“The Lancet” publica artigo negando benefícios da cloroquina no combate à COVID-19

Did chloroquine really fail a COVID-19 study—or was the trial ...Estudo científico mostra que cloroquina e hidroxicloroquina são ineficazes no combate à COVID-19, com ou sem o acompanhamento de antibióticos

Uma das principais, senão a principal, revista científica na área da Medicina, a “The Lancet” acaba de publicar um artigo que nega quaisquer benefícios associados ao uso da cloroquina ou da hidroxicloroquina no tratamento da COVID-19.

cloroquina trial

De autoria de pesquisadores ligados ao  Brigham and Women’s Hospital Heart  e ao Vascular Center and Harvard Medical School (Massachusets, EUA),  à Surgisphere Corporation (Illinois, EUA), à University Heart Center, University Hospital Zurich (Suiça), ao Department of Biomedical Engineering da Universidade de Utah (Utah, EUA), e ao HCA Research Institute (Tennessee, EUA), o artigo aponta de forma categórica que “não foi possível confirmar o benefício da hidroxicloroquina ou cloroquina, quando usado isoladamente ou com um macrólido (pertencentes a um grupo de antibióticos de amplo espectro), nos resultados hospitalares do COVID-19. Cada um desses esquemas medicamentosos foi associado à diminuição da sobrevida hospitalar e a um aumento da frequência de arritmias ventriculares quando usado no tratamento do COVID-19“.

Este novo estudo é provavelmente um dos (senão o mais) robustos realizados sobre o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina, na medida em que inclui resultados obtidos com 96.032 pacientes (idade média 53,8 anos, 46,3% mulheres) que tiveram COVID-19  e foram hospitalizados durante o período do estudo, tendo preenchido critérios de inclusão. Os autores informam ainda que 14.888 pacientes analisados estavam nos grupos de tratamento (1868 receberam cloroquina, 3783 receberam cloroquina com um macrólido, 3016 receberam hidroxicloroquina e 6221 receberam hidroxicloroquina com um macrólido, sendo que  81.144 pacientes foram colocados no chamado grupo de controle. O resultado final é que 10.698 (11,1%) pacientes morreram no hospital.

Como se vê, quando submetido a uma análise  rigorosa, o mito da utilidade da cloroquina e da hidroxicloroquina para combater a COVID-19 se esfarela rapidamente, não resistindo ao exame próprio de quem realmente tem a capacidade de analisar dados científicos. Por isso, enquanto a comunidade cientifica não produz as alternativas eficazes contra a COVID-19, a melhor alternativa continua e continuará sendo o isolamento social, independente do que pensem os bufões que eventualmente são eleitos para presidir países como o Brasil (Jair Bolsonaro) e os EUA (Donald Trump).

Diário do Centro do Mundo revela que apologia à tortura é o verdadeiro significado da tubaína de Jair Bolsonaro

O verdadeiro sentido da “tubaína” de Bolsonaro: gíria de quartéis para tortura por afogamento

BOLSONARO QUEM É DE ESQUERDA TOMA TUBAÍNA QUEM É DE DIREITA TOMA ...

Por Tchelo para o DCM

A falta de respeito de Bolsonaro com as vidas perdidas por causa do Coronavírus, justamente no dia em que, basicamente, morreu um brasileiro por minuto em 24 horas, vai além de uma piada tosca que rima palavras com final “ina”.

Se fosse só para desdenhar a gravidade da pandemia, Bolsonaro poderia ter usado outra rima: brilhantina, nitroglicerina, parafina, água de piscina…

A palavra tubaína não foi escolhida por acaso. Foi escolhida a dedo.

Tubaína é, na verdade, “entuba aí, né”.

O trocadilho é a forma mais pobre de se fazer uma piada. Um jogo de palavras com duplo sentido, bobo e infame que qualquer tiozão consegue fazer. Tipo, “ela queria dar o furo”, sacou?

Ao dizer que quem é de direita toma Cloroquina e quem é de esquerda, tubaína, o presidente faz pouco caso dos brasileiros que contraírem o vírus, insinuando que os que não tomarem o medicamento serão entubados.

Na verdade, repetiu uma piada interna, daquelas que só um círculo de amigos compreende. Talvez por isso tenha passado batido para a maioria das pessoas.

Ao final ele pergunta: entendeu? Deixa claro que existe um segundo sentido. Há quem diga que nos bastidores do Planalto ele faz essa piada baixa faz tempo.

Sabe-se também que tubaína é uma gíria usada em quartéis para a técnica de tortura por afogamento em que se coloca um funil na garganta do torturado e despeja-se água sem parar.

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A “tortura d´água” é uma prática que foi utilizada pela Inquisição durante a Idade Média e consistia em colocar um funil na garganta de um indivíduo e despejar a água sem parar. Tal técnica recebeu nos centros de tortura da Ditadura Militar o apelido de tubaína.

Seguida de sua risada forçada, amedrontadora, a piada de Bolsonaro tenta estimular seu gado a rir com ele, como faz em suas visitas matinais ao puxadinho do planalto.

Nessas ocasiões sempre existem alguns apoiadores que riem enlouquecidamente de suas investidas malcriadas. Será que tem gente contratada para rir dessas desgraças na tentativa de transformar as grosserias do presidente em piada, e assim aliviar o absurdos expelidos pelo seu Jair?

É, ontem foi publicada a mudança no protocolo que libera o uso da cloroquina para uso preventivo.

O próprio sujeito, que todos sabem não ser médico, diz que guarda uma caixinha do remédio para medicar sua mãe de 93 anos em caso de necessidade.

Será que ele realmente administraria o medicamento nela mesmo sabendo – ou fingindo não saber – dos riscos da automedicação?

Atingimos um novo patamar na República do Tio do Pavê.

Agora temos a Presidência do Entuba Aí Né.

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Esta postagem foi originalmente publicada pelo site “Diário do Centro do Mundo” [Aqui!].

Sleeping Giants ganha versão brasileira para dificultar financiamento de fake news por empresas

Movimento expõe empresas do Brasil que financiam, via anúncios, sites de extrema direita e notícias falsas

Movimento expõe empresas que financiam sites bolsonaristas ...

Inspirada em modelo dos EUA, versão brasileira da conta Sleeping Giants alerta companhias sobre publicidade em páginas que ajudam a propagar a desinformação. Banco do Brasil, Dell, O Boticário, Submarino e Telecine retiram propaganda

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Telecine e Dell se comprometeram a vetar a anúncios em página denunciada por fake news.

