O futuro da Uenf está sob a égide de um pacto pela mediocridade

pacto

Quando comecei a trabalhar na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) em 1998, a instituição vivia todas as dificuldades que cercam instituições que se encontram pouco além do seu nascedouro. Mas a instituição também pulsava com grande energia, ainda que com contradições, muito em parte à adoção de um ciclo básico comum (o famoso CBC), em que os estudantes, independentes de sua futura opção profissional, eram submetidos a uma formação de claro caráter humanista.

Passados 22 anos, a Uenf hoje está afundada em uma situação inaudita, parcialmente por causa da pandemia da COVID-19, em que os espaços para o pensamento crítico e criativo foram substituídos por uma mentalidade que mistura paternalismo e populismo, o que contribui para fossilizar o processo pedagógico, ainda que sob a cobertura do uso de ferramentas digitais, que deveriam representar justamente o contrário.

A verdade é que ao abraçar a visão de que oferecer qualquer coisa é melhor do que nada, a reitoria da Uenf criou uma modalidade de ensino remoto (à revelia dos colegiados responsáveis por definir os elementos pedagógicos que devem ser seguidos na instituição) em que os estudantes não poderão ter notas ou frequência assinaladas, podendo a desistência de participar de uma Atividade Acadêmica Remota Emergencial (AARE) se dar a qualquer momento, sem que isso implique em qualquer ônus para quem opte por assim proceder. Mas apesar disso, um dado estudante poderá requisitar a convalidação de créditos para as disciplinas presenciais a que uma dada AARE esteja relacionada.  Em outras palavras, está se abrindo as portas para que até disciplinas do chamado ciclo profissional possam ser validadas, sem que necessariamente haja como comprovar que isso ocorreu dentro dos necessários padrões de avaliação de performance. Afinal, que estudante irá se preocupar em dar o máximo de si em uma condição de tamanha flacidez de requisitos? Provavelmente aqueles que iriam ter os melhores desempenhos e, por isso, serão os mais prejudicados pela inexistência de avaliações com notas.

Tamanha falta de aderência às práticas reinantes em outras instituições públicas de ensino (na Uerj, por exemplo, as disciplinas oferecidas remotamente serão passíveis de anotação de nota e frequência) é uma concessão à precariedade reinante em função do não cumprimento da Constituição Estadual que determina que o orçamento da Uenf que foi aprovado pela Assembleia Legislativa seja repassado na forma de duodécimos.

sim card uerjAo contrário do que está ocorrendo na Uenf, a Uerj distribuiu SIM CARDs para garantir o acesso dos seus estudantes carentes a um sistema de aulas virtuais

Em função da penúria financeira, não há como sequer garantir que todos os estudantes possam frequentar regularmente as AAREs oferecidas pela Uenf. Mas mais do que isso, os custos desse oferecimento recaem totalmente sobre docentes que estão há mais de 6 anos com salários congelados e que permanecerão nessa condição, pelo menos, até o final de dezembro de 2021.

Mas o curioso é que, em vez de exigir que os mesmos padrões de acessão digital garantidos pela reitoria da Uerj sejam oferecidos aos estudantes da Uenf, o Diretório Central dos Estudantes (em clara combinação com a reitoria da instituição) apenas se mobilizou para instruir o alunado a informar dos docentes que estejam “infringindo” a determinação de que não sejam aferidas notas ou frequências nas chamadas AAREs (ver imagem abaixo).

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Em vez de cobrar da reitoria da Uenf a entrega de SIM CARDs como fez a da Uerj, o DCE UENF resolveu que seria melhor instruir os estudantes a monitorarem o comportamento dos professores

Essa postura no tocante às AAREs é reveladora da existência de um pacto pela mediocridade, em que, por um lado, a reitoria não garante o acesso universal a um sistema de disciplinas remotas que possam efetivamente ser utilizadas para cumprir os requisitos acadêmicos vigentes na instituição e, por outro lado, o sindicato dos estudantes não cumpre o seu papel de exigir que as condições mínimas de qualidade acadêmica sejam garantidas para todo o corpo discente.

O problema desse pacto poderá, no caso dos estudantes, aparecer na hora em que tiverem de solicitar seu registro em algum tipo de conselho profissional onde o cumprimento das grades curriculares é avaliado criteriosamente antes que um profissional recém-formado seja aceito. Já no tocante à instituição, a vigência desse pacto pela mediocridade poderá efeitos deletérios duradouros, pois estabelecidos critérios rebaixados para a formação de seus estudantes se cria uma grande dificuldade para o retorno a outros que tenham natureza mais exigente. 

