Vazamento em reservatório de mineradora de ouro sul africana contamina sistema hídrico em Santa Bárbara (MG)

Moradores de Santa Bárbara denunciam vazamento de rejeitos da AngloGold em rio.  Água do rio Conceição ficou com cheiro forte, que irritava o nariz de quem se aproximava, população afirma que não foi informada sobre qual material atingiu o leito

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Rio Conceição, em Santa Bárbara, que costuma a ser translúcido estava opaco e cinzento, além de apresentar cheiro forte, provocando irritação nos olhos e nariz. Foto: Divulgação MAM
Por Felipe Castanheira para o jornal “O TEMPO”

Na manhã do dia 5 de maio os moradores das comunidades de Barra Feliz, São Bento e Brumal, em Santa Bárbara, na região central de Minas, perceberam que as águas do rio Conceição estavam com uma coloração e cheiro muito diferentes do habitual, no trecho seguinte a duas minas da AngloGold. No local a mineradora possui a planta industrial da mina de Córrego do Sítio, com dois pontos de extração de ouro.

A funcionária pública Roseni Aparecida Ambrosio, 42, mora próximo ao rio e foi chamada por moradores da região para presenciar o que estava acontecendo. “Quando cheguei vi que a água estava com uma coloração e densidade bem diferente do normal nesta parte do ano. As pessoas filmaram e tiraram fotos porque não era algo comum. Só de chegar perto os olhos e o nariz ficavam irritados com o cheiro da água”, relata.

Ela conta que as primeiras pessoas a denunciarem a situação perceberam a mudança no rio por volta das 7h, mas só na parte da tarde é que a empresa informou que havia tido um problema no local. “Não sabíamos do que se tratava e a empresa não dá transparência com as comunidades. Todo mundo estava preocupado porque não dava para saber se aquilo era perigoso ou não para a saúde das pessoas e para os animais e plantações. Muita gente depende do rio e ficou sem saber o que era aquilo”, relembra. 

A empresa reconheceu o vazamento em um documento enviado aos moradores, onde informava que o ponto já estava estancado e que não houve impacto direto na vegetação ou solo. Entretanto, o documento nada informa sobre a situação da água. 

A lentidão e a falta de clareza por parte da empresa incomoda os moradores. “Nosso medo é que aconteça algo que ameace nossas vidas e só depois vão soltar uma nota de pesar. Isso faz com que a gente pare de confiar neles”, afirma Roseni.

“A empresa simplesmente não diz o conteúdo do material, faz como se fosse um simples vazamento de água ou qualquer coisa. É uma grande falta de respeito, já que os resíduos que  ela produz são altamente contaminantes, cumulativos e perigosos”, conta a médica veterinária e produtora rural Sarah Helena Neves Xavier, 38. 

Sarah descreve que a empresa não oferece informações suficientes sobre os rejeitos que podem ter chegado ao rio. “O que se sabe é que na exploração se usa o cianeto e que a rocha de onde se extrai o ouro é rica em arsênio , que quando chove pode ocasionar drenagem ácida e só isso já é suficiente para contaminar a água, mas eles negam”. 

Luiz Paulo Siqueira, 31, é biólogo e coordenador do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e afirma que os danos causados pelo uso de metais pesados para o beneficiamento do ouro trazem grandes problemas para a cidade e região. “Existem várias pesquisas acadêmicas de diferentes universidades que mostram a alta concentração de metais tóxicos. Existe uma série de doenças registradas na região, que se dão devido a estes materiais. Existe muito desleixo da AngloGold e temos que cobrar para que ela pague pelo estrago causado nas comunidades e no meio ambiente. Lembrando que ela faturou mais de R$ 750 milhões com a exploração de ouro em Santa Bárbara só no ano passado”, afirma.

A AngloGold informou por meio de nota que o material que chegou ao rio faz parte de um efluente industrial da Planta da mina Córrego do Sítio e que o material não tem cianeto e é classificado como não-perigoso. A empresa também destacou que lamenta o ocorrido e reforça seu compromisso com o meio ambiente e a mineração sustentável”.

A reportagem entrou em contato com a Polícia Ambiental Militar, Ibama, Secretaria de Estado de Meio-Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), prefeitura de Santa Bárbara, Ministério Público e Núcleo de Emergência Ambiental de Minas Gerais (NEA), mas até o fechamento da matéria não teve retorno destes órgãos.

Nota da AngloGold Ashanti sobre as reclamações dos moradores

Está circulando nas redes sociais postagens com informações inverídicas sobre um possível vazamento em uma barragem da AngloGold Ashanti. Salientamos que todas as nossas barragens estão estáveis e não apresentam qualquer problema em suas estruturas.

No dia 5 de maio, comunicamos para as autoridades e para comunidade sobre o transbordo de parte de um efluente industrial da Planta da mina Córrego do Sítio, em Santa Bárbara (MG), que atingiu o Rio Conceição. Na mesma data, o vazamento foi estancado.

Assim, ao contrário do que algumas publicações nas redes sociais estão divulgando, este material não tem cianeto e é classificado como não-perigoso conforme as normas ambientais.

A Polícia Militar de Minas Gerais informou que foi ao local após tomar conhecimento do fato e “tomou todas as medidas cabíveis ao fato”, mas não descreveu quais foram as ações e medidas tomadas, nem o conteúdo da ocorrência registrada.

Os órgãos públicos responsáveis, como Núcleo de Emergência Ambiental (NEA) da Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM) e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Santa Bárbara, foram comunicados e acompanham nossa atuação no caso.

A AngloGold Ashanti lamenta o ocorrido e reforça seu compromisso com o meio ambiente e a mineração sustentável.

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