Por Breiller Pires para o jornal “El País”

Com o intuito de minar a sustentação econômica de sites e canais ligados à extrema direita, o movimento Sleeping Giants, nascido há quatro anos, nos Estados Unidos, fincou bandeira em solo brasileiro no último domingo. Após ler uma reportagem do EL PAÍS sobre o perfil no Twitter que desidratou a publicidade online dos principais influenciadores ultraconservadores norte-americanos, um estudante que desenvolve pesquisas a respeito de fake news decidiu criar uma conta em português para difundir prática semelhante no Brasil: alertar empresas de que seus anúncios aparecem em conteúdos pouco confiáveis, associados a notícias falsas e desinformação, e alimentam o financiamento de páginas extremistas.

“Sempre pensei em formas de combater notícias falsas, mas nunca havia encontrado uma eficiente”, diz o administrador da versão brasileira, que, em apenas dois dias, ganhou mais de 20.000 seguidores. “Até que descobri essa maneira simples de aplicar usando a desmonetização.” Por questões de segurança, ele prefere não se identificar e celebra ter obtido aval dos precursores do Sleeping Giants para replicar a iniciativa. Seu fundador na matriz, o publicitário Matt Rivitz, recebeu ameaças de morte depois de um site conservador revelar sua identidade.

Enquanto a conta original norte-americana se define como “um movimento para tornar o fanatismo e o sexismo menos lucrativos”, o perfil adaptado ao contexto político brasileiro pretende “impedir que sites preconceituosos ou de fake news monetizem através da publicidade”. Em pouco tempo de atuação, o Sleeping Giants Brasil já conseguiu que pelo menos seis empresas se comprometessem a revisar políticas de anúncios via Google após serem alertadas de que suas marcas estampavam a página Jornal da Cidade Online. Em 2018, o site disseminou notícias falsas e informações distorcidas a favor da campanha de Jair Bolsonaro, como um artigo insinuando que, no segundo turno da eleição, Ciro Gomes teria se decidido pelo voto no candidato de extrema direita.

Agências de checagem como a Aos Fatos atribuem outras fake news à página, que atualmente tem se dedicado a atacar governadores que apoiam as medidas de isolamento social no enfrentamento à pandemia de coronavírus e, em sintonia com as redes bolsonaristas, utiliza dados imprecisos para defender a eficácia (não comprovada por estudos científicos) da hidroxicloroquina no tratamento da doença. Jornal da Cidade Online exibe anúncios por meio do sistema de publicidade digital desenvolvido pelo Google.

Um dos anunciantes expostos no Sleeping Giants Brasil que aparecem no site é o Telecine, primeiro a manifestar publicamente a intenção de retirar sua propaganda da página alinhada à extrema direita. “Somos totalmente contra a disseminação de fake news e precisamos, juntos, combatê-la”, expressou o perfil do canal fechado ao assumir o compromisso de analisar todos os portais que veiculam seus anúncios. “Restringimos e estamos sempre atentos para não estarmos em sites questionáveis voltados à disseminação de fake news, difamação e linguagem grosseira, conteúdos sensacionalistas e chocantes e propagação de mensagens de ódio, afirma o Telecine. “As restrições que incluímos diminuem drasticamente a probabilidade de termos nossas campanhas veiculadas em sites contrários às nossas políticas, e o trabalho dos nossos times é incansável para corrigir eventuais falhas que possam ocorrer com mídias automatizadas.”

A Dell, que também aparece em banners exibidos pelo Jornal da Cidade Online, atendeu à solicitação do Sleeping Giants Brasil. “Assim que recebemos essa informação, solicitamos a retirada dos anúncios automáticos. Repudiamos qualquer disseminação de notícias falsas.” Em nota enviada ao EL PAÍS, a empresa de computadores diz manter parceria com a DoubleVerify, serviço que mede a efetividade das entregas de anúncios, para monitorar suas campanhas publicitárias, além de possuir “uma extensa lista de negativação de sites de fake news e com conteúdo duvidoso, que é constantemente atualizada”.

Nesta quarta, o Submarino afirmou ter bloqueado anúncios no Jornal da Cidade Online e estar tomando providências para barrar sites semelhantes. “Caso vejam mais outro caso, podem me mandar, tá? Obrigado por avisarem!”, postou o perfil da empresa. O Banco do Brasil também comunicou a retirada de propagandas do site, repudiando a divulgação de fake news, o que gerou reação do vereador Carlos Bolsonaro. O filho do presidente criticou a decisão da entidade e saiu em defesa do Jornal da Cidade Online. “Marketing do Banco do Brasil pisoteia em mídia alternativa que traz verdades omitidas. Não falarei nada pois dirão que estou atrapalhando…”, comentou o vereador do Rio de Janeiro.

Outras grandes empresas e marcas como O Boticário e Samsung são citadas por seguidores do Sleeping Giants Brasil entre anunciantes do Jornal da Cidade Online, que tem o topo da página preenchido por um anúncio fixo do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS). A reportagem do EL PAÍS ainda identificou anúncios da Polishop no site. Segundo o marketing da empresa, a propaganda exibida se baseia na ferramenta de display do Google, que rastreia sites recentemente visitados por usuários ao direcionar anúncios. O TCE-MS não respondeu aos questionamentos enviados ao órgão.

Em nota, a Samsung afirma aplicar o bloqueio padrão a sites que propagam desinformação e que revisa constantemente seus anúncios automáticos para aprimorar as inserções. “A Samsung reforça seu compromisso ético com a transparência e reitera que não compactua com a disseminação de notícias falsas”, escreve a empresa de tecnologia, que não especificou se o Jornal da Cidade Online se encaixa em seus parâmetros de páginas que deveriam ser bloqueada. Já O Boticário informou que incluiu o Jornal da Cidade Online em uma lista de sites vetados em campanhas online, identificados como páginas tendenciosas ou de conteúdos sensíveis a exemplo de álcool, drogas e violência. “Quando percebemos algo que passou despercebido, incluímos imediatamente na lista de bloqueios”, diz a marca de beleza. “Nossos parceiros são escolhidos de acordo com o perfil do nosso consumidor, somado às especificidades da mensagem que queremos passar. E grande parte da entrega do Google é pautada em mídia programática, pois foca nos usuários, e não no anunciante.”