Por isso é importante que aqueles que esperam sempre mais da Uenf saibam que a instituição criada por Darcy Ribeiro para cumprir os mais altos desígnios em prol do desenvolvimento do Norte Fluminense se encontra fortemente ameaçada naquilo que lhe deveria ser mais caro: oferecer ensino público, gratuito e de alta qualidade.

4 pensamentos sobre “O futuro da Uenf está sob a égide de um pacto pela mediocridade

  1. asedthy disse:

    Caro professor, não fale do que não sabe a representação dos alunos está em contato direto e constante com a reitoria sobre os chips e o que está impedindo a uenf de destribuir os mesmos é o repasse de verbas, que todos sabemos que nunca foi igual em questão de tempo entre UERJ e UENF.
    Em relação a aprovação sem nota onde tá essa parte nas resoluções, pelo entendimento da maioria dos colegiados e câmaras, não constará nota no extrato porém o professor avalia da forma que desejar, final do período envia para a secretária Acadêmica a lista dos alunos aprovados pelo professor e a equivalência será lançada no sistema e no extrato do aluno constará aprovado e não uma nota, como de costume, visto que AAREs não são disciplinas para se terem notas no Acadêmico.

    • O que eu acho interessante é que estamos em outubro e nada de SIM Cards. Pelo jeito esse contato com a reitoria não está sendo, digamos, eficiente. Em relação à forma pela qual está se tratando as AAREs de forma alguma reflete a opinião dos colegiados de graduação e pós-graduação, e representam uma intervenção por cima no que foi amplamente debatido nesses colegiados. E essa coisa de que as AAREs não são disciplinas apenas serve para esconder a extrema precariedade em que os docentes que se dispuseram a oferecer ensino remoto estão tendo que trabalhar. Esconder isso é um desserviço aos estudantes que deveriam estar sendo representados pelo DCE e CAs. Essa é a verdade!

  2. asedthy disse:

    A Reitoria depende do repasse da Alerj. Se não reflete a opinião do colegiado de graduação pq os membros dos colegiados aprovaram ? Se a maioria aprovou reflete a opinião do colegiado, colegiado esse que de alguma forma foi eleito para as suas cadeiras, logo não vejo problema no que eles aceitam ou não, faz parte do jogo democrático. Do mesmo modo como foi aprovada as normas de graduação de 2019, os alunos não gostaram mas não se viu greve, paralização, post de CA, DCE contra colegiado, aduenf nem nada,, parece para quem está de fora que os “derrotados” no colegiado não estão aceitando a “derrota”.
    Mas se os docentes estão com dificuldades tem que levar isso até a aduenf igual os discentes fazem com os seus problemas levando para o DCE, para a aduenf brigar pelos direitos dos professores, além do fato das AAREs serem optativas para os discentes só quem tem “condições”/matéria que permite e está confortável que liberou a AARE. Tem professor que liberou AARE que não vai contar como equivalência e os alunos estão cientes e indo nessas aulas que ele sabe que não vai receber equivalência.

    • A UENF não depende da Alerj para repasses, pois quem deve fazer isso é a Secretaria de Fazenda, pois temos um orçamento aprovado para 2020. Você deveria se informar melhor sobre o que foi aprovado nos colegiados de graduação e pós que é diferente daquilo que foi depois sacramentado, inexplicavlemente, pelo Consuni. E aqui não há derrota para os docentes, mas sim para os estudantes que estão tendo negado o direito a um ensino de qualidade pela inexistência de um acesso de qualidade às AAREs, sendo que muitos sequer estão podendo acessar. Muitos docentes, com é o meu caso, estão pagando com seus próprios salários o custo do oferecimento das AAREs. Se você acha isso normal, eu não. Sobre a equivalência, obviamente com as condições aprovadas pelo Consuni, há muita AARE que não pode ser equivalente à disciplinas presenciais, até porque os conselhos profissionais não aceitariam isso. A verdade é uma só: ao se aceitar o oferecimento de AAREs em condições precárias abriu-se as portas para todo tipo de insuficiência. E não venham culpar os professores, pois eles estão trabalhando como eu disse às custas do próprio salário, e ninguém deveria ter que pagar para trabalhar. Ou teria?

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