O reaparecimento de incêndios subterrâneos mostra que o aquecimento global já alterou profundamente o funcionamento dos ecossistemas boreais
A expressão “incêndio zumbi” pode parecer um recurso de marketing para atrair leitores, mas descreve um fenômeno absolutamente real e cada vez mais frequente nas regiões boreais do planeta. Como mostra a reportagem publicada pela Sierra Club, esses incêndios conseguem sobreviver durante todo o inverno queimando lentamente sob a superfície do solo, protegidos pela neve e por espessas camadas de turfa, ressurgindo meses depois, na primavera, como novos focos de incêndio. Trata-se de um comportamento que, até poucas décadas atrás, era considerado raro, mas que vem se tornando parte da nova realidade climática do Norte do planeta.
O aspecto mais inquietante desse processo é que ele revela uma mudança estrutural no funcionamento dos ecossistemas do Ártico e das florestas boreais. O fogo deixa de ser um evento sazonal para transformar-se em um processo praticamente contínuo, capaz de atravessar o inverno e reiniciar sua propagação quando as temperaturas voltam a subir. Em outras palavras, a estação fria já não representa necessariamente o fim da temporada de incêndios.
Essa transformação está diretamente relacionada ao aquecimento acelerado das altas latitudes. O Ártico aquece várias vezes mais rapidamente do que a média global, reduzindo a umidade dos solos, prolongando as estações de fogo e favorecendo grandes incêndios durante o verão. Quando esses incêndios alcançam solos ricos em matéria orgânica — especialmente turfeiras e áreas de permafrost — parte do fogo permanece latente durante meses, alimentando-se lentamente do carbono acumulado ao longo de milhares de anos.
O problema, entretanto, vai muito além da destruição local das florestas. As regiões de permafrost armazenam quantidades gigantescas de carbono, superiores ao total atualmente presente na atmosfera. Quando esse carbono é liberado pela combustão ou pela degradação do solo congelado, intensifica-se o efeito estufa, aumentando ainda mais o aquecimento global. Forma-se, assim, um perigoso ciclo de retroalimentação: temperaturas mais altas produzem mais incêndios; mais incêndios liberam mais carbono; mais carbono provoca temperaturas ainda mais elevadas.
Além das emissões de dióxido de carbono, os incêndios subterrâneos liberam grandes quantidades de metano e de material particulado fino, deteriorando a qualidade do ar em milhares de quilômetros de distância. A fumaça proveniente dos grandes incêndios canadenses dos últimos anos atingiu extensas áreas da América do Norte e até mesmo a Europa, demonstrando que os impactos desses eventos ultrapassam em muito as regiões onde eles se originam.
Outro aspecto frequentemente negligenciado diz respeito às profundas alterações ecológicas provocadas pelos incêndios zumbis. Ao consumirem lentamente as camadas orgânicas do solo, eles destroem bancos de sementes, alteram a hidrologia local e dificultam significativamente a regeneração natural das florestas. Em alguns casos, os ecossistemas podem deixar de retornar ao estado anterior, sendo substituídos por formações vegetais completamente distintas.
Embora o fenômeno esteja ocorrendo nas altas latitudes, seria um equívoco considerá-lo um problema distante do Brasil. Os incêndios extremos observados recentemente na Amazônia, no Pantanal e em partes do Cerrado evidenciam que o planeta está entrando em uma nova fase da dinâmica do fogo. Se, no Norte, o grande combustível é a turfa congelada e o permafrost, nos trópicos a combinação entre desmatamento, degradação florestal, secas prolongadas e expansão da fronteira agropecuária produz um cenário igualmente preocupante. Em ambos os casos, o elemento comum é o mesmo: mudanças climáticas potencializadas pela ação humana.
Talvez a principal contribuição da reportagem da Sierra Club seja justamente desmontar a falsa percepção de que o aquecimento global produzirá apenas eventos climáticos mais intensos. Na realidade, o que está ocorrendo é uma transformação muito mais profunda: estão sendo alterados processos ecológicos fundamentais que sustentaram o funcionamento dos ecossistemas durante milhares de anos. Os incêndios zumbis são apenas uma das manifestações dessa nova realidade.
Como costumo observar neste espaço, as mudanças climáticas deixaram de ser uma ameaça futura. Elas já estão reorganizando o funcionamento do sistema terrestre. E quando até o inverno deixa de conseguir extinguir o fogo, torna-se evidente que estamos diante de mudanças que ultrapassam em muito aquilo que os modelos climáticos mais conservadores projetavam há apenas duas décadas.