Sistema permite vetar sites e canais específicos

Mídia programática é uma das maiores fontes de receita de sites e influenciadores de extrema direita. A ferramenta proporciona aos anunciantes a compra de espaços publicitários de acordo com dados de usuários da internet, enquanto produtores de conteúdo recebem por visualizações e cliques em anúncios exibidos em suas páginas. O serviço é oferecido por plataformas como Facebook e Google, desenvolvedor do Adsense, um dos meios de publicidade mais populares do mercado. Entre seus filtros de controle, as empresas podem evitar que anúncios sejam veiculados para determinados grupos de pessoas, em conteúdos peneirados por palavras-chave ou até mesmo em páginas específicas negativadas pelo anunciante.

“Entendemos que os anunciantes podem não desejar seus anúncios atrelados a determinados conteúdos, mesmo quando eles não violam nossas políticas”, afirma o porta-voz do Google. “Temos políticas contra conteúdo enganoso em nossas plataformas e trabalhamos para destacar conteúdo de fontes confiáveis. Agimos rapidamente quando identificamos ou recebemos denúncia de que um site ou vídeo viola nossas políticas.” De acordo com a empresa, somente em 2019, mais de 21 milhões de páginas tiveram anúncios retirados e 1,2 milhão de contas foram encerradas por desrespeitar as regras da plataforma.

Em seu perfil, o Sleeping Giants Brasil ressalta que, devido ao sistema de anúncios em larga escala, “a maioria das empresas não sabe que está financiando esse tipo de mídia [de extrema direita ou propagação de fake news], então buscamos conscientizá-las”, em vez de promover campanhas de boicote às marcas, para que retirem propagandas de conteúdos sensacionalistas e, consequentemente, os desmonetizem. No YouTube, que também é gerido pelo Google, a reportagem identificou mais ações de publicidade exibidas em canais ultraconservadores.

Uma campanha da Mastercard, estrelada chef de cozinha Alex Atala, precede o início de vídeos do canal O Giro de Notícias (GDN), com mais de 1 milhão de inscritos. Em publicações recentes, o apresentador bolsonarista Alberto Silva se concentra em incitar manifestações pelo fim do Congresso e do STF, além de minimizar o impacto da pandemia no país. No último dia 6 de maio, ele subiu um vídeo com o título “Urgente – Descoberta a cura do Covid-19”, em que repercute matéria do Estadão sobre uma pesquisa holandesa em torno de um anticorpo com potencial para neutralizar o coronavírus. Embora leia a parte da notícia que destaca a necessidade de mais testes antes de certificar a eficácia do anticorpo em seres humanos, Silva trata o estudo como “cura”, além de identificar a repórter que assina a matéria como cientista. Em 2017, a Justiça do Rio de Janeiro determinou que um site mantido pelo influenciador retirasse do ar uma notícia que atribuía afirmação falsa ao cantor Gilberto Gil.

Campanha da Mastercard veiculado em vídeo de canal bolsonarista.
Campanha da Mastercard veiculado em vídeo de canal bolsonarista.

No vídeo em que aparece o anúncio da Mastercard, o apresentador relata que o PT estaria “fazendo reunião na calada da noite” com “a turma do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, entre outras pessoas, com o objetivo dpegar o presidente Bolsonaro”. Entretanto, ao longo da fala de 10 minutos, Silva não menciona quando nem onde teria acontecido a suposta reunião. “A mídia programática é uma parte importante de nossa estratégia e mix de marketing em geral”, escreve a Mastercard em comunicado enviado ao EL PAÍS. “Estamos monitorando continuamente essa abordagem, fazemos ajustes contínuos para que nosso conteúdo seja exibido apenas em canais adequados e comprometidos com altos padrões éticos de publicidade, não apoiando a disseminação de notícias falsas.”

O EL PAÍS ainda registrou anúncios de produtos, que direcionam para a loja online da Drogaria São Paulo, em vídeos do Folha Política. Com quase 2 milhões de inscritos, o canal é derivado de um site homônimo, que, em 2018, teve páginas derrubadas pelo Facebook por propagação de notícias falsas e uso de técnicas irregulares que criavam uma espécie de “fazenda de anúncios” em mídia programática. Apesar da Drogaria São Paulo divulgar em seu site vídeos do médico Drauzio Varella alertando sobre a necessidade de cumprimento das recomendações de isolamento social e a falta de comprovação científica da eficácia da hidroxicloroquina, seus anúncios surgem em vídeos do Folha Política que incentivam aglomerações em protestos a favor do presidente Jair Bolsonaro e fazem lobby pela liberação do medicamento para tratamento do coronavírus. A rede de farmácias não respondeu aos questionamentos da reportagem.

No vídeo em que aparece o anúncio da Mastercard, o apresentador relata que o PT estaria “fazendo reunião na calada da noite” com “a turma do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, entre outras pessoas, com o objetivo de pegar o presidente Bolsonaro”. Entretanto, ao longo da fala de 10 minutos, Silva não menciona quando nem onde teria acontecido a suposta reunião. “A mídia programática é uma parte importante de nossa estratégia e mix de marketing em geral”, escreve a Mastercard em comunicado enviado ao EL PAÍS. “Estamos monitorando continuamente essa abordagem, fazemos ajustes contínuos para que nosso conteúdo seja exibido apenas em canais adequados e comprometidos com altos padrões éticos de publicidade, não apoiando a disseminação de notícias falsas.”

O EL PAÍS ainda registrou anúncios de produtos, que direcionam para a loja online da Drogaria São Paulo, em vídeos do Folha Política. Com quase 2 milhões de inscritos, o canal é derivado de um site homônimo, que, em 2018, teve páginas derrubadas pelo Facebook por propagação de notícias falsas e uso de técnicas irregulares que criavam uma espécie de “fazenda de anúncios” em mídia programática. Apesar da Drogaria São Paulo divulgar em seu site vídeos do médico Drauzio Varella alertando sobre a necessidade de cumprimento das recomendações de isolamento social e a falta de comprovação científica da eficácia da hidroxicloroquina, seus anúncios surgem em vídeos do Folha Política que incentivam aglomerações em protestos a favor do presidente Jair Bolsonaro e fazem lobby pela liberação do medicamento para tratamento do coronavírus. A rede de farmácias não respondeu aos questionamentos da reportagem.

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Esta reportagem foi originalmente publicada pelo jornal El País [Aqui!].

Em meio aos caos criado por Jair Bolsonaro, Brasil atinge a marca macabra de 1.000 mortes diárias

Bolsonaro e Mandetta ignoram recomendação de uso de máscara contra ...

