Estudos ajudam a entender os desafios da conservação dos ecossistemas marinhos e lançam luz sobre um dos maiores desafios: a falta de conhecimento

  • Estudos ajudam a entender os desafios da conservação dos ecossistemas marinhos e lançam luz sobre um dos maiores desafios: a falta de conhecimento
  • Levantamento da Fundação Grupo Boticário, Unesco e Unifesp mostra que 40% da população ainda não associam como suas atitudes podem impactar o oceano; 24% consideram que suas ações geram impactos apenas indiretos
  • Estudo do Pacto Global da ONU no Brasil estima que cada brasileiro pode ser responsável por poluir os mares com 16 quilos de plásticos por ano

Praia_lixo_Agua_Oceano

Dois estudos inéditos apresentados nesta semana na Conferência dos Oceanos da ONU (Organização das Nações Unidas), em Lisboa, Portugal, lançam luz sobre a relação dos brasileiros com o mar. As pesquisas vão ao encontro de um dos maiores desafios para reverter o quadro de degradação dos mares e ecossistemas marinhos: a falta de conhecimento. “Ainda não falamos de forma suficiente sobre o oceano. Mesmo a população que vive próxima à costa tem um conhecimento raso sobre a importância do mar para a nossa vida. Na verdade, nem mesmo a ciência ainda sabe o suficiente, pois conhecemos apenas 20% do fundo marinho. Conhecemos mais a lua que o próprio oceano”, afirma Janaína Bumbeer, especialista em Conservação da Biodiversidade na Fundação Grupo Boticário, doutora em Ecologia e Conservação com foco em ambientes marinhos.

Nesta quinta-feira, 30, a Fundação apresentou a pesquisa inédita “Oceano sem Mistérios: A relação dos brasileiros com o mar”, realizada em parceria com a UNESCO e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O estudo revela que a maioria dos brasileiros se mostra disposta a mudar hábitos pelo bem do oceano, mas ainda pratica ações que podem impactar negativamente os ecossistemas marinhos, muitas vezes por falta de conhecimento. Apenas 34% das pessoas compreendem que suas ações influenciam diretamente no oceano, 24% consideram que impactam de forma indireta e 40% acreditam que suas atitudes não impactam em nada os mares.

Hábitos e comportamentos

Ao detalhar hábitos e comportamentos praticados pelo brasileiro no dia a dia, a pesquisa mostrou a população dividida em relação a algumas práticas sustentáveis. O percentual de pessoas que priorizam com frequência compras com menor impacto na natureza e no oceano, como produtos com menos embalagens e sem poluentes, foi de 48%. Para 22% dos entrevistados, a prática ocorre somente às vezes, e 11% raramente. O porcentual de pessoas que nunca se preocupam com essa questão foi de 18%.

Outro aspecto investigado foi o uso de plásticos de única utilização. Apenas 35% dos brasileiros afirmam sempre evitar o uso de canudinhos e copos plásticos descartáveis, enquanto 12% evitam a maioria das vezes e 20% somente às vezes. O consumo nunca é evitado por 19% dos entrevistados e raramente por 13% dos entrevistados.

“Cerca de 80% da poluição encontrada no mar vêm do continente. Se fizermos projeções a partir dos dados encontrados, chegamos a resultados preocupantes”, salienta Malu Nunes, diretora executiva da Fundação Grupo Boticário. Considerando que cerca de 68 milhões de brasileiros (32%) não evitam o uso de copos plásticos e cada uma dessas pessoas faça uso de três unidades de 200 mililitros por semana, chega-se a mais de 10,6 bilhões de unidades por ano. Cada copo pesa em média 1,8 gramas, o que significa 19,1 mil toneladas de copos plásticos que o brasileiro usa anualmente. “Só de copo plástico. Quanto disso é reciclado? Quanto de fato chega ao oceano? Muito desse lixo produzimos quando estamos fora de casa. Levar junto um copo reutilizável já é um avanço”, exemplifica Malu.

“O oceano começa na nossa casa, mesmo que estejamos a muitos quilômetros de distância do mar. Como boa parte das pessoas tem pouco contato direto com os ambientes marinhos, esta percepção precisa ser estimulada. Os mares geram alimentos, energia, minerais, fármacos e milhões de empregos ao redor do mundo em diferentes atividades econômicas. São imprescindíveis para o transporte e o comércio internacional, além de importantes para o nosso lazer e bem-estar. Cuidar do oceano é cuidar da nossa saúde”, salienta Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), copresidente do Grupo Assessor de Comunicação para a Década do Oceano da Unesco e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN).

Caminho do lixo até o mar 

Outro estudo inédito apresentado na Conferência dos Oceanos, encomendado pelo Blue Keepers, projeto ligado à Plataforma de Ação pela Água e Oceano do Pacto Global da ONU no Brasil, aponta que cada brasileiro pode ser responsável por poluir os mares com 16 quilos de plásticos por ano. São 3,44 milhões de toneladas desse material propensas ao escape para o ambiente no país, ou um terço do plástico produzido em todo o Brasil corre o risco de chegar ao oceano todos os anos. A pesquisa faz parte dos dois primeiros relatórios produzidos pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo.

“O estudo traz estimativas sobre a realidade brasileira em relação ao caminho que os resíduos percorrem até chegar ao mar, sinalizando estratégias que podem ser analisadas com os municípios com maior urgência e eficácia”, afirma o professor da USP, Alexander Turra, responsável pela Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano e membro da RECN.

O levantamento observou que existe alto risco desse estoque plástico chegar até o oceano por meio de rios. O nível de risco varia ao longo do território brasileiro, mas áreas como a Baía de Guanabara (RJ), rios Amazonas (Amazonas e Pará), São Francisco (entre Sergipe e Alagoas), foz do Tocantins (Pará) e na Lagoa dos Patos (Porto Alegre) são especialmente preocupantes. Além disso, diversos municípios, mesmo no interior, têm alto risco de contribuir para o lixo plástico encontrado no oceano e, por isso, é necessário agir localmente nessa questão.

A metodologia desenvolvida é inédita e traz avanços sobre modelos globais usados em estudos anteriores. Os realizadores utilizaram parâmetros socioeconômicos e geográficos que não haviam sido representados anteriormente, como a reciclagem informal e a presença de barragens no país. Portanto, a própria metodologia em si é um resultado para que outros países busquem diagnosticar suas poluições por plástico.

(Com informações do Pacto Global – Rede Brasil)

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