Rede que administra US$ 20 trilhões é mais uma a sinalizar risco de investimento em empresas de proteína animal

Relatório calcula que taxas de emissão de carbono podem custar US﹩ 11 bilhões. Adicionalmente, surtos de COVID-19 em fábricas de carne no Brasil ameaçam exportações.

A taxação das emissões geradas pela produção de animais de criação está ganhando impulso entre formuladores de políticas públicas no exterior, de acordo com o mais recente relatório  da Fair Animal Investiment- Risk and Returno (FAIRR), uma rede global de investidores que administra mais de US$ 20 trilhões em ativos. A entidade calcula que os impostos sobre o carbono podem custar a um conjunto de 40 empresas líderes no setor de proteína animal até US﹩ 11,6 bilhões em EBITDA até 2050 — um impacto médio de 5% da receita de cada empresa.

fairr report

A avaliação vem na esteira de uma sequência de sinalizações negativas para o setor brasileiro de commodities. Somente no mês de junho, foram duas ameaças diretas de desinvestimento em empresas do país — e até nos Títulos Soberanos do Brasil — caso o governo não conseguisse frear o desmatamento. Um grupo que inclui a holandesa Robeco, e que administra US﹩ 2 trilhões, disse à Reuters em 19/06 que deixarão de investir em empresas de carne e grãos do Brasil por conta da destruição da Floresta Amazônica. Em 23/06, foi a vez de 29 empresas globais de investimentos (com U﹩ 3,7 trilhões em ativos) assinarem carta conjunta pedindo mudanças na política ambiental do governo de Jair Bolsonaro.

Além das emissões oriundas do desmatamento, o relatório da FAIRR avalia que o setor de carne envolve elevado risco para a saúde humana, e que a pandemia de COVID-19 (uma zoonose em sua origem) deu novo impulso a essas discussões. Essas preocupações tornaram-se particularmente prementes para formuladores de políticas, avalia o documento, criando riscos materiais que merecem a consideração dos investidores.

“Uma análise de causa-raiz da pandemia de COVID-19 provavelmente mostrará a necessidade urgente da indústria de carnes e de peixes de melhorar as práticas de biossegurança e triagem”, prevê Coller. “No cenário pós-COVID, existe o risco de os governos pararem de subsidiar a agricultura animal e começarem a taxá-la em vez disso.” Ward concorda com a avaliação de Coller e ressalta que, “na sequência da pandemia, provavelmente haverá uma pressão regulatória crescente sobre a indústria de carnes para evitar futuras pandemias zoonóticas.”

Recentemente, a China suspendeu importações de carne de quatro unidades de processamento no Brasil devido a surtos de COVID-19. Esse cenário ganhou contornos socioambientais dramáticos na fábrica da JBS em Dourados (MS) após contaminação em massa de funcionários indígenas. Líderes das aldeias da região já contabilizam 201 pessoas contaminadas e uma morte — um homem de 56 anos de idade. 33 dessas pessoas infectadas são trabalhadores da empresa, e a maioria das outras vítimas são membros das comunidades às quais esses funcionários pertencem — quase todos Guarani Kayowá, uma das etnias mais ameaçados do país.

O surto na JBS transformou Dourados, uma cidade de 210 mil habitantes, no epicentro do novo coronavírus no estado de Mato Grosso do Sul, com 2.670 casos. Comparativamente, a capital do estado, Campo Grande, com uma população de 700 mil habitantes, conta com pouco mais 1.400 casos. Na cidade de Trindade do Sul, no sul do Rio Grande do Sul, uma planta da JBS também causou a propagação da doença entre funcionários indígenas.

Os dois casos de funcionários da Seara que moram em Rio Brilhante foram descobertos em barreira sanitária (Foto: Divulgação)Com 36 casos, indústria da JBS espalha coronavírus em cinco municípios do Mato Grosso do Sul- CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS

Os Povos Indígenas são mais vulneráveis ​​à atual crise sanitária devido à dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Ao mesmo tempo, empresas de carnes favorecem a disseminação do novo coronavírus por serem ambientes úmidos, com pouca circulação de ar e baixas temperaturas. O barulho das máquinas de refrigeração faz as pessoas gritarem para serem ouvidas, espalhando gotas de saliva no ar. O modelo de trabalho nessas fábricas não permite uma distância segura de 1,5 metro, além da existência de pontos de aglomeração de trabalhadores. Frigoríficos são considerados serviços essenciais.

Tendência de taxação sobre emissões

O relatório afirma que a legislação progressiva deve vincular as receitas provenientes dos impostos sobre a carne a benefícios sociais específicos, como preços mais baixos de frutas e legumes ou apoio aos agricultores para uma transição ecológica. Para tanto, foram avaliadas discussões políticas recentes sobre novos impostos sobre a carne, incluindo um estudo encomendado pelo governo holandês sobre “preços justos da carne” e um projeto de lei na Nova Zelândia. Se aprovada, a nova legislação tributará emissões da pecuária dentro do chamado Esquema de Comércio de Emissões, que entra em vigor no país a partir de 2025.

Jeremy Coller, fundador da FAIRR e diretor de investimentos da Coller Capital, avalia que “existe um consenso crescente de que não podemos alcançar o Acordo Climático de Paris a menos que lidemos com a agricultura industrial – um setor que emite mais gases de efeito estufa do que todos os aviões, trens e carros do mundo juntos.”

“O governo da Nova Zelândia criou uma lei para medir e precificar as emissões das fazendas a partir de 2025, e há um risco claro para o setor de que outros reguladores sigam o exemplo”, avalia o diretor, que alerta que investidores estão começando a considerar esse aspecto em suas avaliações de longo prazo sobre empresas de carne.

“Desde o relatório de 2017 da FAIRR sobre tributação da carne, a conversa sobre o preço da carne na Europa mudou completamente”, avalia Jeroom Remmers, diretor da True Animal Protein Price Coalition (TAPP). “Fundamentalmente, a Coalizão TAPP descobriu que a maioria dos consumidores agora apoia mais impostos sobre carne, se outros produtos alimentícios, como vegetais, diminuírem de preço, e legisladores como a Comissão da União Europeia estão mais receptivos do que nunca.”

Para Rommers “é vital que investidores como a rede FAIRR usem sua influência para garantir que os preços dos alimentos reflitam os custos reais de poluição, emissões e desmatamento em suas cadeias de fornecimento.”

Para Faith Ward, diretora de investimentos responsáveis ​​da Brunel Pension Partnership, o impacto climático da carne provavelmente apresenta os maiores riscos materiais para os investidores a longo prazo. “A pesquisa da FAIRR mostra que a carne está em um caminho claro que provavelmente terminará com tributação de alguma forma, a fim de reduzir seu impacto no clima. Investidores perspicazes devem se aproximar das discussões sobre esse assunto para ficar à frente da curva.”

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