Há quatro dias atrás, o insuspeito jornal “The Washington Post” publicou uma matéria intitulada “Drug promoted by Trump as coronavirus ‘game changer’ increasingly linked to deaths” (o que em português pode ser lido como ” Droga promovida por Trump como “divisor de águas” do coronavírus cada vez mais ligada a mortes”. Obviamente, o artigo assinado pelo trio de jornalistas Toluse OlorunnipaAriana Eunjung Cha e Laurie McGinley falava da hidroxicloroquina, uma variante menos tóxica da hoje famigerada Cloroquina.  O vaticínio final do artigo foi de que as evidências em prol do uso da cloroquina a partir de estudos sérios não são apenas ausentes, mas como estão confirmados vários malefícios do uso do medicamento.

wp cloroquina

Enquanto isso, o congênere brasileiro de Donald Trump, o presidente Jair Bolsonaro continuou sua cruzada dupla que, por um lado, insiste no fim das medidas de confinamento social em prol de uma suposta retomada dos empregos e, de outro, demanda a adoção generalizada da mesma cloroquina que foi desmoralizada como ineficiente na matéria mostrada acima.

Há que se lembrar que por causa da insistência na adoção generalizada da cloroquina, o Brasil perdeu em menos de um mês não apenas um, mas dois ministros da Saúde (Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich), e que estamos navegando a pandemia como um cego que tateia as paredes de uma caverna escura. É que o substituto interino de Nelson Teich, o general  Eduardo Pazuello, reconheceu ser um “leigo nas questões técnicas na área da saúde“.  Em outras palavras, o general Pazuello está desde a saída de Nelson Teich no lugar errado, e na nossa pior hora, quando se trata de enfrentar uma pandemia letal. 

vitimas covid-19

Hoje (19/05) veio a consequência mais concreta do caos que foi instalado no Ministério da Saúde, pois o Brasil acaba de superar a marca macabra de 1.000 mortes diárias  (o equivalente a 13 quedas do avião que vitimou a equipe da Chapecoense) por COVID-19, em um total de 1.179 óbitos em 24 horas, ou um morto a cada 73 segundos! Quando eu previ há algumas semanas que o caos sendo instalado na gestão da pandemia iria causar a chegada dessa quantidade de mortos, tive que conviver com a cara de espanto da pessoa com quem eu conversava.  Lamentavelmente, minha previsão estava certa, e agora temo que cheguemos a números ainda maiores do que os enfrentados em países como EUA, Itália, Espanha, Reino Unido e França.  

Por que essa previsão tão ruim? Simplesmente porque perdemos vários cavalos que passaram encilhados para não chegarmos a esta situação, mas a insistência do presidente Jair Bolsonaro de desacreditar as medidas de isolamento social, combinada com a aquiescência da maioria dos seus ministros, acelerou a curva de contaminação. Agora, nos resta esperar que o vírus siga o seu ritmo, enquanto a rede hospitalar ultrapassa a linha do colapso total.

Esse balanço é fundamental para que depois que passada a grande onda da pandemia, possamos fazer os devidos ajustes de conta com os responsáveis pela catástrofe que está se abatendo sobre um número incalculável de famílias brasileiras, especialmente aquelas vivendo nos grandes bolsões de pobreza que estão espalhados pelas grandes cidades brasileiras. 

Finalmente, para aqueles que estão hoje se perguntando sobre o que é realmente importante neste momento. Eu diria que é se manter saudável, aplicando as regras de confinamento social e de higiene pessoal que são, por enquanto, as ferramentas mais eficazes para se enfrentar a difusão acelerada do coronavírus.

Caos ambiental e descontrole da COVID-19 transformam o Brasil e os brasileiros em párias mundiais

Enterros triplicam, e cemitério de Manaus abre valas comuns para ...A transformação do Brasil no principal epicentro da pandemia da COVID-19 terá efeitos devastadores na sua já debilitada imagem internacional

Há algum tempo comecei a alertar que os inúmeros retrocessos ocorridos na frágil governança ambiental construída a duras penas por sucessivas governos iriam transformar o Brasil em uma espécie de pária ambiental no resto do mundo.  Em 2019 vimos uma sucessão de manifestações acerca dos incêndios devastadores que ocorreram na Amazônia graças ao afrouxamento da governança ambiental e das estruturas de comando e controle que impediam o avanço desenfreado de madeireiros e garimpeiros ilegais sobre as florestas protegidas na forma de unidades de conservação e terras indígenas.  

Aos incêndios na Amazônia ainda se somou o alarme no tocante à aprovação frenética de agrotóxicos altamente perigosos pelo governo Bolsonaro, o que resultou na sinalização da Rússia que iria parar de comprar a soja brasileira caso não fosse diminuída a quantidade de resíduos do herbicida Glifosato. Depois disso veio o anúncio da multinacional Nestlé de que suspenderia a compra de café do Brasil pelo mesmo motivo.

pesticidesA mistura de desmatamento descontrolado e uso intenso de agrotóxicos banidos  em outras partes do mundo tende a fechar mercados importantes para as commodities agrícolas brasileiras

Por cima disso ainda tivemos o incidente em Brumadinho com o rompimento de mais uma barragem de rejeitos da mineradora Vale que resultou no maior acidente de trabalho da história do Brasil, e da contaminação do Rio Paraopebas, afluente do Rio São Francisco.  Neste caso, o resultado prático foi o banimento da mineradora Vale pelo fundo soberano da Noruega, o mais rico do mundo, de seu portfólio de investimentos, o que deverá ser seguido por outros fundos de investimentos de porte similar. 

Incidente ambiental causado na mina em Brumadinho resultou no banimento da mineradora Vale pelo fundo soberano da Noruega, o maior do mundo

Pois bem, esses casos de desconstrução da governança ambiental já tinham causado um esgarçamento inédito da imagem do Brasil, e afastado investidores internacionais que retiraram do Brasil algo em torno de US$ 62 bilhões, sendo que apenas na Bolsa de Valores de São Paulo, a fuga de capitais foi de estrondosos US$ 44,5 bilhões.

Se tudo ia morro abaixo como fruto de ações do governo Bolsonaro que, para dar o devido o retorno aos segmentos que financiaram a eleição de Jair Bolsonaro, ignoraram a mudança de postura dentro das economias desenvolvidas em relação ao descuido com o meio ambiente, a coisa agora tomou area drásticos com a forma pífia de enfrentar a pandemia da COVID-19.

