Mapa da água: como garantir uma água limpa para beber?

A única solução é coletiva: cobrar transparência dos fornecedores de água e mais controle sobre o uso de agrotóxicos e outros contaminantes que chegam aos rios e mananciais

água

Por Hélen Freitas para a “Repórter Brasil”

Água com agrotóxicos, metais e outros produtos que causam doenças crônicas como câncer. Esse é o cenário revelado com a publicação do Mapa da Água, que mostrou que a rede de abastecimento de mais de 700 cidades apresentaram substâncias químicas e radioativas acima do limite permitido pelo Ministério da Saúde. E quase metade dos municípios (48%) não informaram os resultados dos testes feitos na água. Tudo isso apenas acessando os dados oficiais das empresas, que são lançados no Sisagua (Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano), do Ministério da Saúde.

O que pode ser feito para saber se a água que saiu da sua torneira hoje está contaminada? E como limpá-la? Desde a publicação do Mapa, a Repórter Brasil recebeu dezenas de questionamentos assim.

São diversos os métodos para desinfetar a água e torná-la potável. Alguns mais tradicionais, como cloração, decantação e filtragem, e outros mais específicos, como desinfecção por ultravioleta e dupla filtração. Porém, esses métodos são pouco eficientes para retirar a maior parte dos agrotóxicos ou outras substâncias químicas e radioativas presentes na água de todo o país, como revelou o Mapa da Água.

O maior problema está na fonte, o manancial de onde a água é retirada, afirma o presidente da Aliança Tropical de Pesquisa da Água José Francisco Gonçalves. “Boa parte da nossa água hoje, por conta da contaminação do solo e por serem muito próximas às cidades ou áreas agrícolas, já possui comprometimento quanto à qualidade química”. Ou seja, com fontes cada vez mais contaminadas, o tratamento necessário fica mais difícil, caro e, portanto, inacessível.

Desde 1997 está em vigor a Política Nacional de Recursos Hídricos, que tem como objetivo garantir a qualidade da água “à atual e futuras gerações”. No entanto, até hoje são poucas as ações realizadas para, de fato, limpar os mananciais que abastecem os municípios. O Guarapiranga, em São Paulo, é um grande exemplo. O sistema abastece 4,8 milhões de moradores da capital. Contudo, basta andar perto da represa para ver lixo e esgoto nas suas águas.

Sandra Kishi, procuradora regional da República, afirma que o Brasil deveria focar em uma abordagem preventiva em vez de se preocupar só com o tratamento da água. Para ela, atender todo o conjunto de parâmetros estabelecidos pela norma não é fácil, principalmente aos gestores de municípios mais pobres e sem capacidade financeira para custosos tratamentos. Com o uso de medidas preventivas, como barreiras sentinelas que impedem substâncias tóxicas de chegarem até o manancial, projetos de reflorestamento, melhoria da gestão de resíduos e de águas pluviais, teríamos uma água mais segura, sem gastos estrondosos.

“Tudo isso ajuda a sociedade a não arcar com o custo social de pagar altos valores em tecnologias caras de tratabilidade ou pior, seja alvo de epidemias de veiculação hídrica, usualmente traduzidas em intoxicações que podem ser letais ou com problemas crônicos diante da intoxicação”, pontua Kishi.

A criação de políticas públicas para a recuperação das áreas degradadas e ecossistemas poluídos se apresenta como a melhor solução. Com uma água limpa de verdade, os gastos do poder público com doenças crônicas causadas pelo consumo de água contaminada diminuiriam, enquanto aumentaria a produtividade das empresas.

“É um movimento social capitaneado pelo poder público, mas que precisa de envolvimento de todos os setores da sociedade, até mesmo do setor produtivo, porque sem água de boa qualidade eles também não conseguem produzir, e tendo um funcionário que está doente, ele vai ter uma produção menor, então é fácil convencer todos os setores, o que precisa é ter vontade”, afirma Gonçalves.

Como saber o que tem na sua água?

Uma das principais dificuldades é a informação sobre existência de substâncias perigosas. Responsáveis pelo abastecimento devem divulgar os resultados dos testes sempre que há um resultado fora do padrão, mas infelizmente isso ainda não acontece. Especialistas incentivam que os consumidores e a sociedade civil como um todo cobre os responsáveis pela água pelas informações a que têm direito.

