Estudo internacional revela que gigantes globais da carne e dos laticínios multiplicam promessas climáticas vagas, metas sem comprovação científica e estratégias de marketing ambiental enquanto seguem ampliando suas emissões e operações
Um novo estudo publicado na revista científica PLOS Climate lança luz sobre uma prática cada vez mais sofisticada da indústria global da carne e dos laticínios: o uso massivo de discursos “verdes” para suavizar sua responsabilidade pela crise climática. A pesquisa assinada por Maya Bach e colaboradores analisou relatórios de sustentabilidade e sites das 33 maiores empresas do setor entre 2021 e 2024 e concluiu que a esmagadora maioria das alegações ambientais feitas por essas corporações pode ser classificada como greenwashing, ou seja, propaganda ambiental enganosa.
O estudo parte de um dado alarmante: a agropecuária animal responde por pelo menos 16,5% das emissões globais de gases de efeito estufa, sendo uma das atividades humanas mais intensivas em carbono e metano. Ainda assim, as gigantes da carne e do leite vêm se apresentando como protagonistas da “transição sustentável”, apostando em metas climáticas ambiciosas, linguagem ecológica e compromissos de neutralidade de carbono.
Os pesquisadores identificaram 1.233 alegações ambientais feitas pelas empresas analisadas. Destas, 68% estavam relacionadas ao clima. Porém, o aspecto mais impressionante da pesquisa é outro: 98% dessas alegações continham indicadores de greenwashing.
Entre os exemplos encontrados estão promessas como “atingir neutralidade de carbono até 2030”, “restaurar bilhões de litros de água” ou “produzir leite climaticamente neutro até 2050”. O problema, segundo os autores, é que essas metas geralmente não vêm acompanhadas de planos concretos, cronogramas verificáveis ou evidências científicas robustas que comprovem sua viabilidade.
Das 1.233 alegações ambientais catalogadas, apenas 29% apresentavam algum tipo de evidência de suporte. E somente três alegações em todo o universo analisado estavam respaldadas por literatura científica revisada por pares. Isso significa que grande parte da narrativa ambiental do setor repousa sobre promessas vagas, estudos internos, projetos-piloto de pequena escala ou simples declarações institucionais.
O estudo mostra ainda que as empresas vêm adotando uma estratégia semelhante à utilizada historicamente pela indústria dos combustíveis fósseis: prometer metas futuras grandiosas enquanto continuam expandindo suas operações no presente.
Um dos casos mais emblemáticos é o da empresa brasileira JBS, maior empresa de carnes do mundo. A companhia anunciou que alcançaria “net zero” até 2040, mas foi alvo de um processo movido pela procuradora-geral de Nova York, que acusou a empresa de enganar consumidores ao divulgar uma meta sem apresentar um plano realista para cumpri-la.
Segundo os pesquisadores, muitas dessas metas dependem fortemente de compensações de carbono (os chamados offsets) em vez de redução efetiva das emissões. Na prática, as empresas continuam operando modelos produtivos altamente poluentes enquanto apostam em mecanismos externos de compensação para justificar seus compromissos climáticos.
Outro ponto destacado pela pesquisa é o uso recorrente de iniciativas pontuais para construir uma imagem sustentável. Empresas divulgam instalação de painéis solares em uma única unidade, substituição de equipamentos mais eficientes ou pequenos projetos de agricultura regenerativa como se essas ações fossem capazes de transformar estruturalmente a cadeia produtiva.
O estudo cita, por exemplo, a Arla Foods, que promoveu um projeto-piloto de agricultura regenerativa em apenas 24 fazendas — uma fração ínfima de suas operações globais. Também são mencionadas iniciativas experimentais envolvendo vacas de “baixo metano” e aditivos alimentares para reduzir emissões, tecnologias ainda longe de aplicação em larga escala.
Na avaliação dos autores, esse tipo de comunicação cria a ilusão de progresso climático sem alterar o núcleo do problema: a própria expansão da produção industrial de carne e leite. Enquanto anunciam compromissos ambientais, empresas seguem ampliando frigoríficos, plantas industriais e mercados consumidores.
O artigo também chama atenção para o papel estratégico dos relatórios de sustentabilidade na manutenção da legitimidade social e financeira dessas corporações. Ao se apresentarem como agentes responsáveis e comprometidos com o clima, as empresas preservam apoio de investidores, consumidores e governos. Em alguns casos, essas promessas verdes ajudam inclusive na captação de recursos financeiros vinculados a metas ESG.
Para os pesquisadores, o greenwashing da indústria da carne representa um risco particularmente grave porque se trata de um dos setores mais poluentes do sistema alimentar global. Ao transmitir a ideia de que mudanças significativas já estão em curso, essas empresas podem atrasar políticas públicas mais rigorosas, desmobilizar pressão social e dificultar transformações profundas no sistema alimentar.
A principal conclusão do estudo é direta: a mudança climática tornou-se o principal eixo narrativo das estratégias de sustentabilidade da indústria da carne e dos laticínios, mas grande parte dessas promessas carece de transparência, comprovação científica e capacidade real de implementação. Em vez de enfrentar estruturalmente suas emissões, muitas corporações parecem investir prioritariamente em gestão de imagem ambiental.