A verdade é que, a despeito de nuances aqui e ali, a imensa maioria dos governos mundiais adotou os protocolos sugeridos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no tocante às respostas a serem dadadas para combater a COVID-19. O Brasil, graças à forma não-científica e atabalhoada que está sendo empregada por Jair Bolsonaro e seus ministros do núcleo duro do seu governo, agora é visto como um dos poucos países (senão o único) onde a pandemia fugiu do controle do governo central. E isso por causa dos próprios vícios do chefe do executivo. Saliente-se que a coisa ainda poderia estar pior se não fosse pela ação de governadores e prefeitos que têm, limitadamente, se insurgido contra a vontade do presidente Bolsonaro, e adotado as sugestões da OMS.

China encara a fatura econômica de vencer o vírus | Economia | EL ...As ações do presidente Jair Bolsonaro no (des) controle da pandemia da COVID-19 têm contribuído para destruir significativamente a imagem do Brasil no exterior

Mas agora o estrago na imagem do Brasil já se tornou evidente, e o que se vê são os governos estrangeiros tentando esvaziar suas embaixadas em Brasília. E esse desdobramento terá consequências econômicas sérias, pois se os representantes desses governos forem removidos do território brasileiro por medida de segurança, o mesmo se dará com os dirigentes das empresas multinacionais. E, pior, isso implicará em mais fuga de capitais, agravando o desequilíbrio do câmbio, o que poderá provocar uma série de desabastecimentos, já que o Brasil de depende de insumos importados para quase tudo o que é produzido por nossa indústria, a começar pela farmacêutica.

Finalmente, haverá ainda consequências sanitárias para os brasileiros que ainda conseguirem viajar para fora do país após a pandemia, seja a turismo ou a trabalho. No momento, qualquer que chega na Europa tem que passar por uma quarentena de duas semanas. Esse prazo será provavelmente será aumentado, dependendo da progressão do número de contaminados e mortos pela COVID-19 nos próximos meses. No momento, já temos mais de 220 mil casos oficiais de contaminados e beiramos a marca de 15.000 mortos Mas esses valores são claramente subestimados, e se estima que a pandemia só regredirá a partir de meados de agosto. Até lá, dependendo do que for feito pelo governo Bolsonaro, o estrago na imagem do Brasil será irreversível, e seremos objetivamente transformados por um bom tempo em párias como país e como indivíduos, e deveremos ser tratados como uma espécie de casta de intocáveis.

Enquanto isso o desmatamento avança na Amazônia (o que causará incêndios ainda maiores dos ocorridos em 2019), o ministério da Agricultura continua aprovando agrotóxicos altamente perigosos como o Fipronil e o Dicamba, e o presidente Jair Bolsonaro insiste em colocar os brasileiros de volta em postos de trabalho inexistentes,  de preferência à base de cloroquina.  O único que, apesar de “surpreso”, parece já ter aprendido alguma coisa nessa situação toda foi o Sr. Junior Durski, da hamburgueria Madero, que previu que a COVID-19 causaria “apenas” algo em torno de 7.000 mortos. É que seus restaurantes reabertos continuam entregues às moscas por causa do medo dos clientes de se contaminarem enquanto mastigam seus sanduíches caros.  A Durski, eu digo apenas….  descobriu o elementar, meu caro Watson!

Cloroquina, o elefante na sala

“Como eu adoraria se um gênio brilhante, no estilo de Jeff Goldblum, descobrisse, em um canto de uma bancada suja de laboratório, o tratamento milagroso para o SARS-cov-2! Mas não estamos no estilo de Hollywood blockbuster. “

Por Leonid Schneider

A postagem que segue abaixo, do clínico francês Christian Lehmann, é sobre terapias com cloroquina ou hidroxicloroquina contra o coronavírus e, claro, sobre Didier Raoult, diretor do agora famoso (ou infame) hospital de pesquisa IHU Méditerranée Infection em Marselha, França. Eu publiquei anteriormente dois artigos a esse respeito, aqui e aqui.

Lehmann é clínico geral há 36 anos. Em 2018, ele pertencia a uma equipe de médicos que conseguiu o término do financiamento de saúde pública para homeopatia na França. Quando Raoult iniciou sua bizarra campanha de cloroquina para curar o COVID-19, Lehmann e seus colegas foram às redes sociais e jornais nacionais como o “Liberatión” para expressar suas preocupações. Eles foram imediatamente atacados pelos discípulos de Raoult, por sua IHU, e pelo próprio guru da cloroquina.

Mas agora, antes do post de Lehmann, gostaria de citar outro artigo de jornal a título de introdução.

Os jornalistas acompanharam como a UHM e a unidade de pesquisa de Raoult, URMITE, foram investigadas em 2017 pelo painel internacional do Conselho Superior de Avaliação de Pesquisa e Ensino Superior (HCERES), que terminou com a retirada das duas redes nacionais de pesquisa CNRS e INSERM como patrocinadores do instituto. Não há razão para se preocupar: a indústria farmacêutica, grande e pequena, continua suas generosas injeções de dinheiro para a IHU, fluxos secretos de dinheiro cujo objetivo e orientações não são da conta de ninguém.

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O artigo da ESSF de Pascale Pascariello narra, referenciando uma história anterior da Mediapart do mesmo autor:

Os avaliadores lamentam que seja dada prioridade a” publicações em volume e não a sua qualidade “. Se a unidade do professor Raoult foi a fonte de mais de 2.000 publicações entre 2011 e 2016, “apenas 4% delas estavam em periódicos de alto impacto internacional“, eles especificam.

Além disso, a “falta de conhecimento em áreas-chave“, em particular “em epidemiologia“, leva a ensaios clínicos mal conduzidos e estudos bioestatísticos aproximados. […]

Eles também consideram que a criação da revista New Microbes and New Infections “, que é usada para publicar artigos recusados ​​por outras revistas, é um tanto inútil”. Eles observam que este periódico é juiz e júri, já que vários pesquisadores do laboratório fazem parte do comitê editorial liderado pelo professor Michel Drancourt, ele próprio chefe da unidade de pesquisa Mephi e braço direito de Didier Raoult “.

Michel Drancourt é obviamente um dos co-autores de Raoult em um artigo sobre cloroquina / COVID-19 Gautret et al 2020 sobre uma clínica aparentemente ilegal com 80 pacientes (incluindo crianças), aceita no dia seguinte em que foi submetida em um periódico em que Philippe Gautret é editor associado.