Luva desenvolvida por pesquisadores da USP pode detectar agrotóxicos na água e em alimentos de forma rápida, barata e confiável (Foto: IFSC/USP)

Enquanto o movimento de transparência não acontece, algumas alternativas científicas tentam deixar esse processo mais barato e rápido, sem perder a confiabilidade das análises. Um desses projetos é a luva de borracha sintética capaz de detectar agrotóxicos em alimentos e na água. O trabalho foi coordenado pelo químico Paulo Augusto Raymundo-Pereira, pesquisador do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP.

A luva detecta quatro grupos de agrotóxicos empregados em cultivos de cereais, frutas cítricas, café, algodão, cacau, banana, abacaxi, maçã e cana-de-açúcar: carbendazim, diuron, fenitrotiona e o paraquate, proibido em 2020. “O que a gente fez foi conseguir detectá-los de maneira confiável e, mesmo se a gente tiver uma mistura de substâncias na amostra, conseguimos uma excelente distinção entre eles”, afirma o pesquisador.

Segundo ele, a ferramenta traz versatilidade ao processo de detecção, já que pode ser usado no campo e laboratórios por qualquer pessoa, mesmo que não seja especialista no assunto. Além disso, a luva não precisa ficar restrita apenas à detecção de pesticidas, já que os sensores podem ser recalibrados para identificar qualquer outra substância seja na água ou nos alimentos.

Apesar de o protótipo ter ficado pronto em 2019, nenhuma empresa ou o governo procuraram o grupo de pesquisa para comprar a ideia e produzir a luva.

Apesar de o protótipo ter ficado pronto em 2019, nenhuma empresa ou o governo procuraram o grupo de pesquisa para comprar a ideia e produzir a luva

Água imprópria para consumo

Água marrom, com cheiro e gosto são sinais mais comuns de que ela não está boa para beber. Contudo, nem toda substância que pode causar danos à saúde, principalmente a longo prazo, aparecem facilmente, e nem todo brasileiro pode escolher qual água irá beber.

Nem toda substância que pode causar danos à saúde, principalmente a longo prazo, aparecem facilmente

De acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, cerca de 36 milhões de pessoas não têm água encanada. A grande maioria é de moradores da região norte e nordeste do país que precisam consumir água de poços e rios sem nenhum tipo de tratamento, colocando em risco a sua saúde.

Localizada na capital paulista, represa Guarapiranga abastece milhões de pessoas e foi a que mais teve substâncias acima do limite. Tratamento preventivo evitaria o aparecimento de substâncias que geram riscos à saúde (Foto: Sabesp/Divulgação)

A insegurança em relação à água é um sentimento comum no Brasil. Não se bebe água direto da torneira, compra-se água engarrafada ou filtro caseiro, que mesmo assim não se sabe se realmente ela é pura. Na dúvida sobre a qualidade, muitas pessoas optam por ferver a água para poder eliminar as impurezas. 

O presidente da Aliança Tropical de Pesquisa da Água diz que qualquer ação doméstica não será suficiente para retirar possíveis metais pesados, compostos químicos e fármacos, entretanto, enfatiza “se a pessoa suspeita que a água que está chegando na sua casa tem problemas, deve ferver a água”.

Até 2018, pouco se sabia sobre a qualidade da água que chegava às casas dos brasileiros. Apesar de ser de interesse público, os dados ficavam fechados a sete chaves e só podiam ser acessados via Lei de Acesso à Informação. 

Hoje é possível baixar todas as informações sobre substâncias encontradas na água por meio do Sisagua. Porém, o sistema está longe de ser a solução perfeita. Os arquivos são extremamente pesados e difíceis de serem interpretados. Não há nenhum painel para acesso aos dados mais gerais e que possam ser filtrados por municípios, assim como há em outros sistemas governamentais como IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O Ministério Público Federal também tentou facilitar o acesso à informação. Em 2021 lançou a ferramenta de monitoramento socioeducativo “Água Boa de Beber. De acordo com a procuradora Sandra Kishi, que coordena o projeto, o objetivo foi criar uma alternativa simples e confiável que incentiva o controle social sobre a qualidade da água. “Não tem direito humano mais básico do que saber qual a qualidade da água que está sendo oferecida para consumo”, afirma.

Água boa é um direito que deve ser garantido todos os dias e a todos, independente da região em que se vive. A solução existe, mas falta vontade de criar políticas públicas que irão garantir uma vida saudável aos brasileiros.


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Este texto foi inicialmente publicado pela “Repórter Brasil”  [Aqui!].

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