Ao danificar vasos sanguíneos, cloroquina pode piorar COVID-19, sugere estudo

Ensaios in vitro mostraram que substância causa disfunção nas células endoteliais, presentes nos vasos, o que prejudica circulação sanguínea e órgãos como coração e pulmões. Conclusão de pesquisador é de que efeito colateral agrava uma das principais condições de mortalidade da doença provocada pelo novo coronavírus, anulando potenciais benefícios

Pesquisa constatou que cloroquina causou stresse oxidativo e danos em células endoteliais, presentes nos vasos sanguíneos, o que pode potencializar tromboses causadas pelo novo coronavírus. Foto: Daniel Foster/Flickr, 2018.Pesquisa constatou que cloroquina causou estresse oxidativo e danos em células endoteliais, presentes nos vasos sanguíneos, o que pode potencializar tromboses causadas pelo novo coronavírus. Foto: Daniel Foster/Flickr, 2018.

Por João Cubas para o Ciência UFPR

Um estudo realizado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) concluiu que a cloroquina provoca danos em células endoteliais, presentes em todos os vasos sanguíneos do corpo humano. Os resultados estão no artigo “Chloroquine may induce endothelial injury through lysosomal dysfunction and oxidative stress“, publicado na revista Toxicology and Applied Pharmacology.

A pesquisa foi conduzida durante o doutorado de Paulo Cézar Gregório, do Programa de Pós-Graduação em Microbiologia, Parasitologia e Patologia da UFPR, sob a orientação da professora Andréa Emília Marques Stinghen, do Departamento de Patologia Básica e do professor Fellype de Carvalho Barreto​, do Departamento de Medicina Interna da UFPR.

Para chegar a essa comprovação, o pesquisador trabalhou com linhagens de células endoteliais humanas extraídas de vasos sanguíneos, que foram cultivadas na presença de cloroquina, em concentrações incapazes de causar sua morte celular, por até 72 horas.

Observou-se que, durante esse período, a célula induziu significativamente o acúmulo de organelas ácidas, aumentou os níveis de radicais livres e diminuiu a produção de óxido nítrico, levando ao estresse oxidativo e dano celular. Este processo, chamado de disfunção endotelial, pode resultar no funcionamento incorreto ou até na morte da célula.

“Ela para de produzir substâncias que a protegem e passa a produzir em excesso substâncias tóxicas”, resume a professora Andrea. Ainda de acordo com a hipótese do estudo, a disfunção endotelial pode afetar a circulação sanguínea, e por consequência, órgãos como coração, rins e pulmões.

Lesões celulares podem contribuir para maus resultados do uso da cloroquina contra a COVID-19

O comportamento das células cultivadas em laboratório é semelhante a de células endoteliais infectadas pelo vírus Sars-Cov-2. Por isso, os pesquisadores concluem que a lesão nas células pode contribuir com o fracasso da cloroquina como terapia para o tratamento da COVID-19. Embora haja diminuição da replicação viral in vitro, o uso da substância traz reações adversas.

“Se por um lado, a cloroquina pode diminuir a replicação viral, por outro promove uma citotoxicidade que pode potencializar a infecção viral”, enfatiza Gregório.

Efeitos de diferentes concentrações de cloroquina nas células endoteliais: nas doses maiores, substância reduz viabilidade celular. Nas menores, causa estresse oxidativo e cria condições para a formação de trombos. Ilustração: Aspec/UFPR
Efeitos de diferentes concentrações de cloroquina nas células endoteliais: nas doses maiores, substância reduz viabilidade celular. Nas menores, causa estresse oxidativo e cria condições para a formação de trombos. Ilustração: Aspec/UFPR

Outras pesquisas já comprovam que a alta mortalidade nos casos graves de covid-19 é relacionada à micro ou macrotrombose, ou seja, à lesão celular endotelial. Por isso, os resultados do estudo são importantes para endossar a comprovação clínica, conforme explica Stinghen: “Já está provado que a covid causa muitos problemas de coagulação e de circulação. Com isso, conseguimos ligar esses efeitos que observamos nas células, aos que os pacientes apresentam clinicamente”.

Prescrição tradicional da cloroquina contra doenças graves considera custo e benefício

A cloroquina já é utilizada há muitos anos para o tratamento de malária e doenças autoimunes, como o lúpus. Sobre o uso já consolidado, Gregório enfatiza que, ao utilizar qualquer medicamento, deve-se pesar os riscos e benefícios, pois não existe medicamento sem efeitos adversos. “É preferível controlar doenças graves em troca dos efeitos colaterais da cloroquina. Assim é com toda terapia comprovada para alguma doença. Os benefícios têm que superar os riscos”, avalia.

Gregório foi bolsista Capes (Doutorado Sanduíche) entre 2016 e 2020 e realizou parte se seus estudos na Universidad Autónoma de Madrid e na Fundación Jiménez Díaz, na Espanha. O projeto também contou com bolsistas de Iniciação Científica e recebeu verbas do Edital de Apoio de Atividades de Pesquisa da UFPR.

fecho

Este texto foi inicialmente publicado pelo Ciência UFPR [Aqui!  ].

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