O relatório do HCERES constatou ataques generalizados e até assédio sexual na IHU sob a vigilância de Raoult. E também pesquise fraudes:

Dos sete testemunhos escritos recebidos, dois revelam e lamentam os resultados deliberadamente tendenciosos de seus estudos. Um engenheiro relata “uma falsificação dos resultados experimentais a pedido de um pesquisador” e outro “questiona o rigor científico de como determinados resultados são obtidos“.

Os jornalistas conversaram com um ex-aluno de doutorado de Raoult:

“O problema, segundo ele, é que” ele [Raoult, -LS] não permite nenhuma discussão “:” Trabalhamos ao contrário. Ele tem uma ideia e estamos manipulando para provar que ele está certo. Com medo de contradizê-lo, isso pode levar a resultados tendenciosos “.

Esse estudante de doutorado acabou sendo forçado a produzir um resultado artefato que Raoult decidiu publicar de qualquer maneira. Depois que todos os periódicos apropriados o rejeitaram como cientificidade sem valor, o artigo apareceu em, onde mais, um dos periódicos controlados por Raoult: Patogênese Microbiana. Outro cientista, que se recusou a colocar seu nome em papéis fabricados e deixou a URMITE, lembrou:

Raoult costumava dizer:” Quando digo algo, é verdade.

Um ex-diretor da unidade INSERM e denunciante é citado:

“O que me impressionou […] foi a obsessão de Didier Raoult por suas publicações. Poucos minutos antes do início da avaliação de sua unidade, foi a primeira coisa que ele me mostrou em seu computador, seu fator H. “

Ao avaliar a IHU de Raoult em nome do CNRS e do INSERM, o denunciante observou:

O laboratório dele hospeda muitos estudantes estrangeiros. Por um lado, pudemos ver as pressões exercidas contra eles, sendo mais precárias que o restante dos pesquisadores, explica ela. Alguns também nos alertaram para estudos cujos resultados foram arranjados.

Agora, adivinhem quem até setembro de 2019 costumava ser o chefe do conselho científico da IHU encarregado de avaliar Raoult e seu reino? Laurence Zitvogel, que, como o artigo menciona, tem um forte conflito financeiro de interesses. O que os jornalistas perderam é que esse pesquisador de câncer de Villejuif é parceiro vitalício de Guido Kroemer. Juntos, eles publicaram uma longa lista de artigos com números de pesquisas falsificados (leia aqui e aqui). Que supervisão perfeita para Raoult, cujos artigos também sofrem falsificação de dados.

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Agora, para a bomba nesse artigo. Raoult declara, em todas as suas publicações e em todos os documentos oficiais, que não tem nenhum conflito financeiro de interesse, ele pessoalmente não recebe um centavo da indústria farmacêutica. bem:

O professor Raoult, que se orgulha de ser independente, esquece de especificar que sua fundação recebeu, de acordo com dados do Ministério da Saúde, 909.077 euros de laboratórios farmacêuticos desde 2012. Além dos 50.000 euros pagos pela Sanofi em 2015, o Instituto Mérieux, membro fundador da fundação e membro do conselho de administração, contribuiu com mais de 700.000 euros para o laboratório“.

Afinal, a Fundação IHU está isenta de transparência e não presta contas a ninguém. Leia mais detalhes neste artigo.

Raoult coucou

Cloroquina, o elefante na sala

Por Christian Lehmann

Tudo começa em 25 de fevereiro de 2020, quando Didier Raoult, de cabelos brancos com idade, aparência venerável, professor de microbiologia de Marselha, publica seu famoso vídeo “Coronavirus, game over“, já que mais modestamente rebatizou “Coronavirus, em direção a uma saída da crise?”.

Diante da audiência de estudantes, Didier Raoult revela “uma notícia de última hora, uma notícia muito importante”: os chineses, aos quais ele aconselha regularmente, em vez de procurar uma vacina ou novos produtos, estão “reposicionando” , experimentando moléculas antigas, “conhecidas, antigas, sem toxicidade”, entre elas a cloroquina, que se mostrou eficaz em uma dose diária de 500 mg por dia “, com uma melhora espetacular e é recomendada para todos os casos clinicamente positivos de coronavírus . Esta é uma excelente notícia, provavelmente é a infecção respiratória mais fácil de todas “Aqui, toda a sala ri, com prazer, com alívio, e lembro-me de compartilhar esses sentimentos, breve, mas completamente.

Mais tarde naquela tarde, vi o vídeo “Game Over” novamente. Foi nessa segunda visualização que eu recusei. Como clínico geral, que havia trabalhado em ressuscitação cardíaca há alguns anos, fui educado ao ouvir Didier Raoult falando de um medicamento como “conhecido e desprovido de toxicidade”. Se a cloroquina ou a nivaquina, por seu nome comercial, é celebrada para a prevenção do paludismo (malária), também é um medicamento conhecido por sua assustadora toxicidade assim que a dose é excedida, com o risco de danos visuais irreversíveis e extremamente sérios problemas no ritmo cardíaco que podem ser fatais. Dizer que a cloroquina está sem problemas de toxicidade é de fato um erro, ainda mais porque a dose sugerida pelos “chineses”, sem um pingo de prova nesta fase, é cinco vezes maior que a dose habitual, 500 mg em vez de 100 mg

Alguns de nós, profissionais e socorristas, conhecíamos bem a toxicidade da cloroquina, que ela deveria ser manuseada com cuidado. No dia seguinte, em uma entrevista de 20 minutos, Didier Raoult afastou seus detratores.

Fofocas maliciosas, eu não dou a mínima para isso. Quando um medicamento é mostrado para trabalhar em 100 pessoas, enquanto todo o mundo está ocupado com um colapso nervoso, e há alguns idiotas que dizem que não há certeza de que ele funciona, não estou interessado! Seria honestamente uma má conduta médica não usar a cloroquina no tratamento do coronavírus chinês “.

E ele leva o ponto para próximo de si mesmo.

Pessoas que viveram na África como eu tomavam cloroquina todos os dias. Todo mundo que foi para países quentes levou o tempo todo para lá e por dois meses depois de voltar para casa. Bilhões de pessoas tomaram este medicamento. E não custa nada: dez centavos por comprimido. É um medicamento extremamente confiável e o mais barato que se possa imaginar. Então, essa é uma notícia super incrível. Todo mundo que aprende sobre esses benefícios deve recorrer a isso“.

