Myanmar: um genocídio preparado no Facebook

Pakistan Myanmar Attacks

Muitos brasileiros estão surpresos com as mensagens de ódio que campeiam as redes sociais nesta campanha eleitoral e com conteúdos que nos remetem  a períodos de extremo desrespeito aos direitos humanos. Se lerem o artigo assinado pelo jornalista Paul Mozur e que foi publicado pelo jornal estadunidense “The New York Times“, poderá constatar que o Brasil não é o primeiro nem o último lugar onde as redes sociais, especificamente o Facebook, estão sendo usadas para preparar ações violentas contra os que são considerados como “desajustados”, sejam eles gays, feministas, comunistas, umbandistas ou, no caso de Myanmar,  contra os membros de uma minoria étnica que professa religião distinta da maioria dos habitantes daquele nação asiática [1].

genocidio Myanmar

Qualquer pessoa que acompanha a evolução das redes sociais sabe minimamente que elas controladas por um pequeno número de corporações capitalistas cujo objetivo é exatamente o mesmo: enriquecer brutalmente os seus donos e, ao mesmo tempo, realizar um controle da qualidade e da intensidade de informação que circula via a rede mundial de computadores.

Mas o que a maioria não sabe é que, como mostra o caso retratado por Paul Mozur, há uma tolerância por parte das corporações que controlam as redes sociais em relação à participação de entes estatais disfarçados de pessoas comuns. Mais uma vez, o caso de Myanmar é exemplar, na medida em que as forças armadas daquele país se infiltraram por mais de 5 anos no Facebook para preparar uma campanha brutal de limpeza étnica, sem que fossem molestadas pelos filtros e censores da empresa.  Destino muito diferente tem sofrido grupos de direitos humanos e sociais que estão sendo bloqueados e impedidos de transmitir informações que seriam fundamentais para se entender como foi possível, via redes sociais, promover um genocídio em pleno Século XXI e, pior, preparado e transmitido como algo que fosse passível de naturalização.

Interessante notar que nesta reportagem, Mozur detalha a partir de informantes principais que participaram da estruturação de uma rede de “trolls” que criava páginas de notícias e celebridades no Facebook e, em seguida, as inundavam com comentários e postagens incendiários programados para o pico de audiência. A infiltração era feita de forma bem simples: as contas eram criadas como se fossem pertencentes a pessoas comuns que se apresentavam como fãs de grupos de roqueiros e heróis nacionais, mas quase que imediatamente passavam a disseminar mensagens de ódio contra a minoria Rohingya. 

imagens myanmar

Exemplo de imagem usada pelos militares para criar sua campanha de ódio contra os Rohingya e que estavam postadas nas páginas criadas no Facebook

Para se ver o tamanho e  o impacto da rede de trolls criada pelas forças armadas de Myanmar para promover a sua campanha de limpeza étnica contra os Rohingya,  depois de perguntas feitas por Mozur para preparar sua matéria, o Facebook teria informado que tirou do ar uma série de contas que supostamente estavam focadas em entretenimento, mas que estavam ligadas aos militares que promoveram o genocídio dos Rohingya. Segundo o próprio Facebook, essas contas tinham 1,3 milhão de seguidores! Como é impossível que os guardiões que monitoram o Facebook não soubessem da verdadeira identidade dos impulsionadores desta rede de perfis falsos, resta a inevitável conclusão de que a coisa foi tolerada até ser revelada. E claro, tudo em nome dos lucros dos donos da empresa.

Uma coisa é certa: as similaridades entre os que estão emergindo sobre o uso do Facebook em Myanmar, a partir das táticas de disseminação de mensagens de ódio, e o que está acontecendo no Brasil não são meras coincidências. Aliás, muito pelo contrário. Em função disso, os movimentos sociais e ativistas políticos brasileiros terão de repensar num futuro não muito distante a viabilidade de continuar usando as chamadas redes sociais como sua ferramenta primária de veiculação da informação e de disputa ideológica na sociedade. É que sem profissionalismo e disposição para enfrentar as táticas que estão sendo empregadas até por forças armadas nacionais, as redes sociais serão inevitavelmente as portadoras de uma paz dos cemitérios.


[1] https://www.nytimes.com/2018/10/15/technology/myanmar-facebook-genocide.html

 

3 pensamentos sobre “Myanmar: um genocídio preparado no Facebook

  1. Lamentável onde chegamos. Ferramentas que poderiam ser veículos para o esclarecimento e sustentáculos para a solidariedade se tornaram amplificadores da crueldade.

  2. Emmanoel disse:

    ‘E cada vez mais dif’icil distinguir o que presta do que nao presta nestas redes sociais. O que fazer? Enquanto houver leniencia dos governos nacionais com criminosos na redes sociais a tendencia e piorar.

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