verbas para a realização de pesquisas científicas como é o caso do Brasil sob o governo “de facto” de Michel Temer.

É que a diminuição marcante no aporte de verbas para a pesquisa científica até agora não produziu nenhuma mudança nos critérios produtivistas de avaliação da produção acadêmica de programas de Pós-Graduação que é feita pela CAPES ou no plano individual pelo CNPq. Essas duas agências que há muito deveriam estar repensando seus métodos de avaliação continuam apertando os botões de avaliação como se tudo estivesse como dantes no quartel de Abrantes.  Mas o problema é que não está nem perto disso.

Uma prova de que o “trash science” está ocupando cada vez mais espaço nas publicações feitas no Brasil me foi confirmada recentemente quando fui chamado a avaliar uma tese de doutoramento onde o candidato havia cumprido uma dessas normas estapafúrdias de publicar como pré-condição para defender sua tese e me deparei com um daqueles periódicos que já constavam na defunta lista do Professor Jeffrey Beall como sendo “predatório”.  O pior é que ao notar minha menção de que deveria ter procurado publicar em uma revista qualificada, o candidato me afiançou que havia verificado no horroroso “Qualis Capes” e a mesma estava bem qualificada.  O candidato ficou ainda mais surpreso quando o informei que o “Qualis Capes” não serve para medir nada além do que a frequência de publicações feitas por brasileiros em uma determinada revista, e que efetivamente ele havia publicado seu artigo numa revista disseminadora de “trash science“. Mas meus encontros com o “trash science” não têm ocorrido apenas em bancas examinadoras, pois tenho visitado instituições que mostram até com orgulho a publicação de suas pesquisas em revistas que já foram caracterizadas como predatórias.

O problema disso tudo é que estamos entrando num ciclo vicioso que deverá trazer efeitos mais catastróficos para a ciência brasileira mais do que a própria falta de verbas.  É que falta de verbas até se resolve com estratégias de otimização de gastos, mas não há nada que resolva a instalação deu ma lógica que legitima a manutenção de altos níveis de publicações, nem que para isso se precise recorrer a revistas que somente existem para, por um lado, enriquecer alguns espertos e, por outro, dar um verniz de produtividade científica.

Também não posso deixar de notar que o desaparecimento do blog do Professor Jeffrey Beall, sabe-se lá por quais razões,  serviu como um alívio para centenas de editores de revistas científicas brasileiras que não mais precisam se importar com a lebre que Beall levantou sobre a falta de impacto na comunidade científica internacional do que é publicado no Brasil.  Agora que o mensageiro partiu, os que se incomodavam com sua mensagem estão podendo levar seus negócios à frente sem maiores incômodos com questões relacionadas à robustez da produção científica nacional. Já os editores e usuários das revistas predatórias estão livres, leves e soltos para continuarem disseminando lixo como se ciência fosse.

Uma coisa é certa: se a própria comunidade científica não se organizar para cobrar a produção de novos critérios de avaliação pela Capes e pelo CNPq, corremos o risco de experimentar um retrocesso histórico gravíssimo, tanto pela inundação de caráter bíblico de produções “trash science” como pela partida de jovens pesquisadores que sairão do Brasil em busca não apenas de melhores condições de financiamento mas também de ambientes mais sérios de avaliação de seu trabalho.

3 pensamentos sobre ““Trash science” surfa na crise da ciência brasileira

  1. Marco Antônio disse:

    Professor Marcos o SciELO (Scientific Electronic Library Online) tem algum valor?

    • Marco Antônio, em minha opinião tem uma clara importância para jovens pesquisadores brasileiros que ainda não dominam uma segunda língua e necessitam de acesso livre a produções acadêmicas qualificadas. Entretanto, a Scielo ainda é falha no sentido de ampliar o alcance do que é produzido pela ciência brasileira. Em outras palavras, a Scielo tem valor, mas precisa ampliá-lo.

  2. […] “Trash science” surfa na crise da ciência brasileira Marcos Pedlowski […]

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