Isso não é mais um erro, é uma má conduta médica grave. Ninguém que conhece a terapêutica usaria essas palavras tão levemente. Cardiologistas, especialistas em ressuscitação, médicos de emergência, clínicos gerais, especialistas em saúde pública, estamos alarmados. Nossos primeiros avisos são veementes e racionais, reafirmando a toxicidade da cloroquina na cardiologia, insistindo no risco significativo e sem sentido que Didier Raoult está correndo. Por ser familiar, prescrito para longas estadias na África em embalagens de 100 comprimidos, a cloroquina está presente em muitos armários de remédios. Declarar como fato que devemos “cair sobre ela” nesse contexto de pandemia agonizante é incentivar a automedicação sem restrições e pôr a vida em risco.

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Um censo de inverdades sobre a cloroquina

É o fim de fevereiro. Vemos a primeira morte, no departamento de Oise, perto de Paris, de um cidadão francês que não havia viajado recentemente para o exterior. Para os médicos preocupados com o que estava acontecendo na China, este é o alerta vermelho: o coronavírus chegou ao solo francês. Ninguém sabe naquele momento como se espalhará. Quase ninguém, além dos responsáveis ​​por isso, ainda sabe que a França esgotou completamente seu estoque de máscaras. Os próprios médicos sabem que o serviço de saúde aguenta apenas o tempo que fica nas costas do pessoal de assistência.

O anúncio de Didier Raoult sobre a eficácia espetacular de um antimalárico sintético, a cloroquina, trouxe um enorme alívio, seguido imediatamente por muitos de nós, profissionais de saúde, por dúvidas crescentes sobre o acúmulo de erros: Raoult nega qualquer toxicidade, exorta as pessoas a “cair sobre” um medicamento que exija manuseio sensível. Quando localizamos o artigo de Gao et al 2020 da China, no qual Didier Raoult está baseando sua comunicação de crise, ficamos estupefatos. Não há necessidade de conhecimento especializado em metodologia estatística para entender que há algo muito errado. Nenhum dado numérico. Ninguém sabe que dose foi administrada, que tipo de paciente, nem quantas foram tratadas. O artigo não foi “revisado por pares”, tem o efeito de um simples anúncio. Então, é claro que, nessa época caótica, dizemos a nós mesmos que, dada uma revelação de tanta importância, os chineses queriam agir o mais rápido possível, para informar o mundo inteiro. E Didier Raoult, que rotineiramente aconselha, como ele explica com deliciosa modéstia, os chineses, “os melhores virologistas do mundo”, provavelmente receberam os primeiros frutos dessa revelação.

No Youtube, em 28 de fevereiro, ele postou uma entrevista estranha: “Por que os chineses se enganariam?“,  na qual ele repetidamente aborda seu entrevistador com óbvia irritação. “Não, essa não é a pergunta que você deveria estar me perguntando. Você deveria estar me perguntando …. ” Um grupo informal de médicos e outros divulgam o link no Twitter. Estamos esfregando os olhos em descrença. O que Didier Raoult está passando como entrevista não passa de uma palestra organizada por um de seus assessores de mídia. Aconselhamos, sarcasticamente, a fazer um corte profissional do vídeo antes de transmiti-lo. Uma hora depois, o vídeo desaparece e retorna de forma mais profissional, o que poderia criar a ilusão de uma entrevista genuína. E rapidamente, na imprensa que começa a direcionar seus microfones para o professor de Marselha, ele modifica sua posição.

A cloroquina, espetacular e milagrosa até ontem, desaparece como que por mágica, substituída de um dia para o outro pela hidroxicloroquina (HCQ, Plaquenil), um medicamento diferente, menos comum. Embora sua estrutura química seja próxima à do medicamento antimalárico, a hidroxicloroquina é usada principalmente em condições reumáticas, como a poliartrite reumatóide, ou em condições imunológicas, como o lúpus. Portanto, pelo menos, ele não fica em grandes quantidades nos armários de remédios. E sua toxicidade cardíaca, muito real, é ligeiramente menor que a da cloroquina. Didier Raoult apresenta o HCQ como uma imensa descoberta, continuando da maneira usual de ridicularizar seus detratores.

“Os médicos que me criticam não estão no meu campo, nem estão no meu peso”.

Ele se irrita com a inação de oficiais de saúde mesquinhos, apenas aptos a seguir os ditames das autoridades, que, atoladas em sua gestão catastrófica de crise, não ousam intervir. E sua postura como uma Gália refratária, uma tagarela que toma conta do sistema, ganha simpatia daqueles por quem ele dá esperança, daqueles que acreditam que o Estado não lhes conta tudo e daqueles que procuram um herói que se encaixe em seus estereótipos. : um homem sozinho contra o establishment, um Cavaleiro Branco assumindo a Big Pharma, um colosso hipocrático cercado por hordas de formigas sem alma.

Entre aqueles que estendem seus microfones para ele, ninguém faz a pergunta que todos nós estamos fazendo: GPS, cardiologistas, especialistas farmacêuticos, especialistas em emergências, especialistas em ressuscitação – com que prestígio Didier Raoult trocou seu remédio milagroso em 48 horas, em plena luz do dia? E como é que ninguém percebeu o truque?

Para Didier Raoult, um mínimo de integridade intelectual exigiria que ele admitisse ter trocado de cavalo no meio do caminho. Que as preocupações de seus detratores desprezados eram bem fundamentadas, sobre a cloroquina a que muitos têm acesso sem conhecer seus perigos (a nivaquina é frequentemente usada em suicídios). Em vez disso, todo partidário do Sábio de Marselha se junta com um testemunho. O irmão, a irmã, o tio, o sogro do cabeleireiro tomam o remédio do professor (qual deles, cloroquina ou hidroxicloroquina?) Por oito anos na África e nunca teve um problema, o que prova que os detratores do professor são apenas ciumento, ou, pior ainda, apoiado pelos “lobbies”.

No entanto, repetimos incansavelmente os fatos fundamentais:

  • Sim, a cloroquina existe há anos
  • Sim, é amplamente utilizado
  • Mas para um tratamento diferente, a prevenção da malária
  • E em dosagens 5 a 10 vezes mais baixas
  • E em grandes doses causa parada cardíaca
  • E nunca foi eficaz no combate a vírus
  • Nem este vírus nem qualquer outro
  • E o mesmo se aplica à hidroxicloroquina
  • Na verdade, é o contrário

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Este não é um filme de Hollywood

Como eu adoraria se um gênio brilhante, no estilo de Jeff Goldblum, descobrisse, em um canto de uma bancada suja de laboratório, O tratamento milagroso para SARS-cov-2! Como eu teria aplaudido se, trabalhando rápido, muito rápido, rápido demais aos olhos de meros mortais, esse magnífico herói tivesse se destacado brilhantemente à frente e salvado milhões de vidas, provando a precisão de sua hipótese diante de um mundo assombrado. Mas não estamos em um sucesso de bilheteria no estilo de Hollywood.

