Na “The Lancet”, docentes da UNB afirmam que no Brasil tomado pela COVID-19, a necropolítica vive

COVID-19 no Brasil: muito além da biopolítica

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Por  Rafael Dall’Alba,  Cristianne Famer Rocha,  Roberta de Pinho Silveira, Liciane da Silva Costa Dresch,  Luciana Araújo Vieira e  Marco André Germanò*

Richard Hortonpropôs a importância da biopolítica de Foucault como conceito para a compreensão do COVID-19. Ao elogiarmos seu comentário, acrescentaríamos que em países como o Brasil, COVID-19 não trata apenas da política do corpo, mas da política da morte.

Em meio a uma crise que não é apenas econômica, mas também política e ética, o Brasil tem se destacado por suas desastrosas ações governamentais na batalha contra a COVID-19: uma tentativa frustrada de privatizar a atenção básica durante a pandemia, a ausência de um plano de resposta nacional completo, falhas logísticas graves na campanha de vacinação e o forte negacionismo científico na alta administração do governo.

Necropolítica de Achille Mbembe explica o que está acontecendo no BrasilA ideia de necropolítica, que descreve como as condições de risco, doença e morte operam seletivamente em favor das políticas econômicas neoliberais, reflete as narrativas nutridas que afetaram predominantemente as populações pobres, negras e indígenas.

Na periferia do mundo, COVID-19 ampliou especialmente as consequências deletérias das políticas de austeridade.Enquanto os EUA, o Reino Unido e outros países aumentaram os gastos sociais em resposta à sindemia,o governo brasileiro optou por fortalecer as políticas econômicas que impossibilitaram grande parte da população de se isolar adequadamente do contato físico – 40% da força de trabalho brasileira está empregada no setor informal. No Brasil, as políticas monetárias direcionadas ao setor financeiro somaram cerca de US $ 230 bilhões,enquanto as iniciativas fiscais voltadas para os impactos sociais da pandemia receberam menos da metade dessa quantia.

Decidir seletivamente quem deve pagar pelos impactos da pandemia, forçando os pobres a escolher entre a fome ou a contaminação em estado de morto-vivo, foi naturalizado sob o argumento de sustentar a economia. “E daí?” Do presidente Jair Bolsonaro em resposta ao número crescente de casos COVID-19 aponta para as políticas sistemáticas implementadas durante sua presidência para enfraquecer as instituições, criando um cenário diferente e muito mais dramático do que o controle biopolítico. No Brasil, a fragilidade da administração pública tem sido incapaz de combater tanto a crise socioeconômica quanto a de saúde, deixando um rastro danoso de fome, violência e doença, “subjugando a vida ao poder da morte”.Assim, a resposta à pandemia do Brasil não pode ser avaliada apenas pelas lentes biopolíticas.

A comunidade internacional de saúde, além de ter o papel de questionar o protecionismo econômico em vista da preservação da vida, deve ampliar sua análise da sindemia COVID-19 para entender o que está acontecendo nas regiões subdesenvolvidas, em particular, para descolonizar o conhecimento e apreender plenamente particularidades geopolíticas e territoriais. Com mais de 227 500 vidas perdidas na COVID-19, até 4 de fevereiro de 2021, podemos dizer que a necropolítica está, ironicamente, viva no Brasil.

* Rafael Dall’Alba,  Cristianne Famer Rocha,  Roberta de Pinho Silveira, Liciane da Silva Costa Dresch,  Luciana Araújo Vieira e  Marco André Germanò são docentes da Faculdade de Ciências Médicas da Unb.
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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pela revista “The Lancet” [Aqui!].

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