Da Amazônia para os jardins da Europa: como a madeira ilegal brasileira continua atravessando oceanos sob o selo da “sustentabilidade”

Investigação da Earthsight revela que madeira oriunda de uma empresa multada, condenada criminalmente e alvo de sucessivas suspensões chegou ao mercado holandês com o respaldo de sistemas de certificação que deveriam impedir justamente esse tipo de fraude

No último Dia Mundial das Florestas Tropicais, a organização investigativa Earthsight publicou uma reportagem que deveria causar constrangimento tanto em Brasília quanto em Bruxelas. O trabalho mostra como milhares de metros cúbicos de madeira extraída na Amazônia brasileira chegaram ao mercado holandês apesar de um histórico de infrações ambientais, multas milionárias, condenações criminais e suspensões administrativas envolvendo a empresa fornecedora. Mais uma vez, a realidade expõe a enorme distância entre os discursos corporativos sobre sustentabilidade e o funcionamento concreto das cadeias globais de commodities.

O foco da investigação é a empresa Samise Indústria, Comércio e Exportação Ltda., uma das maiores exploradoras de madeira da Amazônia brasileira. Segundo a Earthsight, análises de imagens de satélite, documentos oficiais, processos judiciais e registros de transporte revelaram uma longa lista de irregularidades associadas às operações da empresa na Floresta Nacional Saracá-Taquera, no Pará. Entre elas aparecem acusações de fraude, manipulação de identificação de toras, descumprimento de embargos e transporte de madeira durante períodos em que suas atividades estavam oficialmente suspensas pelos órgãos de fiscalização.

O aspecto mais revelador da investigação não é apenas a existência das irregularidades. Afinal, quem acompanha a história recente da Amazônia sabe que a extração ilegal de madeira continua sendo uma das principais portas de entrada para processos mais amplos de degradação ambiental, grilagem de terras públicas e desmatamento. O mais perturbador é que essa madeira conseguiu percorrer toda a cadeia de comercialização internacional e chegar a consumidores europeus ostentando certificados ambientais que, em tese, deveriam funcionar como garantias de legalidade.

Segundo a Earthsight, empresas holandesas adquiriram grandes volumes de angelim-vermelho provenientes da cadeia de fornecimento da Samise. Essa madeira acabou sendo utilizada em decks, passarelas e outras estruturas urbanas na Holanda. Em alguns casos, os compradores declaravam comercializar apenas produtos certificados, reforçando a crença de que a certificação seria suficiente para afastar riscos de ilegalidade. A investigação mostra exatamente o contrário. Mesmo após sucessivas suspensões do certificado FSC da empresa amazônica, a madeira continuou circulando normalmente pelos canais comerciais internacionais.

Esse ponto merece atenção especial porque desmonta uma narrativa que vem sendo repetida há décadas. A certificação florestal foi apresentada como uma solução de mercado capaz de resolver problemas ambientais complexos sem necessidade de ampliar significativamente a capacidade de fiscalização do Estado. A lógica era simples: consumidores conscientes comprariam produtos certificados, empresas seriam recompensadas por boas práticas e o mercado eliminaria gradualmente os infratores. O problema é que essa lógica depende de sistemas de auditoria extremamente rigorosos, independentes e transparentes. Quando esses sistemas falham, a certificação deixa de ser um instrumento de proteção ambiental e passa a funcionar como uma ferramenta de legitimação.

A investigação da Earthsight sugere justamente isso. O FSC, considerado o principal selo de certificação florestal do mundo, manteve válida a certificação da Samise durante grande parte do período em que as acusações e sanções administrativas se acumulavam. O certificado só foi definitivamente cancelado em março de 2026, exatamente quando a Earthsight compartilhava suas conclusões com as entidades responsáveis. A coincidência é, no mínimo, desconfortável.

Mas há uma dimensão ainda mais ampla nessa história. O caso evidencia as limitações da própria governança ambiental internacional. Durante anos, a União Europeia apresentou sua legislação sobre madeira como um modelo global de combate à importação de produtos associados à ilegalidade. Entretanto, a investigação demonstra que a excessiva dependência de certificações privadas abriu brechas significativas para a entrada de madeira de origem duvidosa no mercado europeu. A própria Earthsight argumenta que a nova legislação europeia contra o desmatamento (EUDR) só terá alguma efetividade se as autoridades abandonarem a confiança quase automática nos selos ambientais e realizarem verificações independentes e aprofundadas.

Para nós, brasileiros, o caso oferece uma reflexão adicional. Em um momento em que o governo federal discute a ampliação das concessões florestais na Amazônia, a investigação mostra que a mera existência de planos de manejo e certificações não elimina riscos de fraude, captura institucional e exploração predatória. Pelo contrário. Quando interesses econômicos poderosos se combinam com capacidades limitadas de fiscalização, até mesmo mecanismos concebidos para proteger a floresta podem ser convertidos em instrumentos de sua degradação.

Existe ainda uma ironia difícil de ignorar. Muitos dos países que cobram do Brasil maior responsabilidade ambiental continuam consumindo madeira, minérios, carne e outras commodities oriundas de regiões marcadas por conflitos fundiários, desmatamento e fragilidade institucional. O problema não está apenas na produção. Está também na demanda. Enquanto houver consumidores dispostos a aceitar certificados como substitutos da verificação efetiva da origem dos produtos, o mercado continuará premiando cadeias produtivas que operam nas zonas cinzentas da legalidade.

No final das contas, a investigação da Earthsight reforça uma velha lição da Amazônia: a floresta não é destruída apenas por motosserras. Ela também é destruída por formulários preenchidos de forma conveniente, auditorias complacentes, certificações frágeis e cadeias globais de comércio que transformam a ilegalidade em mercadoria aparentemente legítima. A madeira que hoje compõe elegantes decks e passarelas na Holanda carrega consigo não apenas fibras vegetais amazônicas, mas também as marcas profundas de um sistema internacional que continua encontrando maneiras de lucrar com a destruição da maior floresta tropical do planeta.

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