Quando Didier Raoult lançou seu primeiro estudo sobre a cloroquina, ele o baseava em três coisas: um fato verificável, uma afirmação e uma intuição.

O fato verificável é que, em um tubo de ensaio (in vitro), e não em humanos ou outros animais (in vivo), a cloroquina é ativa contra o SARS-cov-2, o vírus do Covid-19. O fato de essa ação in vitro ter sido observada em vários outros vírus, sem nunca ter dado bons resultados em humanos, aumentando ainda mais a mortalidade no caso do vírus chikungunya, sugeriria a necessidade de algum grau de cautela.

Uma reserva deixada de lado pela seguinte afirmação de Raoult: emergiu um estudo chinês que demonstra que a cloroquina traz melhorias espetaculares e é recomendado para todas as infecções clinicamente positivas que envolvem o vírus corona chinês. Infelizmente, quase dois meses após essa descoberta, o mundo ainda aguarda a menor confirmação em um ensaio clínico adequadamente controlado.

Finalmente, a intuição é o que Didier Raoult ainda defende hoje, teimosamente, em vídeos cada vez mais estranhos. A idéia de que um pesquisador de fora da elite parisiense seleta, que há muito tempo convive com um homem prático, pode enxergar imediatamente o cerne da questão, enquanto uma horda de burocratas da ciência se atolava em seus procedimentos padrão levar meses para começar.

Assim, Didier Raoult lança mais estudos, gerando grandes esperanças por sua atitude de total certeza, por suas instalações de mídia. Espera tanto que ninguém, na mídia ou no coração da política, pense em questioná-lo. Mas esses estudos são loucamente manipulados e acumulam erros e aproximações.

No primeiro estudo, dos 42 pacientes, dentre os tratados pelo procedimento Didier Raoult, um morre e três são hospitalizados devido à deterioração de sua condição. E por uma onda de uma varinha mágica (que na França e em outros lugares deveria ser chamada de fraude) … todos os quatro foram excluídos dos resultados, quando deveriam ser considerados como falhas da hidroxicloroquina. Em algum lugar ao longo do caminho, Didier Raoult adicionará azitromicina à hidroxicloroquina e concluirá que a combinação é mais eficaz que o HCQ sozinho, embora a diferença em apenas seis pacientes não seja significativa.

O critério estabelecido para julgar o sucesso do julgamento foi a verificação do vírus nas passagens nasais por cerca de 14 dias. O estudo será interrompido no sexto dia e a redução da carga viral intranasal será tratada como uma prova de eficácia / efetividade (sem o conhecimento de se esse desaparecimento pode simplesmente indicar a migração do vírus para o nível pulmonar). Crianças de 10 anos de idade serão incluídas em uma das extensões do estudo, sem o seu consentimento.

Um segundo estudo será lançado como acompanhamento, enquanto o primeiro será publicado em condições duvidosas e imediatamente rejeitado pela Sociedade Internacional de Quimioterapia Antibacteriana. Este segundo estudo em que Didier Raoult e sua equipe escolhem quais pacientes tratar (intervindo assim na terapia de uma doença que já oferece 95% das recuperações espontâneas) é declarado como um simples estudo observacional (sem intervenção dos médicos no desenvolvimento de eventos), em vez de um estudo intervencionista. Isso serve para evitar a obtenção do contrato obrigatório da Agência Nacional de Seguros do Medicamento.

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Como tudo isso acontece, ninguém se atreve a objetar, como se estivesse paralisado pelos óbvios desordens da administração da epidemia pelo governo. Ignorando qualquer exigência de buscar o acordo do comitê de ética, o Instituto de Marselha concede uma bênção e, no final de março, trata 80 pacientes com hidroxicloroquina, porque “é isso que nos é exigido pelo juramento de Hipócrates”. . Assim, Didier Raoult, com um pressentimento, prescreverá medicamentos potencialmente cardiotóxicos e não testados a pacientes assintomáticos, violando as regras éticas fundamentais relativas à prescrição de medicamentos.

Haveria muito a ser dito sobre a inação de agências, instituições, políticos, diante da fuga de um homem que segue atrás dele dezenas de milhares de pessoas assustadas, milhares de teóricos da conspiração e centenas de ódio trolls cheios de gente que se transformaram em virologistas depois de algumas horas no YouTube engolindo os vídeos de seu Guru.

Mas o que mais me interessa é a lógica de Didier Raoult, a certeza de que o juramento de Hipócrates (que em nenhum momento menciona o direito de entrar em experimentações de estilo livre em seres humanos), seu grau médico e intuição pessoal constituem uma espécie de trunfo. Lembremos: Didier Raoult é um microbiologista, especialista em vírus e bactérias. Ele não tem experiência em pesquisa terapêutica, e os erros grosseiros que comete no desenvolvimento de seus estudos e na análise de seus resultados e procedimentos de publicação não estão ligados, como ele gostaria que acreditássemos, ao surgimento de um novo paradigma, mas com o ressurgimento rançoso de algo que esperávamos ter desaparecido, o poder excessivo de “mandarins” intocáveis ​​e tirânicos, senhores médicos incapazes de permitir qualquer crítica.

Em todo o mundo, os resultados dos primeiros estudos clínicos corretamente executados, realizados com hidroxicloroquina, são globalmente negativos. A única linha de defesa que parece ser deixada para Didier Raoult é a desculpa de ter agido em uma emergência. Comparando-se um dia a Clemenceau, o próximo a Foch, ele se vê como um líder de fantasia em tempos de guerra. Tudo o que a mídia parece ter retido de seu vídeo mais recente, intitulado “A lição de epidemias curtas“, é sua afirmação de que o COVID-19 é uma doença sazonal, destinada a desaparecer, e que “em um mês não haverá mais novidades”. casos”.

A afirmação do poderoso adivinho que em janeiro zombou como ele nos disse “quando três chineses morrem, o que acende um alerta mundial” não funciona mais. Eventualmente, Didier Raoult não será capaz de escapar de uma autópsia minuciosamente detalhada de suas declarações e ações. E o resultado será devastador.

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Christian Lehmann, MD,  Clínico Geral (Poissy 78300, França)

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês no blog “For Better Science” [Aqui!].